segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

I'VE ALWAYS LOVED YOU (1946)


por João Bénard da Costa

Filme extremo, filme extreme - o mais extremo e o mais extreme dos filmes do estremecente Borzage - I've Always Loved You só pode suscitar reacções igualmente extremas e extremes. Não me custa nada perceber as reacções da crítica da época, cobrindo esta obra de sarcasmos e ridicularizando tudo, desde a desvairada implausibilidade do argumento às grotescas interpretações dos protagonistas. Não me custa nada perceber que metade da sala ainda reaja hoje da mesma maneira. Mas quem ficar enfeitiçado - logo na primeira sequência, a do salão de Filadélfia - só pode ir de surpresa em surpresa, de êxtase em êxtase, até ao delirante final (porventura, o mais delirante final de filme de qualquer obra jamais produzida em Hollywood) e amar este filme de excessos, portentoso vaso comunicante de uma teia infinita de cumplicidades, a mais paroxística e demencial das afirmações da arte de Borzage.

Se esta sempre visou um irrealismo transcendental, que não tem equivalência em qualquer outro dos mestres americanos (e quem viu Seventh Heaven, Lucky Star, The Shining Hour, Strange Cargo ou Little Man, What Now? - para apenas citar alguns exemplos cimeiros - não me pode desmentir) foi, provavelmente, ainda jugulada - nos twenties e nos thirties - pelas exigências dos grandes estúdios para que Borzage trabalhou. A partir do fim da guerra, quando a sua cotação baixou, após os relativos insucessos dos seus últimos filmes para a Metro, para a Paramount ou para a Universal, Borzage - ao serviço dos estúdios muito mais pequenos, como é o caso da Republic, típico estúdio da série B - pôde finalmente encontrar a liberdade para ir até ao fim das suas ousadias e cumprir o programa que anunciara mais de vinte anos antes, quando, em 1922, numa das raras entrevistas que dele se conservam, pôde dizer: "in every face I see I find a story. It doesn't seem hard. The story is right there lying on top, easily visible. You can take it and make something real, vital out of it... By face I don't mean face literally... I mean the characters in my story." E "lying on the top" pegou nos personagens da história de Borden Chase (que, pouco depois, escreveu Red River para Hawks) e deu ao tema do Concerto uma acepção não apenas musical, mas essencial. Porque neste filme todos os instrumentos (personagens, décor, iluminação, côr, montagem, découpage, guarda-roupa) se concertam uns com os outros - tanto quanto o plano e a orquestra na partitura de Rachmaninoff - para, em oposições ou consonâncias, construírem a harmonia supra-natural alcançada nos últimos planos. Finalmente tudo se comunica. Myra pode realizar que amou sempre o marido ("sempre o soube" responde-lhe este estranhamente) e o "Maestro" pode realizar que "there is a woman in music". Concretiza-se, assim, na suprema irrealidade do fantomático gesto com que Myra se levanta do piano, antes do fim do concerto, para se juntar ao marido e à filha nos bastidores, o que Maria Ouspenskaya tinha ido legar a George, na sublime sequência da sua visita à quinta: espaço e tempo não interessam quando "I play as you play the things you play".

O estranho destino deste filme oculto - tão raramente citado, tão raramente visto, mesmo pelos mais borzagianos - parece ainda cumprir o seu oculto apelo. À época, quem não se riu dele ficou-se apenas pela antologia de música clássica, pelo aproveitamento do concerto de Rachmaninoff, ou pelas interpretações de Rubinstein, pomposamente chamado no genérico "the world's greatest pianist". Nos anos 60, Luc Moullet redescobriu-o em Locarno. Mas se foi o primeiro - que eu saiba - a sustentar que era a obra-prima de Borzage e a afirmar que "l'excés de mievrerie et de sensiblerie dépasse toutes les limites permises et anihile le pouvoir de la critique et de la reflexion pour déboucher sur la pure beautê", ainda falava de "oeuvre demodée" e de "personagens insuportáveis" para explicar por que é que os "homens da nossa época" não podiam aceder a um universo de outro tempo e que parecia não ter evoluído depois dos Secrets de 1923.

