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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A 'obscenidade' em Hollywood (II)


The Gang's All Here (1943)

A 'obscenidade' em Hollywood (I)



Showgirls (1995)

Se reverem o filme, verão que até as cenas que não contém sexo são pornográficas.

Ninguém sabe muito bem o que é 'pornografia' ou 'pornográfico', parece que se pode usar para muita coisa e em muitos contextos*. O Orson Welles dizia que havia duas coisas que não se podiam trazer para o cinema, a representação realista do acto sexual e orações a Deus. Mas adiante, parece que um dos significados instituídos de "pornografia" é "obras obscenas e sem qualquer mérito artístico", o que torna a coisa um bocado ambígua, se bem que seja melhor que "qualquer manifestação artística ou mediática que provoque pensamentos sexuais", que isso era o descalabro..

O 'porreirismo' mediático ou cinematográfico é uma forma de pornografia que precisa de denunciantes. Tudo o que de repente se torna numa fórmula, precisa de subversão, fale-se por exemplo do esgotamento formal de grande parte dos musicais nos anos 40 ou, neste caso, do 'porreirismo' (outra vez, a palavra) imagético dos anos 90. Para cada um desses males houve antídotos: The Gang's All Here foi um, entre muitos, para o primeiro mal, e Showgirls foi outro, entre muitos menos, para o segundo.

Como é óbvio, é preciso chafurdar a fundo na mediocridade, na obscenidade e na merda para se chegar ao ponto ou tomada de posição ou de consciência, enfim, a que se quer chegar nestes casos, e por isso é que o meio e o ambiente do filme do Verhoeven são 'mundanos' e 'corriqueiros'. Não funcionava doutra maneira.. É um filme sobre a natureza "animal" mais primitiva do ser humano (lembro a cena em que aparecem os macacos nos camarins) e que materializa o pensamento mais primitivo e básico que está por trás de tanta publicidade, programa de televisão e filme. Vivemos numa altura em que o formato reality show vingou, quer dizer, não é propriamente um mundo bonito, o que temos à frente.. precisa-se de mais filmes assim, que chamem as coisas pelos nomes.. de brisas de ar fresco, de vez em quando..

*Eu acho que pornografia é qualquer representação (artística ou não) que tem como único propósito provocar derrames de líquidos variados nas pessoas, seja o porno mais bruto com a Tori Black, seja a Júlia Pinheiro a baixar os óculos com tom "sério" e "compreensivo" quando vai expremer a vida privada das pessoas, em directo, e as lágrimas das pessoas, em casa.. ou a Fátima Campos Correia a perguntar ao Manoel de Oliveira se "é feliz", com um sorriso condescendente na cara - e isto foi anteontem, na RTP1

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Uma Viagem Pelo Musical - 1

ou

Como um Filme me fez (re)pensar todo um Género:

O filme foi "Les Demoiselles de Rochefort" e este é o meu maior post de sempre:


Quando chegou o som ao Cinema, o primeiro filme sonoro (por assim dizer) foi um Musical -"The Jazz Singer". 2 anos depois, outro musical ("The Broadway Melody") ganhava os Óscares apenas na sua segunda edição e no que aos Óscares diz respeito foram 10 os Musicais que receberam a estatueta de Melhor Filme,e com 82 anos de existência isso significa que mais de 10 % dos laureados são Musicais (se bem que nem sempre da melhor qualidade, é verdade).
Já se faziam curtas musicais durante os anos 20, cortesia de Lee deForest e antes de "The Jazz Singer", a Warner e a First Nacional usando o processo Vitaphone, produziram centenas de curtas sonoras, entre as quais interpretações de bandas e pianistas, mas ninguém estava ainda preparado para a explosão do Musical.
Em 1933 estreia "Gold Diggers of 1933" de Mervyn Leroy e encenado pelo grande Busby Berkeley (hoje em dia não se sabe qual deles é o maior responsável pelo resultado do filme):o Musical da Broadway abordava as feridas da 1ª Guerra Mundial mas o filme, feito na altura da Grande Depressão, pode ser visto como uma metáfora para os acontecimentos de finais de 20, senão veja-se que o filme começa com uma alegria imensa através do número festivo "We`re in the Money" e acaba naquele que é provavelmente o número musical mais terrivelmente pungente de todos os tempos (sim, mais que os de "Dancer in the Dark"), Remember my Forgotten Man:
I don't know if he deserves a bit of sympathy
Forget your sympathy, that's all right with me
I was satisfied to drift along from day to day
Till they came and took my man away

Remember my forgotten man
You put a rifle in his hand
You sent him far away
You shouted: "Hip-hooray!"
But look at him today

Remember my forgotten man
You had him cultivate the land
He walked behind the plow
The sweat fell from his brow
But look at him right now

And once, he used to love me
I was happy then
He used to take care of me
Won't you bring him back again?

'Cause ever since the world began
A woman's got to have a man
Forgetting him, you see
Means you're forgetting me
Like my forgotten man
Não vi vários dos musicais de Fred Astaire e Ginger Rogers. Vi apenas "The Gay Divorcee", mas acredito sinceramente que foram sucessos mais pelo estatuto de estrelas do par do que pela qualidade dos filmes. Não vi "Love Me Tonight" (1932) de Rouben Mamoulian nem "Hallelujah, I´m a Bum" (1933) de Lewis Milestone. Mas destaco os esforços dos irmãos Marx e da Disney, ainda que não possam bem ser considerados Musicais, não no verdadeiro sentido da palavra.



FINALMENTE e a fechar os grandes Musicais antes da equipa de Arthur Freed tomar de assalto o género, 1939 é o ano de "The Wizard of Oz" de Victor Fleming. Toda a magia do filme, o sublimar das cores e a mensagem mais deliciosamente dúbia da história do Cinema através do uso das próprias cores - o Kansas a preto e branco e as cores de Oz. Dir-me ão que o Kansas e Oz são uma e a mesma coisa e que a imaginação de uma criança é a mais explêndida das coisas, mas naquele final há (penso eu) um enorme sentido de perda. "The Wizard of Oz" é o filme com mais poder na cultura popular: as filmagens caóticas, a enorme infelicidade da "child actress" Judy Garland, a "Yellow Brick Road", a "Wicked Witch of the west", as leituras sexuais, as mensagens escondidas. É um filme mágico, sublime e tem já nele toda a fantasia e beleza do Musical, a capacidade de nos levar para um lugar melhor, para escaparmos à realidade enfadonha do dia a dia.