sábado, 23 de agosto de 2014

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Lauren Bacall, actriz:


To Have and Have Not (1944) de Howard Hawks


The Big Sleep (1946) de Howard Hawks


The Cobweb (1955) de Vincente Minnelli


Written on the Wind (1956) de Douglas Sirk


Designing Woman (1957) de Vincente Minnelli


The Shootist (1976) de Don Siegel

João Bénard da Costa sobre os seus encontros com Lauren Bacall: A abelha morta mordeu em Lisboa.


"Slim" já não era quando, vinda de Tróia sem falar de Helena, pousou na Cinemateca, no Verão de 1993. Também não vinha vestida com uma saia-gabardine e um sweater, como Hawks conta que a conheceu.

Cinquenta anos é muito ano, sobretudo para as estrelas que imaginamos sempre alimentadas a néctar e a ambrósia. Ver Lauren Bacall aos 69 anos e não aos 19, de olhar velado e não cortante, de vestido preto com decote em bico, clássico e senhorial, "sans réparer des ans l'irréparable outrage" não é fácil. Mas - carnes do ofício - para esse choque já estava preparado. Mas - carnes do ofício - tocar em Lauren Bacall, falar com Lauren Bacall, era sempre mais, muito mais, do que alguma vez havia pedido.

Por qualquer razão, de que já não me lembro, ela não podia chegar à Cinemateca às 6 e meia, hora da sessão com To Have and Have Not (Ter ou Não Ter), de Hawks que tinha programado em honra dela e não podia ficar até às 8 e 10, hora do fim do filme.

Propus-lhe - sem dizer água vai ao público - que entrasse na sala depois da cena famosa do "just whistle" ("basta assobiar"). Tempo para ela escrever no "livro de honra": "It is a privilege for me to be received in this impressive house" ("É um privilégio para mim ser recebida nesta extraordinária casa") - "line" impensável num filme de Hawks -, tempo para ela beber um Porto "porque a si lhe apetece um copo e eu tenho que dar o sinal". Depois, ainda esperámos alguns segundos junto à porta traseira do cinema. Ambos ouvíamos o diálogo e Lauren disse-me: "Desta vez, ela vai virar-me as costas a mim e não a Bogey." Não era só eu que sabia que na tela estava "outra". Mas as luzes acenderam-se, Lauren entrou e a sala à cunha festejou-a com uma das mais delirantes standing ovations (aplausos de pé), que recordo na Cinemateca. Quando se fez silêncio, falou de preservação dos filmes e do combate que, nessa altura, lhe era prioritário: contra a colorização dos filmes a preto e branco. Para ela, aí se separavam as águas entre quem gosta de cinema e quem não gosta. Para mim, também. Depois, os troianos, já asseabrados, organizaram-lhe um jantar impossível. Não pus lá os pés mas ouvi-lhe os comentários. Apropriados.

No dia seguinte, Mário Soares convidou-a para almoçar em Belém, num daqueles almoços em que ele é mestre e que era, em tudo, o oposto do jantar da véspera. Modestamente, atribuo ao cargo o lugar à direita de Lauren, com o Presidente entre ela e Amália. Herman José, Beatriz Costa, também estavam na mesa de honra com os representantes da América (na altura, não havia embaixador).

Foi nesse almoço que vi "aquela espécie de insolência" que deslumbrou Hawks e seduziu Bogey. Herman José falou-lhe das memórias mas tinha aprendido mal a lição e, em vez de By Myself (Na Minha Opinião), julgava que o título era Be Myself (Ser Eu Mesma). Fez-lhe uma digressão elogiosa sobre a lição contida na última expressão e disse-lhe que se esforçava, como ela, por ser sempre ele mesmo. "Who said That?" ("Quem disse isso?") perguntou-lhe, de olhos semicerrados. Espantadíssimo, Herman citou-a. "Não me lembro de ter dito isso." Fui em socorro dele e expliquei o equívoco. "I hate misquotations" ("Detesto citações erradas") foi o gélido comentário.

