sábado, 20 de junho de 2009

"Céline et Julie vont en Bateau" - 1974


"Le plus souvent, ça commençait comme ça":


Antes de mais, 1974 é um ano extraordinário:

"F For Fake" de Orson Welles - prodígio da montagem e da realização, um espelho da actividade cinematográfica. "Parade" de Jacques Tati - prodígio da montagem e da realização e também um espelho da actividade cinematográfica. Ambos Welles e Tati são os "protagonistas" destes filmes, e os filmes, esses são marcos, obras-primas, que ainda hoje e muito infelizmente (ou não), estão à frente do tempo.



"Céline et Julie vont en Bateau" é tudo o que estes filmes são: Obra-prima de Jacques Rivette, filme revolucionário em termos narrativos e um profundo estudo do labor cinematográfico.

1974 parece-me ser aliás o ano em que mais se pensou o Cinema em filmes: Nesse ano, Francis Ford Coppola e Sam Peckinpah (e isto já é uma análise mais subjectiva) propuseram abordagens bastante interessantes à realização cinematográfica: "The Conversation" e "Bring Me The Head of Alfredo Garcia". Porque Harry Caul e Bennie são alter-egos dos seus realizadores e os trabalhos que lhes incumbem ( a gravação em "The Conversation" e a demanda pela cabeça em "Bring Me The Head of Alfredo Garcia) podem ser vistos como metáforas para o papel ou o trabalho do próprio realizador num filme.



Mas voltemos a "Céline et Julie":

Jacques Rivette é o responsável pela "mise-en-scéne" ( é assim que vem creditado no filme) e na boa tradição da Nouvelle Vague ( pois também faz parte dela) cruza várias referências literárias e cinematográficas, de Lewis Carrol (Céline e Julie são duas Alices) a Howard Hawks ("Gentleman Prefer Blondes" vem logo à cabeça).

O argumento foi escrito pelo "metteur en scéne" e pelo elenco (parte do ritmo e da dinâmica do filme derivará desse facto) e é o exemplo paradigmático de como um guião inventivo (neste caso até revolucionário) pode vencer a escassez de meios. E porque é que "Céline et Julie" é revolucionário em termos narrativos? - Porque é uma desconstrucção do próprio conceito da narrativa: O que é uma história? O que é um espectador, qual é o seu papel? O que é um filme?
Julie e Céline são uma bibliotecária e uma mágica, respectivamente e conhecem-se no princípio do filme ( naquela que é das mais memoráveis sequências de perseguição no Cinema). Céline revela então a Julie que esteve numa casa ou numa história onde viviam quatro pessoas. Lá fez de empregada e depressa convidou Julie a participar também, e ambas entram na história comendo rebuçados ( isto foi visto na altura da estreia como uma metáfora para a LSD) e vivem-na vezes sem conta.

"Céline et Julie" é uma metáfora infinita: Metáforas sexuais, políticas, cinematográficas, está tudo lá. "Céline et Julie" é a Vida, é o Mundo, é o Cinema. "Céline et Julie" é isso tudo e mais ainda, porque não há palavras que possam descrever "Céline et Julie vont en bateau".

Entrevista a Jacques Rivette e Críticas de Jacques Rivette

Nenhum comentário: