sábado, 25 de julho de 2009

"El Angel Exterminador" - 1962



Primeiro pensei que se tratasse de um estudo sobre o fim da privacidade, como "A Streetcar Named Desire" de Elia Kazan e "Rear Window" de Alfred Hitchcock, havia vários pontos em comum: a acção confinada a um espaço: o bairro no filme de Kazan, as traseiras do apartamento em "Rear Window" e a mansão nesta obra-prima de Luis Buñuel. O desespero, os suores...
Também pode passar por isso, mas o principal a reter de "El Angel Exterminador" (quanto a mim) é o repúdio à religião, seja ela qual for...
O Señor Edmundo e a mulher Lúcia, convidam uns amigos a jantar em sua casa... As horas passam e eles por lá ficam. Passam a noite, e vários dias ficam... Não é por não conseguirem sair, mas sim por não conseguirem tentar sequer. Por isto, acabam por passar fome, sede, rebaixando-se a meros animais, a bestas. Não há poder de iniciativa, o grupo tem que permanecer junto como as ovelhas (que são aliás um motivo recorrente durante o filme), como um rebanho dependente de um líder...
Religião, privacidade, crítica à sociedade abastada, à riqueza. É um filme tão completo e tão complexo que é impossível avaliar ou descobrir qual a exacta extensão do seu discurso, do seu significado...
Genial.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Raoul Walsh X 2



Raoul Walsh é um cineasta que atravessa grande parte da História de Hollywood: Fez de John Wilkes Booth (o assassino de Lincoln) em "Birth of a Nation" de David Wark Griffith, realizou um grande filme mudo ("The Thief of Bagdad") e fez westerns e filmes de gangsters que são ainda hoje vistos e analisados. Como estes dois.
Humphrey Bogart foge para as montanhas em "High Sierra", James Cagney vem das montanhas, da high sierra como dizem no filme, em "White Heat". A natureza, o sublimar da natureza em "High Sierra" por oposição à Indústria, o "rebentar" das máquinas, os vapores em "White Heat". Bogart e Cagney acabam no "Top of The World" que Cagney tanto repete no seu filme, a olhar dum patamar superior os polícias que os perseguem. Dois filmes muito diferentes mas muito parecidos também e que confirmam a excelência de dois actores.
Dois grandes filmes.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Uma Viagem Pelo Musical - 4



Falei dos primeiros Musicais dos anos 30 e dos dois grandes artesãos (um maior que o outro - Minnelli). Houve mais realizadores que se dedicaram quase exclusivamente ao Musical nos anos 40 e 50 como Charles Walters: "High Society"- remake de "Philadelphia Story" de George Cukor - é o único filme que vi dele e é simplesmente execrável, no entanto filmes como "Lili" e "Easter Parade" são muito bem considerados; Walter Lang: "On the Riviera" vale por Danny Kaye - cómico esquecido - e "The King And I" e "There`s no Business Like Show Business" foram enormes sucessos nos anos 50; Charles Vidor: "Cover Girl" com Gene Kelly e Rita Hayworth é um bom filme; Roy Rowland: não vi nenhum deste último mas "The 5000 Fingers of Doctor T", é tido como um grande filme.

"Lili" - 1953


"Easter Parade" - 1948


"Cover Girl" - 1944


"The 5000 Fingers of Dr.T." - 1953

No final dos anos 50 temos também os Musicais de Elvis Presley, e no início dos 60 os dos Beatles ("A Hard Day`s Night" é muito influente em termos musicais).
Depois temos os realizadores que fizeram poucos Musicais mas que de uma maneira ou de outra deixaram a sua marca: Leo Mccarey, autor de várias obras-primas ("Duck Soup" com os Irmãos Marx, "Love Affair" com Charles Boyer e Irenne Dunne e o seu remake "An Affair to Remember" com Cary Grant e Deborah Kerr) fez "Going My Way" com Bing Crosby; Michael Curtiz ("Casablanca", "Angels With Dirty Faces") fez dez Musicais, mas que não têm grande peso na sua filmografia (245 filmes) - o mais famoso é "Yankee Doodle Dandy" com James Cagney; John Huston e o seu "Moulin Rouge"; Billy Wilder fez "The Emperor Waltz" e apesar de não ser um Musical "Some Like it Hot" tem várias canções; Anthony Mann, grande artesão do "western" ("Bend of The River" e "The Naked Spur" são obras primas do género) fez "The Glenn Miller Story" (que é razoável - é um biopic sobre Glenn Miller) e "Serenade";
E finalmente, os três Grandes (e por isto entenda-se: os realizadores exteriores ao Musical que mais fizeram pelo Musical):