Depois, foi a minha vez. Contei-lhe a história da púdica tradução portuguesa "Depende do jockey" para a réplica que deu a Bogart quando este a comparou a uma égua selvagem ("It depends who rides me" - "Depende de quem me monta"). Mas troquei os títulos e falei-lhe de To Have and Have Not. Riu-se e comentou: "É uma boa história, mas essa cena não é de To Have and Have Not, mas de The Big Sleep ("À Beira do Abismo"). "Tive vontade de me sumir debaixo da mesa. Só consegui dizer-lhe "And you hate misquotations" ("E você detesta erros de citação"). "I do" ("Detesto"), ouvi.

No fim do almoço, já à porta do Palácio, demorou-se numa conversa de trapos, deixando o Presidente à espera. Herman José, que tinha comprado um belo carro de sport descapotável, deu algumas voltas ao pátio, com toda a gente a rir. Excepto ela, que lhe chamou exibicionista e moralizou sobre luxos de ricos num mundo de pobres. Depois, quando achou que era tempo e sem fazer caso dos discretos sinais dos diplomatas americanos e da visível impaciência de Mário Soares, enfiou-se na limusina. À despedida, ofereci-lhe um retrato de Bogart que ela tinha visto na véspera na Cinemateca e me disse não conhecer. Foi só nessa altura - acreditem-me ou não - que o olhar dela se tornou finalmente igual ao olhar com que devolveu a Brennan a pergunta célebre: "Já foste mordida por uma abelha morta?", em To Have and Have Not, e, desta vez, se ela me ler, não há misquotation (erro de citação).

in Suplemento Vida, 7 de Fevereiro de 1997, págs. 21 e 22

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Double-bill (XIX)


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Put your lips against: Bogey e "Slim"


por João Bénard da Costa

É já no próximo domingo, día 10 de Dezembro, que, pelas 15h30, Humphrey Bogart e Lauren Bacall voltam a ser "pendurados" no ecrã do Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian para a visão, ou revisão, dos primeiros filmes que fizeram juntos: To Have and Have Not (1944) e The Big Sleep (1945). Double feature, duplo facto.

Bogey tinha 45 anos durante as filmagens de To Have and Have Not se é verdade, contra a lenda, que não foi o Menino Jesus quem o pôs no sapatinho dos pais no Dia de Natal de 1899, mas nascera a 23 de Janeiro do mesmo ano, sob o signo do Aquário. Era já celebérrimo, embora estivesse longe de o ser tanto como hoje é, quase 33 anos depois de ter morrido, a 14 de Janeiro de 1957, de "um cancro no esófago e meio milhão de uísque" segundo o requiem célebre de Bazin.

Lauren Bacall nascida a 16 de Setembro de 1924, sob o signo da Virgem, tinha 19 anos e nenhuma câmara de filmar olhara jamais para ela. Nessa altura, chamava-se Betty Joan Perske e fora capa do "Harper's Bazaar" no número de Natal de 1943.

Do modo como passou de Betty Joan a Lauren, de Perske a Bacall e de modelo a instant star, conta hawks, inimitavelmente. Preguiçoso e metido em Hawks até ao pescoço, limitei-me a traduzi-lo.

"Bacall teve de passar por quatro meses de treinos tramados antes de me decidir a dar-lhe o papel de To Have and Have Not".

