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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

"Tabu" - 1931




TABU,
por João Bénard da Costa

Não, não tinha pensado começar esta série sobre “os mais belos dos filmes” com Tabu. Foi idéia de última hora, quando reparei, como contei na crônica do cão amarelo, que Godard o citou para explicar o que queria dizer com o superlativo absoluto de beleza. Acaso?

Mas foi acaso por acaso que, entre a sexta-feira passada e a sexta-feira de hoje, revi Tabu duas vezes? E foi acaso por acaso que o revi na mais bela das cópias que de Tabu me foi dado ver, essa da Cinemateca de Praga que agora passou na cinemateca? E foi acaso por acaso que, com dois dias de intervalo, pude comparar Tabu com Sunrise, o filme de Murnau que, até Janeiro de 1996, era incontestavelmente o meu favorito?

E foi acaso por acaso que reli uma velha critica (1953) de Maurice Scherer (= Eric Rohmer) onde se diz: “Os referendos estão na moda. Desculpem se me deixei apanhar. Fazer listas de preferência, à hora do chá, entre amigos, é um jogo de salão agradável e que só depende da nossa disposição no momento (…) Mas não quis perder a ocasião para dizer - como uma recente visão de Tabu mo confirmou - que este filme é, na verdade, a obra-prima do seu autor, o maior filme do maior autor de filmes”. Se acaso tudo são acasos, acaso sou eu também.

Foi relativamente por acaso que F. W. Murnau decidiu, em Abril de 1929, aos 40 anos, partir para Taiti e filmar à luz dos mares do sul. Tinha chegado à América cerca de três anos antes (Julho de 1926) aclamado como o “gênio alemão”. Tinha filmado - 1927 - Sunrise, Óscar para a melhor “produção de qualidade artística”, no primeiro ano em que houve prêmios da academia. Depois (The Four Devils, City Girl) foi forçado a vergar-se às regras da Fox. Depois, “por acaso”, conheceu David Flaherty, irmão de Robert Flaherty, que estava a tentar convencer a mesma Fox a fazer um filme em Taiti. Depois, esse filme malogrou-se. E, depois, Murnau convidou David Flaherty para jantar, no solar em que vivia, sozinho com os criados, numa das colinas mais altas de Hollywood. Parece que se sentaram os dois sozinhos, numa mesa enorme, na enorme casa de jantar de Murnau. E, à hora em que o jovem Hutter se feriu com a faca e derramou algumas gotas de preciosíssimo sangue (estou a referir-me a Nosferatu, para quem não saiba), Murnau disse baixinho ao irmão de Flaherty: “Queres vir comigo para Taiti?” No dia seguinte, antes do nascer do dia, partiram para o México, onde estava Bob. Poucos dias depois, com o muito dinheiro ganho por Murnau, formaram uma sociedade - a Colorart - para produzir uma série de filmes nas ilhas dos mares do sul. O primeiro devia chamar-se Turia e contava a história de um pescador de pérolas. “Bali é a última Thule dos meus desejos” teria dito Murnau, antes de embarcar, no fabuloso iate que comprou (vê-se no filme) e a que também deu o nome dessa ilha: Bali.

Daí por diante e até à primeira versão do argumento de Tabu se concluir (Dezembro de 1929, depois de um longo périplo de Murnau pelo Arquipélago das Marquesas e pelas ilhas Paumotu), tudo separou os dois cineastas. Flaherty sonhava encontrar o paraíso na terra e o mundo antes do pecado original. Murnau já sabia que “nessa terra / também, também / o mal não cessa, não dura o bem”. O “terror antigo”, o terror de Nosferatu, foi o que encontrou em Bora-Bora ou em Tokapoto, as ilhas de rodagem. Flaherty assombrou-se: “Como são profundas as inibições destes alemães!... Como é terrível a sua vontade de domínio!... Como é imenso o seu fatalismo!...”. Como não se assombraria? Tabu, às vezes descrito como um documentário de Murnau e de Flaherty, nada (ou pouquíssimo) tem de Flaherty e é tudo menos um documentário. Murnau, que chegou a Taiti como Nosferatu, num barco a velas (e como é terrível e ameaçadora a primeira visão do iate, apenas ou por causa da imensa beleza dele e da imensa beleza do plano), é o filme do encontro de Murnau com a Morte, essa morte com que mil vezes foi ameaçado durante as rodagens (Janeiro a Outubro de 1930), essa morte que o apanhou, numa curva da estrada, a 11 de Março de 1931, aos 42 anos, uma semana antes da estréia mundial de Tabu.