George Cukor com "A Star is Born"


Joseph L. Mankiewicz com "Guys and Dolls"


Howard Hawks com "Gentleman Prefer Blondes"

Com "A Star is Born", Cukor (autor do imenso "Sylvia Scarlett") cria aquele que será porventura o "épico" dos filmes musicais, se é que o termo se aplica. O espectáculo tem que continuar, os bastidores do espectáculo não são tão alegres e divertidos como o espectáculo em si. Duas estrelas: uma em ascensão, e outra em declínio, mas que são ambas a "Star" a que o título se refere. Judy Garland no seu melhor papel e James Mason num dos seus melhores papéis (as interpretações dele em "Lolita" de Stanley Kubrick e "Bigger Than Life" de Nicholas Ray são da mesma envergadura).

Esther sings 'Someone at Last'
James Mason e Judy Garland

Com "Guys and Dolls" (Eles e Elas), interpretado por Marlon Brando Jean Simmons e Frank Sinatra, Joseph Mankiewicz (realizador e argumentista do brilhantemente escrito "All About Eve") oferece um diferente tipo de Musical:
There are two distinct aesthetics for movie musicals, regardless of whether they happen to be Hollywood or Bollywood, from the 1930s or the 1950s, in black and white or in color. According to one aesthetic– exemplified by Al Jolson (as in The Jazz Singer) or the team of Fred Astaire and Ginger Rogers (as in The Gay Divorcee or Top Hat–a musical is a showcase for talented singers and/or dancers showing what they can do with a particular song or a number. According to the second aesthetic, exemplified by Guys and Dolls—-the two leads of which, Marlon Brando and Jean Simmons, aren’t professional singers or dancers–the musical is a form for showing the world in a particular kind of harmony and grace and for depicting what might be called metaphysical states of being. The leads are still expected to sing in tune, of course, but notions of expertise and virtuosity in relation to their musical performances are no longer the same.
São de Jonathan Rosenbaum estas palavras. "Guys and Dolls" é um Musical cujos actores principais não são cantores nem dançarinos profissionais, e é necessário que se note porque tal facto produz uma certa transcendência que passa pelo esforço que os seus personagens têm que perpetuar para atingir os seus objectivos. O esforço dos actores e o dos seus personagens cruza-se portanto, ainda que derivado de razões diferentes. Rosenbaum apelidou-o também de "Musical do Método" ("método" remete para a escola de Lee Strasberg que formou actores como Robert DeNiro, Al Pacino e o próprio Brando). Os planos fixos e a escolha controversa de actores (Brando e Simmons num Musical) causam estranheza mas a ideia é mesmo essa.


Johnny Silver, Frank Sinatra e Stubby Kaye

Mas mais que Cukor e Mankiewicz, por ser também melhor realizador, Howard Hawks marcou profundamente o Musical. O Musical de Cukor é um corajoso épico Musical, o de Mankiewicz é uma subversão. O de Hawks é isso e mais ainda. Temos o primeiro grande papel de Marylin Monroe e não só, é o papel que modela toda a sua persona cinematográfica (Billy Wilder agradeceu ou devia ter agradecido a Hawks). Uma crítica ao materialismo disfarçada de Entretenimento, um filme onde tudo é sexual e tudo para lá vai mas que é só "disfarçadamente" malicioso porque as suas intérpretes e as suas respectivas personagens são "disfarçadamente" adoráveis e porque Hawks sabe, como sempre soube ("Bringing Up Baby") fazer passar o escandaloso por inocência e o malicioso por bondade ou boas intenções.
"Gentleman Prefer Blondes" é como disse João Bénard da Costa (com a ajuda de Hawks) "um conto de fadas" com variações sobre a atracção sexual. É um filme de uma completa irrealidade com uma actriz que nunca foi verdadeiramente real".
Um dos melhores filmes de sempre? Com certeza que sim.

