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sábado, 23 de agosto de 2025

OS VERDES ANOS (1963)


Durante os anos 60, depois de estudar no Institut d’Hautes Études Cinematographiques (IDHEC) e servir de assistente de realização estagiário de Jean Renoir em Le caporal épinglé e de Manoel de Oliveira em Acto da Primavera e A Caça, Paulo Soares da Rocha conseguiu realizar o seu primeiro filme graças aos profissionais que António da Cunha Telles reuniu e formou no rescaldo da sua primeira produção, Vacances portugaises de Pierre Kast, que trouxe a Portugal actores como Catherine Deneuve, Jean-Pierre Aumont e Barbara Laage, bem como o mítico director de fotografia Raoul Coutard, que por essa altura já tinha trabalhado com Pierre Schoendoerffer, Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Demy e Jean Rouch. 
 
Cunha Telles também estudou no IDHEC, onde conheceu Paulo Rocha e Alfredo Tropa, que viria a realizar o programa de televisão “O Povo que Canta”, com Michel Giacometti, e Pedro Só nos anos setenta. Saído dos Açores para Lisboa para estudar Medicina, Telles acaba por candidatar-se a uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian e vai para Paris estudar cinema. De regresso a Portugal, dirige um jornal de actualidades e assume funções nos Serviços de Cinema da Direcção-Geral do Ensino Primário, orientando cursos de cinema na Mocidade Portuguesa e realizando pequenos trabalhos encomendados. “O triste cinema que ainda existia,” disse ele mais tarde à Antena 2, “sem graça, sem piada, sem ideias, cinzentão, não queria que nós aparecêssemos, fechou-nos completamente as portas. (...) A minha primeira ideia era ter sido segundo assistente de um dos realizadores da época, para ver como funcionava. Isso foi-nos proibido. Aproximámo-nos entre nós e começámos a fazer filmes com equipas que inventámos.”[1] 
 
É assim que surgem Os Verdes Anos, numa atitude construtiva de mudar o panorama das coisas e de dar o melhor de si, e com os outros, para o fazer. Talvez seja isso que explique, também, a relação duma geração inteira com o próprio cinema. Como em Itália, com o neo-realismo, como em França, com a Nouvelle Vague, como em Inglaterra, com o Free Cinema, como no Brasil, com o Cinema Novo, como na Alemanha, com o Neuer Deutscher Film – e o facto dos movimentos terem nomes é apenas uma convenção –, houve um grupo de jovens que tomou o mundo de assalto e reclamou uma parte para si através do cinema, e o cinema passou a representar essa geração através deles. “(…) Descobriram-se novos autores,” disse Paulo Rocha a Roberto Turigliatto[2], “novos caminhos para percorrer. Pode-se dizer que grande parte do que acontece em Portugal de há trinta anos para cá deriva desta fractura, da brecha que então se abriu. De repente tornou-se possível ser culto, vanguardista na arte e politicamente engajado.

“A dada altura os meus estudos universitários em Lisboa não andavam muito bem, e comecei a produzir uma quantidade excessiva de histórias. Escrevia quatro páginas, às vezes mais, lembro-me de ter feito uma lista, tinha cerca de 50 histórias, e cada uma tinha precisado de uma semana para se organizar na minha cabeça. Corpos, personagens, incidentes. Também tive sempre a mania de caminhar a pé, fosse na cidade, ouvindo as pessoas, fosse em lugares um pouco mais mágicos e misteriosos, na montanha, no campo... Por exemplo, Os Verdes Anos nasceu do facto de duas vezes por semana eu passar três horas a andar sem destino pelos arredores de Lisboa, naquelas zonas rurais que foram sendo «apropriadas» a pouco e pouco, onde se estabeleciam aqueles que não conseguiam encontrar um quarto na cidade. Ainda se viam os restos de um mundo secular vagamente idílico e de repente mudava tudo... Era atraído por estes lugares como que por um mistério, era qualquer coisa de obsessivo, acabei a ir lá duas vezes por semana. 
 
Os Verdes Anos nasceu também de uma notícia num jornal, o crime cometido por um sapateiro. Por acaso aquele crime tinha acontecido a uns cem metros da casa onde vivia em Lisboa, no cruzamento da Avenida de Roma com a Avenida dos Estados Unidos.” 
 
Este filme de Paulo Rocha, além de ser importante e de marcar um antes e um depois na forma como vemos e fazemos cinema em Portugal, é também um trabalho muitíssimo bem fabricado, desde os diálogos escritos por Nuno Bragança ou improvisados por Isabel Ruth, à belíssima música de Carlos Paredes que adapta o Summertime de George Gershwin, passando pela forma como tudo nos é dado a ver, ouvir e sentir e que é o que envolve o trabalho de um realizador, e que é o que pode ser o cinema: mapear e sintetizar a ideia duma cidade com poucas imagens, relacionar esses espaços e essas imagens com o que sentem as personagens em dado momento, documentar idas e vindas do trabalho e um modo de viver e de sobreviver que já foi o nosso, recortar imagens com o próprio cenário e criar assim novas imagens, ocultar o que pode ser intuído e mostrar apenas o que pode ser revelado, ou demonstrado. Se se diz que uma imagem vale mil palavras, porque é que quase nunca pensamos e discutimos o cinema em termos de imagens e sucessões de imagens? O que é um plano. O que se vê num plano. Uma imagem que fica e nunca se perde, décadas passadas… a dança dos jovens apaixonados e da câmara naquele salão nobre, enquadrando e percorrendo primeiro os candelabros e o tecto, depois as silhuetas de Isabel Ruth e Rui Gomes… ou Ilda e Júlio… nos “nossos verdes anos.”

