quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O Duke



John Wayne

"Conheci John Wayne há seis anos quando rodava os exteriores na Old Tucson de El Dorado, de Howard Hawks. Passámos uma hora a conversar sobre filmes e realizadores e, quando foi chamado para um take, disse, "Meu Deus, como é bom falar de cinema - Cristo, a única coisa de que me falam nestes tempos é de política e cancro!"

É verdade que há demasiadas pessoas a apoiar ou a refutar Wayne por causa das suas opiniões políticas, e também me choca e me parece tão parva a ideia dos responsáveis pelas estrelas douradas de Hollywood Boulevard recusarem o nome de Charlie Chaplin por causa da sua posição política (pelo menos acabaram por ceder). Pode-se concordar com as inclinações de esquerda de Chaplin assim como se pode estar em oposição às atitudes de direita de Wayne, mas nenhuma delas tem a mínima importância no que diz respeito à sua obra ou ao que deixarão. Chaplin não será recordado por ter perdido uma acção de paternalidade e apoiado causas liberais assim como Wayne o não será por ter vencido um ataque de cancro do pulmão, apoiado alguns candidatos a presidente ou mesmo por ter representado em alguns filmes anti-comunistas dos anos cinquenta que facilmente cairão no esquecimento.

Wayne será recordado, julgo, por ser um actor típico extraordinariamente eficaz, cujos talentos e capacidades foram explorados por pelo menos dois grandes realizadores e enriqueceram as obras de uma hoste de outros de graus variáveis de competência (de Henry Hathaway e Cecil B. DeMille a Nicholas Ray e John Farrow). Depois de mais de 20 anos como grande atracção de bilheteira (mais vinte antes disso como estrela impopular), a persona Wayne atingiu, efectivamente, proporções míticas que mesmo o mais míope dos nossos críticos acabou por notar. Traz a cada novo filme - bom ou mau - uma ressonância e um sentido do passado - o seu e o nosso - que o enche de revérberos que ultrapassam largamente as suas, talvez, limitadas qualidades. É esta a verdadeira medida do que faz uma grande estrela de Cinema e a longevidade da sua carreira é parte importantíssima nesse impacto. Se o star system não morreu já, foi no entanto profundamente ferido pelo facto de tão poucos filmes serem feitos agora, o que faz com que o público já não possa sentir a familiaridade da exposição repetida que as estrelas costumam ter. Hoje em dia uma estrela pode dar-se por feliz se fizer um filme por ano, enquanto era possível ver Cagney ou Bogart ou Gable ou Tracy três ou mesmo quatro vezes por ano.

Wayne já tinha feito perto de cem westerns nos dez anos que antecederam a sua salvação da trituradora da Republic, em 1939, com Stagecoach, de John Ford. É claro que Ford o tinha feito entrar em filmes mais de dez anos antes disso. Wayne andava na USC, jogava futebol (americano) - Marion Morrison era o seu nome - e nas férias de Verão ia até aos estúdios à procura de trabalho. Ford arranjou-lhe um trabalho de aderecista e de guardador de patos em Mother Machree, em 1927, e depois biscates e pequenos papéis em vários outros filmes mudos e primeiros filmes sonoros. Raoul Walsh gostou da maneira de andar de Wayne (quem não gosta?) e contratou-o para um papel romântico num filme sonoro da Fox, de 1931 chamado The Big Trail, que foi um grande fiasco de bilheteira, embora seja uma obra bastante interessante. de facto, vi o filme recentemente em conjunto com dois outros, vencedores de Óscares e aclamados pela crítica, da mesma colheita, In Old Arizona e Cimarron, e o filme de Walsh-Wayne é infinitamente superior. (Os outros dois são pouco menos que insuportáveis). Desde que começou, Wayne mostrou possuir uma qualidade natural cativante que lhe permitiu a série infindável de filmes em que entrou até Stagecoach o tornar respeitável. Mesmo então, foram precisos quase dez anos para descobrir a personagem que o imortalizou - o áspero, duro, frequentemente mau, frequentemente mal-humorado, às vezes sentimental, mas certamente incorrigível homem maduro que interpretou pela primeira vez, ainda jovem, em Red River, de Howard Hawks.