"Vi o retrato de Bacall na capa do 'Harper's Bazaar' e a minha secretária enganou-se e mandou-a vir de Nova Iorque. O que eu queria era saber que género de background tinha ela, se tinha estudado e aonde, se já tinha representado e com quem, o que é que tinha feito. Em vez de me trazerem isso, trouxeram-me ela.  De surpresa, a miúda entrou-me pelo gabinete, com uma saia-gabardine e um sweater. Tinha apenas 19 anos. Tinha uma voz levemente anasalada e um bocadinho esganiçada. Mas estava tão ansiosa, queria tanto trabalhar e mais isto e mais aquilo, que não fui capaz de a mandar para casa. Senti que tinha de lhe dar uma possibilidade. Disse à minha secretária: 'Ouça, arranje-lhe um carro, leve-a a meia dúzia de estúdios e depois mande-a passear'. Mas ela não quis ir a estúdios nenhuns. Queria era começar a trabalhar e já. E tive de lhe dizer que andava à procura de uma rapariga sofisticadíssima, e que esse género de raparigas, no cinema, não costumavam ter vozes anasaladas, nem em falsete. E disse-lhe: 'Você nunca vai ser capaz de dizer os diálogos que já tenho, de maneira aceitável'. Aparentemente, as minhas palavras não a incomodaram nada. Perguntou-me: 'O que é que devo fazer para mudar de voz?' Respondi-lhe: 'Não sei. Tudo o que lhe posso dizer é o que o melhor actor com quem já trabalhei, o Walter Huston, me contou sobre o modo como conseguiu a voz que tem'. Talvez se lembrem que Walter Huston, da primeira vez que cantou num filme, gravou um disco de que se venderam milhões: September Song. Fazia o que queria com a voz. Expliquei-lhe o que o Huston tinha contado e ela desapareceu durante três semanas (…)"

"(…) Passadas as três semanas, apareceu-me: 'Hello, how are ya?' (voz funda e cava). Comecei a acreditar nela".

"Nessa altura, costumava dar umas festas em minha casa, todos os sábados à noite. Convidei-a. Andou por ali, a certa altura saiu, e quando a festa acabou vi-a na rua, à espera. Tive que lhe dar uma boleia até casa dela. Disse-lhe: 'Não é capaz de arranjar uma boleia, para eu me poder embebedar à vontade e não ter que me preocupar em trazê-la a casa?'. Respondeu-me: 'Não tenho lá muito jeito para lidar com homens'. 'O que é que faz, trata-os bem?'. Disse-me que os tratava o melhor possível. Respondi-lhe: 'Talvez seja esse o seu mal. Porque é que não experimenta não os tratar bem? Porque é que não experimenta insultá-los?'".

"No sábado seguinte voltou e, a certa altura, apareceu-me com o ar de gata que já tinha comido o canário. 'Vou-me embora. Arranjei uma boleia'. Perguntei-lhe o que é que se tinha passado e ela disse-me: 'Insultei o homem'. 'O que é que lhe disse?'. 'Perguntei-lhe onde é que ele tinha arranjado aquela gravata. Ele quis saber porque é que eu queria saber. Respondi-lhe que era para poder dizer aos meus amigos que não pusessem os pés em tal loja'. 'Oh', disse eu, 'quem é o homem?', respondeu-me: 'Clark Gable'".