[1] in «Morreu produtor e realizador António da Cunha Telles, nome maior do Cinema Novo português», Observador, 24 de Novembro de 2022.
[2] in «Paulo Rocha», org. Roberto Turigliatto, Lindau, 1995.

Folha de sala escrita para a exibição do filme numa escola secundária em Braga, no âmbito das actividades do Lucky Star - Cineclube de Braga nas escolas da cidade.

domingo, 1 de outubro de 2023

ENCONTRO COM JOÃO DIAS


Como é que o cinema chegou até ti? Começou na infância? Na adolescência? Quando é que decidiste que podia ser uma carreira? Foste para Filosofia primeiro, não foi? 
 
O primeiro contacto com o cinema foi numa sessão de Os 101 Dálmatas, no Quarteto. Era um miúdo, muito pequeno. É uma memória de sonho, que está na névoa, coisas de outra vida. Terão havido outras sessões de cinema mas que não deixaram lastro. Mais tarde, deveria ter uns treze anos, vivia em Miratejo, um subúrbio puro e duro, tão horrível quanto maravilhoso, e tinha uma namorada com entusiasmo por cinema. Abriu uma pequena sala no centro comercial e ela insistiu, «sexta-feira à noite podemos ir namorar, onde é que vamos?». Fomos ao cinema. E essa sessão foi dramática, porque a sala de cinema era o lugar onde a matilha do subúrbio se juntava para a festa rija, e as sessões eram passadas com a malta aos berros, aos pulos, a fazer tropelias, a dar umas quecas, a fumar… O filme era a desculpa para uma estranha festa pagã. Eu era um rapaz meio enfiado e aquilo causou-me uma impressão terrível. Aliás, hoje fala-se muito do cinema em sala e do cinema em casa, e procura-se estabelecer uma diferença afirmando que o cinema é um acontecimento social. Não é um argumento que me toque muito. Para mim, a experiência do cinema foi sempre mais a de uma solidão exuberante do que a de um acto social. Mais tarde, na Cinemateca, vi muito cinema, duas, três sessões por dia. Celebrava-se o centenário e havia uma programação muito intensa, cheia dos grandes clássicos. 
 
Quê, '96? 
 
Exactamente. Mas, mesmo aí, o cinema não passou a ser, para mim, um acto social. Depois do filme há sobretudo um movimento de recolhimento, de pensar no que acabou de acontecer. Bom, tinha ido estudar fotografia, mas aquilo não me oferecia resistência suficiente, e tinha aquele ímpeto de juventude de querer sempre algo mais… 

Mais desafiante? 

Mais desafiante, sim, uma coisa mais aventurosa. Foi dessa vontade de aventura que verdadeiramente vim dar ao cinema. No início, em filmes de outros. Primeiro o Edgar Pêra, onde descobri a montagem, num período muito intenso de trabalho, em que se laboravam 24 horas, em turnos. Ficava a trabalhar à noite, até o Edgar chegar de manhã. Aí há uma primeira experiência do cinema que não é a do espectador. A partir das dez da noite não se ouve ninguém e estás até às cinco da manhã numa solidão absoluta a trabalhar as imagens, a escolher, eventualmente a começar algumas colagens entre planos. Isto bate novamente na tecla de uma experiência solitária, muito silenciosa, quer dizer, um bocadinho mais próxima do imaginário que temos do poeta a escrever, o silêncio, o isolamento. 

Como é que conheceste o Pedro Costa e acabaste a trabalhar com ele? E que influência é que ele teve, o que é que aprendeste com ele? 

A certa altura fui estudar Filosofia, mas isso foi interrompido quando fui chamado para o serviço militar obrigatório. Fiquei lá oito meses e depois, por várias circunstâncias, já não consegui retomar o curso. Queria fazer os meus filmes. E surge um desafio para fazer um filme sobre o SAAL, que é um filme que tu conheces, e sobre o qual já escreveste, e muito bem. Esse filme sobre o SAAL foi produzido pelo Abel Ribeiro Chaves, que tinha um segundo andar nos Restauradores onde ele guardava equipamento, nuns andaimes montados e cheios de caixas. Eu fui pedir ao Abel um sítio para trabalhar e lá fiquei no meio dessas caixas a montar o filme. Entretanto, o Abel acolheu o Pedro Costa, que também precisava de um espaço para trabalhar. Começaram então a sair dali umas caixas, aquilo começou a ficar mais ajeitado e ali ficámos os dois, ele numa sala, eu noutra. Havia ali uma convivência de parceiros de escritório. Ele na sua mesinha, eu na minha mesinha, a fazer as nossas coisas e depois tínhamos aqueles encontros de quem se vai falando, não é? Isto durou bastante tempo e foi-se criando uma relação de alguma fraternidade operária, digamos assim. Entretanto, ele tem o Ne Change Rien para montar com a Patrícia Saramago. Queriam alguém para sincronizar o som, eu estava ali. Só aí começa verdadeiramente uma relação de trabalho. 

