terça-feira, 15 de outubro de 2013

BLOODBROTHERS (1978)


É com um enorme e rapidíssimo travelling por baixo de créditos e uma música retumbante de Elmer Bernstein (que parece já anunciar tragédias vindouras, como no também seu Some Came Running) que somos apresentados ao pequeno mundo da família De Coco. A câmara viaja rente a casas e estradas num declive vertiginoso como o Thomas deste muito jovem Richard Gere enfrenta o pequeno pedaço de tempo que lhe é dado para entrar na vida adulta. Rodeado de perguntas e sem respostas nenhumas, vai-se deixando levar por influências paternas e vai descobrindo o que são os dissabores disso de ter uma data de anos em cima. Rugas e remorsos. "I don't know", diz ele ao pai quando este lhe pede para ir trabalhar com ele. Prefere contar histórias a miúdos no hospital. É lá que encerra uma história de índios inventada por ele com um pacto de amizade selado a polegares com os miúdos. "Working with kids".

Coming-of-age de um dos maiores poetas do coming-of-age, Bloodbrothers é contaminado pela força e pelo nervo da juventude. Sejam as subidas e descidas impetuosas com pesos de cabos eléctricos, sandes e cafés que provam que os planos são matéria viva e se constroem pela consequência e não pela sequência das coisas, ou os olhares incrédulos e atravancados de Thomas quando assiste à derrocada do pai. E neste filme de tanta violência e ruína, o que mais há é amor. Que há culpas que se podem atribuir sabe-se sempre, mas a vida também é um descarrilamento constante, e todo o homem em ruína tem a sua redenção. A do pai é a que se dá no momento mesmo anterior ao abraço de irmãos que marca a fuga doida da casa dos pais: o filho mais velho vem ter com ele e com o tio ao bar para se despedir e o pai depois de o ver partir agarra-se desesperado a uma cerca no passeio e deixa sair tudo por perceber também tudo. A certeza tão definitiva da despedida.

"He doesn't mean it", diz o tio interpretado por Paul Sorvino ao sobrinho e depois ao irmão. Ele que vê isto acontecer depois de tentar reunir o dono do bar a que costumam ir com o filho e lhe contar e despejar as tristezas todas que lhe vão na alma. O filho perdido nem com um ano de idade, ainda. Este apego e esta insistência e esta violência são por se saber que há vidas a serem ceifadas todos os dias e que pais e filhos não se podem separar e que a família é um laço inquebrável.

Já no anterior Summer of '42 havia descarrilamentos semelhantes, filmados de forma a captar a força de tudo. A agulha do gira-discos, as ondas do mar e o cigarro na última e brilhante sequência do filme. Aqui a mestria é igual. O irmão mais novo de Thomas é quem percebe e sente tudo na pele, é o bode-expiatório da mãe. Quando entra naquela casa sente cada esquina e cada parede na garganta e por isso não consegue comer. Só sorri quando o irmão vai ter com ele. É a história do costume por ser a história de tanta gente, mas sem querer apontar dedos, só com a graça e o peso de cada gesto e de cada decisão.

E por isso é que voltar à estrada do início deste filme de quem tudo pensou ao limite tem o sabor que tem. Talvez seja a decisão certa, mas é a saída mais difícil. Sem nenhum mar de promessas, mas com um pesar enorme na consciência. Thomas tornou-se finalmente adulto.

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