quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

"Haut Bas Fragile" - 1995





























Mais um Rivette, que é como quem diz mais uma obra-prima e como já se sabe, é dizer pouco. Não será tão bom como "Céline et Julie vont en bateau" que é um portento de filme como poucos o são mas é, também, encantador à sua maneira. Aqui, tudo leva o seu tempo (à volta de 3 horas) para haver justiça na representação, no retrato daquelas três mulheres, Louise, Ida e Ninon, seja através da sua relação com o espaço, onde cada gesto e cada comportamento contam, seja através da sua relação com elas próprias (passeios reflexivos e pausados) e com as outras personagens (as danças longas na discoteca, o jogo de cartas). Não é um musical tanto pelo "glamour" dos números mas mais pela relação íntima dos personagens com a Música (a música ajuda Ida a encontrar a sua mãe verdadeira e a dança é algo que nasce da mais natural das formas, pelo menos para Louise e Ninon).

E a quem se regressa? A Hawks, mais uma vez - e parte da trama faz lembrar "Gentleman Prefer Blondes" - a Minnelli, talvez, e a Donen, inevitavelmente:
"The inspiration of Up Down Fragile? The MGM low-budget films of the 50s that were shot in four or five weeks on sets left over from other films. In particular, a Stanley Donen movie, Give a Girl a Break [1953], a simple film shot in next to no time with short dance numbers."

Jacques Rivette
Mas o que mais me impressiona em "Haut bas fragile" nem é a corajosa e perigosa incursão pelo Musical (se bem que o incluísse aqui, se o tivesse visto antes), mas aquela opção de delinear o guião tendo em conta aquelas personagens, aquelas pessoas, vá (e da mais empática das maneiras, que, hoje em dia e para a maior parte dos filmes, parece ser pedir muito) e pontuando-o com os mais decisivos momentos das suas vidas (dirão que para todos os filmes é assim - OK, mas não desta maneira) mas de forma a não duvidarmos que o são por um único momento.

Para isso contribuíram, muito certamente, os actores, porque como noutros filmes de Rivette, escreveram as suas personagens, e aí, e por isso mesmo, atinge-se um nível de cumplicidade máximo e, sobretudo, um nível de "apagamento do autor", que era um dos objectivos de Jacques Rivette, o mais secreto dos génios. Pois é, ainda não o tinha tratado por tal, aqui. Pois então, Rivette é um génio e, acreditem ou não, para mim há poucos...

Leituras complementares: Crítica de Jonathan Rosenbaum / Crítica de Ruy Gardnier

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Planos (II)



A arte do enquadramento

"Some Came Running" de Vincente Minnelli

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Blog do Núcleo


Link do blog do Núcleo de Cinema da UBI, do qual faço parte
Também vou escrever por lá, de vez em quando... passem por lá, se quiserem...

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Planos (I)

















"Rebel Without a Cause" de Nicholas Ray

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Coitadinha da Comunicação Social...

... e pobres do Mário Crespo, da Manuela Moura Guedes e do José Eduardo Moniz. Se pusesse estes óculos qual era o aspecto deles, gostava de saber...

Outras leituras: aqui, aqui, aqui, aqui e aqui...

Ah, e é a primeira e última vez (espero eu) que falo sobre política aqui...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

"The General", por Eric Rohmer



"A comédia de Buster Keaton, que poderíamos designar por comédia da contemplação, exerce-se a qualquer momento, pois não recorre ao efeito surpresa. Recorre ao espanto, o que é outra coisa completamente diferente. Dito isto, devo confessar que, ao ver, pela segunda vez "The General", não me ri nem um instante, o que pode parecer estranho, pois a comédia, precisamente, não assenta em nada inesperado.

Na verdade, penso antes que o inesperado se encontra em cada segundo da história que se desenvolve perante os nossos olhos. Sendo assim, será que este cinema não aguenta a "releitura"? Antes pelo contrário. O que digo não constitui qualquer tipo de reserva. Na segunda, na terceira, na enésima visualização, não senti aquele sentimento incómodo que nos domina, ao vermos uma cena que se quer engraçada e que não chega a fazer-nos rir. O riso e a comédia estavam lá, já não em si, para mim, mas, como diria o filósofo, de si para si, latentes no filme e dando lugar a uma impressão de grandeza épica que eu queria, agora, saborear sozinha. Foi uma impressão que nunca tinha tido e que só voltei a ter, desde então, com Griffith e Murnau. Foram eles três que me revelaram os segredos de uma das operações capitais da encenação cinematográfica: a organização do espaço. Mas falemos antes do riso. Afirmaram que nascia de um sentimento de superioridade benevolente ou malevolente. No caso dos heróis cómicos do cinema mudo, costuma ser benevolente em relação a eles próprios e malevolente em relação aos seus parceiros. Vemos um pouco Charlot como uma criança insuportável e cujas travessuras nos encantam, o que não impede que as suas infelicidades possam comover. O riso crítico é dirigido aos outros. Pelo contrário, o riso que suscita Buster Keaton é da mesma natureza que o que provoca uma jovem criança que leva a sério uma tarefa aparentemente inadequada à sua idade e às suas capacidades. Uma criança que tenta ser "como os mais crescidos". Uma certa condescendência, mas também uma verdadeira admiração misturam-se com este riso. (...)