Não sei se queres falar um bocado sobre os filmes que te foram encomendados. O documentário sobre o concerto dos Genesis, As Ondas, o Promenade Le Corbusier… 

São trabalhos muito condicionados. Pela circunstância da encomenda. Não sou o que normalmente se entende como cinéfilo. Não estou constantemente a pensar nos filmes que vi, mas nos filmes que gostaria de fazer, numa relação obsessiva com as matérias, a luz, o som, a direcção de actores, isto e aquilo. Sempre percebi que me tinha que manter próximo disso, mesmo que através de filmes de encomenda. 

E o Operações SAAL partiu de ti, então? 

É uma encomenda, mas completamente aberta. A associação Extra-Muros queria promover filmes sobre acontecimentos estruturantes da revolução portuguesa, como a reforma agrária, as campanhas de alfabetização, o SAAL… e perguntaram-me se eu queria fazer um filme sobre algum destes temas. O meu pai tinha participado no SAAL, e por isso eu já tinha uma ideia, ainda que muito vaga, do que se tratava. Portanto, aquilo ligava-se ao meu pai e ainda para mais punha-se a questão da habitação. Durante a minha infância, até aos dez anos, havia uma grande instabilidade, pois vivíamos sempre a mudar de casa. Chegámos a viver um ano no parque de campismo de Monsanto. Por isso interessava-me o tema do SAAL, a ideia de conquistar uma casa. Ora, o Operações SAAL é feito ainda na ressaca do Pêra, no bom sentido, e é construído com estratégias que eu trazia do Pêra. Só depois de realizar este documentário começa o meu trabalho com o Costa, que me vai pôr do outro lado da lua. Sobretudo pela relação com uma certa ideia de organização… leninista. «A organização é a única arma do proletariado na sua luta pelo poder». E no Costa há muito isso. Quer dizer, sem a capacidade de organização que ele tem, não se concretizariam as forças poéticas que encontramos nos seus filmes. Sem organização, a sua poesia não chegava onde chegou. Ora, o Pêra tinha muito mais uma relação com um cinema directo vertoviano, do cine-olho e da manipulação na montagem. Havia uma coisa que ele dizia quando íamos filmar a um sítio qualquer, e que eu acho maravilhosa: «Entramos já com a câmara em punho, a filmar!». Portanto, ninguém entra com a câmara baixa a pedir licença. Não! Perguntam depois, se surgirem problemas. Entramos a filmar. Com o Costa as coisas não funcionam assim, há um trabalho de antecipação. Uma coisa extraordinária, e que posso afirmar em relação aos filmes que montei com o Pedro, é que não há planos filmados que estejam fora do filme. Um ou dois, são residuais. Todos eles têm a sua função num desenho que está pensado antecipadamente. O trabalho de montagem é a tentativa de restabelecer uma ordem que já existia. A montagem aqui não é um trabalho de descoberta, é um trabalho arqueológico para repor a forma que as coisas chegaram a ter em determinado momento. Por exemplo, uma das coisas que habitualmente se julgam emblemáticas no trabalho de um montador é o de descobrir qual deve ser o primeiro ou último plano do filme, ou descobrir qual é a estrutura. Um montador nos filmes do Pedro não faz nada disso. Este montador deve ter uma sensibilidade de um tipo especial, mas não para cumprir essas tarefas. 

Mas isso é engraçado, porque essa tensão está toda nas Operações SAAL. Tu atira-los uns aos outros, como se estivessem mesmo a discutir. Estás nas filmagens, mas depois na montagem... 

Na montagem é que se descobriu tudo, não é? Não tudo, mas quase tudo. Exactamente porque o SAAL deve muito ao trabalho com o Pêra, particularmente a um filme chamado O Homem Teatro. Estávamos no Porto a rodar este filme, que juntava situações encenadas com actores e uma série de entrevistas de pesquisa que ele fez a muita gente ligada ao TEP (Teatro Experimental do Porto) e ao António Pedro. Os actores deviam trabalhar de forma muito livre, com imenso improviso, mas para isso era necessário formar os actores sobre o que era o TEP. Então o Pêra pediu-me para trabalhar as entrevistas que fez, agarrar nos melhores momentos e alinhar uma montagem que contasse a história do TEP, e servisse aos actores como uma fonte de informação para que pudessem trabalhar os seus improvisos. Montei uma série de retalhos onde os testemunhos dos entrevistados se contrapunham, ou se continuavam. A experiência dessa montagem é uma aprendizagem que levo para o SAAL, onde ponho frequentemente os protagonistas a dialogar uns com os outros. Acho que é no teu texto sobre o SAAL que pela primeira vez se aponta isso, e que tu descreves muito bem. Não deixo as frases completas, interrompo abruptamente o discurso para poder chocar com outro discurso, usando trechos de testemunhos para a construção de um testemunho novo. E sempre com a ideia de não fechar o assunto, como tu apanhas muito bem no teu texto. O importante não é chegar a uma resposta, mas trazer ao de cima o conflito, a tensão, as zonas escuras, apontar os problemas. 

