quinta-feira, 24 de novembro de 2011
A despedida de Sam








Veja-se outra vez Pat Garrett, no cumprimento do dever, a olhar-se ao espelho e a ter a consciência que morreu. Foi-se lhe o espírito e esvaiu-se lhe a alma, num só tiro. O olhar, partido, o orgulho, ferido, a humanidade, desfeita. Percebeu que com Billy partiu o último reduto de um oeste livre, a última fronteira, o último pôr-do-sol. Filmar isto com esta consciência é fodido, é mesmo muito complicado. Cada plano dessa cena final, uma despedida, com uma frontalidade e uma graça inabaláveis. Os passos, pesadíssimos, a cabeça, baixa. Pedras a atingi-lo ao alcançar o nascer do sol. Só se pode descrever, porque não se explica, vê-se, sente-se..
Fala-se de poética e beleza para outras coisas, de Tarkovski de Ozu, de Erice, usem-se também essas palavras para isto, para o momento em que Sam foi tão humano quanto uma pessoa pode ser, para o momento em que a sensibilidade falou mais alto, para o momento em que o cowboy olhou as nuvens e percebeu que estava na hora de morrer, com o passado, o presente e o futuro em perspectiva plena.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
terça-feira, 22 de novembro de 2011
2ª série dos Planos (XXVIII)
"Escolhi este curta metragem, feito em um único plano, por ele me ter sido, especialmente nesses últimos meses, inspirador. Há um tempo, apesar de amar os filmes e adorar comentá-los com amigos, faltava-me um impulso que me transporia para o estágio que me faria filmar. Confesso que eu sentia medo de ligar a câmera. De estar, num apertar de botão, tão perto dos filmes e diretores que eu admiro. A certeza de não estar à altura daqueles que até hoje já me deram tanto: alegrias de descobertas, amizades e até a vontade de aprender línguas.
Mas, afinal, sem lamentações, o que me disse esse curta do Laurent Achard? De partida, eu vejo ali uma grande obsessão: a criança, o cachorro, a mãe, nada sai do retângulo do enquadramento e principalmente, naquele intervalo de tempo, a cena se redistribui para, ao seu término, voltar ao lugar de onde começou. Eu me peguei pensando nas vezes que se precisou refilmar, contando com o acaso (aquele cachorro) para que desse certo. Para fazer um plano só que lhe agradasse.
Mais: pensei na sensibilidade que é preciso para filmar aquilo sem se aborrecer. Como não se frustrar até a chegada do momento onde suas obsessões enfim ganham forma? Achard me disse que eu preciso me reservar isto: ir sem pressa, ter paciência, determinação. Alguma hora vou poder filmar algo que termine por ser uma parte minha, como este filme me pareceu, em toda a sua economia e rigor, ser dele." (Matheus Cartaxo)
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
2ª série dos planos (XXVII)
Neste plano que dura cerca de 3 minutos, tudo está em perfeita sintonia: as cores escuras, a meia luz, o tom intimista (que caracteriza bem toda esta trilogia), mais parecemos estar num confessionário de uma igreja. A frase inicial "I believe in America" ilumina a ideia de que América está no centro de todo o enredo, que explica as peripécias, que justifica todas as acções dos personagens. É a América da imigração, a terra de uma nova vida, dos novos começos, de todas as possibilidades. Num filme recheado de planos impressionantes, este é na minha opinião um dos maiores começos de sempre do cinema." (André Sousa)
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
2ª série dos planos (XXVI)
Ao tentar encontrar um plano que considerasse digno de fazer parte desta rubrica e, ao mesmo tempo, que fugisse um pouco ao tipo de cinema predominante nas escolhas dos convidados anteriores, lembrei-me quase de imediato da já mítica cena do corredor em "Oldboy", não apenas por se tratar de um dos meus filmes favoritos, mas principalmente por considerá-la uma das sequências mais brutalmente realistas, geniais e espectaculares já filmadas. A grande particularidade do cinema de Park é o facto de, ao contrário de John Woo ou Takashi Miike, nunca procurar a estilização ou o 'shock-value', preocupando-se sempre e unicamente com o realismo. Num plano-sequência quase nunca interrompido (à excepção de alguns cortes no princípio e fim), Oh Dae-su luta contra dezenas de adversários, recorrendo apenas ao martelo que usa como arma e aos próprios punhos. A violência é extrema e, ao mesmo tempo, de uma credibilidade assombrosa. Em qualquer outro filme, não hesitaríamos em descartar isto como algo irrealista em que o protagonista saía miraculosamente ileso, mas não aqui; aqui acreditamos genuinamente no que estamos a ver, sentimos cada murro de Oh Dae-su, que não se limita a desferi-los.