Ora se o filme revela do inexplicável (o que ninguém negará) é a sua análise a única que pode fazer aceder ao cinema of excess de Borzage, para retomar uma expressão de John Belton, que justamente dedicou ao filme o mais belo comentário que dele conheço no seu livro Cinema Stylists, cuja leitura vivamente recomendo.

A perturbação - ou a magia, como disse atrás - insinuam-se em nós logo na sequência de Filadélfia, quando julgamos que o filme se vai centrar sobre um carácter fáustico (Goronoff, the master) na linhagem de várias outras obras contemporâneas desta (curiosamente também centradas na música) como The Seventh Veil de Compton Bennett ou Red Shoes de Powell e Pressburger. Philip Dorn parece aproximar-se de James Mason ou de Anton Walbrook, protagonistas desses filmes, na mesma arrogância magestática de cabotino genial. Mas a errância da câmara ("floating aimslessly looking for something to latch onto", nas palavras de Belton) prova que essa pista é falsa e que ainda se anda à procura do centro. E só quando Catherine McLeod é arrancada à profundidade de campo para vir tocar a Apassionata (recusando-se à Fuga, que lhe pedia o protagonista) câmara e personagens se concentram e concertam (após o magnífico plano do sapato azul) para desfazer o ambiente glacial e disperso até aí existente e pela primeira vez estabelecer uma cumplicidade secreta sobre as várias rivalidades e frivolidades até aí esboçadas. E quando, depois de deixar de tocar, Catherine Mcleod lentamente como que desperta, a imagem funde em negro para se abrir depois, tecnicoloradíssima, sobre a paisagem idílica da quinta dos Hassman: campo, vacas, lagos, e finalmente a casa à beira dele, donde vem o som do piano. Dois mundos são, pela primeira vez, opostos e conjugados. Não apenas pelo décor ou pela côr, mas sobretudo pela movimentação da câmara, rodopiante na primeira "cena", "extática" na segunda.

É pela janela que Goronoff irrompe nesse décor, que, apesar do seu aparente à-vontade, domina com muito mais dificuldade do que o décor de Filadélfia. E os primeiros acordes do concerto de Rachmaninoff (tocado a dois pianos, pelo maestro e pela aluna, com Goronoff a reservar para si a parte da orquestra) são interrompidos pelo som do tractor, introduzindo George na história. A nudez do rapaz, o erotismo do apontamento da camisa que Myra lhe vai lavar, introduzem uma segunda falsa pista: a de que o conflito se vai travar entre a atracção carnal de Myra pelo rapaz do campo e a sua atracção espiritual por Goronoff. Se é preciso recordar essa sequência para nos lembrarmos depois por que e que George sempre se refere a qualquer coisa mais do que amizade existente entre eles, aparentemente Myra o esquecerá - tanto como nós - até ao final do filme. George, será tudo menos um personagem físico, remetido durante grande parte do filme ao estatuto do boy next door ou de husband next door. Mas essa camisa - como depois o anel que lhe dará no wishing room do jardim (prodigiosa sequência) - é o primeiro sinal de uma comunicação indissolúvel entre eles, tão indissolúvel como a comunicação que no mesmo wishing room (e em sequência não menos bela) se estabeleceu entre Myra e Goronoff.

Se o erotismo exacerbado vai ser o cerne da comunicação musical entre os últimos, o erotismo oculto (apetecia dizer em surdina) da relação Myra-George não é menos forte. Isso é o que compreenderá Maria Ouspenkaya quando, pela primeira vez, encontra George e depois dos seus expressos pressentimentos. Por isso, o incita ("nice boy", "gentle boy") a lutar por Myra, sabendo que essa luta é a única que pode travar a força destrutiva da relação Goronoff-Myra.

Na sequência seguinte à dessa visita, como que misteriosamente investido pela mãe do rival, George manifesta surpreendentemente - e pela primeira vez - essa força, quando interrompe o Prelúdio de Chopin e corta a misteriosíssima comunicação à distância entre Myra e Goronoff. Suspendendo essa fusão telepática, George reduz Goronoff à impotência. Quando Myra pára de tocar, Goronoff suspende-se igualmente no concerto público que estava a dar, no primeiro dos grandes momentos absolutamente onirizantes de um filme que até aí parecera excluí-lo do centro, para sorver unicamente a paixão de Myra pelo master. Myra regressa a casa, à quinta, a George, finda a febre musical que tivera o clímax no primeiro dos concertos do Carnegie Hall.