"Na segunda-feira seguinte, fui ter com Jules Furthman (co-autor do argumento de To Have and Have Not, a meias com Faulkner e com Hawks) e perguntei-lhe: 'O que é que achas se a rapariga do filme for insolente, tão insolente como Bogart? Achas que se ela insultar as pessoas e tiver sempre um risinho trocista, o público vai gostar?'. Furthman perguntou-me onde é que eu ia arranjar uma criatura assim. Respondi-lhe: 'Não sei, mas podíamos começar a tentar desenhar um personagem desse género'. Achou graça à ideia e começámos a construir o personagem. Entretanto, eu comecei a ensaiar esse género de cenas com Bacall. Trabalhou que nem uma moura. Uma das coisas que fiz foi dar-lhe uma das cenas de que mais gostava e pedir-lhe que a estudasse. Quando ela apareceu, perguntei-lhe: 'Já sabe a cena?'. 'Yeah'. 'Sabe-a mesmo bem?'. 'Acho que a sei menos mal'. Disse-lhe então: 'Pois é. Mas, entretanto, mudei de ideias. A rapariga do filme deve falar com sotaque espanhol. Diga o diálogo todo com sotaque espanhol'. Respondeu-me que não sabia falar com sotaque espanhol. Disse-lhe: 'Não lhe estou a perguntar se sabe ou não. Estou a mandá-la falar com sotaque espanhol'. Falou tão mal que eu desatei aos berros e depois às gargalhadas. Perdeu a cabeça e chamou-me filho da mãe. Interrompi-a: 'Páre com isso. Peça 50 notas à minha secretária. E depois faça o que eu lhe digo: vá ter com alguém que a ensine a falar com sotaque'. Respondeu-me: 'Vou'. Da próxima vez que me apareceu, disse-me que já era capaz de fazer a cena. Respondi-lhe: 'O pior é que mudei de ideias, outra vez. Quero uma sueca'. Nunca a deixei ler o diálogo da maneira como ela o tinha trabalhado. Teve de aprender sete sotaques diferentes. Quando já não podia mais, tudo quanto eu lhe pedisse deixava de ser problema. Já era capaz de fazer fosse o que fosse. Cada vez estava melhor e melhor. No fim, disse-lhe: 'Vou-te dar o papel da protagonista'. Toda a gente me disse que eu estava doido. Mas ela conseguiu tudo e tornou-se numa estrela de um dia para o outro. Tudo estava naquela espécie de insolência. Uma insolência como nunca fora vista. Ou fora, mas o público já não se lembrava. Porque Marlene Dietrich veio ver-me. Não lhe vou contar o que ela me chamou, só lhe digo que me perguntou se eu sabia que Lauren Bacall era ela, há vinte anos. Respondi-lhe: 'Sei muito bem. E daqui a vinte anos há-de aparecer outra com a mesma insolência (…)'".

Durante as filmagens, Bogey e Bacall, tratada por "Slim", que era o petit nom que Hawks também dava à mulher com quem então era casado (Nancy Raye Gross, que em 1947 foi classificada "The Best Dressed American Woman"), apaixonaram-se. Casaram-se depois do filme.

Quando Joseph McBride - cujo livro-entrevista Hawks on Hawks tenho vindo a citar - lhe perguntou que tal foi, o realizador respondeu: "Quando dois actores se apaixonam um pelo outro, não é nada fácil trabalhar com eles, garanto-lhe. Mas Bogey foi maravilhoso. Tinha-lhe dito que ele tinha de a ajudar. Ao fim de alguns dias, começou a ficar bem apanhado pela rapariga. É claro que a ajudou cada vez mais. E não foi difícil, para nenhum deles. Descobriram que o público ia gostar dela e que o papel não lhes ia fazer mal nenhum. Durante todo o filme, ela andou a pairar nas nuvens. Infelizmente, não foi suficientemente esperta para continuar no terceiro filme (Confidential Agent, de Herman Schumlin) o que fez nos dois comigo. Esqueceu-se de tudo quanto eu a tinha ensinado. E não teve Bogey a ajudá-la (foi Charles Boyer o par de Bacall nesse filme). Vi o filme e fiquei horrorizado. Disse-lhe: "Bogey, não a ajudaste nesta coisa?". Respondeu-me que não. "Não a podes deixar à solta". "Betty" disse-lhe a ela "porque é que não te lembraste do que eu te ensinei?". "Acho que me esqueci", respondeu-me ela. Meu Deus, era pavoroso. Foi por isso que, a seguir, Bogey a ensaiou sempre e a obrigou a trabalhar mesmo com ele até ela conseguir ser outra vez boa. Tinha de "praticar" seis a oito meses para manter a voz "em baixo". Agora já lhe é perfeitamente natural. Mas o mais engraçado é que Bogey se apaixonou mais pela personagem dela nesses dois filmes do que por ela. Foi por isso que ela teve de continuar a representar durante o resto da vida.

No mais célebre diálogo de To Have and Have Not, Lauren Bacall diz a Humphrey Bogart que quando ele precisar dela, basta-lhe assobiar ("just whistle"). Depois, sai do quarto de Bogart, pára à porta, volta-se para ele e diz, com o tal celebérrimo "grin": "You know how to whistle, don't you? You just put your lips together and blow".

To Have and Have Not nasceu de uma aposta de Hawks contra Hemingway em como era capaz de fazer um bom filme do pior livro dele. Esse famoso diálogo foi escrito, entre gargalhadas, por Faulkner e Furthman, com Faulkner a achar que estava a pregar a Hemingway a pior partida que já lhe pregara. Aquilo, escrito, parecia-lhe o mais puro nonsense. Hawks pediu-lhe que esperasse e visse. E quando Faulkner viu Bogey e Bacall nessa cena, esfregou os olhos e não quis acreditar. O nonsense é o mais espantoso diálogo da mais espantosa cena dos dois actores. Quando se casaram, Bacall mandou gravar na aliança de Bogart "just whistle". Lá ficou, até que a morte de Bogey - doze anos depois - os separou. Só nessa altura, deixou de haver, para Bacall, "nothing that you can't fix", última réplica do segundo e último dos filmes de Hawks-Bogart-Bacall: The Big Sleep.

in Muito Lá de Casa, crónica no Suplemento Vida do Semanário Independente, 7 de Dezembro de 1989

sexta-feira, 4 de julho de 2014

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O terror dos sete mares


por João Bénard da Costa

A criancinha estava a ler o jornal. A dado passo, parou, e perguntou à avó: "Avó, o que é que quer dizer amante?". A velha ficou a olhar para a neta, calada e perplexa. E de repente, exclamou: "Amante? Amante! Ai a minha cabeça!". Levantou-se muito depressa e foi abrir o armário enorme do corredor. Assim que abriu a porta, caíu-lhe aos pés um esqueleto.

Também me caiu aos pés um esqueleto quando, nos anos 60, numa reposição, revi "O Terror dos Sete Mares" ("The Spanish Main") filme de 1945, de Frank Borzage. É que eu tinha visto o filme aos 11 anos, em Abril de 1945, no Politeama. Aos 11 anos - fui de aprendizagem lenta nessas matérias - não só ignorava o que queria dizer amante, como quase tudo aquilo que se chama - nunca percebi porquê - os factos da vida. E a melhor prova que não são factos nem vida é que fiquei perturbadíssimo com esse filme de piratas. Perturbadíssimo e qualquer coisa mais que tive pudor de contar seja a quem for. Ora, se era tão ignorante - e julgo que era - como é que isso me podia ter acontecido? Não sei explicar mas sei que é verdade.

Tão verdade que vi o filme (em 1946) três vezes numa só semana. E só não vi mais porque os zeladores dos meus ócios e do dinheiro que me davam, acharam desperdício tantas horas e tantos quatro melreis a ver a mesma coisa. À quarta vez obrigaram-me a trocar o Politeama pelo Tivoli e "O Terror dos Sete Mares" por "As Chaves do Reino" de John M. Stahl. Gregory Peck estreou-se nesse filme, a fazer de padre, de sotaina. "Todo braguilha", teria dito, embevecido, um "gay" que nesses tempos se chamavam "papos-secos". A mim, e não quero armar ao macho, comoveu-me muito menos do que o Paul Henreid de calções à século XVII e infinitamente menos - infinitíssimamente menos - do que a Maureen O'Hara de rendas holandesas por baixo e vestidos de veludo verde por cima.

Dizia à família que ia ser pirata, mas era a ela quem eu ia ver, com os decotes enormes, o risco do peito e aquele brilho nos olhos quando o pirata lhe entrava pelo beliche a dentro. Ai, a minha cabeça.

Hoje, é muito fácil explicar. Mas naquela altura… Como é que se me gravaram tão real e perfeitamente quanto estão nos mares, as quatro ou cinco cenas que eu vou descrever?

