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segunda-feira, 12 de junho de 2017

TITANIC (1997)


por João Bénard da Costa

Teimoso como. Exactamente, tiraram-me a palavra da boca. Como ia dizendo, assim teimoso, continuo a insistir que os autores, como as bruxas, podem não existir, mas lá que os há, há. Mesmo no que se continua a chamar Hollywood e não o é mais, mesmo nas super-super-produções em que o "director" está para o filme como o sexo para o amor em Fernando Pessoa ("pode ser igual / ou diferente")? Sim, zurro eu. E uma das minhas provas é este senhor chamado James Cameron (n. 1954), desde Battle Beyond the Stars, produzido por Corman em 1980, até "à maior produção de todos os tempos", essa de que hoje, para surpresa de muitos, me vou ocupar.

Em Battle Beyond the Stars, filme feito por cinco tostões (no tempo em que havia cinco tostões), ainda nem sequer realizador foi. Um tal Jimmy T. Murakami (que é feito dele?) era creditado no genérico como tal. Mas art director, autor dos miniaturais e minimais bizarríssimos décors e supervisor dos, não desfazendo, efeitos especiais, foi Cameron quem deu a uma das muitas variações sobre o tema kurosawiano dos Sete Samurais, a singularidade desse filme, tão singular como os quase contemporâneos primeiros Carpenter e primeiros Cronenberg. The Terminator (1984) e Rambo (1985) têm péssima mas injusta fama. Foi neles e com eles que comecei a tomar a sério Arnold Schwarzenegger, que pelos vistos há quem pense que, na minha boca, só pode ter sentido pejorativo. Escrevo há tanto tempo e ninguém me conhece. Mal com os homens por amor d'el-rei, mal com el-rei por amor dos homens. Não sou o primeiro, não serei o último.

The Abyss (1989), sobretudo quando visto na integralidade (a cópia comercial tinha menos 27 minutos), é, na minha imodesta opinião, um dos mais delirantes filmes dos últimos anos. Ao fundo dos mares, desde Cecil B. DeMille, que ninguém foi como Cameron. Ao outro mundo, também. E quem riu com a literatura final, filho ou neto é ou será de quem riu com Victor Mature a destruir os filisteus em Gaza (Samson and Delilah) (a propósito, já pensaram em Schwarzenegger como filho de Mature?) ou de quem riu com a travessia do mar Vermelho em The Ten Commandments de 1956. No dia em que a América deixar de ser assim, não quero América para nada.

Titanic não é tão bom como The Abyss nem como True Lies (1994). Acho que em parte isso se deve à influência que terá tido sobre Cameron o oceanógrafo Robert Ballard, o homem que descobriu, em 1985, os restos do famoso navio no fundo do mar. Se, desde Griffith e The Birth of a Nation, há um escolho a tornear pelos mais visionários cineastas americanos, esse é a chamada "verdade histórica", a crença fetichista no "resíduo material". O chamado "documentário" do Titanic (as filmagens iniciais no fundo do mar a partir do navio russo) dispensavam-se bem. Por momentos, temi o pior, quando os tripulantes do submarino resumem para quem não sabe a história do Titanic que é suposto conhecerem melhor do que ninguém. É verdade que Cameron (mais uma vez argumentista) mandou um dos personagens mandar à merda o absurdo narrador. Mas essa pobre astúcia não tapa o buraco. E mostrar o cadáver antes do corpo glorioso, também me parece grande salsada. Os factos nunca foram o forte de Cameron, mesmo que, neste caso, sirvam para aquilo em que ele é melhor: mandar a credibilidade às urtigas.

E isso acontece quando em vez do diamante de Luís XVI (bom private joke, pois que um diamante com tal proprietário não é jóia a cobiçar por nenhuma cabeça que se preze) aparece o desenho de Rose em pêlo (Kate Winslet), certamente a última coisa a poder resistir a 84 anos de oceano em cima.

A Rose (a velha de 101 anos é outra ideia menos feliz) cabe introduzir o que já se chamou o "Romeo and Juliet in the Titanic", ou seja a história de amor entre a dita Rose e Jack (Leonardo DiCaprio). A explicação para isso tem sido sucintamente resumida nestes termos: já que o público é suposto saber o fim da história, sirva-se ao público uma história de que ele não sabe o fim. Não me parece que a ideia tenha sido tão primária, até porque quem sabe como acabou o Titanic, sabe também como acabam os Romeus e as Julietas. Só quem tenha visto poucos filmes duvida do destino de Jack, quando ele ganha ao jogo o dinheiro que lhe permite a "last minute voyage" e saúda com tanta euforia o rabo virado para a lua com que nasceu. Como, ainda por cima, já sabemos que Rose sobreviveu, é óbvio que aquele bonitíssimo rapazinho, tão amado pelos deuses, vai morrer jovem e belo. E só não fará um "beautiful corpse" porque os peixes não deixam haver cadáveres desses no fundo dos oceanos.

Mas temos actor (Leonardo DiCaprio vai dar muito que falar) e temos com que nos entreter até ao momento da catástrofe. Além disso, sendo Jack passageiro de 3ª e Rose passageira de luxo, a visita ao paquete todo está assegurada e mostrá-lo todo é importante para o fio condutor da história, de que me ocuparei mais adiante.

A partir do momento em que Rose quer ver os desenhos de Jack, e fica particularmente impressionada com as mulheres nuas (a ponto de não reparar que falta uma perna a uma prostituta que lhe pareceu mais desejável), o tema do desejo (outro tema recorrente da obra de Cameron) cresce no filme. E se Cameron não se deu ao trabalho de retirar do cliché os "maus da fita", desde o noivo à Basil Rathbone, até à mãe, saída de um filme "social" de Wyler ou Stevens, a importância do esquematismo é menor porque tudo o que de interessante se passa tem que ver com o maravilhoso palmo de cara de DiCaprio e com o espantoso corpinho de Kate Winslet. Como já sabemos (o desenho) que a havemos de ver nua, todo o suspense vem do como e quando tal visão será por nós partilhada. E é a essa instância que pode brilhar a sequência do jantar de DiCaprio no restaurante de luxo da 1ª classe, impecavelmente vestido com a impecável casaca que lhe emprestou "the unsinkable Molly Brown", outrora interpretada por Debbie Reynolds e aqui a sempre fabulosa Kathy Bates, única personagem que, pela sua condição de nova-rica, escapa ao tratamento genérico dos passageiros de 1ª classe do Titanic. Fora de classe, pode ser pessoa, o que nenhum dos outros é.

Sempre na mesma perspectiva - ou da mesma perspectiva - é boa a ideia de tratar com relativo pudor o corpo nu de Rose, quando finalmente o entrevemos na sequência "artista e modelo" (magnífico uso do contracampo e magnífica frustração do nosso voyeurismo). E é melhor ainda a ideia de "consumar" o desejo dos protagonistas no porão do Titanic (literalmente, no fundo do barco) mas no interior de um soberbo Buick, juntando o útil ao agradável. E aí (pense-se na perseguição paralela aos amantes malditos) a verosimilhança vai cada vez mais a pique, para triunfo do décor, para triunfo da ideia dramática e para triunfo da correspondência entre o destino do barco e o destino do Romeu e da Julieta. É um noivado no sepulcro, ou é um noivado à beira do sepulcro. Eles não o sabem, mas nós sabemo-lo e, como em qualquer boa tragédia, o nosso conhecimento é o que conta.

Até aí (com as excepções apontadas e uma ou outra mais, como Rose e Jack a brincarem à Vitória de Samotrácia, num plongée herdeiro dos grandes musicais), o argumentista Cameron refreou os ímpetos do realizador Cameron.

Mas desde o momento (coincidente com o orgasmo de Rose) em que os vigias vêem o iceberg (e nós com eles), Cameron pousou a caneta e só pensou na imagem. E, a partir daí, o delírio visual é tão bom como nos melhores exemplo do género e o production number (o naufrágio) é visualmente estarrecedor. Rose e Jack quase se somem (não é com eles que nos identificamos) e são 85 anos de Hollywood (desde 1912 e dos primeiros Griffith e Dwan) que do alto do Titanic nos contemplam e se contemplam. Presente o last minute rescue da libertação de Jack das correntes que o agrilhoavam; presente a total inverosimilhação das idas e vindas (subidas e descidas) dos amantes naquele espaço que só como vórtice se configura; presentes os "gritinhos" de Kate Winslet ("Oh God! Oh God!" durante as horas de afundamento; presentes até aqueles sublimes diálogos - para a história de Hollywood - como no momento em que Rose mergulha e diz que a água está tão fria, obtendo como resposta o genial "I know" de Jack.

E, para uma antologia do grande imaginário trágico-marítimo, ou necro-marítimo, quase ao mesmo plano do Radeau de La Méduse, eu, pessoalmente, incluo a sequência em que o único salva-vidas que volta atrás navega entre aquelas centenas de corpos mortos, flutuantes devido aos coletes, cabeças decepadas sobre a superfície do mar. Não havia luar, mas felizmente (outro anacronismo) a luz do barco é das últimas coisas a acabar e essa sinistra e lunar luz branca compõe um daqueles grandes momentos de cinema que tudo justifica e tudo redime. Nunca o Titanic foi tão belo como quando se inclina e se parte. Como diz um dos passageiros da 3ª classe: "Agora sei que viajo em 1ª. A morte com música".

Há uma velha tradição em Hollywood que diz que filmes de naufrágios naufragam sempre. Apesar dos imensos receios, Titanic está a ser a excepção, prevendo-se, no momento em que escrevo, que venha a destronar Star Wars da posição que detém, há vinte anos, de top-money-making film. É cedo para se conhecerem todas as razões, como hoje já se pode fazer para Gone With the Wind ou para Star Wars.

Mas, ou muito me engano, ou a principal é a correspondência entre o mundo de que o Titanic foi microcosmos e metáfora em 1912 e o mundo de que Titanic filme é correspondência e metáfora em 1998. O relevo que tem a posição das classes (no navio e na sociedade) no filme não é nada inocente nem retrospectivo. Aquele mundo - sabemo-lo hoje - explodiu, quando menos se esperava, porque aquele equilíbrio era insustentável. Dois anos depois, o iceberg chamou-se Guerra Mundial, cinco anos depois Outubro de 1917. Muitos o previram, poucos o acreditaram.

A situação do mundo de hoje aproxima-se perigosamente. Tudo parece tão belo e tão apoteótico como mundo do Titanic o parecia, visto da 1ª classe. A 3ª parecia resignada e resignada foi até que. Olhando as imagens da partida do Titanic, percorrendo a 1ª classe e a 3ª, é difícil recusar a associação e o pressentimento de que algures, numa noite estrelada e de mar calmo, um iceberg se aproxima. Nenhum de nós conheceu a douceur de vivre que conheceram os passageiros de luxo do Titanic em 1912. Mas alguns de nós conhecem - ainda - uma doçura aproximável. Seremos os últimos, como última foi a geração do Titanic?

Do fundo marulhar das águas, do fundo da casa das máquinas do navio, parece ouvir-se a ameaça de uma derrocada semelhante. Talvez seja essa "música ao longe" que permite que este singular filme sobre uma singular luta de classes esteja a esgotar lotações em todo o mundo. Gostamos de ser perturbados por símbolos que não percebemos bem ou que percebemos bem de mais.

P.S. - Inútil dizer-vos onde podem ver Titanic "para a semana que vem". Praticamente em qualquer cinema.

in Para a Semana que Vem, crónica no Suplemento "Indy" do semanário "Independente", 6 de Fevereiro de 1998

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

BRAGA (2010)


Conheci o blog do José Oliveira quando estava no secundário, ainda longe de tudo, meio perdido com esta coisa do cinema e dos filmes, que via por não conseguir fazer as coisas como fazia toda a gente lá na escola, para alguma pena minha. Era o remédio para essas falhas todas. Devo ter faltado a umas aulas ou chegado atrasado por ficar a ver filmes na televisão até às tantas da madrugada. Bizarrias do Carpenter ou do Cronenberg não faltavam. À Quarta havia o Dia C, no Bragashopping, os filmes eram todos a 2 euros. Talvez eu e o Zé nos tenhamos cruzado pelos corredores do Cinemax nesses anos sem o saber, para ver qualquer filme do Anderson ou do Tarantino ou do Scorsese ou do Clint Eastwood, quem sabe. Mas na altura fiquei surpreendido porque não sabia que era possível falar assim sobre filmes - o choque não foi muito diferente do que senti a ler as folhas da Cinemateca do João Bénard da Costa, pouco antes ou na mesma altura. Havia uns livros cá em casa. 