Não me estou a esquecer de nada e muito menos da fulgurante sequência do Rio de Janeiro com o xaile e Myra, na profundidade de campo, a anular com o liebestod a aventura ocasional de Goronoff. Mas a sequência do primeiro concerto, culminando uma das vertentes do filme, é um dos momentos de cinema mais misteriosos que já me lembro de ter visto. Por alguma razão, a Abertura da Flauta Mágica é tocada à cabeça do programa, como aviso do terreno que vamos pisar. Esse terreno é o profundo desencontro entre a feminilidade absoluta de Myra e a masculinidade do Maestro. Na prodigiosa découpage dessa enorme sequência, o que se afirma é uma guerra de sexos que Goronoff não consegue dirigir. Cada novo plano de Myra - a começar pelo plano genial em que tira do dedo o anel que George lhe dera e ousa no piano - só desenha, cada vez mais nitidamente, símbolos femininos. Cada novo plano do maestro só acentua simbologias fálicas. Mas jamais essas representações se reúnem. Cada enquadramento só desfaz o concerto, transformando a harmonia em combate e em combate vitorioso para Myra. E, subindo à geral (onde está George) ao camarote de Ouspenskaya com o crítico, ou saindo da sala para ir buscar aos bastidores electricistas e ajudantes de palco, a câmara estabelece entre todos esses espaços e todas essas gentes uma impalpável rede de cumplicidades, como se todos confirmassem a feminilidade da música e todos desejassem a destruição do elemento masculino dela. Destruição tanto maior quanto mais Myra é oblativa (recurso à voz off) acentuando até ao extremo limite a impotência do homem que julgava poder abarcar toda a música sob o seu exclusivo sexo.

Metaforicamente, essa sequência do concerto é uma sequência de amor físico, uma das mais prodigiosas sequências de amor físico da história do cinema. Um só personagem - Goronoff - é excluído do orgasmo colectivo e é excluído porque deliberadamente se auto-excluiu dele. É a sua infernal persistência masturbatória que o exclui e dita o terrível off do final, quando Myra sai do palco e do teatro a correr, como se lhe fosse impossível voltar a enfrentar aqueles com quem tinha feito amor contra o homem que amava. A ruptura seguinte (a ceia) é só uma coda a essa disjunção.

Há um filme de Cukor - Rich and Famous - em que uma das personagens masculinas - um rapaz novo - diz a Candice Bergen que não suporta fazer amor com raparigas da idade dele, porque só pensam no orgasmo delas. Irónica, Candice Bergen pergunta-lhe se ele queria que só pensassem no orgasmo dele. E ele responde-lhe que a única possibilidade e quando tudo se concentra no orgasmo dos dois.

De certo modo, I've Always Loved You até esse concerto - ou até à ruptura entre Myra e Goronoff - permanece nas duas primeiras alternativas. Vai ser necessário o crescimento mútuo, ou o envelhecimento mútuo (e este é um filme do envelhecimento de Borzage, ou, pelo menos, da sua grande maturidade) para que seja possível (segundo concerto) o clímax total, que transborda da relação entre os dois para tudo e todos que os rodeiam. Em termos de Borzage - cujo erotismo ou cuja sexualidade são sempre marcadamente espirituais - é necessário que a comunicação se transmude em comunicação invisível (separação) para que ao nível das almas aconteça o que ao nível dos corpos não pôde acontecer.

