Mostrar mensagens com a etiqueta Jacques Tati. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jacques Tati. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Uma Viagem Pelo Musical - 5



Para encontrar grandes Musicais a partir de 1960 (ano de "Bells are Ringing"), é preciso sair da América, mudar de Continente. Se bem que haja coisas interessantes: por todas as suas falhas (e são muitas), "Marry Poppins" (Robert Stevenson), "My Fair Lady" (Cukor) e Finian`s Rainbow (Coppola) têm algum interesse, mas o penúltimo filme de Vincente Minnelli (mais uma vez Minnelli) e último Musical "On a Clear Day You Can See Forever" de 1970 é para mim mais bem conseguido que qualquer um dos outros. E é o pior filme dele. Sobre Wise e os seus Musicais, já disse tudo aqui.


Europa, França, 1961. Godard e Anna Karina na terceira longa metragem do primeiro, e no primeiro e único Musical de ambos: "Une Femme est une Femme". Jean-Paul Belmondo e Jean-Claude Brialy completam o elenco. Musical? Pois, também passa por aí, mas é antes disso um profundo estudo sobre as relações entre os homens e as mulheres, uma comédia ao estilo de Lubitsch e uma ode à Mulher ou a uma mulher (Karina).
É um sem fim de referências e citações ( Truffaut, o próprio Godard, "Vera Cruz" de Robert Aldrich....), um Musical adulto, uma reinvenção (os mesmos motivos, mas sob uma nova perspectiva) e um Musical realista (ou neo-realista nas palavras do próprio Godard). É também um prodígio da montagem e da encenação. E aquele scope é a todos os níveis magnífico.
A música é de Michel Legrand, também autor da Música dos dois próximos Musicais e um dos maiores nomes do Musical em França. O maior é o realizador desses dois filmes.


Jacques Demy. Rei do Musical em França e merecedor de menção junto aos dois grandes do Musical de Hollywood. Detentor de uma mágica filmografia e interligada (não só em termos temáticos, mas no que aos personagens diz respeito, como a de Tarantino) É o mundo maravilhoso de Jacques Demy, um mundo à parte. O mundo de um verdadeiro autor.

"I'm trying to create a world in my films."
Jacques Demy

1964, "Les Parapluies de Cherbourg". É um filme maravilhoso, melancólico também, o relato de um amor impossível, e se houve muitos no Cinema, não se pode dizer o mesmo para o Musical em particular. Inovação, portanto. Mas ela não acaba aqui: o filme é todo cantado (do princípio ao fim) e a mais normal das actividades torna-se na mais mágica das actividades, o banal torna-se excepcional e o normal, maravilhoso. As cores são saturadas ao limite, contribuindo para toda a atmosfera de sublime, e por falar em sublime: Catherine Deneuve. Nunca ela foi tão bela como quando trabalhou com Demy, o poeta do sonho.
O filme arrecadou a Palme D`Or no Festival De Cannes e é já um brilhante prenúncio da enorme maravilha que se seguirá 3 anos depois na obra de Demy.


1967. Ano da enorme maravilha que dá pelo nome de "Les Demoiselles de Rochefort". Com este filme - uma obra-prima - Demy desenha o mais belo dos Musicais e dos filmes. Se em "Parapluies" a Vida é um Musical (como em todos os musicais), aqui o Musical é a Vida, é a única maneira de viver, de comunicar. É uma demanda espiritual, vem de dentro de todos nós.
Demy tomou de assalto uma cidade (Rochefort), resgatou uma estrela que estava nesta altura em declínio (Gene Kelly) e construiu a mais fabulosa das fantasias, uma obra perfeitamente doutro mundo ("Parapluies" ainda tinha contactos com a realidade) e achava que só Tati era capaz de tal desprendimento da realidade, Minnelli também. Estava enganado.
A sequência de abertura é o pico da coreografia cinematográfica e a mais perfeita introdução a um filme, a passagem para Rochefort, para Demy. Toda a gente tem a sua cara metade, e Rochefort é o centro, o cruzamento de todo o Amor e de toda a Vida.
Catherine Deneuve de novo, aqui junto à sua irmã Françoise Dorléak, Gene Kelly, Michel Piccoli, George Chakiris e Jacques Perrin, todos em perfeita sintonia neste épico dos encontros e dos desencontros. Perfeito.


