segunda-feira, 9 de agosto de 2010

"Bad Lieutenant" - 1992



Construído em torno da interpretação de Harvey Keitel como o bad lieutenant do título, muito cedo no filme se transcende a noção de guião e interpretação. É a obsessão de Ferrara por um polícia corrupto e suas acções em sociedade e filme que não pretende (nunca) denunciar condutas ou comportamentos (pelo menos não mais que os expôr, à distância - a câmara não fabrica emoções, tenta captá-las ).

Cedo, também, no filme, nos apercebemos que não podemos julgar o lieutenant, não só por ser uma alma em suplício e em conflito constante consigo mesma mas também por tal personagem nos fazer entender que nas circunstâncias propícias, o ser humano é capaz de tudo. Há aqui uma moral languiana, por assim dizer, e não deixei de ver semelhanças entre o Beckert atormentado de M e este tenente do filme de Ferrara, por exemplo.

Não sei se Ferrara acredita em Deus ou não, mas como dizia já Rivette sobre Dreyer, os filmes acreditam por ele, há uma espécie de ligação com o divino por parte dos personagens (e quando digo os filmes, falo só deste e de The Funeral, que bem vistas as coisas se podia chamar O Sangue) que os acaba por redimir, ainda que violentamente, drasticamente, em relação aos outros e a eles mesmos (penso em Keitel e Chris Penn), as suas últimas acções anulam as primeiras, ou assim nos faz pensar Ferrara...

Outra maneira de ver as coisas, e aqui só no que a Bad Lieutenant diz respeito, é ligando o destino de Keitel às apostas que constantemente fazia (e se calhar nem é preciso ligá-las, elas estão "visceralmente" ligadas). Gozando (jogando) com o perigo e a morte de forma infantil e inconsciente, o jogador tem inevitavelmente de perder e a sorte, quando acaba, acaba da pior das maneiras. Quando Keitel apostava naqueles jogos, fazia-o automaticamente como se disso dependesse a sua existência. Apostava a vida. Tudo ou nada...

PS: O remake do Herzog é um revirar de todas estas questões, um olhar cínico e divertidíssimo (coisa que, a ler críticas, não estava à espera) à corrupção e ao sistema com um Cage que parece uma fusão entre um Dude e um Nosferatu - coisa indescritível, porque é que não houve Óscar nem nomeação, pergunto. É o exacto negativo do Ferrara, é o que um remake pode e deve ser...

2 comentários:

Fifeco (Filipe Ferraz Coutinho) disse...

Vi recentemente o de Ferrara e de facto parece que há ali alguma ligação com o que realizador acredita. O que isso é ao certo não sei. Todavia, sei que há ali muita sabedoria, muito cinema. Existem momentos verdadeiramente geniais, mesmo considerando toda a visceralidade e a crueza. Se não for mais, Ferrara pôs-me em cheque quando me fez ter pena de Keitel.

Quanto ao remake, não consigo concordar com a tua opinião. Pareceu-me um filme desnecessário e insípido.

Abraço

João Palhares disse...

Sim, sim, há toda uma crueza e uma visceralidade formal que nos lembra constantemente da humanidade de Keitel, o raio do filme é genial. Aconselho, se ainda não viste, o The Funeral e o King of New York, do mesmo Ferrara.

O remake divertiu-me imenso. Claro que não é tão bom, mas quando me lembro dos lagartos, das almas a dançar e do ar alucinado do Cage, vem-me sempre um sorriso, eheh.

Abraço