segunda-feira, 14 de junho de 2010

"Only Angels Have Wings" - 1939



"Only Angels Have Wings" é do mais tocante e pungente que me foi dado a ver, troquem-se os aviões pela película e aquilo faz para mim todo o sentido. Não o amor ao Cinema e a filmes, propriamente, mas à máquina cinematográfica, a filmar, "Cena 1, plano 2 - Acção!", aquelas sucessões tempestuosas de imprevistos, aquela batalha da ideia com a rodagem que Truffaut referia em "La Nuit Américaine", um nó no estômago, um amor cego que nos faz tudo esquecer, por momentos. Se Hawks sentia o mesmo pelo Cinema que pela aviação pouco interessa, se calhar; que tenha conseguido criar uma impressão arrebatadora e genuína duma paixão "maior que a vida" é o que mais me impressiona.

Reduzir a acção àquelas pessoas, àquele espaço, torna a coisa universal e com um alcance infinito - como os aviões que rasgam os céus e os homens (o Homem) que, nesse momento, tudo podem...

À primeira vista, porém, aquilo pode parecer só um trabalho, os tais "professionals" que, em Hawks, têm apenas de levar a tarefa até ao fim. Como pode parecer que não respeitam os mortos e que aquelas festas não são rituais nem marchas fúnebres, se calhar até mais tristes que uma lágrima ou duas ou a execução literal de tais rituais e marchas...

Como a máscara psicológica que os aviadores têm que "enfiar" para afogar as tristezas e os infortúnios - o ser humano tem muito mais do que a primeira vista (ou a segunda ou a terceira) possa sugerir; e peço desculpa pelo chavão mas é necessário - o filme de Hawks é muito mais do que algo que dura 2 horas (dura tão mais que isso) e que transcende, a cada fotograma, a extensão da película em que é filmado. E será um filme? Pois não sei, a mim parece-me a Humanidade na sua mais intensa complexidade, a nível quase palpável, quase da experiência, quase da existência... Hoje é a Nona, o Siddhartha e o "Only Angels Have Wings" e tenho a certeza absoluta que não são músicas, livros e filmes. Não tenho, aliás, nomes para eles, só sei que juntos fazem todo o sentido...

*E ver Cary Grant a chorar, e nem sei bem porquê, foi coisa que me abalou profundamente...

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