"Tu es née d'un rêve, d'un trait de couleur,
Un bout d'arc en ciel s'est posé sur mon coeur
Je t'imaginais, tu vivais en moi
Soudain tu parais, je m'approche, je te vois
On s'est retrouvés, on s'est reconnus
Quand toi et moi on ne s'était jamais vus
Comme si le hasard qui guidait nos pas
Me menait vers toi, te conduisait vers moi
Je t'aime, je t'aime, je t'aime depuis toujours
Tu es la seule
Ma seule chanson d'amou"

Fim da 5ª Parte

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

"Which Way To The Front?" - 1970



A 2ª Guerra revisitada e reinventada por Jerry Lewis; reflexo da sua personalidade e da sua visão do Mundo como o são aliás todos os seus filmes. Excêntrico, anárquico e revolucionário. Incompreendido, também.

Celebrado nos anos 50 e 60 como actor sob a alçada de Frank Tashlin, Lewis (o realizador) nunca teve a aclamação que lhe era devida, e é hoje quase um cineasta obscuro. Se bem que não me passe pela cabeça dizer que seja superior a Chaplin ou Keaton, ele é descendente dessa linhagem de comediantes (como Tati e Peter Sellers), de "fazedores" de comédia que actualmente não tem, muito infelizmente, seguidores. Talvez só Jim Carrey.

sábado, 20 de junho de 2009

"Céline et Julie vont en Bateau" - 1974


"Le plus souvent, ça commençait comme ça":


Antes de mais, 1974 é um ano extraordinário:

"F For Fake" de Orson Welles - prodígio da montagem e da realização, um espelho da actividade cinematográfica. "Parade" de Jacques Tati - prodígio da montagem e da realização e também um espelho da actividade cinematográfica. Ambos Welles e Tati são os "protagonistas" destes filmes, e os filmes, esses são marcos, obras-primas, que ainda hoje e muito infelizmente (ou não), estão à frente do tempo.



"Céline et Julie vont en Bateau" é tudo o que estes filmes são: Obra-prima de Jacques Rivette, filme revolucionário em termos narrativos e um profundo estudo do labor cinematográfico.

1974 parece-me ser aliás o ano em que mais se pensou o Cinema em filmes: Nesse ano, Francis Ford Coppola e Sam Peckinpah (e isto já é uma análise mais subjectiva) propuseram abordagens bastante interessantes à realização cinematográfica: "The Conversation" e "Bring Me The Head of Alfredo Garcia". Porque Harry Caul e Bennie são alter-egos dos seus realizadores e os trabalhos que lhes incumbem ( a gravação em "The Conversation" e a demanda pela cabeça em "Bring Me The Head of Alfredo Garcia) podem ser vistos como metáforas para o papel ou o trabalho do próprio realizador num filme.



Mas voltemos a "Céline et Julie":

Jacques Rivette é o responsável pela "mise-en-scéne" ( é assim que vem creditado no filme) e na boa tradição da Nouvelle Vague ( pois também faz parte dela) cruza várias referências literárias e cinematográficas, de Lewis Carrol (Céline e Julie são duas Alices) a Howard Hawks ("Gentleman Prefer Blondes" vem logo à cabeça).

O argumento foi escrito pelo "metteur en scéne" e pelo elenco (parte do ritmo e da dinâmica do filme derivará desse facto) e é o exemplo paradigmático de como um guião inventivo (neste caso até revolucionário) pode vencer a escassez de meios. E porque é que "Céline et Julie" é revolucionário em termos narrativos? - Porque é uma desconstrucção do próprio conceito da narrativa: O que é uma história? O que é um espectador, qual é o seu papel? O que é um filme?
Julie e Céline são uma bibliotecária e uma mágica, respectivamente e conhecem-se no princípio do filme ( naquela que é das mais memoráveis sequências de perseguição no Cinema). Céline revela então a Julie que esteve numa casa ou numa história onde viviam quatro pessoas. Lá fez de empregada e depressa convidou Julie a participar também, e ambas entram na história comendo rebuçados ( isto foi visto na altura da estreia como uma metáfora para a LSD) e vivem-na vezes sem conta.

"Céline et Julie" é uma metáfora infinita: Metáforas sexuais, políticas, cinematográficas, está tudo lá. "Céline et Julie" é a Vida, é o Mundo, é o Cinema. "Céline et Julie" é isso tudo e mais ainda, porque não há palavras que possam descrever "Céline et Julie vont en bateau".

Entrevista a Jacques Rivette e Críticas de Jacques Rivette