segunda-feira, 31 de outubro de 2011



2ª série dos planos (XXVI)


I / II / III / IV / V / VI / VII / VIII / IX / X / XI / XII / XIII / XIV / XV /XVI / XVII / XVIII / XIX / XX / XXI / XXII / XXIII / XXIV / XXV


De vez em quando, convido bloggers a escolher um plano e a falar, também, sobre ele. O vigésimo sexto convidado é o Pedro Ponte, do Ante-Cinema, que escolheu o plano-sequência do corredor, em Oldboy, de Chan-Wook Park.



"A violência é provavelmente um dos temas mais dúbios em que o cinema já tocou. Seja ele desconstruído de forma racional, como Haneke ou Cronenberg tão bem fazem, ou explorado na tradição de Hollywood para nosso 'viewing-pleasure', não há como negar a sua capacidade de mexer connosco, podendo, ironicamente, chocar-nos e horrorizar-nos e ao mesmo tempo divertir-nos. Não há, hoje em dia, ninguém que melhor filme essa dualidade do que os cineastas asiáticos. E no topo da lista, como mestre absoluto da violência não como artifício mas como realidade, está o coreano Chan-wook Park, cujo "Oldboy" permanece, em minha opinião, como um dos grandes filmes das últimas décadas.

Ao tentar encontrar um plano que considerasse digno de fazer parte desta rubrica e, ao mesmo tempo, que fugisse um pouco ao tipo de cinema predominante nas escolhas dos convidados anteriores, lembrei-me quase de imediato da já mítica cena do corredor em "Oldboy", não apenas por se tratar de um dos meus filmes favoritos, mas principalmente por considerá-la uma das sequências mais brutalmente realistas, geniais e espectaculares já filmadas. A grande particularidade do cinema de Park é o facto de, ao contrário de John Woo ou Takashi Miike, nunca procurar a estilização ou o 'shock-value', preocupando-se sempre e unicamente com o realismo. Num plano-sequência quase nunca interrompido (à excepção de alguns cortes no princípio e fim), Oh Dae-su luta contra dezenas de adversários, recorrendo apenas ao martelo que usa como arma e aos próprios punhos. A violência é extrema e, ao mesmo tempo, de uma credibilidade assombrosa. Em qualquer outro filme, não hesitaríamos em descartar isto como algo irrealista em que o protagonista saía miraculosamente ileso, mas não aqui; aqui acreditamos genuinamente no que estamos a ver, sentimos cada murro de Oh Dae-su, que não se limita a desferi-los.

Este plano foi aperfeiçoado ao longo de três dias e dezassete takes, tendo sofrido pouca ou nenhuma alteração em termos de montagem, à excepção da faca que é cravada nas costas de Oh Dae-su, criada digitalmente. Park encena grande parte da acção como um videojogo ao estilo 'side scrolling' (isto apesar de já ter revelado que não era essa a sua intenção), colocando a câmara num carril e acompanhando a luta com travellings subtis, movendo-a ora para a esquerda ora para a direita, consoante o momento da luta. São quase três minutos desta dança de violência, ao som de música antagonicamente bela. Durante estes três minutos, o estreito corredor alarga-se, como os tectos por vezes desaparecem, voltando a estreitar-se quando Park corta novamente para a cara de Oh Dae-su e para a destruição por ele deixada. Quando se apercebe que tem mais oponentes pela frente, sorri perversamente, enfrenta-os e sai, cambaleando, dando seguimento ao seu amor fati vingativo. Até hoje não mais vi algo tão brutal filmado de forma tão magistral." (Pedro Ponte)

Próximo convidado a designar

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

domingo, 16 de outubro de 2011

2ª série dos Planos (XXV)


I / II / III / IV / V / VI / VII / VIII / IX / X / XI / XII / XIII / XIV / XV /XVI / XVII /
XVIII / XIX / XX / XXI / XXII / XXIII / XXIV

De vez em quando, convido bloggers a escolher um plano e a falar, também, sobre ele. O vigésimo quinto convidado é o Narrador Subjectivo d'O Narrador Subjectivo, que escolheu o último plano de Ordet, de Carl Dreyer.