Jane Russel e Marylin Monroe

The French are glad to die for love.
They delight in fighting duels.
But I prefer a man who lives
And gives expensive jewels.

A kiss on the hand
May be quite continental,
But diamonds are a girl's best friend.

A kiss may be grand
But it won't pay the rental
On your humble flat
Or help you at the automat.

Men grow cold
As girls grow old,
And we all lose our charms in the end.

But square-cut or pear-shaped,
These rocks don't loose their shape.
Diamonds are a girl's best friend.

Tiffany's!
Cartier!
Black Starr!
Frost Gorham!
Talk to me Harry Winston.
Tell me all about it!

There may come a time
When a lass needs a lawyer,
But diamonds are a girl's best friend.

There may come a time
When a hard-boiled employer
Thinks you're awful nice,
But get that ice or else no dice.

He's your guy
When stocks are high,
But beware when they start to descend.

It's then that those louses
Go back to their spouses.
Diamonds are a girl's best friend.

I've heard of affairs
That are strictly platonic,
But diamonds are a girl's best friend.

And I think affairs
That you must keep liaisonic
Are better bets
If little pets get big baguettes.

Time rolls on,
And youth is gone,
And you can't straighten up when you bend.

But stiff back
Or stiff knees,
You stand straight at Tiffany's.

Diamonds! Diamonds!
I don't mean rhinestones!
But diamonds are a girl's best friend.

Fim da 4ª Parte

domingo, 19 de julho de 2009

"Yolanda and the Thief" - 1945


É em "Yolanda and the Thief" (Yolanda e o Vigarista) que Minnelli encontra Tarkovsky e Antonioni (tem que ser). O "corte temporal" dentro do plano, o "lapidar do tempo"...
Não vi o filme a tempo de falar dele no post dos Musicais, mas é hoje o meu filme preferido de Vincente Minnelli e dos meus Musicais preferidos (senão "O").
Os ritmos que nascem do nada e que se prolongam até ao êxtase, o passeio nocturno que demora 1/5 do filme, a divagação (e por isto entenda-se a completa ausência de narrativa - e ninguém precisa de histórias aqui).
Porque Minnelli parece um ilusionista em pleno domínio da sua arte e porque tudo é Fantasia e nada é Fantasia, porque enquanto o vi (e também algum tempo depois de o ver) não conseguia pensar em mais nada (porque me atravessou aquela sensação, aquela frase: "É isto o Cinema, mais nada...). Em mais nada pensei senão nos movimentos da câmara de Minnelli e de como neste filme usou a técnica (iluminação, som...) para manipular o espectador duma maneira mágica e sedutora. O plano sequência é sinónimo de realidade... Pois, aqui Nunca.
O falecido Bénard da Costa (no seu Dicionário do Musical) colocou este filme (junto a "Meet Me in St. Louis", "The Pirate", "Singin In The Rain", "The Band Wagon" e "Brigadoon") no topo, como os pontos máximos do Género.
É Minnelli no seu melhor. O que não é dizer pouco...

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Uma Viagem Pelo Musical - 3

1ªParte 2ªParte

Stanley Donen


Stanley Donen não é um realizador que eu aprecie tanto como Vincente Minnelli, e provavelmente estou a ser injusto (faltam-me ver ainda muitos filmes dele - o tempo dirá) mas não o acho um cineasta tão completo como Minnelli.
Vi 5 dos 27 filmes que ele realizou (de Minneli foram 19 - faltam 14!) e portanto nem os devia estar a comparar.
5 filmes, então: "On The Town" (co-realizado com Gene Kelly), "Royal Wedding", "Singin In The Rain" (mais uma vez co-realizado com Gene Kelly), "Funny Face" e "Charade". Este último não é um Musical, e portanto não o irei analisar. É um óptimo filme ainda assim, uma muito divertida e inventiva homenagem a Alfred Hitchcock .

