sábado, 12 de outubro de 2013

THE WINGS OF EAGLES (1957)




por João Bénard da Costa

No texto sobre The Searchers, referi a reapriação crítica a que tal obra deu origem, depois de anos de silenciamento ou, no caso da crítica europeia, de relativo menosprezo pela obra de John Ford. Foi, ainda, sol de pouca dura. Os filmes seguintes - este The Wings of Eagles, The Rising of the Moon, The Last Hurrah, Gideon of Scotland Yard, isto é as obras realizadas por Ford em 57 e 58 foram alvo da mesma indiferença, que só veio a desaparecer definitivamente a partir de The Horse Soldiers (59) e, sobretudo, de Sergeant Rutledge (60) e Two Rode Together (61). Isto é, quando Ford voltou ao Oeste, sendo os seus westerns a primeira parte recuperada da sua obra.

Ainda hoje, se pode dizer que esse preconceito continua, se não para as obras dos anos 30 e 40, para a década de 50 (a partir de 1960, Ford quase dó faria westerns). Ainda hoje, não é pacífica a ideia que The Wings of Eagles seja a mesma história (e tenha a mesma grandeza) de She Wore a Yellow Ribbon, Rio Grande ou The Searchers, mais uma vez a tragédia de um homem que nunca alcançou o que queria, mais uma vez a secreta ferida (de que a ferida evidente do filme é uma transposição) dum amor perdido e sempre lembrado. Não é certamente por acaso que o acidente de Wayne intervém após uma sequência em que ele percebe, como o protagonista de Rio Grande, que há coisas a que não se pode voltar. Semelhante injustiça foi praticada com as obras-primas que são The Rising of the Moon e The Last Hurrah.

Antes de entrarmos na breve análise deste genial filme, convém recordar que The Wings of Eagles causou, à época, particulares engulhos, e não me refiro agora aos críticos, mas aos meios oficiais americanos. A sequência entre o senador Barton e "Spig" Wead durante a reunião do Comité do Congresso tem uma óbvia dupla leitura e não se refere apenas ao período histórico do filme. Wayne diz ao senador que estão a perder o poder naval e que "some day we might lose something bigger than that". E Barton responde-lhe falando dum "country yelling 'pacifism' at us. Disarmament, tax reduction - no more wars - and the navy is going out of business". ora, em 57, os tempos eram da "doutrina Eisenhower" e da coexistência pacífica e, no ano anterior, o Congresso tinha reduzido sensivelmente o orçamento da marinha. Através de Wead, Ford lutava mais uma vez pela sua arma e pela sua dama, a dizer, com Wayne, que se estava, nos anos 50, como nos anos 30, a trair um dever, "or we don't know what duty is". O remoque à Casa Branca era claro.

Para lá deste aspecto (não tão anedótico como isso) The Wings of Eagles é um biopic de Frank "Spig" Wead, que como o Capitão Brickley de They Were Expendable foi um personagem real e um grande amigo de Ford.

E, como They Were Expendable, The Wings of Eagles é, em primeira instância, uma obra de homenagem, e um gesto de amor, para com um homem que Ford profundamente admirava e profundamente amara. A Bogdanovich disse: "Ao princípio, não quis fazer o filme porque 'Spig' era um grande amigo meu. Mas também não me resignei à ideia que fosse outro qualquer a fazê-lo. Conheci-o quando ainda era um jovem cadete, de sapatos pretos, antes dele começar a voar. Nessa altura ainda não estava na marinha mas passava grande parte do meu tempo com ele e com outros oficiais. 'Spig' sempre esteve interessado em escrever e ajudei-o e encorajei-o como pude. Fizemos uma série de filmes juntos. 'Spig' morreu nos meus braços. Tentei contar a história com o máximo de verdade possível e tudo no filme é verdade. A luta no clube - com os bolos atirados - aconteceu realmente e fui testemunha dela com os meus olhos. Também a queda na piscina é rigorosamente verdadeira. O avião aterrou de facto na piscina - e no meio do chá do almirante. Só o título é que sempre me pareceu estúpido e não me consolo com ele. A minha ideia era chamar ao filme 'The Spig Wead Story' mas a Metro objectou que 'Spig' era um nome que se prestava ao ridículo e que as pessoas se iriam interrogar sobre quem era 'Spig' Wead".

Acentuando esta declaração, noto que o Almirante "Spig" Wead, após o seu acidente, se dedicou de facto ao cinema e foi argumentista de vários filmes: dois de Ford (Air Mail de 32 e They Were Expendable de 1945) além de clássicos como Dirigible (Frank Capra, 1931) e Ceiling Zero (Howard Hawks, 1936). Isso deu origem a uma incursão, única na obra de Ford, no film on film, com a visão de vários excertos dessas obras, bem como excertos da admirável série de documentários que Ford realizou durante a guerra (as fabulosas sequências dos overlights e das batalhas aéreas). Além disso, o próprio Ford interveio no filme, por indirecta pessoa. Ao seu actor preferido, Ward Bond, confiou um papel que em grande parte é o próprio Ford, vestido e caracterizado como ele (cachimbo, os óculos escuros) e rodeado dos Oscars que o próprio Ford tinha ganho. Quando Bond diz: "Não quero uma história sobre barcos e aviões, mas sobre os homens que andaram neles, sobre o modo como pensavam e falavam", está a citar as palavras do próprio Ford, reproduzidas sic na típica frase "I want it from a pen dipped in salt water, not dry Martinis".