Todos os seus melhores filmes até então tinham sido com Ford (They Were Expendable, Fort Apache), mas os seus papéis tinham sido de primeiras figuras masculinas decentes, simpáticas - com algum colorido, mas definitivamente sem o espírito posterior. Depois de Red River, Ford, para não ser ultrapassado, fez Wayne interpretar a figura de um homem ainda mais maduro em She Wore a Yellow Ribbon; o protótipo de Wayne tinha sido estabelecido e esta foi a primeira de inúmeras variações sobre o tema, com a personagem a envelhecer e a carregar cada vez mais os seus traços, ao mesmo tempo que Wayne e os seus realizadores favoritos envelheciam e aprofundavam a sua arte. Seguiu-se uma série de filmes notáveis de Hawks, Rio Bravo, Hatari!, El Dorado; de Ford, as mais diversificadas e acentuadamente complexas maravilhas de Rio Grande, The Quiet Man, The Searchers, The Wings of Eagles, The Man who shot Liberty Valance.

As suas actuações nestes filmes atingem as alturas dos mais refinados exemplos da arte de representar em Cinema e a sua contribuição para cada um deles é incomensurável, ainda que nenhum fosse considerado ao tempo mais do que "e John Wayne faz mais uma vez um trabalho limpo", se tanto (a maior parte das vezes era zurzido). A Academia nomeou-o apenas uma vez, pelo excelente Sands of Iwo Jima, de allan Dwan, um filme arquétipo de Wayne, de dimensão não ford-hawksiana, mas é claro que só quando pôs uma pala no olho, fez o papel de bêbado e se parodiou a si mesmo em True Grit é que toda a gente começou a pensar que ele representava. A capacidade de uma estrela fazer o público suspender de imediato a sua incredulidade - algo que homens como Wayne ou Stewart ou Fonda trazem com eles naturalmente quando entram numa cena - é, infelizmente, uma proeza que normalmente passa tão despercebida que a maior parte das pessoas pensam que não é representar. Há demasiada gente a crer que representar significa sotaques falsos e narizes postiços. Paul Muni teve a sua melhor interpretação num filme em Scarface, mas tornou-se Mr. Paul Muni com a postura teatral da série Pasteur-Zola-Juarez. Bogart foi inimitavelmente Bogart e frequentemente algo mais que isso noutros filmes, de High Sierra a Harder They Fall, mas os da Academia teimam em recordar as suas três mais fracas - porque mais óbvias - interpretações em The Treasure of Sierra Madre, The African Queen e The Caine Mutiny. Se a sua carreira fosse feita de papéis desse tipo, talvez tivesse ganho mais prémios, mas não existiria o culto de Bogart.

Ver um actor a trabalhar, parece-me, é tão mau como estar consciente da manipulação exercida por um realizador. Quando brilha o artífice, a maior parte da arte desaparece. É por isso que John Wayne está no seu melhor justamente quando está a ser aquilo que acabámos por chamar "John Wayne".




Há um momento esplêndido em Rio Bravo - que contém, penso eu, a sua mais cativante interpretação - em que Wayne desce as escadas do gabinete do xerife e se aproxima de uns homens montados que vêm ao seu encontro. Hawks enquadra o plano por detrás - Wayne caminhando lentamente, acidentalmente afastado da câmara, nesse seu gracioso modo levemente bamboleante - e a imagem fica suspensa durante algum tempo como se nos quisesse dar a oportunidade de gozar a cena: uma figura, familiar, clássica - inconfundível seja qual for o ângulo - que se move num mundo de ilusão que conquistou em absoluto.