"On The Town" - 1949


"Royal Wedding" - 1951


"Singin In The Rain" - 1952


"Funny Face" - 1957

First things first: Donen tinha trabalhado com Gene Kelly em "Anchors Aweigh" como coreógrafo e parece que ambos merecem mais crédito pelo resultado do filme que o próprio George Sidney, o realizador ("O Musical" de João Bénad da Costa). "Anchors Aweigh" e "On The Town" (primeiro filme de Donen e Kelly) são aliás muito parecidos.
"On The Town" é um grande filme. Não será tão bom como "Singin In The Rain" mas é já uma amostra, (e uma brilhante amostra, verdade seja dita) daquilo que a dupla Kelly/Donen era capaz de fazer. De "New York, New York" a "Come Up To My Place" todos os números musicais são memoráveis.

New York, New York, a helluva town.
The Bronx is up, but the Battery's down.
The people ride in a hole in the groun'.
New York, New York, it's a helluva town!!



"Royal Wedding" é um filme menor. Mas inventivo e sedutor, ainda assim. No primeiro filme a solo, Donen não superou nem igualou o que tinha feito com Kelly e o filme não é uma viagem alucinante como "On The Town" (dando a ideia que Donen sem Kelly não faz grandes filmes), mas tem os seus momentos. Um que merece destaque é este, um número já clássico, Fred Astaire a dançar no tecto em plano sequência!!:




Para "Singin In The Rain" (segundo musical da dupla) não há palavras. É O Musical: Nunca o Espectáculo e a Sátira se uniram de forma tão sedutora e mágica como em "Serenata à Chuva".Gene Kelly, Donald O`Connor, Debbie Reynolds, Jean Hagen e Cyd Charise (ainda que por pouco tempo, a sua aparição no filme é inesquecível - rivaliza com o resto do elenco) ... É um filme que fica com as pessoas, pessoas essas que o acompanham do início ao fim sem uma queixa que seja: Porque "Singin In the Rain é o mais perfeito dos Musicais, porque todos os Musicais a este filme se comparam (e há alguns que o igualam, mas o filme tornou-se o termo de comparação para todo o Musical, e ganha por isso mesmo). Todo o filme é memorável, não há pausas e é de visionamento obrigatório.




Em 1957, veio "Funny Face", muito bom filme, quase tanto como "On The Town", e se eu dei o benefício da dúvida a Donen, foi por causa deste filme. É para Paris, o que "On The Town" foi para Nova Iorque. Se Donen é um autor (a ver vamos), a sua marca só pode ser esta: A exploração do Trio em Cinema, as relações, os laços dentro de um grupo de três pessoas:


Gene Kelly, Frank Sinatra e Jules Munshin


Betty Garret, Ann Miller e Vera Ellen


Donald O`Connor, Debbie Reynolds e Gene Kelly

Kay Thompson, Fred Astaire e Audrey Hepburn

Fim da 3ª Parte

segunda-feira, 13 de julho de 2009

"Straw Dogs" - 1971



David Samuel Peckinpah é lembrado como "one of the major filmmakers of the 1970s, with his innovative and explicit depiction of action and violence" (Wikipedia). É verdade, ele captou a acção e a violência como ninguém mas Peckinpah não era um cineasta que se limitava a fazer filmes de acção e westerns. Ele foi alguém que explorou e estudou o Ser humano: o seu uso da violência, chegando à conclusão que o Homem usa a violência para comunicar, para existir, para se impôr: Somos todos eminentemente violentos.

Isto não quer dizer que Peckinpah fosse o mais acérrimo defensor do uso da violência (claro que sempre o rotularam como tal: nos anos 70 baptizaram-no de "Bloody Sam") mas antes alguém que simplesmente constatou que a violência é algo inerente à própria condição humana.

E finalmente, Sam Peckinpah explorou a relação do próprio espectador com a violência: Pôs o espectador deleitado com os "banhos de sangue" de "The Wild Bunch" e a torcer por vilões, por foras-da-lei em quase todos os filmes.

E é aqui que Peckinpah se diferencia dos meros realizadores de filmes de acção. Na maior parte dos filmes, o espectador assiste de forma passiva à violência: não pode ajudar e sabe que é um filme. Sam Peckinpah transcende esta forma de experienciar um filme, fazendo com que o espectador tire um prazer mórbido e cruel da violência e transformando-o num ser deplorável.