Já não consigo separar isso, também, da decisão de tentar isto do cinema, a memória funciona assim. Lembro-me de ver ligações para os blogs do Felipe Medeiros, do Bruno Andrade, do Sérgio Alpendre, do Daniel Pereira, comentários do Álvaro Martins, do João Gonçalves ou do Francisco Rocha (e depois ir dar também aos blogs deles) e aos poucos ir-se abrindo um mundo novo e onde via uma espécie de resistência às tendinhas, câmaras, aos lopes, augustos e vasconcelos deste mundo. E descobria o Hawks, o De Palma, o Gray, o Coppola, o Moretti, o Fuller (depois o Cimino, o Fulci, o Argento, o Pedro Costa, o Manuel Mozos, o Brisseau...)... Daí para o Pai Natal (depois para o Ato Falho e para o Terça-Feira) foi um pequeno passo. Na altura não tinha maneira de o ver mas já torcia pelo Zé por ter tanta razão e tanta fúria na razão no que escrevia. Era assim que se tinha que escrever, era assim que se tinha que encarar o mundo. Com coragem. 

Depois vieram a Foco e os Encontros Cinematográficos, ainda na Guarda, que foi quando o conheci através da Sabrina. Comecei a ver as curtas dele. O Dá-me uma Gotinha de Água (2013) foi o primeiro que tocou, e muito. Com o Zé Lopes, a Marta Ramos e a Maria Petersen numa espécie de cerimónia, lindíssima. O sol parece que os vê e reduz o brilho em sinal de respeito mesmo antes de começarem a cantar e deixa-os brilhar aos três. E o Zé estava lá para filmar isso. E se calhar esteve lá o tempo que foi preciso para filmar isso. O Maio Maduro Maio (2014) veio um bocado depois e é outro desses milagres, uma travessia pelo espaço, pelos tempos e pelas memórias e com um plano longo e prodigioso numa seara que mete o Sokurov todo num canto, e perdoem-me o sacrilégio mas é nisso que acredito. Depois o Saddle the Wind, o Fala do Homem Nascido, o Longe... 

E antes disso tudo, Braga (2010). Oito planos que correspondem a quatro dias e a quatro noites, olhando para as idas e vindas e passeios e melancolias e correrias e deleites das pessoas que passaram à frente das lentes da câmara do Zé, nesses dias. Um exercício de paciência de quem não passa sem querer olhar para as coisas como merecem ser olhadas nem sem tentar retirar uma verdade disso. Primeiros sintomas do que vem depois, quando o Zé já consegue encher os seus planos com a beleza dos seres humanos. Primeiro, então, a beleza das rotinas urbanas, seguindo máximas Lubitschianas e Fordianas. Lubitsch dizia para filmar montanhas mas já não é possível, eram outros tempos. A máxima aplica-se então a tentar encontrar o melhor ângulo e a melhor aproximação ou a melhor distância para descrever movimentos. Ford costumava sentar-se com o filho (se não me engano, não encontro a história, vai tudo de memoria) durante umas horas e tentar descobrir, olhando para as pessoas que passavam, qual seria a sua ocupação. Posturas e caras e modos de atravessar as ruas mostravam sapateiros, banqueiros, advogados ou professores. Exercícios para depois se filmar o mais difícil, o rosto humano. O plano do espelho de Longe talvez carregue todo esse trabalho, perfeitamente concentrado e diluído. 

E a ficar com um dos planos de Braga, fico com o dos miúdos a correr em círculo na fonte da Praça do Município. Pensa-se sempre, muito mal, que para filmar movimento a câmara se tem que mexer mas se neste caso se mexesse o movimento era anulado e o plano, sim, tornava-se fixo, parado, chato. Assim, como o Zé o filmou, está cheio de vida. O mesmo para o da ponte aérea à beira do Braga Parque, demencial e caleidoscópico. Ainda o da ruela das Frigideiras, triste, melancólico... 

Antes da poesia, a prosa, que é como dizer: antes de Dá-me uma Gotinha de Água, Maio Maduro Maio e Longe, Braga.

(texto publicado no Jornal do ciclo DAR A VER, realizado no Fundão)

domingo, 29 de novembro de 2015

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

On Quantum Mechanics and the Art of Observation.


"In some basic way, according to quantum mechanics, it's not possible for us to be impartial observers. We are participants in reality because we create it as we watch it. In quantum mechanics, this is on a very literal level, and it has to do with wave particle duality and what an object of matter is made up of. Sometimes it's one thing, and sometimes it's another.  

The more you get into physics, the more bizarre it gets. I did a lot of studying after Big Trouble in Little China; I got into physics pretty heavily, especially quantum mechanics, and read a lot of books on it, and felt that there was something in the philosophy of quantum mechanics that would work in a horror film like Prince of DarknessPrince of Darkness being a culmination for me of all the work I'd done in horror movies and of all the horror movies that I've seen, relating them also to science fiction. And I think it finally comes out to Five Million Years to Earth, which was the first movie that I know of that dealt with this kind of science fiction horror—this explanation for the occult. I did it on a little bit different basis, the devil coming alive in a church, bringing his father, the anti-God, back from the mirror world, which relates again to quantum mechanics and particle physics in terms of antimatter, reverse world. 

But I could only dress up the story of Prince of Darkness with particle physics. I really couldn't show what it would be like. I'd love to do that someday, and have a character in a movie who has all the characteristics of the wave in particle physics. It would be really interesting to do. On the other hand, I realize that the audience and most of the public out there has no idea about the Uncertainty Principle. And if they do have an idea about it, they reject it because it's too complicated. You always run into a problem when you're dealing with something like this. It reminds me a lot of the beginning of Casablanca when you show a map and have a narrator tell you what's going on in this particular section of the world. You don't necessarily have to do that in a Vietnam story—you know you're in Vietnam, and here comes the story. 

