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segunda-feira, 28 de março de 2011

Os três mandamentos de Mario Bava


(porque tenho escrito pouco por aqui, deixo o texto que escrevi para a segunda ronda da Tertúlia Cinematográfica)


I Tre Volti della Paura (1963)


Movies are a magician's forge. They allow you to build a story with your hands.

Mario Bava

Da cor e da luz

Bava começou como director de fotografia no regime fascista de Benito Mussolini, facto muitíssimo importante. Deve a estes anos todo o talento e à vontade para manipular os seus filmes pelo controlo da cor e da luz e isso é coisa que faz desde La Maschera del demonio, de 1960, o primeiro filme a ele creditado. Se a fotografia parece exagerada ou completamente desvairada (se isso é mau) nos filmes de Bava, é porque o género e o tema se prestam a isso. Bava é um cineasta de obsessões, sexuais, visuais, sonoras; é cineasta de ciclos de cores, de planos, de movimentos de câmara; e como não há adjectivos para imensas sequências deste filme em particular, descrevo a aproximação de Boris Karloff à câmara, plano perto do fim do segundo episódio, as várias cores a iluminar as duas faces do actor, verde, vermelho, close up. Bava é tremendamente barroco e sabe conter-se até à explosão formal, tem perfeito domínio da paleta de cores à sua disposição, conhecendo o estúdio e as suas potencialidades como se conhece a si.


Il telefono

Do som e do ritmo

Se Bava é o cineasta da cor, a verdade é que I Tre Volti della Paura é o filme do som. Tudo se constrói em torno dele, havendo um leitmotif recorrente para cada episódio.; Em Il Telefono, é o tique-taque do relógio, que marca o tempo e estabelece a tensão, os “guinchos” do telefone só têm, aliás, o poder que têm por causa disso. Só são aguçados e aterrorizadores porque há uma tensão incrível (tique taque, tique taque), um compasso de espera. Em I Wurdalak, é o vento e em Goccia d'Aqcua é a gota de água (este último, aliás, constrói-se todo sob o signo do som). São tudo peças de tensão construídas meticulosamente, mais por Bava do que por qualquer director de som. Estes leitmotifs sonoros percebem-se nas pausas discursivas do filme, e têm beleza neles, não são “só” sons.

Mise en scène é o segundo episódio de I Tre Volti della Paura, montagem é o primeiro e sound design é o terceiro. Por muitas coisas, mas pensando só num, porque em Goccia d'Acqua passa-se tudo em off, fora de campo, e Bava (aqui grande menção, também, a Mario Messina, o director de som) pontua todo o episódio com o innuendo constante do som. O filme, esse, é a Santíssima Trindade do Terror, cada episódio parece abrir uma corrente estética do Horror distinta. Il Telefono (Carpenter, Argento, giallo), I Wurdalak (Tim Burton, George Romero) e Goccia d'Acqua (Polanski, DePalma). E nisto acredito piamente.


I Wurdalak

Do espaço e dos ambientes

A terceira dimensão fílmica a seguir ao som e à imagem, o espaço. Bava trabalha-o aqui extraordinariamente. Em todos os episódios há um local-chave onde tudo acaba por confluir, seja o apartamento de Il Telefono, a casa medieval de I Wurdalak e o apartamento sombrio de Goccia d'Acqua. Convém, no entanto, sublinhar, que para cada episódio tem efeitos diferentes, porque, por exemplo, só no último episódio é que há verdadeira claustrofobia, os dois primeiros são muito mais abertos, o terror vem doutro sítio.

Ambiência” é o resultado de tudo isto, a tal coisa que muitos filmes (a maior parte) não têm. Só há mise en scène, que é como quem diz, só há ritmo ou só há ambiente, quando se é cineasta antes de autor e artesão antes de cineasta (como o comprova a citação do início). Bava era artesão antes de tudo, e não há melhor elogio possível.


Goccia d'Acqua

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

"Which Way To The Front?" - 1970



A 2ª Guerra revisitada e reinventada por Jerry Lewis; reflexo da sua personalidade e da sua visão do Mundo como o são aliás todos os seus filmes. Excêntrico, anárquico e revolucionário. Incompreendido, também.

Celebrado nos anos 50 e 60 como actor sob a alçada de Frank Tashlin, Lewis (o realizador) nunca teve a aclamação que lhe era devida, e é hoje quase um cineasta obscuro. Se bem que não me passe pela cabeça dizer que seja superior a Chaplin ou Keaton, ele é descendente dessa linhagem de comediantes (como Tati e Peter Sellers), de "fazedores" de comédia que actualmente não tem, muito infelizmente, seguidores. Talvez só Jim Carrey.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

"Cigarrette Burns" - 2005





Falei de John Carpenter há 4 posts por circunstância, e a bem dizer, ele merece mais que uma mera circunstância. Dedicarei por isso este post ao realizador e ao último filme que vi dele. Filme que me marcou profundamente, como me marcaram aliás todos os "carpenters".

