sábado, 11 de maio de 2013

X (1963)




O filme é X. Com um Ray Milland vidente da altura da recta descendente para a glória económica e inspirada do independente Corman, que tornou possível a sua chamada "segunda vida" como actor. Vida nas atmosferas de fim-do-mundo, de enterros prematuros, melodias e assobios homicidas, visões desoladoras ou desenhos do Destino. Já daí vinha no fabuloso Premature Burial, ou se quisermos ir mais atrás, no não menos fabuloso River's Edge de Allan Dwan. Ora Guy Carrel, ora Nardo, ora Xavier, um cientista louco, apaixonado e obcecado, no X (assim só X, como se Corman nos quisesse dar um aviso prévio de que somos obrigados a olhar para essa letra com muita atenção). Dos raios-X àquela incógnita intensa e profunda cujo valor todos procuramos mas não resolvemos. O doutor Xavier destas obsessões tão científicas como da filosofia como de tudo, droga-se com a solução que encontrou para os mistérios da vida, com um desespero que aumenta e o leva a arrastar-se num martírio de vidente ou messias enquanto vai vendo mais e mais...

E mais? Talvez Corman esteja menos para brincadeiras do que se pensa (The Intruder), e quando está (A Bucket of Blood) é para levar ao ridículo os ecos e reverberações de movimentos e gerações em decadência, e que às vezes ludibriam homens sós levando-os a achar que precisam de ovações ocas e vazias mas que só servem de mau substituto para o afecto que, esse sim, necessitam. Talvez em X viva um pouco de tudo isto...

"O que é demais é doença", diz o ditado. O James Xavier de Milland, muito depois daquele cigarro e daquela conversa dos truques, dos talentos e das desgraças e do seu remate quase mitchumiano do "this and nothing more. Nothing more than just a man" no circo de variedades, depois de descer ainda mais, para consultórios em becos escuros, já sem suportar tanta verdade, por ser tão crua, já com os alicerces e as entranhas da sociedade na retina, consegue-se ainda arrastar com estes segredos todos para uma igreja ambulante que encontra no caminho. Chega-se à frente e grita, descrevendo "escuridões quase sem fim" e "uma luz imensa depois disso". Há um olho, depois das formas e depois do tempo. Os sentidos e as verdades absolutas da vida são demais para um homem só.

E como raio se acaba um filme assim? "You see Satan the Devil, but the Lord has told us what to do about it: Said Mathew in chapter 5, 'if thine eye offend thee, pluck it out'. Pluck it out, Pluck it out!" E vamos para negro e talvez para as visões e para as profecias deste Xavier agora tornado Tirésias ou para o breu de alguns destinos demoníacos da fantasia e da ficção-científica ou dos fins de mundo de Carpenter e Rod Sterling que são metáfora para tudo e mais alguma coisa. Basta olhar um bocado à nossa volta.

"Visão raio-x"... O Corman sabia-a toda.

2 comentários:

Sabrina D. Marques disse...

O fim é genial.
A visão que ultrapassa todos limites, o sábio supremo, a derradeira condenação da gula dos que incessantemente buscam algo próximo da possibilidade de aceder a todo o conhecimento....

Obrigada por esta sugestão maravilhosa, João!

João Palhares disse...

É isso! :)
De nada, Sabrina.