It's an old-fashioned way of dealing with the lowest common denominator, which is people who don't know anything about where Casablanca is, or what particle physics is, or what the Ark of the Covenant is. And you always run into that if you're going to deal with something that's not common knowledge among the audience like Love Story. I have run into those scenes myself, and it's very difficult. I think Nigel Kneale did exposition pretty well in his Quatermass movies. His characters would talk, but they wouldn't insult each other by saying things that the other already knew. And they would come to a conclusion by piecing together evidence. Those movies were always to me a scientific, Sherlock Holmes kind of situation where you had a Watson character who was a little less educated than Holmes: "I don't get it, what are you getting at, Holmes?" ... "I'm getting at this." And that seems to be what Quatermass did pretty well."

John Carpenter, in Order in the Universe - The Films of John Carpenter, de Robert C. Cunbow, pp. 180-81

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

ENZO G. CASTELLARI


por Nicanor Loretti

ENZO G. CASTELLARI... FIRST OF ALL I should let you know that the G in that name is very important. He almost killed me when I got this interview published in Argentina, and didn’t include the G on the cover of the magazine. It turned out that it came from his original surname: his real name is Enzo Girolami, and he was the son of famous Italian director Marino Girolami, which some of you might remember from movies like Cannibal Apocalypse (yes, the one starring John Saxon). I grew up watching Castellari movies like The Bronx Warriors and Thunder... At a time when we were all expecting a cool sequel to Escape from New York, Enzo came up with the closest thing. He even included cool American actors like Vic Morrow. Years went by and it turns out he was also responsible for impressive westerns like Keoma. A true classic, Keoma stars Franco Nero in one of his best performances and shouldn’t be missed at any cost. Castellari has directed movies in almost every genre imaginable and, unlike most Italian genre directors, he always came up with fun films. Even if it’s not one of his best, a Castellari movie is always fun to watch. 

NICANOR LORETI How did you start working in the film business? 

ENZO G. CASTELLARI I was basically born in the movie business. I spent all my childhood period visiting my father’s set. Then I started my first working experiences an extra, little roles... assistant director... editor... My father was my best teacher. 

The Bronx films are truly cool. What was it like working with Vic Morrow, Henry Silva and Fred Williamson? Are they different from Italian movie stars? 

I have wonderful memories of Vic Morrow. Extraordinary man. A truly professional person. He was my best friend. Henry Silva is a very nice man. A positive person to work with. Fred Williamson knows everything about the movie business and it was very easy to work with him. A real vacation! You have only mentioned these three actors, but I have worked with many known American actors. There is a big difference between Italian and American actors. The American actors come ‘to work’ — they respect the calls, the movie director’s decisions... instead, our Italian actors have a more ‘star’ attitude, except for Franco Nero. He is a real actor!

How did you get Mark Gregory to play Trash [in 1990: The Bronx Warriors]? 

I met Mark [Marco De Gregorio] in my gym. He was seventeen years old then. He was always on the side and trained in silence. Marco had a wonderful athletic body. He was perfect for my Trash!

You’ve directed films based in a lot of different genres: westerns, sci fi, straight action, etc. Which genre do you prefer? 

For a movie director like myself, I love to describe a story in a cinematographic way. First of all I have to be in love with the story, whatever the genre is... but it also has to include action sequences. Of course! The genre I prefer the most is the western. It is the genre that gave me the chance to direct my first movies. I will always have a special feeling towards the western genre.

High Crime includes a lot of amazing high speed chases that remind me of the style of John Frankenheimer. Did you have him in mind at the time or is it just a coincidence?

I adore Frankenheimer. He probably has influenced my way of doing cinema.

Franco Nero and Fernando Rey were in that one. What was it like working with them? 

High Crime was our first movie. It was the first time I worked with Franco. Our friendship and esteem started immediately. We respected each other’s work and we collaborated with great pleasure. We both love the magic world of cinema. Fernando was a stupendous actor. Had a wonderful, classic style, a very elegant person and a great friend. A true professional.

What do you remember about the making of Scaramouche and working with Ursula Andress? 

I do not have good memories about the filming of Scaramouche. For many reasons, which I prefer not to mention. Working with Ursula was just fantastic. She was the light that brought beauty to the film. No rivals. She was a wonderful woman, a nice person, a serious and professional actress. Day of the Cobra tells the story of corrupt bureau officers.

Do you research to tell real life stories like this one? 

Tito Capri (the screenwriter I always worked with) and I do a lot of research together before we start to write a script. Our common friend, Nicola Longo (a professional police officer of the Italian Drug Enforcement) has always suggested and helped us to start and build our stories.

Franco Nero stars in that one; he had the reputation of a true professional. What was he really like?

Franco is an extraordinary professional actor. He falls in love with the story. From the first to the last frame. He is the most fantastic collaborator. We love to work together. He deeply loves the world of cinema. He is my best friend.

You worked with Bud Spencer and Philip Michael Thomas on the Extralarge tv series. Is it difficult making comedic action films? How did Bud and Philip get along? 

If I like the script, whether it is comic or dramatic, I do not have any difficulties to film it. It is always a real pleasure to develop a film following my style. Working with Bud and Thomas was really fantastic! It was always a joy, while not forgetting the professional atmosphere. We worked one intensive year together. I also had other international stars involved in the filming of the six movies. Dionne Warwick, Christopher Atkins, Lou Ferrigno, Erik Estrada, Steven Andrews. Not to forget the German actors. Wonderful experience! Unique. I also had a great and fantastic American and Italian crew.

You worked on several movies with Fabrizio De Angelis. Could you describe your working relationship? 

I do believe the three movies I filmed produced by Fabrizio are the perfect example of collaboration and respect there is between a producer and a movie director. He did give the wonderful chance to work using a lot of different variety of technical equipment. A dream for a movie director!

Sinbad of the Seven Seas featured lots of special effects. How hard is it having to deal with effects like that? 

You have touched a delicate point. The film was interrupted when I had to start filming the visual special effects. The production company [Cannon] went bankrupt when I ended the shooting. The film was not complete. Cannon did not give me the chance to finish. Then many years pass by and I do see the film has been released on VHS. I manage to get a copy... I was very surprised to see that I even ‘produced’ the movie. Which is absolutely not true. I never watched the movie entirely. I only saw the first ten minutes. I could not believe my eyes! A real horror! The most disgusting movie I ever directed. Then I found out that Cozzi was called to direct the new ‘mother and daughter’ scenes instead of the visual special effects, which were essential for the movie. Result: disastrous!