Em "Straw Dogs" (que para todos os efeitos não é uma obra-prima) Dustin Hoffman interpreta um matemático chamado David Summer. Ele vai viver com a sua mulher para uma aldeia remota na Inglaterra , que foi onde a sua mulher viveu durante alguns anos. Lá, têm que reparar a casa e chamam um grupo de homens para o fazer, entre os quais Charlie Verner - antigo amante de Amy.

Tudo isto vai desembocar na cena mais controversa da obra de Peckinpah. Uma violação: ambiguidade, prazer e sofrimento. Sadismo misógino segundo as feministas, Peckinpah foi inclusive acusado de fascista.

Porque é uma violação que não parece ser uma violação, porque Peckinpah "tudo" fez para a tornar mais bela e porque a cena causa um desconforto quase sem paralelo.

No fim do filme, depois do trepidar, do escalar da violência, interrogámo-nos sobre as questões que ao filme se ligam e estudamos também nós a violência inerente ao ser humano. Peckinpah disse que o filme era o fruto das suas obsessões com a Violência que a seu ver resultava na incapacidade do Homem comunicar.

Pauline Kael (maior defensora de Peckinpah) considerou Straw Dogs uma obra-prima:
Probably one of the key films of the 70s. Its vision is narrow and puny; Peckinpah sacrifices the flow and spontaneity and the euphoria of spaciousness that have made him a legend--but not the savagery. The only beauty he allows himself is in eroticism and violence, which he links by an extraordinary aestheticizing technique. When the wife is raped, the rape has heat to it and what goes into that heat is the old male barroom attitude: she's asking for it.
É um óptimo filme, reflexo das obsessões/preocupações do seu realizador mas esmorece quando comparado a "The Wild Bunch", "Bring Me The Head of alfredo Garcia" ou "Cross of Iron", que são para mim o ponto máximo da sua obra.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

"The Outsiders"/"Rumble Fish" - 1983





Sempre me incomodou muito todo o "hype" à volta dos três "Godfathers", são bons filmes (principalmente o segundo) mas não são de maneira nenhuma os melhores Coppola`s, até porque lhes falta a experimentação, aquela ousadia e liberdade que tanto caracteriza os melhores Coppola`s e que o transformaram também num "outsider" em Hollywood.


1. "The Conversation": Se há apenas uma obra-prima na filmografia de F. F. Coppolla(não me parece que seja verdade), é este filme: o "escalar" da paranóia, uma das mais fascinantes personagens do Cinema: Harry Caul, e uma das melhores histórias dos anos 70.


2. "Apocalypse Now": É provavelmente o melhor filme sobre a guerra do Vietname e também a obra mais completa de Coppola: a viagem ao coração das trevas, à boca da loucura e ao fim do Mundo.


3. "The Outsiders": Ao ver este filme, fiquei com a sensação que era um filme fora de Tempo como os seus personagens. Em "Rumble Fish" (que é o filme-irmão de "The Ousiders"), Dennis Hopper diz isto do seu filho: "He's merely miscast in a play. He was born in the wrong era, on the wrong side of the river..."
Esta frase caracteriza o "Motorcycle Boy" (Mickey Rourke) mas pode também "servir" para "Ponyboy Curtis", Dallas Winston e Johnny Cade, os heróis de "The Outsiders". Eles não sabem o que fazer, não sabem qual é o papel que têm que desempenhar na sociedade e o sentimento que trespassa todo o filme (e isto é também verdade para "Rumble Fish") é o de que eles estão de facto "miscast in a play" e de que nunca pertencerão ao "cast", porque não podem.
É junto com "Rebel Without a Cause" ("The Outsiders" está cheio de referências ao filme de Ray) e com "Rumble Fish" (pode haver mais) dos melhores filmes que já se fizeram sobre a Juventude e bem melhor, mas muito melhor (infinitamente) que "stand By Me" de Rob Reiner, e digo isto porque o filme de Reiner é melhor lembrado e considerado do que este "The Outsiders".