Trocaste a cidade pela aldeia, não sei se isso afectou a tua forma de trabalhar. Quer dizer, o que é que te permite fazer a aldeia que a cidade não permite? E pronto, porque é que vieste para o Fundão, no fundo? Para Atalaia do Campo. 

Sem querer ser indelicado com a aldeia e com a região que me acolhe, a minha vinda para cá começa por ser uma fuga de lá. Mas tive a sorte de vir parar aqui, de frente para a Gardunha, a um lugar onde existe uma relação muito especial com a serra, porque estamos virados para o anfiteatro sul e situados no melhor lugar da sala para ver aquele imenso ecrã, onde comecei a “projectar” uma série de coisas. Estava há muito tempo sem conseguir filmar. Ao longo desse tempo a minha ligação ao cinema permaneceu, em termos práticos, somente na montagem dos filmes do Costa. Mas em relação aos meus filmes havia um grande desânimo. A certa altura fartei-me e pensei que tinha de resolver este problema. Em Lisboa não é possível, os encargos são enormes e entretanto tivemos um filho, o Francisco. É preciso inventar uma solução radicalmente diferente. Ora, dois anos depois da minha chegada aqui, estou a terminar o meu primeiro filme de ficção, graças a uma bolsa de criação artística atribuída pela Câmara Municipal. Foi a primeira vez que tive um apoio institucional para filmar. Não cobriu, evidentemente, os custos do filme, mas ao longo de doze meses deu-me a segurança suficiente para pagar as contas e não ter de andar sempre a correr atrás deste ou daquele trabalho. Ainda estou numa fase de encantamento. 

E como é que nasce a ideia desse projecto? Como é que foste dar ao Cireneu e como é que pensaste em juntá-lo à Nossa Senhora? 

Só uma coisa, antes disso. A partir dum certo momento percebi que só me interessava trabalhar sobre aquilo que me fosse muito próximo. Percebi que só podia filmar criando raízes num lugar, numa comunidade de gente, mas também numa determinada paisagem. Também por causa daquela vida com a casa às costas de que te falei, sempre tive uma grande vontade de me fixar. Pensar que esta é a minha última casa e que vou ficar aqui até ao fim dos meus dias, é uma ideia que traz imensa alegria, esperança, confiança, e uma vontade muito grande de... começar outra vez. As primeiras duas ou três tentativas falharam. Tudo falhou, vinte anos sob o signo do fracasso. Agora dei-me a mim mesmo uma espécie de segunda vida. Este é o novo cenário e em breve poderei dizer que é meu, que sou de cá, e quando vou à janela da sala vejo o décor. Aqui, comecei por estabelecer uma relação com as pedras, porque tenho a Gardunha à minha frente. É como o poema do João Cabral de Melo Neto, “A Educação pela Pedra”. E comecei a subir à Gardunha, onde me deparei com um património especial, as morfologias graníticas da Serra da Gardunha. No meio da natureza intuímos sempre qualquer coisa de sobrenatural e de arrebatador. Eis o cenário, é aqui que quero começar a filmar, no meio destes rochedos silenciosos e inamovíveis. 

Dei o passo seguinte, fui às lendas. A personagem mais emblemática do culto mariano na região é a Senhora da Serra, que tem uma lenda fundadora muito importante e lugares físicos identificados. Por exemplo, uma lapa na Gardunha, que é o ponto de confluência desta lenda e um cenário maravilhoso. Há uma outra figura muito importante, conhecida aqui como o Robin dos Bosques da Serra da Gardunha, um tipo chamado Cireneu, que em certo momento da vida está em fuga da polícia e refugiado na serra. Ao apoio que obtinha da comunidade nas aldeias em redor, Cireneu retribuía de forma generosa. Li sobre isso uma história lindíssima. Cireneu encontra uma menina que vai pela serra com uma marmita para levar ao pai, que está a trabalhar na horta. «O que é que tu trazes aí?». A menina não se assusta, mostra-lhe a marmita e ele come metade do que lá está. Depois, devolve a marmita e diz: «Agora leva ao teu pai que deve estar com fome». E nisto, Cireneu põe nas mãos da menina dois brincos de ouro, certamente roubados numa das casas senhoriais das redondezas. O projecto inicial do filme imaginava um encontro entre a Senhora da Serra e o Cireneu. Este encontro era um ponto de partida para uma discussão em que as personagens seriam representantes de duas ortodoxias muito diferentes. Esta premissa do confronto entre ortodoxias mantém-se no filme, mas a personagem do Cireneu desapareceu, e a própria personagem da Senhora da Serra é já o resultado de uma reinvenção muito livre. 

Tem uma presença muito forte no filme, a Patrícia Guerreiro. Como é que pensaste nela para aparecer no filme? 