Were you influenced by the Sinbad films of Ray Harryhausen? 

I prefer not to continue with this topic. I hope you can understand. Thank you.

Of all of your movies, which one do you like the most? And which one don’t you like at all? 

The one I do not like is Sinbad and the one I love the most is Keoma!

You’ve made several tv movies and miniseries. What’s the main difference between shooting for the big screen and the small screen?

There are no big differences with Extralarge. I did not film six tv episodes, but I filmed six different movies. The production companies and the tv channels involved in the tv miniseries today give little time and a very small amount of money. This is the major difference.

What do you think about the state of Italian cinema today? 

Today the Italian cinema is in a deep coma. We do all hope for a miracle: to see the Italian cinema successful and strong.

What was it like working with James Franciscus in Great White? What was he like as an actor? 

He was a great professional. He knew all he had to know about shooting a movie and could follow my commands and the camera movements without any problems. I remember that he proposed a change in the screenplay and came up with some dialogue for Vic Morrow, which was very good. Vic was very happy about this and also very grateful. James was truly a great actor.

Was it difficult shooting on the sea? Any complications? 

Shooting on the sea is always very difficult because you’re always depending on the weather, on the wind, on the waves, things you cannot possibly dominate. We shot at the Mar Tirreno, in Italy, in Toscana and in Campania. Also in Georgia and Savannah in the US. Also in Malta, where we had the opportunity of using a big pool that had been built specifically for the film industry. Here we could master the waves and the wind as we pleased. In the middle we built the mechanical shark, which was used via remote control by the technicians.

There were rumors that Universal sued the producers due to similarities with Jaws. Is any of this true? What happened? 

Yes, it’s all true. My movie opened only in Los Angeles and it grossed $2,200,000 in the first weekend. It was an extraordinary success, but it scared the people at Universal, who were preparing Jaws 3-D. So they tried to do a lot of things to shut down my movie, they came up with all kinds of excuses. They said there were a lot of similarities between my movie and the original Jaws... The blond girl, as in the first Jaws, it was a white shark, like in Jaws 1 and 2, etc. So they used their lawyers to stop my movie being screened. In three weeks it had grossed like $16 million. And then, Jaws 3 came out, and it turns out they had copied several scenes from my movie! The windsurfing scene, for example. In the end, the Americans had copied me!

in Cult People: Amazing tales from Hollywood's Exploitation A-list, de Nicanor Loretti

quinta-feira, 25 de julho de 2013

APACHE DRUMS (1951)


É claro que Hugo Fregonese iria acabar por chegar aos olhos e às graças de Val Lewton. Prova-o a sequência nocturna de Saddle Tramp - como diz o Drew McIntosh aqui -, se não o provavam já as experiências estonteantes ainda na Argentina, Pampa bárbara e Apenas un delincuente, este último "peça tão poética, tocante e dinâmica como um mudo de Hitchcock ou de Walsh". Pois bem, não se anda nada longe disso, como não se anda longe das habilidades e minúcias de um Carpenter, dessa economia e desse saber raros de fazer tanto com tão pouco.

Posso martelar no óbvio e falar já do que Fregonese, Lewton e Charles P. Boyle fazem com a luz na sequência-final, na igreja cujas portas são a primeira coisa que vemos no filme, quando as forças exteriores e interiores se batem desigualmente e desalmadamente. Vinte ou menos minutos que são tempo bastante para um desenlace impossível de tão económico, para coreografias com velas, pistolas e cadeiras, para canções e percussões de guerra, para o breu e para os vermelhos de sangue a invadir as janelas altas tão altas que impedem qualquer defesa e para os terríveis tambores que fecham o espaço e matam aos poucos a esperança. Quando ela já não existe, Sally (Coleen Gray) pede a Sam Leeds (Stephen McNally) para dizer isso mesmo aos restantes e chegam ambos à conclusão que todos os outros hão-de querer "the truth", não há final feliz que desfaça esse desespero ou faça esquecer o ter-se ido tão longe. Que estejam índios do outro lado, não interessa, que este cerco é mais que universal. Receptáculo de todas as metáforas e de todos os medos...

É lá dentro também que se batem e resolvem conflitos antigos e que se fazem provas de valor merecedoras das quatro palavras, "This was a man", do reverendo irlandês do Arthur Shields de vários filmes de Ford. É de espaços tão pequenos, lotados e cercados como este, que nasce uma cidade e é daí que se lançam as sementes de uma sociedade. Depois de muito desespero, suor e sacrifício. Há as personagens serem estereótipos e há as personagens serem arquétipos, como aqui o são.

Já no anterior Saddle Tramp havia um desenlace ambíguo em relação ao destino do seu protagonista (nesse, Joel McCrea; neste, Stephen McNally), livre ou condenado a percorrer paisagens e talvez pensando sempre na frase que assombra o Neil McCauley/Robert de Niro do Heat de Michael Mann (revisto há pouquíssimo tempo e por isso, claro, aqui citado, que Mann não é estranho nenhum a estas andanças): "Don't let yourself get attached to anything you are not willing to walk out in 30 seconds flat if you feel the heat around the corner". Essa ambiguidade talvez seja resolvida em Harry Black, fabuloso filme com um Stewart Granger nos becos mais aguçados da angústia, em que também por uns momentos parece avistar-se porto seguro para lançar amarras. Mas aí tão depressa se avistam como se perdem de vista. Sobram outras coisas. Não tão seguras mas que chegam para passar os dias...

E diz-se "venham os próximos perigos e as próximas aventuras"...

domingo, 2 de junho de 2013




It's so strange... But I guess "it beats working" like Mitchum says. (Carpenter sobre Hollywood em Big John)

quinta-feira, 30 de maio de 2013


  1. Hi Mr Carpenter how are you? What you think about Django Unchained? I did not like it.
Still haven't seen it. Too much basketball to watch.

sábado, 11 de maio de 2013

X (1963)




O filme é X. Com um Ray Milland vidente da altura da recta descendente para a glória económica e inspirada do independente Corman, que tornou possível a sua chamada "segunda vida" como actor. Vida nas atmosferas de fim-do-mundo, de enterros prematuros, melodias e assobios homicidas, visões desoladoras ou desenhos do Destino. Já daí vinha no fabuloso Premature Burial, ou se quisermos ir mais atrás, no não menos fabuloso River's Edge de Allan Dwan. Ora Guy Carrel, ora Nardo, ora Xavier, um cientista louco, apaixonado e obcecado, no X (assim só X, como se Corman nos quisesse dar um aviso prévio de que somos obrigados a olhar para essa letra com muita atenção). Dos raios-X àquela incógnita intensa e profunda cujo valor todos procuramos mas não resolvemos. O doutor Xavier destas obsessões tão científicas como da filosofia como de tudo, droga-se com a solução que encontrou para os mistérios da vida, com um desespero que aumenta e o leva a arrastar-se num martírio de vidente ou messias enquanto vai vendo mais e mais...

E mais? Talvez Corman esteja menos para brincadeiras do que se pensa (The Intruder), e quando está (A Bucket of Blood) é para levar ao ridículo os ecos e reverberações de movimentos e gerações em decadência, e que às vezes ludibriam homens sós levando-os a achar que precisam de ovações ocas e vazias mas que só servem de mau substituto para o afecto que, esse sim, necessitam. Talvez em X viva um pouco de tudo isto...

"O que é demais é doença", diz o ditado. O James Xavier de Milland, muito depois daquele cigarro e daquela conversa dos truques, dos talentos e das desgraças e do seu remate quase mitchumiano do "this and nothing more. Nothing more than just a man" no circo de variedades, depois de descer ainda mais, para consultórios em becos escuros, já sem suportar tanta verdade, por ser tão crua, já com os alicerces e as entranhas da sociedade na retina, consegue-se ainda arrastar com estes segredos todos para uma igreja ambulante que encontra no caminho. Chega-se à frente e grita, descrevendo "escuridões quase sem fim" e "uma luz imensa depois disso". Há um olho, depois das formas e depois do tempo. Os sentidos e as verdades absolutas da vida são demais para um homem só.

E como raio se acaba um filme assim? "You see Satan the Devil, but the Lord has told us what to do about it: Said Mathew in chapter 5, 'if thine eye offend thee, pluck it out'. Pluck it out, Pluck it out!" E vamos para negro e talvez para as visões e para as profecias deste Xavier agora tornado Tirésias ou para o breu de alguns destinos demoníacos da fantasia e da ficção-científica ou dos fins de mundo de Carpenter e Rod Sterling que são metáfora para tudo e mais alguma coisa. Basta olhar um bocado à nossa volta.

"Visão raio-x"... O Corman sabia-a toda.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

John Carpenter's top 10 Westerns


1. Rio Bravo (Howard Hawks, 1959)

The greatest Western ever made. It's about a man reclaiming his self-respect. It was made in reaction to High Noon. There you had a sheriff who breaks down and cries when no-one helps him. It's ridiculous. Hawks made Rio Bravo because he was so disturbed by the silliness of High Noon. I've remade Rio Bravo disguised as alien invasion movies and horror films. But if I get a script it's still about zombies eating flesh, it's never going to be about the hero riding into town. Assault On Precinct 13 is based on Rio Bravo - it's the source. Don't take my word for it, ask Quentin Tarantino. He'll insist that you see it.

2. Once Upon a Time in the West (Sergio Leone, 1968)

It is a masterpiece, an opera, and it's so slow. What is going on? Forget it. Let yourself go. It's awesome. Charles Bronson actually looks beautiful in it. That rugged face. It's the most mythic movie I've ever seen. The art direction is incredible. Shot partly in America and partly in Spain, by an italian director, and it is one of the most incredible American Westerns I have ever seen. I've actually stolen a line from it and put it in pretty much all my movies: Henry Fonda wants to know who Charles Bronson is, and Bronson says, "I'll tell you... at the point of dying." An absolutely outrageous movie.

3. The Searchers (John Ford, 1956)

Great film. Something about this movie really resonates with me; that last shot where the door closes on John Wayne and closes on that part of the West. It's a sad movie, made by an old man looking back. John Wayne plays a despicable person. A racist. It has many depths and layers to it. America doesn't have many myths. The one myth we have is the Western. These ragged revolutionary don't-fuck-with-me people who killed the Indians and said, "We're gonna take this land." Flawed people against the unending prairie sky. It's so much of the American character. We're assholes and we don't apologise for it.

4. Red River (Howard Hawks, 1948)

This is one of two classic stories: Mutiny On The Bounty and Moby Dick. John Wayne, again, plays a real jerk. He's almost evil. He kills a load of Mexicans, tries to kill his adopted son, tries to seduce the woman who loves his son. It's a Greek fuckin' tragedy. I love the speech Wayne gives his men: "This will be the worst thing that's ever happened to you. If you wanna quit, quit right now." That's exactly the way I approach making a movie. You don't wanna make this film? I understand. But if you bail out on me half.way through, I'm not going to forgive you. To me that is a lesson about what it is to be a man.

5. The Wild Bunch (Sam Peckinpah, 1969)

It's a highly romantic film and people don't seem to realise it. What William Holden and his bunch are about is loyalty. Holden says it: "If you're not loyal to your fellow man, you're an animal." It's about humanity rising out of killers. It's amazing. Technically, it changed the way we saw action. Every director who's ever tackled an action scene has watched that movie. Peckinpah was a very violent man. Drugs, booze and violence killed him. That guy lived the party. He'd pull a knife on you if you wanted to fuck with him. Don't fuck with Sam Peckinpah.

6. Stagecoach (John Ford, 1939)

I don't know how to explain it other than the fact that I also love The Wizard of Oz. It's corny, fun, old-fashioned movie-making. Is John Wayne a good actor in this movie? No, he is not. Ford was one of the meanest directors ever. He was like Peckinpah, only worse. He'd torture you, physically. He tortured this actor called Paul Fix. Paul had to fall down on some rocks and he did it once, twice, and then said, "Mr. Ford, I'll do it again but don't ask me to do it anymore." Ford made him do it 22 more times, till the guy was bloody, just to fuck with him. He was an evil guy.

