Mostrar mensagens com a etiqueta Hermann Hesse. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Hermann Hesse. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O raccord (im)possível...



"Deeply, Govinda bowed; tears he knew nothing of, ran down his old face; like a fire burnt the feeling of the most intimate love, the humblest veneration in his heart. Deeply, he bowed, touching the ground, before him who was sitting motionlessly, whose smile reminded him of everything he had ever loved in his life, what had ever been valuable and holy to him in his life."

Hermann Hesse, em Siddhartha

*de HH para HH

"Only Angels Have Wings" - 1939



"Only Angels Have Wings" é do mais tocante e pungente que me foi dado a ver, troquem-se os aviões pela película e aquilo faz para mim todo o sentido. Não o amor ao Cinema e a filmes, propriamente, mas à máquina cinematográfica, a filmar, "Cena 1, plano 2 - Acção!", aquelas sucessões tempestuosas de imprevistos, aquela batalha da ideia com a rodagem que Truffaut referia em "La Nuit Américaine", um nó no estômago, um amor cego que nos faz tudo esquecer, por momentos. Se Hawks sentia o mesmo pelo Cinema que pela aviação pouco interessa, se calhar; que tenha conseguido criar uma impressão arrebatadora e genuína duma paixão "maior que a vida" é o que mais me impressiona.

Reduzir a acção àquelas pessoas, àquele espaço, torna a coisa universal e com um alcance infinito - como os aviões que rasgam os céus e os homens (o Homem) que, nesse momento, tudo podem...

À primeira vista, porém, aquilo pode parecer só um trabalho, os tais "professionals" que, em Hawks, têm apenas de levar a tarefa até ao fim. Como pode parecer que não respeitam os mortos e que aquelas festas não são rituais nem marchas fúnebres, se calhar até mais tristes que uma lágrima ou duas ou a execução literal de tais rituais e marchas...

Como a máscara psicológica que os aviadores têm que "enfiar" para afogar as tristezas e os infortúnios - o ser humano tem muito mais do que a primeira vista (ou a segunda ou a terceira) possa sugerir; e peço desculpa pelo chavão mas é necessário - o filme de Hawks é muito mais do que algo que dura 2 horas (dura tão mais que isso) e que transcende, a cada fotograma, a extensão da película em que é filmado. E será um filme? Pois não sei, a mim parece-me a Humanidade na sua mais intensa complexidade, a nível quase palpável, quase da experiência, quase da existência... Hoje é a Nona, o Siddhartha e o "Only Angels Have Wings" e tenho a certeza absoluta que não são músicas, livros e filmes. Não tenho, aliás, nomes para eles, só sei que juntos fazem todo o sentido...

*E ver Cary Grant a chorar, e nem sei bem porquê, foi coisa que me abalou profundamente...