Nosferatu. “Um nome que soa como a chamada noturna da Ave da Morte”, para citar o primeiro intertítulo do filme de Murnau de 1922, não é, em Tabu, explicitamente, um morto-vivo ou um vampiro? Talvez não seja. Mas se o não for, quem é então Hitu, o prodigioso velho, de olhar inexorável, que, no iate de Murnau, chega a Bora-Bora para lançar o seu tabu sobre Reri, a virgem sagrada?

Antes, víramos planos de ofuscante beleza em que os mais belos corpos masculinos - donde logo emerge Matahi, o protagonista - pescam como se dançassem ou dançam como se pescassem. É o mar e no mar. Uma simples panorâmica (simples?) e o mundo roda 180º para os planos subjetivos das mulheres em flor, sob as cascatas. Passagem tão misteriosa como a misteriosa passagem do mundo do lago para o do carro elétrico, em Sunrise, depois de George O’Brien ter tentado matar Janet Gaynor.

É um allegro prestíssimo esse início coral, a que se sucede o adágio, no plano inadjetivável em que Reri encosta a cabeça ao peito de Matahi e para sempre fica colada a ele.

É um pouco mais tarde (precedido pelo grande, grande plano do mensageiro dos apelos) que surge o navio fantasma, com o velho Hitu.

Antes de o vermos, vemos uma grande onda preta. E Reri tapou os olhos ao ouvir o tabu. Flores para os mortos.

Matahi reaparece depois, ainda solto, ainda resplandecente. E sempre me pareceu que, logo que o viu, o velho soube tudo (se é que o não sabia antes). Há um plano - brevíssimo - em que quase podemos dizer que uma certa compaixão se apodera dele. Mas, como as nuvens, passou.

Se não é Nosferatu, quem é aquele velho sempre recortado contra o vulcão de Paia? Gauguin, que tantas vezes Murnau evocou em Tabu e expressamente no plano de Matahi, sentado na cabana, tão farto de esperar bem, contou-nos que o Deus Ora desceu do alto dessa montanha à procura de uma mulher transformada em coluna de fogo. E Reri - a mulher que vemos a chorar no lancinante ritual da despedida da mãe - como fogo se acende quando, na dança sagrada, Matahi, despertado pela música, subitamente se lhe bem juntar, afastando todos os corpos para dominar com a sombra dele a sombra da mulher. Se não é Nosferatu, quem é Hitu, o velho que retira a grinalda e corta o amor?

À luz de Hina, a lua, vem depois a noite em que Matahi arranca Reri ao barco da morte e a leva com ele para a ilha dos chineses e das pérolas.

Mas, senão é Nosferatu, quem é esse velho que um tempo, algum tempo, muito tempo depois, desembarca na ilha, em que os amantes se supunham a salvo, para cumprir a maldição?

Não o vemos chegar. Tudo o que vemos é, nessa noite, Reri acordar na cabana, como as crianças acordam dos pesadelos, soltar-se dos braços de Matahi e olhar para a porta, deixada aberta. Todo o terror do mundo nos olhos dela. Depois, tapa-os com as mãos. Contraplano e vemos, no portal, o velho, de branco e de pé. A câmera volta a Reri, que lentamente tira os braços dos olhos. Contraplano e não está lá ninguém. Visão? Sonho? Premonição? Quem souber decidir, sabe o segredo da arte de Murnau.

No dia seguinte, um dos pescadores da ilha é comido por um tubarão. As autoridades declaram essas águas tabu. A palavra TABU aparece no filme. O que aparece é sempre menos do que o que não aparece. Que é esse tabu, decretado pelos homens, face ao outro, que veio do fundo dos mares e dos tempos?

Nessa noite, há a luz sobre os amantes. Matahi dorme, de novo, dorme sempre quando Reri vela, como ela dormiu, depois, quando ele foi pescar a pérola negra. E se não é de Nosferatu, de quem é essa sombra esguia que, como uma seta, deixa a mensagem que anuncia a morte de Matahi se, passados três dias, ela não o seguir? Os corpos parecem agora as pietás de Antonello. A fuga de ainda, gora-se. Em montagem paralela, o desafio ao tubarão da pérola negra e a carta de Reri do imenso adeus.

E se não é Nosferatu, quem é o Caronte que conduz o barco que leva Reri de volta? E se não é Nosferatu, quem é o velho que corta a corda da vida no momento em que Matahi atinge o barco para lhe roubar Reri?