E não deixa de ser uma surpreendente coincidência que este seja (aparte uma obra posterior para a televisão) o último filme de Ward Bond para Ford. O assombroso actor, que desde Salute (1929) surgiu em dezenas de obras e em dezenas de papéis, saiu do mundo fordiano, identificando-se com o seu realizador, representando-o.

Se me demorei tanto neste aspecto, foi para sublinhar o empenhamento pessoal de Ford neste filme, um dos seus favoritos, uma das suas obras mais autobiográficas. Mas, passando para além destes aspectos, podemos voltar à semelhança entre o percurso de "Spig" Wead e o de Ethan Edwards em The Searchers, papéis não por acaso confiados ao emblemático John Wayne.

E o que é mais extraordinário neste filme, é como os próprios episódios biográficos servem essa intenção profunda: o sofrimento físico de "Spig" traduz o seu sofrimento moral. Esse pioneiro da aviação e da marinha, que nas assombrosas sequências iniciais vemos no máximo de acção e de proezas físicas, é também o homem paralisado, para sempre ligado a esse momento antológico do cinema de Ford que é o repetido plano da sua imobilidade no hospital e as sequências em que Dan Daley e Wayne vencem o que os médicos consideravam irremediável com a fabulosa cantilena: "I'm going to move that toe". O tempo dessa obsessiva canção, a tensão física de Wayne (as suas costas nuas) e a portentosa elipse, quando finalmente Wayne mexe os dedos do pé (dada pelo olhar de Daley) são momentos inadjectiváveis de uma arte levada ao seu ponto máximo. E, para falar em pontos máximos, pessoalmente estou inclinado em crer que a "morte" de Wayne no final (literalmente uma ascensão ao céu, em corpo e alma) é o mais belo momento do cinema de Ford e uma das coisas mais admiráveis alguma vez vistas nesta arte. É, de facto, preciso ser-se muito grande para conseguir tal coisa sem cair no ridículo e impondo uma tão única comoção (repare-se no recuo da câmara e no longo plongé sobre a cadeira, ponto perdido no espaço entre os dois navios, onde sabemos estar o corpo do herói). Diria ainda que, pela primeira vez, não se fez um travelling, mas a câmara filma o travelling, no sentido mais absoluto do termo.

Citei dois momentos máximos: mas que dizer da constante transição entre a comédia e o drama, sem que haja alguma vez ruptura, tudo fluindo naturalmente das cenas mais impagáveis (as lutas e os bolos, o vôo inicial de Wayne) às sequências mais trágicas? Que dizer do modo como é tratada a relação entre John Wayne e Maureen O'Hara, "traída" não por outra mulher mas pelas amantes permanentes de Wayne que são os barcos e os aviões (repare-se, por exemplo, na fabulosa sequência em que Maureen O'Hara volta a casa, com uns copos a mais e de cigarro na boca, antes da queda de Wayne)? Que dizer da espantosa relação de amor entre Wayne e Dailey, com o climax, para além da sequência já citada, no olhar do último sobre o primeiro no final do filme? Que dizer do desdobramento do plano, quando Dailey coloca em frente de Wayne o espelho que lhe permite ver os pés? Ou, mais adiante, na fabulosa iluminação nocturna de Wayne, pouco antes de mexer os pés, ouvindo o toque da alvorada? Ou, finalmente (e longe de esgotar as coisas inadjectiváveis) na última visita de Wayne a Maureen, antes de Pearl Harbour, quando aquele homem sem família possível a não ser a beautiful lady que é o navio, diz à mulher que "fora da família, não há nada"?

E é impossível, voltando a falar de actores, esquecer que este é também o último filme de Maureen O'Hara para Ford e o terceiro do seu par com Wayne. Como em Rio Grande, é "traída"; como em The Quiet Man continuam as zaragatas entre os dois. Só que em The Wings of Eagles não há regresso ao passado, nem há happy end. Há só a memória dum retrato ("good morning Miss America") e aquele incrível diálogo no hospital, sem troca de olhares possível, com a voz que sai do corpo de Wayne a dizer: "Take your turn. I take mine. You're just through". E todos os telefonemas se interrompem.

The Wings of Eagles é sobretudo um filme sobre a solidão. Talvez o mais belo filme sobre a solidão, de que me lembro. A máxima comoção. O único filme de Ford construído sobre o cinema é o único que, no momento capital, elide o olhar.

in AS FOLHAS DA CINEMATECA - John Ford

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