Este plano foi aperfeiçoado ao longo de três dias e dezassete takes, tendo sofrido pouca ou nenhuma alteração em termos de montagem, à excepção da faca que é cravada nas costas de Oh Dae-su, criada digitalmente. Park encena grande parte da acção como um videojogo ao estilo 'side scrolling' (isto apesar de já ter revelado que não era essa a sua intenção), colocando a câmara num carril e acompanhando a luta com travellings subtis, movendo-a ora para a esquerda ora para a direita, consoante o momento da luta. São quase três minutos desta dança de violência, ao som de música antagonicamente bela. Durante estes três minutos, o estreito corredor alarga-se, como os tectos por vezes desaparecem, voltando a estreitar-se quando Park corta novamente para a cara de Oh Dae-su e para a destruição por ele deixada. Quando se apercebe que tem mais oponentes pela frente, sorri perversamente, enfrenta-os e sai, cambaleando, dando seguimento ao seu amor fati vingativo. Até hoje não mais vi algo tão brutal filmado de forma tão magistral." (Pedro Ponte)
Próximo convidado a designar
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
domingo, 16 de outubro de 2011
2ª série dos Planos (XXV)
I / II / III / IV / V / VI / VII / VIII / IX / X / XI / XII / XIII / XIV / XV /XVI / XVII / XVIII / XIX / XX / XXI / XXII / XXIII / XXIV

Inger: A criança. Está viva?
Mikkel: Sim, Inger. Vive em casa, com Deus.
Inger: Com Deus?.... Com Deus?
Mikkel: Sim, Inger.Encontrei a tua fé.
Resta o funeral. Eis que reentra em cena Johannes, o irmão do meio, louco desde que estudou Kierkegaard, que se julgava Cristo e que estava desaparecido há algumas horas. Finalmente são, oferece-se ainda assim para ressuscitar Inger. Acusado de blasfémia, Johannes argumenta que blasfémia é a falta de fé dos que o rodeiam. "Confia em Deus", diz a Mikkel. E, para espanto de todos, incluindo do espectador, Inger volta a respirar, mexe as mãos e abre os olhos. Mikkel aproxima-se e abraça-a, naquele que é o último plano do filme e o meu preferido após duas horas de suprema mestria visual. Nele, Mikkel faz as pazes com Deus, ao beneficiar da maior bênção possível e imaginária. Ao sentir o rosto da sua mulher encostado ao seu, tudo o que existe volta a fazer sentido para este homem, a vida tem outra vez significado, o certo é certo e o errado é errado, bom e mau, quente e frio, ele volta a saber o que isso é e o que os separa ao sentir o calor da pessoa que mais ama. Dreyer filma de perto e com um enquadramento perfeito enquanto Mikkel, vestido de preto, sorri e Inger, vestida de branco, chora. O tique-taque dum relógio recomeça. Dificilmente se encontram declarações de fé e catarses tão intensas como no simples plano final de Ordet." (Narrador Subjectivo)
O próximo convidado é o Pedro Ponte.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Jerry Lewis: A arte? Um homem com uma escova, um homem com um tema, um homem com uma canção, uma mulher que chora. Penso numa boneca, num cãozinho, em tudo o que é terno. Uma mulher é arte. ... O desejo que um homem sente por ela é ainda mais artístico... E quando o fazem juntos é a maior arte que existe!




