sexta-feira, 15 de agosto de 2014

João Bénard da Costa sobre os seus encontros com Lauren Bacall: A abelha morta mordeu em Lisboa.


"Slim" já não era quando, vinda de Tróia sem falar de Helena, pousou na Cinemateca, no Verão de 1993. Também não vinha vestida com uma saia-gabardine e um sweater, como Hawks conta que a conheceu.

Cinquenta anos é muito ano, sobretudo para as estrelas que imaginamos sempre alimentadas a néctar e a ambrósia. Ver Lauren Bacall aos 69 anos e não aos 19, de olhar velado e não cortante, de vestido preto com decote em bico, clássico e senhorial, "sans réparer des ans l'irréparable outrage" não é fácil. Mas - carnes do ofício - para esse choque já estava preparado. Mas - carnes do ofício - tocar em Lauren Bacall, falar com Lauren Bacall, era sempre mais, muito mais, do que alguma vez havia pedido.

Por qualquer razão, de que já não me lembro, ela não podia chegar à Cinemateca às 6 e meia, hora da sessão com To Have and Have Not (Ter ou Não Ter), de Hawks que tinha programado em honra dela e não podia ficar até às 8 e 10, hora do fim do filme.

Propus-lhe - sem dizer água vai ao público - que entrasse na sala depois da cena famosa do "just whistle" ("basta assobiar"). Tempo para ela escrever no "livro de honra": "It is a privilege for me to be received in this impressive house" ("É um privilégio para mim ser recebida nesta extraordinária casa") - "line" impensável num filme de Hawks -, tempo para ela beber um Porto "porque a si lhe apetece um copo e eu tenho que dar o sinal". Depois, ainda esperámos alguns segundos junto à porta traseira do cinema. Ambos ouvíamos o diálogo e Lauren disse-me: "Desta vez, ela vai virar-me as costas a mim e não a Bogey." Não era só eu que sabia que na tela estava "outra". Mas as luzes acenderam-se, Lauren entrou e a sala à cunha festejou-a com uma das mais delirantes standing ovations (aplausos de pé), que recordo na Cinemateca. Quando se fez silêncio, falou de preservação dos filmes e do combate que, nessa altura, lhe era prioritário: contra a colorização dos filmes a preto e branco. Para ela, aí se separavam as águas entre quem gosta de cinema e quem não gosta. Para mim, também. Depois, os troianos, já asseabrados, organizaram-lhe um jantar impossível. Não pus lá os pés mas ouvi-lhe os comentários. Apropriados.

No dia seguinte, Mário Soares convidou-a para almoçar em Belém, num daqueles almoços em que ele é mestre e que era, em tudo, o oposto do jantar da véspera. Modestamente, atribuo ao cargo o lugar à direita de Lauren, com o Presidente entre ela e Amália. Herman José, Beatriz Costa, também estavam na mesa de honra com os representantes da América (na altura, não havia embaixador).

Foi nesse almoço que vi "aquela espécie de insolência" que deslumbrou Hawks e seduziu Bogey. Herman José falou-lhe das memórias mas tinha aprendido mal a lição e, em vez de By Myself (Na Minha Opinião), julgava que o título era Be Myself (Ser Eu Mesma). Fez-lhe uma digressão elogiosa sobre a lição contida na última expressão e disse-lhe que se esforçava, como ela, por ser sempre ele mesmo. "Who said That?" ("Quem disse isso?") perguntou-lhe, de olhos semicerrados. Espantadíssimo, Herman citou-a. "Não me lembro de ter dito isso." Fui em socorro dele e expliquei o equívoco. "I hate misquotations" ("Detesto citações erradas") foi o gélido comentário.

Depois, foi a minha vez. Contei-lhe a história da púdica tradução portuguesa "Depende do jockey" para a réplica que deu a Bogart quando este a comparou a uma égua selvagem ("It depends who rides me" - "Depende de quem me monta"). Mas troquei os títulos e falei-lhe de To Have and Have Not. Riu-se e comentou: "É uma boa história, mas essa cena não é de To Have and Have Not, mas de The Big Sleep ("À Beira do Abismo"). "Tive vontade de me sumir debaixo da mesa. Só consegui dizer-lhe "And you hate misquotations" ("E você detesta erros de citação"). "I do" ("Detesto"), ouvi.

No fim do almoço, já à porta do Palácio, demorou-se numa conversa de trapos, deixando o Presidente à espera. Herman José, que tinha comprado um belo carro de sport descapotável, deu algumas voltas ao pátio, com toda a gente a rir. Excepto ela, que lhe chamou exibicionista e moralizou sobre luxos de ricos num mundo de pobres. Depois, quando achou que era tempo e sem fazer caso dos discretos sinais dos diplomatas americanos e da visível impaciência de Mário Soares, enfiou-se na limusina. À despedida, ofereci-lhe um retrato de Bogart que ela tinha visto na véspera na Cinemateca e me disse não conhecer. Foi só nessa altura - acreditem-me ou não - que o olhar dela se tornou finalmente igual ao olhar com que devolveu a Brennan a pergunta célebre: "Já foste mordida por uma abelha morta?", em To Have and Have Not, e, desta vez, se ela me ler, não há misquotation (erro de citação).

in Suplemento Vida, 7 de Fevereiro de 1997, págs. 21 e 22

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