E o maior milagre que já vi no cinema é a perseguição final, quando Matahi se lança atrás do barco. A pé, numa embarcação e, depois, finalmente, a nado, a câmera voa em planos fixos, atravessando terras e mares, para figurar o impossível - possível: Matahi a atingir a velocidade do vento que sopra as velas e a tocar na barca, onde Nosferatu acabou de sepultar Reri. Mas, quando a corda é cortada, tudo se torna de uma lentidão imensa, enquanto o barco se afasta e Matahi se afunda nas águas, nadando, nadando sempre, como se esse movimento já sem razão fosse a última razão possível.

Numa carta à mãe, escrita no final da rodagem, Murnau disse: “Estou enfeitiçado por estes lugares (…) Às vezes, sonho que gostava de voltar a casa. Mas a minha casa não é em parte nenhuma (…) Em casa nenhuma, em terra nenhuma e com nenhuma pessoa.”

Cumpriu-se a maldição que uma lenda antiga atribui a um feiticeiro de Bora-Bora: “Quando o homem branco ouvir o grito da Ave da morte, o Diabo Oramatua-hiaro-rorua o levará.”

Se o cinema, como disse Henry Miller, é “a consciência visual da morte” nunca a vimos de tão perto como em Tabu de Murnau. Depois deste filme, nenhum outro pode ser “o mais belo dos filmes”.

Contraplano. E repito: nenhum outro.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

"The General", por Eric Rohmer



"A comédia de Buster Keaton, que poderíamos designar por comédia da contemplação, exerce-se a qualquer momento, pois não recorre ao efeito surpresa. Recorre ao espanto, o que é outra coisa completamente diferente. Dito isto, devo confessar que, ao ver, pela segunda vez "The General", não me ri nem um instante, o que pode parecer estranho, pois a comédia, precisamente, não assenta em nada inesperado.

Na verdade, penso antes que o inesperado se encontra em cada segundo da história que se desenvolve perante os nossos olhos. Sendo assim, será que este cinema não aguenta a "releitura"? Antes pelo contrário. O que digo não constitui qualquer tipo de reserva. Na segunda, na terceira, na enésima visualização, não senti aquele sentimento incómodo que nos domina, ao vermos uma cena que se quer engraçada e que não chega a fazer-nos rir. O riso e a comédia estavam lá, já não em si, para mim, mas, como diria o filósofo, de si para si, latentes no filme e dando lugar a uma impressão de grandeza épica que eu queria, agora, saborear sozinha. Foi uma impressão que nunca tinha tido e que só voltei a ter, desde então, com Griffith e Murnau. Foram eles três que me revelaram os segredos de uma das operações capitais da encenação cinematográfica: a organização do espaço. Mas falemos antes do riso. Afirmaram que nascia de um sentimento de superioridade benevolente ou malevolente. No caso dos heróis cómicos do cinema mudo, costuma ser benevolente em relação a eles próprios e malevolente em relação aos seus parceiros. Vemos um pouco Charlot como uma criança insuportável e cujas travessuras nos encantam, o que não impede que as suas infelicidades possam comover. O riso crítico é dirigido aos outros. Pelo contrário, o riso que suscita Buster Keaton é da mesma natureza que o que provoca uma jovem criança que leva a sério uma tarefa aparentemente inadequada à sua idade e às suas capacidades. Uma criança que tenta ser "como os mais crescidos". Uma certa condescendência, mas também uma verdadeira admiração misturam-se com este riso. (...)

Com Buster vêem-se poucos gestos expressivos, resíduos da mímica antiga ou contaminação chaplinesca que destoam, normalmente. Só executa os movimentos exigidos pela acção e cuja eficácia é comprovada a qualquer momento. Buster está sempre a trabalhar. Pelo contrário, Charlot procura não fazer nada ou tenta saborear a sua tarefa. (...)

Os valores que defende a personagem são os do mundo onde vive, os quais se encarregará de exagerar. Este moralismo, nada mais nada menos do que o mecanismo aparente do seu jogo, começou por lhe fazer perder a admiração da intelligentsia, que preferia o anticonformismo, o niilismo de Chaplin. Aqui, nada é corrosivo. Não há crítica da sociedade estabelecida, mas, sob o respeito e a atenção que se lhe dá, esta não deixa de fazer transparecer as suas contradições.
A crença do herói na pureza de um ideal cavalheiresco choca com a dureza do mundo das coisas e dos homens."

Eric Rohmer, "Positif", nº 400, Junho de 1994

Já agora, os cinemas de Rohmer e de Keaton não se me afiguram tão diferentes como isso e a semelhança não passa apenas pela tal "organização do espaço", mas também pelo uso de planos gerais, um achava-o um plano cómico e o outro um plano realista, e passará, eventualmente, por outras coisas, o "Conte d`été, por exempo, parece-me muito "keatoniano" - a juventude que "tenta ser como os mais crescidos", eheh...