Por isso, George, que interrompera a montagem mística dos dois Chopin, ordena a Myra, na inadjectivável sequência da noite de tempestade - quando já muitos anos passaram e quando tem já seis anos essa estranha criança que parece saber de tudo - que recomece a tocar e reabra o piano que ele próprio selou. E de Mozart às canções de embalar, o caminho fica aberto para o mesmo Prelúdio de Chopin, na precisa nota em que ficara interrompido seis anos antes. No mesmo momento, em Nova Iorque, Goronoff levanta-se e retoma a música, como se ele também fosse comandado por George para reatar a relação. Mas a relação em que ainda pensa é já impossível, como lhe diz a mãe. Se para a música há um espaço, esse espaço é eternidade e, por isso, ela também suspensa dessa nota, morre Maria Ouspenskaya nessa noite. E morre com um único receio: que Myra volte a procurar Goronoff. Não é dele que tem medo, é dela.

E é o único ponto em que vai ser excedida pelo nice boy que instigou. Porque o plano de George passa por esse regresso e é a esse regresso que obriga Myra, desenvolvendo, para que ele se dê, as rimas mais ocultas: a carreira de pianista da filha (de certo modo, repetindo a mãe), a relação com Severin (duplo de Goronoff) e o segundo concerto do Carnegie Hall. Só a figura de repetição pode esconjurar tanto a figura da presença com a figura da ausência. E todas as personagens se onirizam, se esbatem (numa espécie de recuo mágico) até que Goronoff e Myra voltem a tocar juntos.

Só que agora - no segundo concerto - George já não está no topo do teatro, mas na plateia, com a filha ao lado. E é num só plano que o segundo concerto se realiza, com a câmara abarcando uma tonalidade e jamais a fragmentando. No único momento em que se sai da sala, é para Borzage ir buscar, através do reatrato de Maria Ouspensaya, a velha sombra e reunir também os mortos aos vivos. É essa prodigiosa ressureição, que justifica a "ressureição" de Myra (tão incrível como a de Charles Farrell em Seventh Heaven) abandonando piano e maestro, para se juntar à família, finalmente reconhecida.

Ultrapassei os meus (vastos) limites e dou-me conta de que ainda não falei de tanta coisa sublime de que queria falar: do baton das outras mulheres nas mãos de Myra; da paramentação do xaile e do primeiro "desacerto" em torno da música; das lágrimas de Ouspenskaya no final do primeiro concerto; do "I've Always Loved You" de George, junto à árvore, na noite do pedido de casamento; da fabulosa personagem da mãe de George, com a incrível sequência dos novelos, em que ela também parece detentora de todos os segredos e todas as cumplicidades. E ainda não falei das rimas internas - a cada plano - com as cores, os décors, os fatos.

Não vou falar. Como todos os espaços mágicos, este é um filme repleto de recantos e segredos, de sótãos e alçapões, em que cada um descobrirá os seus próprios tesouros. No mais acidental, oculta-se o mais essencial.

E seria precisa outra análise - já não filmográfica mas musical - para percebermos muitos outros concertos, numa obra que toma como cerne aquele que é não só o mais romântico dos concertos para piano e orquestra, como aquele que começa com uma longa entrada do piano solo, a que a orquestra tardiamente se vem juntar. Tão presente nesse início, será por acaso que Myra Hassman abandona o 3º andamento e deixa a orquestra concluir sozinha? Alguém me disse - e estou pronto a dar-lhe razão - que I've Always Loved You é também o filme de um imenso off: o do terceiro concerto, que todos sabem, no final, terá lugar algures e dará sentido pleno à crispação do primeiro e ao onirismo do segundo. Nesse, o maestro reunir-se-ia, ele também, a Myra, a George e a Porky, tão ressuscitados e rejuvenescidos como a everlasting music que já não precisaria de intermediários. Então eles, como ela, seriam finalmente kindly to the years.

5 comentários:

David Ferreira disse...

Onde é que eu arranjo isto?

João Palhares disse...

KG! Eles fazem anos e estão uns mãos largas. Até quarta-feira não se perde ratio, os filmes são todos de graça.

David Ferreira disse...

Perdi a pass q tinha lá. Tens convites. chuta-me um se puders..

Miguel disse...

Tem mais Borzage por JBC? Ou simplesmente mais JBC? Obrigado.

João Palhares disse...

Mais JBC e Borzage:

The Spanish Main

http://cine-resort.blogspot.pt/2014/07/o-terror-dos-sete-mares.html

Lucky Star

http://www.focorevistadecinema.com.br/FOCO1/benard-lucky.htm