7. How the West Was Won (John Ford/Henry Hathaway/George Marshall, 1962)

70mm, Cinerama, stereophonic sound, a stunner. The final sequence, on the train, is unreal. They killed a stuntman during that, but it's spectacular. The best section is directed by Hathaway. The Genghis Khan of film-makers. He's dead now, so we can talk about him. Once he was shooting a film on his own property and he was going to do a shot and they said, "We can't, they're building a house over there." He said, "You wanna bet?" He gets on the phone and has his men tear down the building so he can get his shot. An absolute tyrant.

8. The Naked Spur (Anthony Mann, 1953)

It's a very flawed movie. Janet Leigh is in it, Robert Ryan is just awesome and James Stewart is, again, a guy who's not good. There's something really savage about the world in an Anthony Mann film. James Stewart is such a good guy in most movies and only in Anthony Mann Westerns does he get to be this totally weird, screwed-up guy. There's a part of James Stewart in this film that's evil. I respond to the bad men in Westerns. Heroes playing bad men - that's interesting. A movie's only as good as it's bad guy. In Westerns they can really be nefarious.

9. North to Alaska (Henry Hathaway, 1960)

I have no artistic reason for putting this in. Another Henry Hathaway movie. The guy is beyond obscure. He will never get any credit for anything. He's made some great movies, and he's also made some crap. This has John Wayne, Stewart Granger and Fabian. It's a comedy Western about the golf rush in Alaska. Put aside all your critical thinking and watch it. It is a hoot. John Wayne overacts, everybody overacts - it doesn't matter. In one scene in this movie, John Wayne gets hit and he loses his toupé. If you freeze frame, you can see it flying off. I recommend it highly.

10. True Grit (Henry Hathaway, 1969)

Another Hathaway film. Wayne overacts, Robert Duvall is the bad guy and Glen Campbell is horrible. You can't help but love it. Wayne actually dies. When your hero dies, it's: "Whoa, wait a minute!" I was part of a darker movement but I kind of had a foot in this lighter age. I miss that. It's a difficult time right now. I would love to have done Tombstone. Kurt and I talked about that. It would have been wonderful to get together on that. I would have done it totally different. Same cast, same lines and same story but utterly different. But no-one's going to consider me for that. Hell no.

visto aqui

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A 'obscenidade' em Hollywood (VII)* - recortes

I / II / III / IV / V / VI



"(...) Se houvesse um homem que ousasse dizer tudo quanto pensa deste mundo, não restaria um palmo quadrado de terra onde ficar. Quando um homem aparece, o mundo cai sobre ele e quebra-lhe a espinha. Restam sempre em pé pilares apodrecidos demais, humanidade supurada demais para que o homem possa florescer. A superestrutura é uma mentira e o alicerce é um medo enorme e trêmulo. Se com intervalos de séculos aparece um homem de olhar desesperado e faminto, um homem que vira o mundo de cabeça para baixo a fim de criar uma nova raça, o amor que ele traz ao mundo é transformado em fel e ele torna-se um flagelo. Se de vez em quando encontramos páginas que explodem, páginas que ferem e queimam, lágrimas e pragas, sabemos que elas provêm de um homem com as costas na parede, um homem cuja única defesa restante são as suas palavras, e as suas palavras são sempre mais fortes do que o peso mentiroso e esmagador do mundo, mais fortes que todos os ecúleos e rodas que os covardes inventam para esmagar o milagre da personalidade. Se algum homem ousasse traduzir tudo quanto há no seu coração, expressar o que é realmente a sua experiência, o que é realmente a sua verdade, penso que o mundo se despedaçaria, que se reduziria a pedacinhos e nenhum deus, nenhum acidente, nenhuma vontade poderia jamais reunir novamente os pedaços, os átomos, os elementos indestrutíveis que entraram na formação do mundo. 

Nos últimos quatrocentos anos desde que apareceu a última alma devoradora, desde que existiu o último homem a conhecer o significado do êxtase, tem-se verificado um declínio cconstante e firme do homem na arte, no pensamento e na acção. O mundo está gasto: não resta um peido seco. Aquele que tem um olhar desesperado e faminto poderá sentir a mínima consideração pelos governos, leis, códigos, princípios, ideais, ideias, tótemes e tabus existentes? Se alguém soubesse o que significou ler o enigma daquilo a que hoje se chama uma 'racha' ou um 'buraco', se alguém tivesse experimentado o mínimo sentimento de mistério acerca dos fenómenos que são rotulados de 'obscenos', este mundo teria estoirado. É o horror obsceno, o aspecto seco e fodido das coisas que faz com que esta louca civilização pareça uma cratera. (...)" (Henry Miller, in Trópico de Cancer)

* Já me tinha esquecido desta série de posts, que começou depois de ver o Showgirls. Lembrei-me dela depois de ter lido este post do Ricardo Lisboa. Tenho uma data de séries pendentes, etc, etc. Prometo acabar esta, pelo menos. Seguem-se Alfred Hitchcock, Billy Wilder, Blake Edwards e Verhoeven, no fim, só para dar a ideia que ainda não perdi o fio à meada.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

PROFONDO ROSSO (1975)


Movies are pieces of film stuck together in a certain rhythm, an absolute beat, like a musical composition. The rhythm you create affects the audience.

Unfortunatelly, he takes himself so seriously, these days. He's an artist now (sobre David Cronenberg, aqui)

John Carpenter

Il fallait de l'audace pour oser pasticher le lyrisme de ces deux films testaments en forme de calligraphies baroques. Le résultat est inattendu. Comme si Hongkong avait inventé son western-spaghetti, le Mizoguchi-spaghetti.