Uma das coisas mais encantadoras de Wayne em cena é ver quanto ele próprio saboreia este mundo. Vi-o brincar com o seu colt sem estar a ser filmado ou com a espingarda que frequentemente usa nos filmes, com tanto entusiasmo como um miúdo que tem um brinquedo novo. No entanto, apesar dos seus quarenta anos de cinema, mostra ter mais interesse pelo trabalho que muitos que acabam de começar. Também gosta imenso de trabalhar com recém-chegados e é generoso nos conselhos; aqueles que não deixam o ego interromper-lhes o caminho podem aprender não poucos truques com o velho. (Apesar disso, não há nele a mínima nota de pomposidade ou pretensiosismo; na verdade, parece sempre genuinamente surpreendido, ou mesmo ligeiramente embaraçado, pelo elogio). Hawks disse-me que "quando se tem alguém tão bom como Duke" torna-se "extraordinariamente fácil fazer boas cenas", porque ele ajuda e inspira toda a gente que o rodeia.

Conta-se, também, que Wayne tem tendência a ser generoso em conselhos aos jovens realizadores que contrata, mas julgo que não levam isso muito a peito, já que pelo menos dois de que me lembro continuam a fazer filmes com ele. Talvez tenham compreendido que a sua interferência deriva da exuberância e da sua paixão pelo trabalho e não do desejo de pressionar. (Seja como for, é melhor esquecer os dois filmes que realizou).

Há uns anos fui visitá-lo à sua casa de Newport Beach para filmar uma entrevista para um documentário que estava a fazer sobre John Ford. Enquanto a equipa preparava as coisas no terraço que dá para a baía, conversei um pouco dentro de casa com Wayne e perguntei-lhe se era verdade que estava sempre a dirigir as cenas nos filmes realizados por Andrew McLaglen, em que entrou como actor. (É claro que McLaglen, filho de Victor, era um grande funcionário de Ford e que cresceu nos cenários de Ford e Wayne - o seu primeiro filme foi oferecido por Wayne). Duke disse que era verdade que ocasionalmente, dava sugestões a Andy, mas que sabia muito bem que só poderia haver um patrão num filme. Deixei a coisa assim e fui verificar o décor. Quando ficou pronto, Wayne apareceu, olhou à volta e começou imediatamente a dar ordens com grande excitação. "Afastem essa luz um pouco mais", disse, "e ponham essa mais para o lado. É melhor arranjarem-me uma cadeira alta para me sentar - tragam cá esse elefante de pedra - assim está bem..." Depois de alguns momentos disto - a minha pequena equipa tinha-se posto em movimento à sua primeira palavra - olhou para mim. Tinha estado a observá-lo e acho que estava com um ar divertido. Os nossos olhares encontraram-se, fixaram-se uns segundos e então ele sorriu abertamente. "Oh", disse, "desculpa, Andy"."

Peter Bogdanovich, Maio de 1972

4 comentários:

Álvaro Martins disse...

"Raoul Walsh gostou da maneira de andar de Wayne (quem não gosta?)" por acaso sempre detestei a maneira de andar dele, sempre me pareceu muito "abichanado".

João Gonçalves disse...

É sempre bom, ler coias do Bogdanovich. Belo texto.

João Palhares disse...

Eu adoro a maneira de andar do Wayne. Seja abichanado ou não é grande parte da sua identidade e fez dele uma estrela, é o símbolo máximo da sua individualidade..

Ler coisas do Bogdanovich é, acima de tudo, muito divertido, então quando os textos narram episódios e entrevistas com o Jerry Lewis, cuidado.. eheh

Álvaro Martins disse...

"é grande parte da sua identidade e fez dele uma estrela, é o símbolo máximo da sua individualidade.." concordo mas não deixo de detestar o andar do homem. Mas não me incomoda e não é isso que lhe retira qualquer mérito, bem pelo contrário. Foi um dos grandes de Hollywood.