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

"Va Savoir" - 2001













"Ugo: "Il doit y avoir une ordre"
Dominique: Oui, il doit, mais quel? Allez savoir..."

Jacques Rivette é, para mim e junto com Alain Resnais, o mais fascinante dos cineastas da Nouvelle Vague (ainda não consigo aceder aos filmes de Jean Luc Godard - se é que é esse o problema - gosto dos filmes do Truffaut e do Chabrol e não conheço bem a obra de Eric Rohmer) e, claro, numa altura em que "auteur" e "mise en scène" são usados para descrever a obra de qualquer um (o que eles queriam, nos anos 50, era descobrir os impostores), louvado seja ele por nos mostrar, mesmo que seja de 3 em 3 anos, o que essas palavras significam e quão belas são, também.

"Va savoir" é o Teatro, a Literatura e o Cinema num círculo de convivências que dá pelo nome de Vida. Viver é interpretar, é encenar e o palco, uma extensão da vida (ou a Vida uma extensão do Palco). "Va savoir" são 6 personagens numa teia de enganos e desenganos (Lubitsch, Hawks), assentes em perfeitas dramaturgia e encenação. Mesmo num filme menor, Rivette consegue-nos "prender" às personagens e ao seu mundo circundante, unindo-as (e a nós, por extensão) à crença de que não há situações isoladas, tudo se alimenta, tudo se conflui num ciclo sem fim. "Senza Fine".

P.S. Posso falar em ciclos e extensões, personagens e convivências mas tais palavras nunca farão justiça a um filme. "Va Savoir" é "Va savoir", como "Rio Bravo" é "Rio Bravo" ou "Vertigo" é "Vertigo". São filmes, valem por si sós e são, sempre, a avaliação estética e equivalente deles mesmos.
(Ah, Jeanne Balibar...)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

RIP Eric Rohmer


Morreu um dos mais importantes cineastas associados à Nouvelle Vague, aos 89 anos. Autor de filmes como "Ma Nuit chez Maud", "La Collectionneuse" e este "Perceval le Gallois"... Fica a obra connosco..

domingo, 22 de novembro de 2009

"His Girl Friday" - 1939




Os filmes de Howard Hawks são geniais, brilhantes (não há palavras que lhes façam justiça), porque não há mais simples que aquilo: é Cinema de personagens, argumento clássico sem elipses, nem malabarismos narrativos. Parece fácil mas não é, porque não há ninguém que desenvolva personagens (ou desenvolvesse) como Hawks o fazia.

"His Girl Friday" é assim, também. Tudo reduzido ao essencial (os planos, os cenários, as situações), uma noção de ritmo arrebatadora (como colar planos entre si - e poucos têm esse dom), porque Cinema - um bom filme, como ele dizia - é "duas boas cenas e nenhuma má". É lembrar o espectador que a vida vale a pena ser vivida e que não vale a pena passá-la em sofrimento. Cada filme dele é isso, uma reflexão sua sobre a vida, a sua moral e a sua visão do Mundo em película e não é por ser bem disposto que se colocam menos questões. Haverá coisa mais profunda que o Amor ou que um estudo sobre a pena de morte (no que a "His Girl Friday" diz respeito)? Por nos rirmos perde credibilidade? (isso é treta). "His Girl Friday" não é um filme que se veja e que se esqueça: faz parte da obra de um dos maiores realizadores que já viveu e uma das mais fascinantes, diga-se de passagem. Sempre o mesmo filme e nunca o mesmo filme, como diziam os críticos cineastas da Nova Vaga. Todo e cada um desses filmes diz coisas novas, dizendo o mesmo.

De resto e se se quer saber porque é que Hawks é um génio do diálogo, o Altman responde. Se se quer saber porque é que é um génio do timing em comédia, o Bogdanovich responde. Se se quer saber porque é que é um génio da economia espacial, dos cenários confinados, o Carpenter responde. Se se quer saber porque é que é um génio do desenvolvimento de personagens, o Tarantino responde, e, finalmente, se se quer saber porque é que é um génio estético (além de ético), o Rohmer e o Rivette respondem. Rivette escreveu uma crítica a "Monkey Business" chamada "O Génio de Howard Hawks". Começa assim:
The evidence on the screen is the proof of Howard Hawks's genius: you only have to watch Monkey Business to know that it is a brilliant film. Some people refuse to admit this, however; they refuse to be satisfied by proof. There can't be any other reason why they don't recognize it.
E espero que os próximos posts não sejam só sobre Hawks, preciso de falar doutras coisas: Antonioni, por exemplo.

The Genius of Howard Hawks por Jacques Rivette