domingo, 17 de maio de 2009

"City Lights" - 1931

Aviso desde já que este texto não é sobre, mas sim a propósito de "City Lights".

No princípio de "Luzes da Cidade" de Charles Chaplin, vê-se este conjunto de palavras (depois do "revelar" do título do filme) : "A Comedy Romance in Pantomime Written and Directed by Charles Chaplin". A propósito da pantomima, Chaplin disse isto aquando do aparecimento do "sonoro": "O filme falado ataca as tradições da pantomima que tentámos estabelecer com tanta dificuldade no ecrã e na qual a arte cinematográfica deve ser considerada. Destrói toda a técnica que adquiruimos". Tendo em conta estas citações e o desenvolver da pantomima nos anos 10 e 20, não consigo deixar de pensar que o que o sonoro trouxe foi uma banalização do campo - contra-campo e uma simplificação da linguagem audio-visual. Estou a exagerar, claro, mas tomemos as telenovelas como exemplo. Será que o público "destas coisas" (depois de anos e anos de convivência com os efeitos subversivos da novela) consegue apreciar, ou até mesmo entender a simplicidade aparente do primeiro encontro de "Charlot" com a rapariga das flores. É algo para pensar, certamente. Voltando ao "sonoro", é um facto que ele trouxe possibilidades maravilhosas, e também Chaplin se apercebeu disso, mas não aderiu logo de seguida. E é verdadeiramente interessante observar a transição de Chaplin. O primeiro filme sonoro de Chaplin é "The Great Dictator", mas "City Lights" tem já muito de "sonoro". E "The Great Dictator" tem por sua vez muito de "silencioso". Penso no caso do "Dictator" na cena do globo terrestre, e no caso de "City Lights" na luta de boxe, por exemplo (há mais, muitos mais). "One A.M" (filme cómico que consiste numa luta "corpo a corpo" entre Charlot e um cenário) é de 1916 e em termos de transmissão de mensagens, linguagem.. é muito parecido com "City Lights" e como já aproximei também este último de "The Great Dictator", resta-me então transmitir a minha crença de que a linguagem cinematográfica de Chaplin é tão vincada que não pode ser pensada em termos de "silent" e "talking". Chaplin não fez "mudos" e "falados", fez FILMES toda a vida.

Mais duas coisas: todos os filmes de Chaplin que citei aparecem nesta lista de Jonathan Rosenbaum. A lista é obviamente subjectiva, e cada um pode concordar ou não com ela ( eu acho contestável, por exemplo a ausência de John Carpenter da lista), mas acho que é de visitar.
Porque gosto de estabelecer relações, e neste caso é uma "filiação", sempre achei Jerry Lewis um genuíno e sincero seguidor da arte de Chaplin. Senão veja-se o amor de ambos pela pantomima, e também a criação de dois personagens muito merecedores de empatia por parte do espectador. Mas enquanto que Chaplin é considerado um génio, Lewis anda um bocado esquecido.

Um comentário:

David M.F disse...

Curti bué o texto. É um bom ponto de vista aquele da banalização do campo contra-campo. Nunca tenha pensado dessa maneira disso