Com Buster vêem-se poucos gestos expressivos, resíduos da mímica antiga ou contaminação chaplinesca que destoam, normalmente. Só executa os movimentos exigidos pela acção e cuja eficácia é comprovada a qualquer momento. Buster está sempre a trabalhar. Pelo contrário, Charlot procura não fazer nada ou tenta saborear a sua tarefa. (...)

Os valores que defende a personagem são os do mundo onde vive, os quais se encarregará de exagerar. Este moralismo, nada mais nada menos do que o mecanismo aparente do seu jogo, começou por lhe fazer perder a admiração da intelligentsia, que preferia o anticonformismo, o niilismo de Chaplin. Aqui, nada é corrosivo. Não há crítica da sociedade estabelecida, mas, sob o respeito e a atenção que se lhe dá, esta não deixa de fazer transparecer as suas contradições.
A crença do herói na pureza de um ideal cavalheiresco choca com a dureza do mundo das coisas e dos homens."

Eric Rohmer, "Positif", nº 400, Junho de 1994

Já agora, os cinemas de Rohmer e de Keaton não se me afiguram tão diferentes como isso e a semelhança não passa apenas pela tal "organização do espaço", mas também pelo uso de planos gerais, um achava-o um plano cómico e o outro um plano realista, e passará, eventualmente, por outras coisas, o "Conte d`été, por exempo, parece-me muito "keatoniano" - a juventude que "tenta ser como os mais crescidos", eheh...

Buster Keaton x 5



Buster Keaton (assim o baptizou Harry Houdini, por ter caído aos 6 meses de umas escadas - "buster", naquela altura, era algo como "queda") nasceu em Piqua, no Kansas no ano em que, também, o Cinema nasceu e foi um génio da pantomima e do mudo. Em pequeno trabalhou com os seus pais, em digressão, num show de vaudeville chamado "The Three Keatons", espectáculo em que era a atracção com as suas quedas e contorções.
A "Gerry Society", uma comissão de protecção de menores, não via com bons olhos o espectáculo e em 1907, depois de várias tentativas, ganhou a batalha judicial contra os Keatons. A família é forçada a ir para Inglaterra em digressão, mas as coisas não correm bem, acabam em teatros reles, de segunda. Já nos Estados Unidos e depois de várias discussões e lutas, Keaton e a mãe mudam-se para Nova Iorque.

Depois de servir o seu país na primeira Grande Guerra, Keaton conhece Roscoe Arbuckle (Will Hays sabe quem ele é) e oferece-se para trabalhar com ele e para Joseph M. Schenk. A coisa corre bem e depois de 14 filmes juntos, Keaton consegue uma produtora só para ele (cortesia de Schenk), a "Buster Keaton Comedies", onde tem absoluto controlo criativo. Foi lá que fez os seus melhores filmes (curtas e longas), antes do declínio que o sonoro lhe reservou.

Ver 5 destes filmes há umas semanas foi regressar a um tempo em que havia um amor desmedido ao Cinema e à montagem (Keaton foi um dos seus pioneiros), à Arte, quando se vivia o acto de fazer filmes de uma maneira, hoje, inimaginável ou, até, impensável (e aqui basta lembrar a sequência da tempestade de "Steamboat Bill Jr.", o mais arrojado "número" do Keaton "duplo")
Do radicalismo formal de "The Electric House" (1922) à multiplicação "melliesiana" de "The Playhouse" (1921), passando pelo burlesco corrosivo de "The High Sign" (1921) e pelas variações cómicas entre o espaço e o tempo de "One Week" (1920), a obra de Keaton é fabulosa, e dizem-me mais as curtas dele do que as de Chaplin - as longas, claro, são outra história e "One A. M." é uma curta fantástica, ainda assim.




