sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Buster Keaton x 5



Buster Keaton (assim o baptizou Harry Houdini, por ter caído aos 6 meses de umas escadas - "buster", naquela altura, era algo como "queda") nasceu em Piqua, no Kansas no ano em que, também, o Cinema nasceu e foi um génio da pantomima e do mudo. Em pequeno trabalhou com os seus pais, em digressão, num show de vaudeville chamado "The Three Keatons", espectáculo em que era a atracção com as suas quedas e contorções.
A "Gerry Society", uma comissão de protecção de menores, não via com bons olhos o espectáculo e em 1907, depois de várias tentativas, ganhou a batalha judicial contra os Keatons. A família é forçada a ir para Inglaterra em digressão, mas as coisas não correm bem, acabam em teatros reles, de segunda. Já nos Estados Unidos e depois de várias discussões e lutas, Keaton e a mãe mudam-se para Nova Iorque.

Depois de servir o seu país na primeira Grande Guerra, Keaton conhece Roscoe Arbuckle (Will Hays sabe quem ele é) e oferece-se para trabalhar com ele e para Joseph M. Schenk. A coisa corre bem e depois de 14 filmes juntos, Keaton consegue uma produtora só para ele (cortesia de Schenk), a "Buster Keaton Comedies", onde tem absoluto controlo criativo. Foi lá que fez os seus melhores filmes (curtas e longas), antes do declínio que o sonoro lhe reservou.

Ver 5 destes filmes há umas semanas foi regressar a um tempo em que havia um amor desmedido ao Cinema e à montagem (Keaton foi um dos seus pioneiros), à Arte, quando se vivia o acto de fazer filmes de uma maneira, hoje, inimaginável ou, até, impensável (e aqui basta lembrar a sequência da tempestade de "Steamboat Bill Jr.", o mais arrojado "número" do Keaton "duplo")
Do radicalismo formal de "The Electric House" (1922) à multiplicação "melliesiana" de "The Playhouse" (1921), passando pelo burlesco corrosivo de "The High Sign" (1921) e pelas variações cómicas entre o espaço e o tempo de "One Week" (1920), a obra de Keaton é fabulosa, e dizem-me mais as curtas dele do que as de Chaplin - as longas, claro, são outra história e "One A. M." é uma curta fantástica, ainda assim.




E apesar de "Steamboat Bill Jr.", "The Navigator" e "The General" acho que não há filme de Keaton que eu prefira a "Sherlock Jr.", o melhor dos cinco que vi nessa semana. Aqueles passeios entre a realidade e a fantasia não perderam encanto algum, os "gags" inventivos de Keaton não conhecem, aqui, barreiras. O Cinema é "dissecado" através dos sonhos de um projeccionista - ele tenta provar o seu valor e o seu amor por uma rapariga, na realidade e com a ajuda da imaginação (e ao contrário, também). O filme, quanto mais não seja, ensinou as pessoas a acompanhar (e a construir, também) personagens e uma história olhando a cada efeito e a cada plano, a cada "stunt" e a cada sobreposição, a cada som e a cada imagem - a cada movimento. "Sherlock Jr." é um filme analítico, meticuloso (foi o filme que Keaton mais tempo demorou a fazer) e um dos mais divertidos do seu autor.

A Cinemateca Portuguesa vai exibir a partir de dia 12, todas as curtas de Keaton / Buster Keaton no Senses of Cinema / Damfinos: the International Buster Keaton Society Website

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