Inger:
A criança. Está viva?

Mikkel: Sim, Inger. Vive em casa, com Deus.
Inger: Com Deus?.... Com Deus?
Mikkel: Sim, Inger.Encontrei a tua fé.

"Dificilmente se encontram filmes com imagens tão belas e requintadas como os que Dreyer realizou, nenhum segundo está a mais, nenhum fotograma é desperdiçado, são sempre plenos de emoção e intenção. Em Ordet, a sua linguagem cinemática atinge o pico, tanto em termos de composição, como em termos de tema, como na relação que estabelece entre ambos. A fé e a religião tomam a dianteira e a forma como as suas personagens encaram a fé e a religião ditam o seu comportamento e destino face às provações e conflitos com que se deparam. Quando a morte bate à porta da família de Morten Borgen depois de um parto difícil e leva o rebento e a esposa do mais velho de três irmãos, Mikkel Borgen, um honesto agnóstico, o filme, já de si cinzento e lânguido, adquire contornos etéreos. A dor e a impotência perante tal destino parecem ditar a inutilidade da esperança humana, da crença em algo superior, sejam princípios, morais ou entidades. As palavras nada dizem. Inger, uma inocente, perdeu a vida a dar à luz e tudo o mais é irrelevante. O dia substitui a noite, mas os relógios pararam.

Resta o funeral. Eis que reentra em cena Johannes, o irmão do meio, louco desde que estudou Kierkegaard, que se julgava Cristo e que estava desaparecido há algumas horas. Finalmente são, oferece-se ainda assim para ressuscitar Inger. Acusado de blasfémia, Johannes argumenta que blasfémia é a falta de fé dos que o rodeiam. "Confia em Deus", diz a Mikkel. E, para espanto de todos, incluindo do espectador, Inger volta a respirar, mexe as mãos e abre os olhos. Mikkel aproxima-se e abraça-a, naquele que é o último plano do filme e o meu preferido após duas horas de suprema mestria visual. Nele, Mikkel faz as pazes com Deus, ao beneficiar da maior bênção possível e imaginária. Ao sentir o rosto da sua mulher encostado ao seu, tudo o que existe volta a fazer sentido para este homem, a vida tem outra vez significado, o certo é certo e o errado é errado, bom e mau, quente e frio, ele volta a saber o que isso é e o que os separa ao sentir o calor da pessoa que mais ama. Dreyer filma de perto e com um enquadramento perfeito enquanto Mikkel, vestido de preto, sorri e Inger, vestida de branco, chora. O tique-taque dum relógio recomeça. Dificilmente se encontram declarações de fé e catarses tão intensas como no simples plano final de Ordet." (Narrador Subjectivo)

O próximo convidado é o Pedro Ponte.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

quarta-feira, 5 de outubro de 2011


Peter Bogdanovich: O que é a arte para si?

Jerry Lewis: A arte? Um homem com uma escova, um homem com um tema, um homem com uma canção, uma mulher que chora. Penso numa boneca, num cãozinho, em tudo o que é terno. Uma mulher é arte. ... O desejo que um homem sente por ela é ainda mais artístico... E quando o fazem juntos é a maior arte que existe!

in NACOS DE TEMPO Crónicas de Cinema, de Peter Bogdanovich

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

sábado, 24 de setembro de 2011

2ª série dos Planos (XXIV)


I / II / III / IV / V / VI / VII / VIII / IX / X / XI / XII / XIII / XIV / XV /XVI / XVII / XVIII / XIX / XX / XXI / XXII / XXIII


De vez em quando, convido bloggers a escolher um plano e a falar, também, sobre ele. O vigésimo quarto convidado é o João Raposão, do Conserva Acabada, que escolheu este plano de Água e Sal, de Teresa Villaverde.



"Água e Sal é a quarta longa-metragem de Teresa Villaverde e é interessante verificar que os temas tratados em praticamente todos os seus filmes, assim como o tipo de personagens, fazem parte de um universo muito próprio que se tem mantido coerente e fiel a si mesmo ao longo destes últimos 20 anos.

Na filmografia da realizadora as personagens denotam fragilidades evidentes e uma busca por um caminho que as leve a um estado desconhecido de calma, ou até mesmo de esperança - um estado que as faça ultrapassar o seu desespero e crença de que é tão difícil viver o presente, tal como ele é.

Neste filme em particular e nesta belíssima cena, como tantas outras ao longo do mesmo, a protagonista está precisamente prestes a atingir um novo estado espiritual, de crença de que as coisas podem melhorar, embora subsista ainda a dúvida de que a vida corre invariavelmente mal, e que ser adulto, casar e ter filhos, é difícil. A protagonista refugia-se no seu trabalho, na fotografia. Após terminar determinada peça passa as fotografias em slide, distraindo-se em voz off com as suas cartas de amor, ódio, ou simplesmente diários pessoais. É muito importante para ela ter aquele espaço só seu, um refúgio das coisas complicadas que existem lá fora. Parece conhecer melhor aqueles rostos aleatórios do que aqueles que a rodeiam. Ainda que ao longo do filme ela conheça várias pessoas novas, e inclusivamente as ajude a ultrapassar os seus problemas, não deixando que a ajudem a si.

A certa altura neste filme alguém diz "tens sempre esta porta aberta", e pode-se dizer que o cinema de Teresa Villaverde é sobre portas que se fecham e se abrem. Escolhas difícieis que se tomam que permitem ou não a chegada ao novo estado pretendido. O desfecho não é importante, mesmo que estas personagens não consigam ultrapassar estas dificuldades. Porque viver para as personagens de Villaverde é mesmo assim, difícil, e estas personagens apesar de muito frágeis não são fracas, de todo. Perto do final deste filme ouve-se a frase "hoje 'tás igual a quando nos conhecemos", muitos anos depois. Talvez estas personagens sejam mesmo isso. Não lhes é possível mudar. A sua fragilidade natural é o seu refúgio." (João Raposão)

O próximo convidado é o Narrador Subjectivo.

Every Planet We Reach is Dead


quinta-feira, 22 de setembro de 2011

terça-feira, 20 de setembro de 2011

2ª série dos planos (XXIII)


I / II / III / IV / V / VI / VII / VIII / IX / X / XI / XII / XIII / XIV / XV /XVI / XVII / XVIII / XIX / XX / XXI / XXII

De vez em quando, convido bloggers a escolher um plano e a falar, também, sobre ele. A vigésima terceira convidada é a Manuela Coelho, do La Dolce Vita, que escolheu este plano de Zerkalo (O Espelho), de Andrei Tarkovski:

(a partir do minuto 6:34, no vídeo em baixo)



"Quero agradecer desde já, a amabilidade do João Palhares pelo convite que me fez para esta iniciativa. Escolhi um dos planos-sequência do "The Mirror". Uma das minhas cenas favoritas de Tarkovsky. É uma das imensas, na riquíssima filmografia deste realizador. A cena basicamente consiste num sonho de Aleksei, com a imagem da mãe a lavar o cabelo ajudada pelo pai. A partir do momento em que o pai jorra a água no cabelo de Maria, emerge uma corrente de energia que transforma o instante de prazer noutra dimensão. Em câmara lenta, dá-se uma distorção do real e a deterioração da sala, que cria a ilusão de um ambiente de mistério e superstição. Surge então Maria, já idosa, em contraste, reflectida num espelho e a alegoria de uma mão em chamas. Nada é deixado ao acaso, o som, a música, a imagem, a natureza (neste plano em particular: a água e o fogo). Tudo é pensado e filmado ao mínimo detalhe. É lugar comum, mas vou repetir, ver Tarkovsky é pura poesia, chega a ser uma experiência algo metafísica ou até religiosa. Tenho-me esquivado sempre a falar de Tarkovski, porque é difícil transpor para palavras o que é para ser experienciado com os sentidos. “As palavras não têm capacidade para traduzir sentimentos. As palavras são moles." (Manuela Coelho)

O próximo convidado é o João Raposão.