Quando eu vim para cá falei com uma amiga comum, a Leonor Noivo, que me disse que aqui muito perto vivia a Patrícia, actriz no seu filme “A Raposa”. Fui conhecê-la, falei-lhe do projecto, e ela aceitou ser a actriz do filme. Hoje é uma grande amiga e uma aliada de trabalho extraordinária. É uma actriz maravilhosa, cheia de talento, inteligente e sensível, que percebia sempre muito rapidamente tudo o que eu dizia e todas as minhas dúvidas. Sei também que este filme foi um acontecimento feliz para ela. Sou muito afortunado por tê-la sempre por perto. 

A sequência final é muito forte. A montagem é muito rápida, muito acentuada. Não sei como é que chegaste até aí, se já estava pensado antes. Que são muito espaçados, os planos, ao princípio, e depois no final... 

O filme é todo ele muito preparado. [João Dias pega em storyboards] Estava tudo planificado em desenhos e tem poucas coisas que resultem de descobertas na montagem. Essa sequência é filmada assim, antes de mais, porque tenho os meus pudores. Não foi fácil, querer filmar essa agressão e chegar a descobrir como a gostaria de filmar. 

Mas isso nestes casos aguça o engenho, também, não é? 

Sim, mas isso dizes tu. A minha responsabilidade é dizer porque é que aquilo é filmado assim, não é? Não podia fazer como nas outras sequências do filme, em que a câmara está numa escuta quieta e atenta da movimentação dos actores no espaço e das suas palavras. Não era possível fazer isso nesta sequência, porque implicava uma exposição dessa agressão com a qual não iria conseguir conviver. Procurei uma solução que trabalhasse apenas com pequenos sinais daquilo que queria encenar. Por isso se fechou o quadro e se interrompeu o fluxo do tempo, o mais possível. De tal forma que a relação com aquilo se tornasse mais distanciada, mais icónica, menos emotiva. 

Mas tem muito impacto, assim feita. Aliás, acho que tem mais impacto do que se fosse filmado mesmo a... 

Sim, isso eu não tenho dúvidas. Começa por uma resposta a um pudor meu, mas que não é ingénua. Não sou um cinéfilo, mas tenho uma ideia do que é a história do cinema e sei o que tem sido discutido em relação a este tipo de representações. Ver filmes foi importante para construir este. A maneira de estruturar aquela sequência estabelece uma relação com a história do cinema, com a história da montagem. 

E isto agora é o teu estúdio, a Serra da Gardunha. Vais fazer mais filmes aqui? 

A última coisa que queria era ir filmar para longe. E a Gardunha é bem mais do que aquilo que filmei, é vasta, há mais mistérios e paisagens, há outras Gardunhas, há outras coisas. Quero continuar com uma declinação deste cenário, mas que seja ainda este cenário. 

Nas tuas entrevistas à Ana Soares, nas duas, refere-se um projecto do turismo no Algarve. Não sei se ainda queres acabar isso? 

Gostaria muito. Em dez anos, de travessia do deserto, deixei alguns projectos documentais para trás, já filmados. Outros, que eram de ficção, não chegaram sequer a sair do papel. Esse, sobre a indústria do turismo de massas internacional, era um deles. Julgo que poderia agora regressar a esses filmes com uma segurança que não tinha antes. Há quinze anos atrás estaria sempre com receios. Agora só preciso das oportunidades para concretizar, como foi o caso do Senhora da Serra, que sinto como um primeiro filme. Julgo que é um filme justo, coeso, feito com meios muito humildes, mas preciso de voltar a filmar para ultrapassar aquilo que neste filme não ficou ainda bem resolvido. Há uma sensação de trabalho inacabado. 

Mas também se sente sempre isso em qualquer coisa, não é? 

Sim, estou a dizer uma banalidade, mas é verdadeiramente o que sinto. Há sempre um desespero… 

Mas esse, para o turismo, ainda tinhas que filmar mais coisas? 

Isso foi filmado há dez anos atrás, e estes últimos anos com o Costa deram-me uma noção diferente das coisas. Não no sentido de começar a seguir alguma cartilha, «Isto faz-se assim», ou «Isto não se pode fazer assim». Há quem se enrede nas cartilhas, eu fujo a sete pés. A questão é a de conseguir o domínio das matérias do cinema. Como se faz o plano? Variar as escalas, ou manter a mesma? Usar sempre a mesma óptica, ou ópticas diferentes? Como se trabalha o ritmo, como se monta? Como planificar? Dividir a cena em muitos quadros, ou cobrir pouco? Coisas muito chãs, de domínio da matéria-prima. Uma coisa de artesão. E é esse saber de artesão que eu sei que hoje domino. 

Acontece que esse filme sobre turismo não está filmado como deveria de estar. Além disso, era um filme ainda muito estruturado na ideia do documentário de pesquisa, para o qual queria trazer imensas coisas. Hoje em dia percebo que o processo é inverso, quer dizer, tens sobretudo de tirar. Tirar até ficares com o mínimo que permita que o filme se possa apresentar como um filme. Há certas coisas que são evidentes, não precisas de dizer nada por cima delas. Não precisas de comentário sociológico, científico, nem mesmo poético. Nesse filme sobre o turismo as imagens deveriam falar por si, ou a montagem deveria permitir que elas falassem por si. 

