sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

"The General", por Eric Rohmer



"A comédia de Buster Keaton, que poderíamos designar por comédia da contemplação, exerce-se a qualquer momento, pois não recorre ao efeito surpresa. Recorre ao espanto, o que é outra coisa completamente diferente. Dito isto, devo confessar que, ao ver, pela segunda vez "The General", não me ri nem um instante, o que pode parecer estranho, pois a comédia, precisamente, não assenta em nada inesperado.

Na verdade, penso antes que o inesperado se encontra em cada segundo da história que se desenvolve perante os nossos olhos. Sendo assim, será que este cinema não aguenta a "releitura"? Antes pelo contrário. O que digo não constitui qualquer tipo de reserva. Na segunda, na terceira, na enésima visualização, não senti aquele sentimento incómodo que nos domina, ao vermos uma cena que se quer engraçada e que não chega a fazer-nos rir. O riso e a comédia estavam lá, já não em si, para mim, mas, como diria o filósofo, de si para si, latentes no filme e dando lugar a uma impressão de grandeza épica que eu queria, agora, saborear sozinha. Foi uma impressão que nunca tinha tido e que só voltei a ter, desde então, com Griffith e Murnau. Foram eles três que me revelaram os segredos de uma das operações capitais da encenação cinematográfica: a organização do espaço. Mas falemos antes do riso. Afirmaram que nascia de um sentimento de superioridade benevolente ou malevolente. No caso dos heróis cómicos do cinema mudo, costuma ser benevolente em relação a eles próprios e malevolente em relação aos seus parceiros. Vemos um pouco Charlot como uma criança insuportável e cujas travessuras nos encantam, o que não impede que as suas infelicidades possam comover. O riso crítico é dirigido aos outros. Pelo contrário, o riso que suscita Buster Keaton é da mesma natureza que o que provoca uma jovem criança que leva a sério uma tarefa aparentemente inadequada à sua idade e às suas capacidades. Uma criança que tenta ser "como os mais crescidos". Uma certa condescendência, mas também uma verdadeira admiração misturam-se com este riso. (...)

Com Buster vêem-se poucos gestos expressivos, resíduos da mímica antiga ou contaminação chaplinesca que destoam, normalmente. Só executa os movimentos exigidos pela acção e cuja eficácia é comprovada a qualquer momento. Buster está sempre a trabalhar. Pelo contrário, Charlot procura não fazer nada ou tenta saborear a sua tarefa. (...)

Os valores que defende a personagem são os do mundo onde vive, os quais se encarregará de exagerar. Este moralismo, nada mais nada menos do que o mecanismo aparente do seu jogo, começou por lhe fazer perder a admiração da intelligentsia, que preferia o anticonformismo, o niilismo de Chaplin. Aqui, nada é corrosivo. Não há crítica da sociedade estabelecida, mas, sob o respeito e a atenção que se lhe dá, esta não deixa de fazer transparecer as suas contradições.
A crença do herói na pureza de um ideal cavalheiresco choca com a dureza do mundo das coisas e dos homens."

Eric Rohmer, "Positif", nº 400, Junho de 1994

Já agora, os cinemas de Rohmer e de Keaton não se me afiguram tão diferentes como isso e a semelhança não passa apenas pela tal "organização do espaço", mas também pelo uso de planos gerais, um achava-o um plano cómico e o outro um plano realista, e passará, eventualmente, por outras coisas, o "Conte d`été, por exempo, parece-me muito "keatoniano" - a juventude que "tenta ser como os mais crescidos", eheh...

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