Louis Skorecki, sobre Raining in the Mountain

É difícil para muita gente transpôr - ultrapassar - a barreira do Género, a barreira do conteúdo, a que parece distinguir os pequenos dos grandes temas (e os pequenos dos grandes filmes). Parece fácil perceber quem faz disto o cinema, uma brincadeira - os realizadores de género - e quem abraça a coisa de uma forma mais séria - os "autores", os "artistas", os "realizadores". Isto, como é óbvio, é tudo exterior aos filmes, tem que ver com "credibilidade", com os meios e festivais que se frequentam, com as coisas que se dizem, com a "ambição" que se tem, com a sociedade, um bocado. Em termos de cinema, é muito fácil - e parece lógico, até - dizer que alguém como o Haneke é um artista e que o John McTiernan é um "gajo que faz filmes". Torna muito difícil perceber, se for caso disso, que o segundo é melhor cineasta que o primeiro, porque até pode ser verdade - e eu, por acaso, acho que sim; acho até que o Haneke nunca há-de fazer um filme tão prodigioso como o terceiro Die Hard. Isto tudo para dizer o quê? Que sim, talvez, tem-se muitas vezes por arte no cinema aquilo que nos fala de coisas "filosóficas", "profundas" (sem tentar perceber ou desenvolver bem esses conceitos), enfim, envolvidas numa paleta "austera" e "bonita" que um grande director de fotografia pode oferecer, muito própria para tertúlias "filosóficas" em que se martela e insiste no óbvio, com "de factos", "realmentes" e outras introduções pomposas de discurso. E isto é muito triste.. por isso é que é preciso dizer coisas como "ao melhor Haneke oponho o pior McTiernan".. mesmo não sendo verdade que Medicine Man seja melhor que Funny Games.. (e daí talvez até seja..)

Os filmes são coisas muito concretas, têm todos uma equipa, realizador, técnicos variados, sejam gravados em película ou digital. Vêm todos em latas de metal (a tendência é passarem a vir cada vez menos) e podem - devem! - ser comparados. Um filme é um filme.

Os temas sociais?

Isso. A televisão, felizmente para o cinema, recuperou uma grande parte dessas discussões, e hoje é a televisão que se deve encarregar, e é muito bem feito, de tratar os grandes temas, a sociedade, o bem e o mal, o racismo e tutti quanti. O que não quer dizer que os filmes se devam desinteressar do bem e do mal, do racismo, etc. Mas portanto Chabrol dizia, em traços gerais: é preciso pegar nos pequenos temas que não têm nada de especial e transformá-los em grandes filmes, em vez de pegar nos grandes temas e fazer com eles pequenos filmes!

(Jacques Rivette, em entrevista)

É preciso pegar nos pequenos temas e transformá-los em grandes filmes.


Dario Argento não tem grandes pretensões para além de levar uma cena, mesmo um plano, até às últimas consequências, é um cineasta de obsessões formais e criativas. Rítmicas. Sim, trabalhar um filme como se de uma composição musical se tratasse. Não me parece que quisesse (ou queira) reclamar um lugar ao sol, respeitabilidade ou grande recepção crítica. O prémio por fazer um filme é fazer o filme, não há segundas intenções. Se é mesmo assim ou não, não sei, mas há uma aura de artesanismo e amor ao trabalho que passa através dos filmes do italiano, por explosões de côr, travellings impensáveis, conjugação de som e imagem, música e cores, que se nos invadem e nos fazem crer nisso mesmo. Nuns mais que noutros, é verdade. Talvez mais neste e no La Sindrome di Stendhal, as obras-primas de Argento (com a certeza, ainda assim, de que tenho que ver alguns e de rever outros).

Mas o que advém disto tudo, é o acreditar-se nos pormenores mais recônditos de uma estória, de escavar e escavar (e escavar) a fundo no que ela pode oferecer. Andar em círculos dispostos em camadas até ao full circle, até ao fechar narrativo, onde tudo bate com tudo. Minuciosamente. Há uma cena, um dos círculos da estória que mostra Marcus (David Hemmings) a tentar desvendar a história da "casa assombrada". Argento, como Marcus, perde bastante tempo a desenvolver esse "desvendar" por estar absorto (e nos absorver a nós) em pormenores, justamente (diferentes pontos de vista, subidas de escadas, passos na escuridão, panos a cair, garrafas pisadas no chão, paredes e o que elas escondem). Não é a meta que interessa, é o caminho.. Depois de chegar a um dos pisos superiores da casa, Marcus pega numa lixa para ver o que esconde uma das paredes:








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Parece-me uma cena ilustrativa da força argentiniana: o escavar, a obsessão, a ponte entre Antonioni e DePalma (mais concretamente, Blow-Up e Blow Out), ter a perfeita noção e conhecimento dos conceitos e das formas com que se trabalha.. de perceber que tudo tem implicações, de explorar isso no fim com inteligência, sim, mas respeitando a nossa, também.

Dizia o Tarantino há uns tempos que já não via filmes em que surgiam dados novos a cada minuto que passava, porque havia medo de arriscar em termos narrativos (ou coisa parecida). Devia estar a pensar que já não se fazem filmes como este..

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

2011


Mario Bava

Passou-me completamente ao lado, este ano de cinema. Porque quis que passasse, se calhar, não sei.. Num 2011 ideal, o Rivette estreava um filme, o Resnais, o Kiarostami, o De Palma e o James Gray, idem. Num mais ideal ainda, o Jerry Lewis realizava e escrevia uma comédia com o Jim Carrey como actor.. Não vi os novos do Cronenberg, do Skolimowski, do Wiseman, do van Sant.. enfim, os Panahis, os Wakamatsus, o Canijo. Vi o primeiro plano do Melancholia e jurei não continuar, vou ver se faço disso a minha resolução de ano novo. Não sei porquê, não achei grande piada ao Hellman, mas vou revê-lo..

A descoberta do ano é o terror italiano, a sessão de cinema é a do Xavier na Guarda, o torrent do ano é o Noises Off do Bogdanovich e o megaupload do ano, o Profondo Rosso. Os dvds do ano (não os lançamentos, mas os que vi) são a caixa do Dr. Mabuse e o Rally Round the Flag, Boys!, do McCarey (edição portuguesa, cinco euros, Cinemascope imaculado). E o vídeo de YouTube do ano. Entre o que vi, o que não vi e o que não quis ver, ficam (estreados este ano em Portugal):

1. Tóquio (a curta do Carax (!!!!) e a do Bong (!) )
Hereafter
O Estranho Caso de Angélica

2. Habemus Papam
The Ward
Winter's Bone

3. Tree of Life (pelas cenas nos anos 50; fosse o filme todo só aquilo e, sim, tínhamos o 2001 de 2011, se calhar muito mais)

Mas vejam antes estes balanços aqui: 1 2 3 4 5 6 7 8 9

*adenda: o concerto do ano é o dos Acid Mother Temple & the Melting Paraiso U.F.O. no Hard Club: Puta que pariu!