sexta-feira, 5 de junho de 2009

"Cigarrette Burns" - 2005





Falei de John Carpenter há 4 posts por circunstância, e a bem dizer, ele merece mais que uma mera circunstância. Dedicarei por isso este post ao realizador e ao último filme que vi dele. Filme que me marcou profundamente, como me marcaram aliás todos os "carpenters".

De "Vampires", primeiro filme que vi do mestre, a este "Cigarrette Burns", a excursão, a viagem pela sua obra tem sido alucinante e tornou-se inesquecível, permitindo-me descobrir obras-primas absolutas como "Escape From L.A." ou Prince of Darkness.

Mas não serão obras-primas todos os filmes de Carpenter? E não serão os últimos filmes ( de Escape from L.A. a Cigarrette Burns - não vi Pro-Life) o culminar da sua arte, da sua visão do mundo, obras de um artista em estado confessional até?

O cinismo e o cepticismo, a anarquia e a rebeldia, sempre presentes na obra de Carpenter, são nestes filmes de uma força demolidora e em L.A. e Burns até magoam, doem, porque em última instância nos remetem para o próprio destino de John Carpenter como cineasta (do seu sucesso crítico e comercial nos anos 70 e 80 até ao declínio nos anos 90) e também para a sua relação de amor/ódio com Hollywood.

Os estúdios em ruínas no fundo do mar em "L.A" e a cinefilia demente, levada às mais cruéis consequências em "Burns". Dois filmes que nos avisam que o Cinema está a morrer (L.A:) ou que já está morto ("Cigarrette Burns") e que acabam como acabam todos os filmes de John Carpenter. Em plena, ainda que estilizada desgraça.

A queda de Carpenter teve que ver, penso eu, com o rótulo de "mestre do horror". Um pouco como Hitchcock nos anos 40 e 50 (glória absoluta) e nos anos 60 e 70 (declínio). Hitchcock era o "mestre do suspense" nos tempos "áureos". Só que há realizadores, como há escritores, que não fazem filmes ou escrevem livros num determinado género, mas são antes o próprio género. Hitchcock fez filmes "hitchcockianos" sempre, mas foi catalogado num género: o "suspense". E este género sofreu as habituais transformações estilísticas, estéticas através de realizadores como Polansky ou Brian de Palma, deixando Hitchcock na penumbra. Ele continuou a fazer os SEUS filmes, os filmes que podia, e aliás devia fazer e "Frenzy" e "Marnie" permanecem como obras-primas dentro da filmografia hitchcockiana.

John Carpenter teve o mesmo destino, ainda que não tivesse o mesmo estatuto de Hitchcock, penso até que nunca terá. Nunca foi considerado um autor nos Estados Unidos, só na Europa. Mas em Portugal teve e tem bastantes admiradores: o falecido João Bénard da Costa (que o trouxe inclusive a Portugal para uma retrospectiva da sua obra), Mário Jorge Torres do Público (que aclamou "Vampires" e "Ghosts of Mars" como obras-primas e descendentes directos do Cinema Clássico Americano).

Porque é que um cineasta como John Carpenter não faz filmes, longas metragens, desde 2002 (claro que pode continuar a fazer tele-filmes de uma hora até com um terço da qualidade de Cigarrette Burns)? Porque é que o público e a crítica norte americanos o abandonaram? Porque é que estão a "refazer" os seus filmes?, os tais dos tempos áureos, em que era o mestre do horror.

Mestre de Horror, "Masters os Horror": Convidaram Carpenter a participar nesta série norte-americana em 2005 e Carpenter aceitou (são poucas as oportunidades), fazendo não um filme de terror, de Horror, mas um filme carpenteriano e um grande filme, por sinal.

Foi para falar deste filme que me alonguei na descrição da carreira de Carpenter, era preciso. John Carpenter`s Cigarrette Burns é um filme violentíssimo, originalíssimo, um grito de revolta. Um filme onde os cinéfilos, os "filhos" do Cinema, os que amam a 7ª Arte acima de todas as coisas são castigados, sofrem, como sofreu Carpenter. Se o alter-ego do realizador em "L.A. é Snake Plissken, em "Cigarrette Burns" ele está em todas as personagens, e ainda mais nas que vêem as tais "cigarrette burns" do título.

É um filme de quem já não acredita no Cinema, ou de quem já não acredita que ele possa existir, e mais uma vez, não é um filme de terror, mas um filme realista, o mais realista de todos até: HAVERÁ CINEMA NUM MUNDO EM QUE JOHN CARPENTER NÃO FAÇA FILMES, "FEATURE FILMES" E EM PELÍCULA HÁ QUASE 10 ANOS?


2 comentários:

Coldsector disse...

Excelente post João, fico contente por ter tido a oportunidade de te puder mostrar este "Cigarrette Burns" numa sala de "cinema" e com as melhores condições que nós conseguimos arranjar, é sem dúvida um dos melhores episódios da primeira época do Masters of Horror e claro tinha de vir da mente virtuosa do Carpenter.

Espero continuar a ter a tua companhia sempre que possível e que me continues a mostrar o resto da obra do Carpenter que infelizmente ainda não vi.

Não achas que nos deveríamos juntar e fazer um "Beginners of Horror" lá pela universidade?

Harry Lime disse...

Pois, foste tu que tiveste a grande ideia de passar o cigarrette burns. Muito obrigado, foi o único filme do carpenter que vi na tela gigante, onde deve ser visto e claro, vou continuar a dar te a conhecer filmes do carpenter e ao resto do pessoal também.
Fazermos filmes de terror? Acho que é boa ideia, sim senhor.