Maureen O'Hara - chamava-se Condessa Francisca de Guzman y Andamora - era filha do Vice-Rei do México. Vinha a bordo de um galeão magnífico (dourado e todo pintado com Virgens) para casar com Dom Alvarado, Governador de Cartagena. Ela não sabia, mas o Governador era Walter Slezak, gordíssimo, mauzíssimo, cobardíssimo. E via, pela escotilha do camarote, Paul Henreid, pendurado na amurada. Ela também não sabia (nem ninguém, porque ele viajava disfarçado de tripulante) que era "O Terror dos Sete Mares" que usava por nome Barracuda. Ainda hoje estou para saber se foi em homenagem a ele que chamaram assim à "boite" mais mal afamada de Lisboa, essa que fica em frente do Tavares. Se o nome tem tal origem, tenho mais almas gémeas do que suponho. Até porque o Barracuda diante do Tavares é aproximadamente a mesma coisa do que Paul Henreid diante de Maureen O'Hara.

Mas volto à história, que já me estou a perder. Maureen O'Hara imediatamente seduzida pela loureza de Henreid (devia ter visto "Casablanca", certamente) saía do Tavares - perdão, do camarote - e ia meter conversa com o Barracuda, desafiando tabus e preconceitos. O homem, que nascera holandês e de seu vero nome se chamava Laurent Van Horn, portava-se muito friamente (Henreid foi sempre frio). A mostarda chegava ao nariz de Maureen O'Hara. Sempre chegou - e facilmente. Dizia-lhe coisas pouco amáveis sobre a Holanda. Barracuda, rápido, deitava-lhe as mãos às saias do vestido (verde esmeralda), levantava-as um bocado e respondia-lhe que holandesas eram as rendas dos interiores dela. "How dare you?" era obviamente a pergunta da Condessa. E chamava logo ali o comandante para denunciar o marujo que ousara pôr as mãos em cima (ou em baixo) dela. Servil, o oficial escolhia logo o mastro grande para o atrevido ser enforcado. Aí, O'Hara hesitava. E com um estranho brilho nos olhos - o que eu me lembro desse brilho - objectava que a forca era demais e preferia o chicote. O brilho só lhe aumentava, quando o Barracuda, despido da cintura para cima, era chicoteado por alguns dos mais possantes marinheiros da nau.

Lá mais para diante, os piratas do Barracuda abordavam. Vitorioso, este decidia casar com a Condessa. Quando, ainda mais para diante, ela lhe perguntava porquê, o pirata respondia-lhe com um trilema: "ou para me vingar" (o "promesso sposo" dela era o pior inimigo dele); "ou porque gosto de ti", "ou por causa do chicote". Já aos 11 anos eu preferia a terceira hipótese.

Outra cena: Maureen O'Hara e Paul Henreid lá casavam, com um bispo apavorado a celebrar a cerimónia. "I will" dizia ele. "Fondu" (esta aprendi depois) e de novo o camarote. À noite, noite de núpcias, expressão - volto a explicar - então vazia de sentido para mim. Maureen O'Hara, toda vestida, preparava-se para a defesa. Henreid abria-lhe a mala, tirava de lá uma magnífica camisa de noite de renda holandesa (outra vez) e mandava-a pô-la depressa Agarrava-a e dava-lhe um beijo. A câmara dava uma volta e via-se em grande plano a mão de Maureen com um punhal a aproximar-se das costas de Henreid. Meu não dito, meu não feito. O punhal caía ao chão e Maureen O'Hara caía nos braços de Henreid. O brilho nos olhos voltava, como lhe voltava o sangue à cara. No plano seguinte, já estava de camisa de noite.

E era ela, então, quem lentamente se auto-descrevia para o marido perguntando-lhe de que é que ele gostava mais: "my figure"; "my eyes", "my lips" e acabava no cabelo (ah, o cabelo ruivo de Maureen O'Hara): "Fire, isn't it?". Era, era, era. Embora naquele tempo eu não possa jurar se o preferia aos olhos, os olhos em amêndoa de Maureen.