De "Vampires", primeiro filme que vi do mestre, a este "Cigarrette Burns", a excursão, a viagem pela sua obra tem sido alucinante e tornou-se inesquecível, permitindo-me descobrir obras-primas absolutas como "Escape From L.A." ou Prince of Darkness.

Mas não serão obras-primas todos os filmes de Carpenter? E não serão os últimos filmes ( de Escape from L.A. a Cigarrette Burns - não vi Pro-Life) o culminar da sua arte, da sua visão do mundo, obras de um artista em estado confessional até?

O cinismo e o cepticismo, a anarquia e a rebeldia, sempre presentes na obra de Carpenter, são nestes filmes de uma força demolidora e em L.A. e Burns até magoam, doem, porque em última instância nos remetem para o próprio destino de John Carpenter como cineasta (do seu sucesso crítico e comercial nos anos 70 e 80 até ao declínio nos anos 90) e também para a sua relação de amor/ódio com Hollywood.

Os estúdios em ruínas no fundo do mar em "L.A" e a cinefilia demente, levada às mais cruéis consequências em "Burns". Dois filmes que nos avisam que o Cinema está a morrer (L.A:) ou que já está morto ("Cigarrette Burns") e que acabam como acabam todos os filmes de John Carpenter. Em plena, ainda que estilizada desgraça.

A queda de Carpenter teve que ver, penso eu, com o rótulo de "mestre do horror". Um pouco como Hitchcock nos anos 40 e 50 (glória absoluta) e nos anos 60 e 70 (declínio). Hitchcock era o "mestre do suspense" nos tempos "áureos". Só que há realizadores, como há escritores, que não fazem filmes ou escrevem livros num determinado género, mas são antes o próprio género. Hitchcock fez filmes "hitchcockianos" sempre, mas foi catalogado num género: o "suspense". E este género sofreu as habituais transformações estilísticas, estéticas através de realizadores como Polansky ou Brian de Palma, deixando Hitchcock na penumbra. Ele continuou a fazer os SEUS filmes, os filmes que podia, e aliás devia fazer e "Frenzy" e "Marnie" permanecem como obras-primas dentro da filmografia hitchcockiana.

John Carpenter teve o mesmo destino, ainda que não tivesse o mesmo estatuto de Hitchcock, penso até que nunca terá. Nunca foi considerado um autor nos Estados Unidos, só na Europa. Mas em Portugal teve e tem bastantes admiradores: o falecido João Bénard da Costa (que o trouxe inclusive a Portugal para uma retrospectiva da sua obra), Mário Jorge Torres do Público (que aclamou "Vampires" e "Ghosts of Mars" como obras-primas e descendentes directos do Cinema Clássico Americano).

Porque é que um cineasta como John Carpenter não faz filmes, longas metragens, desde 2002 (claro que pode continuar a fazer tele-filmes de uma hora até com um terço da qualidade de Cigarrette Burns)? Porque é que o público e a crítica norte americanos o abandonaram? Porque é que estão a "refazer" os seus filmes?, os tais dos tempos áureos, em que era o mestre do horror.

Mestre de Horror, "Masters os Horror": Convidaram Carpenter a participar nesta série norte-americana em 2005 e Carpenter aceitou (são poucas as oportunidades), fazendo não um filme de terror, de Horror, mas um filme carpenteriano e um grande filme, por sinal.

Foi para falar deste filme que me alonguei na descrição da carreira de Carpenter, era preciso. John Carpenter`s Cigarrette Burns é um filme violentíssimo, originalíssimo, um grito de revolta. Um filme onde os cinéfilos, os "filhos" do Cinema, os que amam a 7ª Arte acima de todas as coisas são castigados, sofrem, como sofreu Carpenter. Se o alter-ego do realizador em "L.A. é Snake Plissken, em "Cigarrette Burns" ele está em todas as personagens, e ainda mais nas que vêem as tais "cigarrette burns" do título.

É um filme de quem já não acredita no Cinema, ou de quem já não acredita que ele possa existir, e mais uma vez, não é um filme de terror, mas um filme realista, o mais realista de todos até: HAVERÁ CINEMA NUM MUNDO EM QUE JOHN CARPENTER NÃO FAÇA FILMES, "FEATURE FILMES" E EM PELÍCULA HÁ QUASE 10 ANOS?