4. Com "The Outsiders" é o melhor "double-bill" dos 80. Este em particular é provavelmente o filme mais pessoal de Coppola. A relação de Matt Dillon com o irmão "Motorcycle Boy" ecoa a de Coppola com o irmão ( e digo isto porque o filme lhe foi dedicado). O filme tem um estilo demolidor: o preto e branco e depois as cores, o "time-lapse" com as nuvens, os ritmos e os gestos dos personagens, tudo parece meticulosamente coreografado. Ao contrário de "The outsiders" que foi um sucesso mediano, este filme não foi um sucesso e mais uma vez pela capacidade que Coppola tem de arriscar e inovar - que nunca foi recompensada. "Motorcycle Boy"/Mickey Rourke é uma personagem fabulosa que é idolatrada por toda a gente, mas mais pelo seu irmão. Os enquadramentos, o nevoeiro e toda a experimentação (que porventura influenciou o movimento do filme independente) fazem deste filme algo de imperdível e inesquecível.

sábado, 4 de julho de 2009

"White Hunter Black Heart" - 1990




Quando via filmes de Clint Eastwood (primeiro com, depois de e com Clint Eastwood) não pensava nele como um grande mestre do Cinema. Ele desenvolveu a sua "persona" cinematográfica junto de realizadores como Sergio Leone e Don Siegel (ele dedica aliás "Unforgiven" aos dois) e prolongou-a pelos anos 70 e 80 nos seus próprios filmes: de "High Plains Drifter" até "Pale Rider", e os resultados estavam longe de ser desinteressantes, mas não permitiam que ele figurasse (quanto a mim) junto de mestres como John Ford ou Howard Hawks. Os filmes eram para mim grandes divertimentos e pequenas homenagens aos mestres do passado. Eram...



Porque desde que vi Gran Torino no Cinema, fiz uma enorme reavaliação da obra de Eastwood e vi mais filmes dele que não tinha ainda visto: e os mais importantes para mim são "The Bridges of Madison County" e este "White Hunter Black Heart".
Este "trio" deu um novo significado à obra de Eastwood e permitiu-me "descobri-lo" como um grande cineasta:
Eastwood aparece nestes filmes, não como um mero clone da sua "persona" (isto não quer, propriamente, dizer que ache que Eastwood fizesse más interpretações, mas sim que a fórmula estava gasta), mas com interpretações de tirar o fôlego, verdadeiras transformações dramáticas: da subversão da sua habitual personagem em "Gran Torino", passando pela "subtil" mas ao mesmo tempo intensa interpretação em "Madison County", e acabando na PRODIGIOSA composição em"White Hunter Black Heart":



Neste filme, Eastwood interpreta John Wilson, um realizador que está a trabalhar num filme em África. Cedo se percebe que se trata duma dramatização da rodagem de "A Rainha Africana" de John Huston e isso é graças à brilhante composição de Eastwood (que torna seus todos os tiques do famoso realizador e argumentista). E é através dessa interpretação, que Eastwood evoca as memórias da colonização, denuncia o "american way of life" e faz uma avaliação da sua própria pessoa através da pessoa de John Huston: Porque no fim do filme não sentimos que Huston/Eastwood é um vilão por tudo o que fez, mas sim um ser Humano complexo, como todos nós.
Porque o filme, apesar da sua simplicidade aparente (e tenho vindo a descobrir que todos os filmes de Clint Eastwood parecem simples) é complicadíssimo de digerir, de avaliar e isso sob todos os pontos de vista. Clint podia julgar Huston de modo condescendente e com uma atitude superior, podendo adequar a interpretação a esse nível... mas não o fez, preferiu criar uma personagem que nos não remete para uma ou duas pessoas, mas para uma infinidade delas, uma personagem colectiva e Humana com tudo o que de bom e de mau esse rótulo pode trazer.
Como profundo estudo da Humanidade merece figurar ao lado de filmes de Antonioni ou Tarkovsky, e só não é "A" obra-prima da passagem dos 80 para os 90, porque há "Close-Up" de Abbas Kiarostami. É o melhor filme de Clint Eastwood...


Crítica de Jonathan Rosenbaum
Crítica de Roger Ebert