Nos blocos dos Encontros escolheste um filme a acompanhar a... 

Escolhi o Benilde ou a Virgem Mãe, do Oliveira. 

Porquê? 

Tinha visto os filmes do Oliveira, anos atrás, nomeadamente naquele período em que frequentava a Cinemateca. Era um realizador que me entusiasmava, mas não como acontece hoje em dia. No último ano revi estes filmes, na verdade, de um modo algo egoísta, focado no meu interesse pessoal enquanto realizador. Já havia uma admiração pelos filmes, mas agora há também um viés. Como é que se chega àquilo, quais são os métodos, como é que se jogam aqueles elementos? De que maneira aquilo está a falar comigo? O deslumbramento é o de uma aprendizagem. É o cinema que neste momento mais preciso para fazer os meus filmes. Acho que me perdi da tua pergunta. 

Pronto, porquê especificamente o Benilde

Um filme que não cheguei a escolher, mas que ponderei, foi o Divina Comédia. Por causa do combate entre as ortodoxias, muito evidente nos diálogos entre o Mário Viegas e o Luís Miguel Cintra. Acho entusiasmante a transposição de textos teóricos para diálogos entre personagens. Isso interessa-me muito. Mas acabei por escolher o Benilde ou a Virgem Mãe. A respeito do filme do Oliveira e do texto original do Régio, convocam-se sempre as clássicas questões sobre a sexualidade latente, um cristianismo em queda, lutas entre a ciência e a teologia. Mas no Benilde há ainda uma outra coisa, que é a caracterização de um estado de solidão radical. O que me tocou no filme é sobretudo a atmosfera emocional que resulta da caracterização do isolamento da personagem de Benilde, impossibilitada de criar uma relação com o outro. Não se trata dessa solidão que desejamos para poder trabalhar. É uma solidão imposta. Violenta e frustrante. No filme, essa caracterização é muito perturbante. O primeiro acto do filme termina com Benilde a perguntar: «Padre Cristóvão, você também não se me acredita?». E o padre Cristóvão, muito perturbado – derrotado, até –, diz-lhe, «Não sei nada do que se passa. Mas acredito-te, minha filha». Este momento de ligação ao outro, que é tão importante que a leva a cair aos pés do padre, não volta a acontecer mais no filme. A partir daí, é um constante fechamento, que começa logo a seguir com o interrogatório policial da tia, que acha que a gravidez dela se deve a um puro facto mundano. E não divino. A caracterização dessa experiência de solidão foi importante para tomar decisões sobre o que eu queria do Senhora da Serra, onde está em jogo o fracasso de uma tentativa de relacionamento e de intervenção no mundo. A situação de isolamento radical da personagem. Era esse desespero que eu gostaria de conseguir representar no meu filme.

Entrevista realizada a 30 de Maio em Atalaia do Campo para o Jornal dos Encontros Cinematográficos de 2023, também publicada no site do Jornal do Fundão.

domingo, 22 de abril de 2018

O OLHAR DE ULISSES


por João Bénard da Costa

1. A nenhum escritor se pode chamar "documentarista". Mesmo quando descreve, com a maior fidelidade, um facto verídico e que presenciou, acrescenta um ponto. Um ponto que é o seu estilo e que logo transforma o facto "real" num fenómeno literário. Da arte do narrador depende a vida do narrado. Os diários dos grandes escritores, ainda quando estes nada inventem ou nada ficcionem, são quase sempre a forma suprema da sua ficção (Gide, Musil). Em literatura não há documentarismo. "Toda a verdade, só a verdade, nada mais do que a verdade" pode ser intenção. Mas só o é para o leitor quando o estilo a transfigurou. Fernão Lopes é um óptimo exemplo. Se não escrevesse como escrevia, a morte do Conde de Andeiro seria uma trivialidade e não, como é, um modelo de dramaturgia.

2. Do mesmo modo, nunca houve um pintor "documentarista". Mesmo os grandes retratistas - ou sobretudo os grandes retratistas - sempre pintaram retratos ideais dos retratados. Piero Della Francesca não ocultou o nariz quebrado e a verruga do Duque de Urbino. Mas o seu Frederico de Montefeltro não é certamente o Montefeltro que a família e os validos conheciam. Louis XIV, no retrato de Rigaud, não é um modelo de beleza. Mas, perante o retrato, percebemos a história de o Estado ser ele e por que razão lhe chamaram "o Rei-Sol".

Tais retratos deixaram de ser pintados quando se inventou a fotografia. Mas a fotografia só começou a ser uma arte quando deixou de ser a reprodução do fotografado e passou a ser mais retrato do fotógrafo (imagem de fotógrafo, é mais correcto dizer) do que retrato do modelo (imagem do modelo, é mais correcto dizer). O Picasso de Man Ray é Picasso ou Man Ray? Pelo menos é Picasso, tal como só Man Ray o viu. Ao contrário do que muitos pensam, a fotografia não documenta: revela. E não é casual que as grandes fotografias emblemáticas deste século - o soldado a ser atingido por uma bala na Guerra Civil de Espanha; o beijo do marujo e da rapariga, em Nova Iorque, no dia da vitória; o oficial sul-vietnamita a encostar a pistola à fronte do guerrilheiro vietcongue; o soldado com o cravo no cano da espingarda no 25 de Abril - se tenham revelado todas não "instantes do real" mas realidades compostas, imagens arquetípicas e não imagens típicas. São ícones, não são documentos.

