
Uma cena que vale por uma obra inteira. Um camião a atravessar o rio. Só isso. Mas só isso, não, que "isso" são para aí sete minutos de chuva a cair, madeira a ranger, camião a balançar, cordas a ceder, rio a rebentar e grão a resvalar por todo o lado. Daquelas travessias que dizem que a natureza de perto não é flôr que se cheire, que diz-se muito o contrário hoje em dia, mas é no conforto do lar. Aqui é tudo sujo e imundo. Sangue, suor, lágrimas e dinamite. Lama, pedras, troncos e correntes. E a partir dos 40 ou 50 minutos - que a coisa demora muito a arrancar - tudo pode detonar a qualquer momento. E somos brindados com a lembrança de que os
Tangerine Dream já foram uma banda, um dia. A cereja no topo do bolo.
Provavelmente não é verdade (
não é, mesmo) mas se calhar também não é importante. Eu quero acreditar que é verdade. Foi-se para Israel e inventou-se uma nota de intenções rebuscada para a produção pensar que se sabia o que se estava a fazer e no fundo só se queria era filmar dois camiões a desbravar mato. E desse princípio, fugiu-se às matrizes e buscas da época; porque não, não era mais um filme da "trupe" dos
movie brats. Era outra coisa, uma vontade mais pessoal, mais genuína, de não fazer um quadro paternalista de "forças do destino" e de verdades baratas sobre a condição humana. Arriscar tudo sem esperar nada em troca. Vagabundear pelo terceiro mundo com uma câmara às costas. "um filme para eles, um filme para mim. E este é para mim. Chama-lhe Sorcerer e já está".