segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A 'obscenidade' em Hollywood (V)

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Ano da graça de 196o. Stanley Kubrick decide fazer a adaptação do romance de Vladimir Nabokov, Lolita, para o grande ecrã. Lolita é o filme da transição para o exílio absoluto na Inglaterra e talvez o último filme em que não pôde ter controlo e liberdade absolutos na concepção, principalmente por pressões do código Hays e da Catholic Legion of Decency, que, como é óbvio, lhe caíram em cima.

Começo assim, porque acho que é por isto tudo que Lolita é o meu filme preferido do americano. A partir do momento em que passa a morar definitivamente no outro lado do Atlântico, o cérebro metódico e a veia perfeccionista - maquinal - de Kubrick tapam os "poros" dos seus filmes, deixa de haver espaço para o mistério - o inexplicável - e passa tudo a ser fórmulas e equações - lógica (embora 2001 e Eyes Wide Shut retenham esse mistério e me pareça que fogem à "regra")..

E antes de passar à "obscenidade" propriamente dita, digo - escrevo - que Lolita é o filme mais humano e tocante de Kubrick, em que há tanta doçura como monstruosidade, tanta inocência como cinismo, wit. Penso nos olhares escondidos e acautelados de Humbert para Lolita no baile, perto do início do filme, os travellings que sentimos serem proibidos sobretudo pela rapariga estar tão fora de alcance - entre ele e ela, os jovens que também dançam, sempre no caminho do olhar. A infantilidade ofegante de Hum, a maturidade serena de Lo, a omnipotência cómica de Quilty (o génio de Sellers*), lembro-os sempre que ouço o tema de Nelson Riddle (ali em cima).. No filme, aparece pela primeira vez na cena do jardim e parece já dizer tudo sobre ao que o filme vem (se o genérico engenhoso não o tivesse dito, ainda) estória trágica de miúdos a brincar aos graúdos e de graúdos a brincar aos miúdos.. Lolita.

A pedofilia, pois claro. Para os padrões de hoje parece um filme quase que soft e pouco controverso. A mim não me parece e nem sei se se tem que "ver bem a altura em que foi feita e tal". Aquelas elipses curtinhas curtinhas são qualquer coisa (como as de Hawks em vários dos seus filmes, as elipses sexuais - e ninguém me convence que o Gentlemen prefer Blondes não é um cruzeiro de javardices disfarçado de musical). A dada altura do filme já ninguém duvida que Humbert e Lolita andam a dormir juntos, e há coisas que ganham uma força tremenda por se saber isso: as que acabam no delírio lento, desesperado e suicida de Humbert, que é a presa naquele jogo todo, o pau mandado da ninfa. A morte fortuita e tão conveniente da mãe-Haze, que Humbert tanto anseava, o ridículo daqueles encontros cordialíssimos na casa-de-banho em que se fala de morte, suicídio e responsabilidades com a leviandade mais bairrista e suburbana possível. A América dos cinquentas. E não só a América e não só nos cinquentas..

Os filmes controversos são aqueles que espelham a 'obscenidade' de quem procura o "pornográfico" e o "chocante", os que espelham a morbidez dessa busca infatigável por "ordem", "sanidade", "saneamento", "limpeza", "decência". Enfim, esses palavrões todos... os que são contrários à sanidade verdadeira.. a de perceber que é preciso tentar perceber as coisas.. Kubrick foi humano o suficiente para gritar contra as neuroses "civilizadas" da hipocrisia (que acabam em manifestações cívicas de violência). Depois foi fazer o que quis fazer.. e o grito e a revolta ficaram documentados em Lolita. Tão fresco e belo como há cinquenta anos..

* talvez - talvez, não tenho certeza porque tem papéis prodigiosos - a interpretação mais complexa de Sellers, que aqui é uma personagem a interpretar várias personagens, com contensões dramáticas, explosões cómicas. Enfim, tudo o que é ser um actor do camaleónico ao esquizofrénico. Um homem em diálogo constante consigo mesmo.. Não se assiste às transformações, mas as facetas de Quilty parece que falam umas com as outras..

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