quarta-feira, 20 de junho de 2012



"(...) - Aquino diz: "Ad pulcritudinem tria requiruntur integritas, consonantia, claritas". Eu traduzi assim: "São necessárias três coisas para a beleza, inteireza, harmonia e claridade". Corresponderão elas às fases de apreensão? Estás a seguir o meu raciocínio?
- É claro que estou - disse Lynch. - Se pensas que eu tenho uma inteligência de excremento corre atrás do Donovan e pede-lhe que te escute.
Stephen apontou para um cesto que um empregado do talho enfiara, invertido, na cabeça.
- Olha para aquele cesto - disse.
- Estou a vê-lo - disse Lynch.
- Para ver aquele cesto - disse Stephen -, a tua mente, em primeiro lugar, separa o cesto do resto do universo visível que não seja o cesto. A primeira fase de apreensão é uma linha de delimitação em torno do objecto a apreender. É-nos apresentada uma imagem estética tanto no espaço como no tempo. O que é audível é apresentado no tempo, o que é visível é apresentado no espaço. Mas, temporal ou espacial, a imagem estética é, em primeiro lugar, luminosamente apreendida como algo autodelimitado e autocontido sobre o fundo incomensurável do espaço ou do tempo que não é essa imagem. Capta-la como uma coisa. Vê-la como um todo. Apreendes a sua inteireza. Isso é a integritas.
- Em cheio! - disse Lynch, rindo. - Continua.
- Depois - disse Stephen -, passas de ponto em ponto, seguindo as suas linhas de forma; apreendes a imagem equilibrada, parte por parte, dentro dos seus limites; sentes o ritmo da sua estrutura. Por outras palavras, à síntese da percepção imediata segue-se a análise da apreensão. Tendo-te apercebido em primeiro lugar de que era uma coisa, sentes agora que é uma coisa. Apreendeste-a como algo complexo, múltiplo, divisível, separável, constituído por partes, harmonioso no resultado das partes e na sua soma. Isso é consonantia.
- Em cheio de novo! - disse Lynch espirituosamente. - Agora, explica-me o que é a claritas e ganhas um charuto. 
- A conotação da palavra é bastante vaga. Aquino utiliza um termo que parece ser inexacto. Desorientou-me durante algum tempo. Poderia levar-nos a pensar que ele tinha em mente o simbolismo ou o idealismo, sendo a suprema qualidade da beleza uma luz de outro mundo, a ideia da qual a matéria é apenas uma sombra, a realidade da qual ela não passa de um símbolo. Pensei que ele quisesse dizer que clritas é a descoberta artística e a representação do desígnio divino para uma determinada coisa ou uma forma de generalização que tornaria universal a imagem estética, fazendo-a ultrapassar em brilho a sua própria condição. Mas isso é conversa literária. Aqui tens como eu entendi as coisas. Depois de termos apreendido aquele cesto como uma coisa e o termos analisado em conformidade com a sua forma e o termos apreendido como uma coisa, fazemos a única síntese que é lógica e esteticamente permissível. Verificamos que ele é aquilo que é e não outra coisa. A claridade de que ele fala é o quidditas escolástico, a característica de uma coisa. Esta qualidade suprema é sentida pelo artista quando a imagem estética é concebida na sua imaginação. Shelley comparou, magnificamente, a mente nesse misterioso instante a uma brasa prestes a apagar-se. O instante em que essa suprema qualidade suprema da beleza, a clara radiação da imagem estética, é luminosamente apreendida pela mente que foi impressionada pela sua inteireza e fascinada pela sua harmonia é a estase luminosa e silenciosa do prazer estético, um estado espiritual muito semelhante àquela condição cardíaca a que o fisiologista italiano Luigi Galvani, usando uma frase quase tão bela quanto a de Shelley, chamou o encantamento do coração."

diálogo de Portrait of the Artist as a Young Man, de James Joyce

4 comentários:

O Narrador Subjectivo disse...

Para sempre, um dos meus livros preferidos. Leitura muito introspectiva.

João Palhares disse...

É muito bom, sim senhor.

Sabrina D. Marques disse...

Obrigada João, adoro este livro !

João Palhares disse...

De nada, Sabrina.