quinta-feira, 14 de setembro de 2017

THE MORTAL STORM (1940)


1940 – USA (100’) ● Prod. MGM (Frank Borzage, Victor Saville) ● Real. FRANK BORZAGE ● Gui. Claudine West, Anderson Ellis, George Froeschel a p. do R. de Phyllis Bottome ● Fot. William Daniels ● Mús. Edward Kane ● Int. Margaret Sullavan (Freya Roth), James Stewart (Martin Breitner), Robert Young (Fritz Marberg), Frank Morgan (Prof. Roth), Robert Stack (Otto von Rohn), Bonita Granville (Elsa), Irene Rich (Sra. Roth), William T. Orr (Erich von Rohn), Maria Ouspenskaia (Sra. Breitner), Gene Reynolds (Rudi), Russell Hicks (o reitor), William Edmonds (Lehman), Esther Dale (Marta), Dan Dailey, Jr. (Holl), Ward Bond (Franz), Granville Bates (Prof. Berg), Thomas Ross (professor primário Werner).

30 de Janeiro de 1933, numa pequena universidade alemã situada nos Alpes. É o sexagésimo aniversário do Prof. Roth. Quando entra no anfiteatro, é aclamado pelos seus colegas e pelos seus alunos. Longe de ficar indiferente a esta homenagem, por ser um homem muito sensível, Roth temia, pelo contrário, que tivessem esquecido esta data. À noite, em família, sopra as velas do seu bolo de aniversário, rodeado da sua mulher, dos dois filhos desta, Otto e Erich von Rohn, que ama como seus próprios filhos, de Freya, filha de ambos, e do jovem filho deles, Rudi. Tem também em torno da mesa Fritz Marberg, o noivo de Freya, e um amigo da família, Martin Breitner, lavrador local que prossegue os seus estudos de medicina veterinária. Na rádio, essa mesma noite, anunciam a nomeação de Hitler como chanceler. A maioria regozija-se, com a excepção da Sra. Roth, preocupada porque o seu marido é um não-ariano. O próprio Roth fica na expectativa. Esta nomeação vai desmantelar o equilíbrio da família Roth e da sua comitiva. Martin Breitner, por defender num café o seu antigo professor primário, o mestre Werner, que recusou fazer a saudação hitleriana e cantar uma canção à glória do Reich, entra em conflito com os dois enteados de Roth e com Fritz. Mais tarde, chegarão a vias de facto e a Sra. Roth vai ser obrigada a separá-los. Os seus dois filhos mais velhos deixam então a casa familiar e alistam-se na Gestapo, assim como Fritz. Durante a sua aula, o Prof. Roth é interrogado pelos seus alunos : o sangue dos arianos é idêntico ao dos não-arianos ? Ele responde que o respeito pela verdade científica o obriga a dizer que o sangue de todas as raças humanas é absolutamente idêntico. Portanto, a sua aula será boicotada. Assiste a uma queima de obras de Heine, Einstein, etc. Freya rompe o noivado com Fritz, de cujas convicções decididamente não compartilha. Sente-se excluída da comunidade da cidade e vai com frequência conversar com Martin na sua quinta. Ele é seu amigo de infância e ama-a há muito tempo em segredo. Ele tem que levar até à Áustria o professor Werner, perseguido pela Gestapo. Os dois homens seguirão à noite um caminho de montanha desconhecido. Mas Martin não vai poder regressar à Alemanha, para grande desânimo de Freya, que se apercebe que também o ama. O Prof. Roth teve que parar as suas aulas. É detido e encarcerado num campo de concentração. A sua família não tem notícias nenhumas dele. Freya vai suplicar a Fritz que o ajude. O máximo que ele pode fazer é obter uma autorização de visita para a Sra. Roth. O encontro dos dois cônjuges só dura alguns instantes. Roth pede à sua mulher para deixar o país com Freya e Rudi o mais rápido possível. Saber-se-á da sua morte algum tempo mais tarde, supostamente devida a um ataque cardíaco. A Sra. Roth, Freya e Rudi apanham o comboio para Innsbruck. Na fronteira, Freya é detida por estar na posse do último manuscrito do seu pai, um livro de fisiologia. Confiscam-lhe o passaporte e proíbem-na de sair da Alemanha. Ela insiste que a sua mãe e o seu jovem irmão continuem a viagem deles. De regresso a sua casa, Freya volta a encontrar Martin, vindo para a buscar. Nessa mesma noite, fugirão juntos usando a mesma rota de montanha que Martin tinha tomado com o professor primário. A viagem será dura. Uma patrulha da Gestapo liderada por Fritz, que não conseguiu recusar a missão, lança-se no seu encalce. Fritz tem que ordenar aos seus homens para disparar sobre os dois fugitivos ; eles conseguem atravessar a fronteira. Mas Freya foi atingida mortalmente. Morre nos braços de Martin. Fritz comunica a notícia aos dois filhos mais velhos da Sra. Roth : Erich vai dar uma bofetada a Otto que, abalado por esta morte, se congratulou com o facto de Martin, pelo menos, ter podido encontrar a liberdade. 

► Filme admirável que demonstra uma impressionante lucidez política quanto ao contexto histórico imediato. Mais impressionante ainda, o facto de Borzage ter sido capaz de integrar essa lucidez à imensa corrente lírica que atravessa a sua obra por várias décadas. Para Borzage, o melodrama é um género completo, capaz de descrever conflitos e emoções individuais, mas também a evolução colectiva, benéfica ou fatal, de uma sociedade, de um país, e mesmo do mundo como um todo num dado momento da sua história. Borzage procura, além disso, colocar esta evolução num contexto cósmico que aumenta infinitamente as perspectivas. Nenhum filme denunciou o nazismo com mais virulência concreta, enquanto repõe os seus crimes e os seus defeitos na evolução geral da humanidade. No decorrer dessa evolução – é a tese desenvolvida pelo filme – o homem, em certas épocas terríveis, destrói o seu semelhante, que acredita ser diferente, por medo visceral de si mesmo e dos elementos. A sensibilidade dos intérpretes, aqui particularmente vivaz, é o instrumento que Borzage utiliza, como um músico, para se mover constantemente de um registo para outro, de um nível para outro. Ele vai, assim, do individual ao colectivo e do histórico ao metafísico, sem perder o contacto com o seu público, que segue a história de cada personagem como se fosse sua e da humanidade inteira ao mesmo tempo. Esta polifonia é quase única na história do cinema. Borzage faz um aproveitamento quase milagroso das múltiplas vantagens do sistema hollywoodiano (actores de primeira ordem, habilidosa construção do argumento, cenários estilizados, muito distantes do realismo mas fazendo sobressair a atmosfera particular de cada lugar com um grande poder de concentração) e parece nunca sofrer as contingências. Em mais de uma quinzena de filmes (dos quais este é um dos mais belos), Borzage, que no entanto não tinha nada de tirano, parece usar as engrenagens da máquina hollywoodiana a seu favor e fazê-las curvar à sua vontade só com a força da sua sinceridade. Os seus melhores filmes representam realmente, no interior do sistema dos grandes estúdios, a quintessência do cinema de autor, no seu caso uma noção livre de qualquer caricatura e de qualquer tensão.

Jacques Lourcelles, in « Dictionnaire du Cinéma - Les Films », Robert Laffont, Paris, 1992.

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