E apesar de "Steamboat Bill Jr.", "The Navigator" e "The General" acho que não há filme de Keaton que eu prefira a "Sherlock Jr.", o melhor dos cinco que vi nessa semana. Aqueles passeios entre a realidade e a fantasia não perderam encanto algum, os "gags" inventivos de Keaton não conhecem, aqui, barreiras. O Cinema é "dissecado" através dos sonhos de um projeccionista - ele tenta provar o seu valor e o seu amor por uma rapariga, na realidade e com a ajuda da imaginação (e ao contrário, também). O filme, quanto mais não seja, ensinou as pessoas a acompanhar (e a construir, também) personagens e uma história olhando a cada efeito e a cada plano, a cada "stunt" e a cada sobreposição, a cada som e a cada imagem - a cada movimento. "Sherlock Jr." é um filme analítico, meticuloso (foi o filme que Keaton mais tempo demorou a fazer) e um dos mais divertidos do seu autor.

A Cinemateca Portuguesa vai exibir a partir de dia 12, todas as curtas de Keaton / Buster Keaton no Senses of Cinema / Damfinos: the International Buster Keaton Society Website

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

"My Blueberry Nights" - 2007




Foi preciso percorrer um país inteiro para atravessar a rua... Grande filme. Grande, grande filme. Depois, é ver como o cineasta de Hong Kong dirige os actores (nunca gostei tanto de Weisz e Portman como aqui) e nos "leva" pelo arrebatamento imagético e musical que é "My Blueberry Nights". As vivências partilhadas, os abismos amorosos, a universalidade e as dimensões daquele café que é tão grande (e tão pequeno) como a América inteira. O filme está assente nos sentimentos, nas pessoas que os sentem e para esses, como se sabe, não há medida possível...

Norah Jones é Norah Jones: "I don't know how to begin /Cause the story has been told before / I will sing along i suppose / I guess it's just how it goes / And now those sprangs in the air / I don't go down anywhere / I guess it's just how it goes / The stories have all been told before / But if you don't char / The light won't hit your eye / And the moon won't rise / Before it's time / But if you don't char / The light won't hit your eye / And the moon won't rise / Before it's time / But i don't know how it will end / With all those records playin' / I guess it's just how it goes / The stories have all been told before / I guess it's just how it goes / The stories have all been told before / I guess it's just how it goes..."

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Os 10 Melhores dos anos 40


Respondendo ao desafio, são estes os meus dez filmes preferidos da década de 40 - 9 produções americanas e uma italiana, bem sei, ainda tenho muitos Bressons, Mizoguchis, Ozus e Renoirs para ver (entre outros) :

"The Magnificent Ambersons" (1942) de Orson Welles
"I Walked with a Zombie" (1943) de Jacques Tourneur
"Yolanda and the Thief" (1945) de Vincente Minnelli
"My Darling Clementine" (1946) de John Ford
"Monsieur Verdoux" (1947) de Charles Chaplin
"La Terra Trema" (1948) de Luchino Visconti
"Red River" (1948) de Howard Hawks
"They Live by Night" (1948) de Nicholas Ray
"Adam`s Rib" (1949) de George Cukor
"Stars in My Crown" (1950) de Jacques Tourneur

e mais alguns:

Hawks:

"To Have and Have Not" (1944)

Hitchcock:

"Shadow of a doubt" (1943)
"Notorious" (1946)
"Rope" (1948)

Ford:

"Fort Apache" (1948)
"Wagon Master" (1950)

Huston:

"The Maltese Falcon" (1941)
"The Asphalt Jungle" (1950)

Minnelli:

"Meet Me in St. Louis" (1944)
"Father of the bride" (1950)

Kurosawa:

"野良犬" - Cão Danado (1949)
"羅生門" - Rashomon (1950)

Rossellini:

"Roma, Città Aperta" (1945)
"Stromboli" (1950)

Tourneur:


Walsh:


Welles:

"The Stranger" (1946)
"Macbeth" (1948)

Dassin:

"Thieves` Highway" (1949)

Kazan:

"Panic in the Streets" (1950)

Lang:

"Scarlet Street" (1945)

Lubitsch:

"Heaven can wait" (1943)

Ophuls:

"Letter from an Unknown woman" (1948)

Ray:

"In a Lonely Place" (1950)

Renoir:

"The Diary of a Chambermaid" (1945)

Reed:

"The third man" (1949)

Robson:

"The Seventh Victim" (1943)

Sica:

"Ladri di biciclette" (1948)

Siodmak:

"The Killers" (1946)

Tati:

"Jour de Fête" (1949)

Ulmer:

"Detour" (1945)

Wilder:

"Sunset Boulevard" (1950)

P.S.: Está-se a fazer um ciclo sobre a década aqui e há, já, uma lista de preferências aqui.