3. Dispenso-me de exemplificar com a música, o bailado, a poesia, a arquitectura.

E chego aonde quero chegar: ao cinema, única arte onde se estabeleceu e se continua a estabelecer uma divisão, ou uma distinção, entre "cinema de ficção" (o cinema que conta histórias) e "cinema documental" (o cinema que nos mostra a vida "tal qual é", ou o cinema que não conta histórias). Na verdade, a distinção é ainda mais complexa, porque se chama também "documentários" ("documentários da arte") a filmes em que os contornos do real se esbatem tanto quanto se podem esbater. Filmes que estão nos antípodas da famosa definição de John Grierson - ao que parece, em 1926 - segundo a qual o documentário seria "the creative treatment of actuality", fórmula que, até hoje, ninguém conseguiu explicar-me (e muitos se esforçaram).

Porque "tratamento criativo da actualidade" foi o que escritores, pintores, fotógrafos e cineastas sempre fizeram (mesmo quando a actualidade não era a actualidade deles=, e ninguém precisou do termo "documentarismo" para o caracterizar. Porque "tratamento criativo da actualidade" (com a mesma ressalva) foi o que todos os grandes cineastas fizeram, mesmo que a história fosse a da Branca de Neve ou a da Pocahontas, do Barba-Azul ou dos Cavaleiros da Távola Redonda. Tomemos um dos mais delirantes exemplos de ficção: Cleopatra, de DeMille, em 1934. Não será o filme (também) um documento, um dos melhores documentos, sobre o modo como um americano da classe média imaginava a Roma de Júlio César e Marco António.

Nada de precipitações, porém. Para o facto de o termo "documentário" ser um específico termo cinematográfico (Sadoul dizia que Littré o admitira em 1879, mas apenas como adjectivo para tudo "o que tem carácter de documento", o que é muito diferente e nos levaria para muito mais longe) contribuíram, pelo menos, cinco ordens de factores, muito diferentes e muito diversas:

a) O nascimento do cinema como forma suprema de representação realista.

O êxito de L'Arrivée d'un train à la Gare de Ciotat (Louis Lumière, 1895) deveu-se ao facto de se "acrescentar" à fotografia o movimento, introduzindo assim uma nova dimensão na representação visual. Não era a fotografia de um comboio, nem a de uma estação, o que importava. Mas o movimento do comboio a avançar até ao plano próximo e a provocar, segundo a lenda, a fuga dos espectadores, aterrados com semelhante aproximação. Recorrendo a esse exemplo famoso, esquece-se, habitualmente, que a força da imagem reside no seu enquadramento e "planificação", e esquece-se que o espectador era conduzido a um lugar que raramente ocupou, a não ser que seja ferroviário ou miraculoso sobrevivente de um desastre ou tentativa de suicídio: estar de pé numa linha de caminho-de-ferro, virado para um comboio a avançar contra ele.

Seja como for, o sucesso do cinema deveu-se a esse efeito do real e, por isso, nos primeiros tempos dele, tanto se insistiu na possibilidade de ver "como se lá se estivesse". Mesmo quando Méliès encenou em estúdio a coroação de Edward VII (1901) o filme foi publicitado como reportagem dessa coroação.

E muitos, muitos anos depois (anos que, na História do Cinema, equivalem a séculos), até um homem como Griffith não resistiu a prevenir os espectadores que certas cenas históricas (a morte de Lincoln, por exemplo) reproduziam fielmente o quadro do pintor X, datado do ano da morte do presidente, como se essa origem conferisse à cena (depois representada por actores) outra credibilidade e outra verosimilhança.

b) Foi durante a I Guerra Mundial que o cinema se transformou num fenómeno de massas, visto por milhões em todo o Mundo. O facto não é nada secundário para o que me importa. Se esses milhões iam ver Chaplin ou Sennett, Mary Pickford ou Francesca Bertini, porque não servir-lhes, antes, filmes captados nos campos de batalha, "imagens reais" dos nossos rapazes e das circunstâncias em que combatiam?

Não é por acaso que o termo documentário só passou a ser substantivo depois de 1914. Assim se distinguia as histórias "imaginárias" do "filme de fundo" das histórias "reais" dos seus complementos. Veja-se os anúncios da época: "em documentário", imagens da Flandres. Às vezes pergunto-me se não ficaria melhor dizer "em comentário". Mas a separação cavou-se e ficou nos hábitos do público, antes de as produtoras descobrirem que ficções sobre a Besta de Berlim (o Kaiser, evidentemente) ou sobre Os Corações do Mundo podiam ser ainda mais eficazes, para a motivação das massas, do que esses minutos em que cada família, com um rapaz na frente, imaginava que o ia ver numa trincheira ou num combate.

c) A descoberta do cinema como arma de propaganda surgiu praticamente no fim da guerra. Quem a aproveitou não foram nem os vencedores, nem os vencidos, que, depois de 1918, quiseram sobretudo que se esquecesse tal guerra.