Depois, ele ajudava-a a meter-se na cama. Tapava-a com uma colcha azul. Os olhos de Maureen já eram de todas as cores, mais azuis do que a colcha, mais verdes do que o vestido, mais brancos do que a camisa de noite, embora na verdade, fossem castanhos. Paul Henreid curvava-se sobre ela, dava-lhe um beijinho na testa e ia-se embora. Porque é que nessa altura eu me lembrava do que ela tinha dito antes sobre os holandeses? Porque é que era essa a cena que eu queria ver e rever, só para ver e rever os olhos de Maureen O'Hara?

A seguir, mais ou menos, o navio dos piratas chegava a uma ilha dos ditos. Maureen O'Hara, toda de azul, sob fundo dourado, desembarcava com Henreid e entrava numa taberna, com a clientela imaginável. O que não era imaginável era que, de repente, aparecesse, no meio dos homens, outra mulher, de calças e desenvoltura. Era Anne Bonny, presumível namorada do Barracuda, a quem logo se atirava ao colo com um beijo na boca. Era Binnie Barnes, que eu já conhecia como Milady de Winter dos "Três Mosqueteiros" de Allan Dwan, quem fazia o papel que acabava - para ela - tão mal como o de Catherine Howard, quando foi mulher de Henrique VIII no filme de Korda. Conhecendo Maureen, conhecendo Binnie, ou conhecendo Anne e conhecendo a Condessa, a cena de ciúmes era inevitável. E iam mesmo às de cabo, em duelo de pistola que só não acabava mal (para Maureen, valente mas inexperiente) porque Henreid antes carregara as armas com pólvora seca.

Nos anos 60, vendo essa cena, ou, depois, a da vingança de Binnie, percebi donde vinha a minha fatal atracção pelo ódio fatal de Emma e Vienna no "Johnny Guitar". Aquelas mulheres aos tiros lembravam-me as desaparecidas que lutavam comovidas numa tasca da Tortuga. A origem da emoção era a mesma. E não tenho que me repetir a dizer que em 1946 nem sabiam o que eram lésbicas.

Finalmente, que são horas de acabar e eu tenho de ir apanhar o avião para Madrid daqui a bocado, chegava a altura em que todos eram presos por Walter Slezak e todos tinham que fugir. Recorriam a disfarces e - essa ainda hoje não percebi - todos se disfarçavam de frades. Maureen O'Hara para entrar na prisão onde estavam os sete terrores dos mares, Paul Henreid para fingir, no fim, que estava a casar Maureen O'Hara com Slezac. E era como frades que tanto ela como ele ficavam ainda mais tecnicoloridos, mais derretidos, mais acendidos. E era como frades que matavam melhor, enganavam melhor e beijavam melhor. Finalmente, que se comiam melhor. Ou que comiam melhor os frutos que Slezak deixara para o pequeno-almoço do dia seguinte que já não chegou a ter.

Foi esta - resumindo muito - a nobilíssima visão dos meus dez anos. Os ossos dos amantes - ou a carne deles - encontram-se onde menos se espera. E o pior é que com o tempo nos esquecemos. Até que alguém - grandemente inocente - diz qualquer coisa e saltam cá para fora os fantasmas de que nunca julgámos que nos íamos lembrar tanto. Mas não há nada a fazer se a carne, certa vez, foi fraca em nossas mãos. Com carne e mão já nascemos. Bastam os olhos ou bastam as visões - um filme neste caso - para nos jurar que nisso, como noutras coisas, já nascemos ensinados.

in Nobilíssimas Visões, crónica no Suplemento Vida do Semanário Independente, 21 de Junho de 1991

sábado, 28 de junho de 2014




The water is wide 
And I cannot cross over 
Nor do I have wings to fly 
Build me a boat 
That could carry two 
And both shall row 
My love and I 

There is a ship 
And she sails the seas 
She's burdened deep 
As deep can be 
But not as deep 
As the love I'm in 
And I know not if 
I sink or swim 

But love is gentle 
And love is kind 
As to a jewel 
When first it's new 
But love grows old 
And it fades with time 
And it fades away 
Like morning dew 

Build me a boat 
That could carry two 
And both shall row 
My love and I 
My love and I 
My love and I

domingo, 15 de junho de 2014