Foram os triunfadores doutra guerra, que teve por palco a Rússia e a transformaram em União Soviética. Quando Lenine chamou ao cinema "a maior de todas as artes" não estava a pensar em ficções que batessem as de Hollywood. Estava a querer atingir, pela força das imagens, o povo que queria submeter, levando-o a acreditar noutra história da carochinha, mas bem mais mortal: a da "superioridade moral do comunismo" e da "justa luta" dos operários e camponeses contra a burguesia corrupta. Dar a ver por toda a parte "imagens reais" dessa luta, documentá-la em encenações do real, esse foi o projecto mobilizador. A aura do documentário tem uma infinita dívida para com Vladimir Ilich, porque, primeiro na URSS e depois em todos os movimentos e correntes irmãos, amigos ou companheiros se generalizou a ideia de que essa era a mais revolucionária e radical das suas realizações. Não foi por acaso que os grandes mestres do documentarismo, por todo o Mundo, foram, com raríssimas excepções, marxistas ou "compagnons de route", de Joris Ivens a Paul Strand, de John Grierson a Basil Wright.

Os extremos tocam-se. O que os comunistas russos descobriram nos anos 20 reinventaram-no os nazis alemães nos anos 30. Não é muito estranho que o formalista Walter Ruttmann acabasse nazi. Não é muito estranho que Leni Riefenstahl tenha aprendido o que aprendeu a estudar Eisenstein. E, à mesma luz, não é muito estranho que Outubro, de Eisenstein, e O Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl, representem - como representam - o cúmulo da ficção sob a aparência do real. Poucas serão as semelhanças entre o que se passou em Sampetersburgo em 1917 e o que se vê no filme de Eisenstein de 1928. Poucas serão as semelhanças entre o que se passou em Nuremberga no congresso nazi de 1934 e o filme de Riefenstahl de 1935. Mas tanto Estaline como Hitler sabiam que essas obras ficariam, para sempre, como as visões recorrentes dos "dias que transformaram o Mundo" ou da "vontade triunfante" do III Reich. Exactamente porque o programa era documentar a realidade, e documentá-la de tal forma que ninguém a tomasse por ilusão.

d) A glória do "documentarismo" nos anos 20 e 30 tocou muita gente que nada tinha de marxista ou de nazi. Se a ficção não podia esquecer a componente público, o "documentário" podia fazê-lo. Daí o interesse de tantos, nas vanguardas de várias artes, pelas possibilidades que esse tipo de cinema dava. Por isso, nos anos 20 e 30, o documentarismo foi o meio privilegiado de todos os experimentalismos. Daí a criação do termo "documentário de arte", inteiramente alheio ao programa de Grierson mas que ficou com uma das mais fortes componentes dele.

e) E, se nos esquecermos da indústria e da arte, que buscaram no cinema todos os nossos pais ou avós que, com máquinas de 8mm ou Super 8, filmaram as nossas famílias? Recordar, para sempre, como eram os filhos em crianças quando como crianças deixaram de existir. Assim nasceram e proliferaram os "home movies", outra forma de documentar - e poderosamente documentar - as vidas das classes média e alta, dos anos 20 ou 30 até ao aparecimento do vídeo. Se, de todos os géneros de documentarismo, esse talvez seja o mais documental, haverá nele outro motivo de interesse, ou podemos sequer incluí-lo quando falamos de cinema como arte? A minha resposta é clara, mas a de muitos é obscura. E, nestes últimos anos, em que "não-ficção" se transformou na própria imagem de correcção política, os "home movies" (mesmo os mais frustes) foram objecto de sacralização.

4. A esta altura, o leitor que até aqui me seguiu deve estar espantadíssimo com esta conversa. Para o que é que lhe deu hoje?

Deu-me para chamar a atenção para o segundo módulo de vasto ciclo baptizado "O Olhar de Ulisses" e que, integrado nas comemorações da Porto 2001, se vai realizar no Porto, de 17 a 24 de Setembro, no Rivoli.

O Olhar de Ulisses vem do filme homónimo de Angelopoulos (To Vlemme tou Odysseia), de 1995. Pelos Balcãs devastados dos anos 90 erraram um cineasta grego (Harvey Keitel) à procura de um filme mítico rodado nos inícios do século e uma gigantesca estátua de Lenine, derrubada algures, depois da queda do Muro, e cujo destino permaneceu incerto. Encontraram-se em Sarajevo, entre as bombas e as ruínas.

Os organizadores retiveram desse filme o cruzamento entre um delirante imaginário (delirante narrativa, plasticamente remontando à Grécia e ao tal olhar de Ulisses) e a realidade dos anos 90; e propuseram-se, guiados por esse modelo, viajar por este século do cinema, associando "ficção" a "documentarismo".

O primeiro molde, que teve lugar em Maio passado, fixou-se e desfixou-se nos anos 20. Este centra-se e descentra-se nos anos 30 e 40, entre a Guerra de Espanha e o fim da II Guerra Mundial. Mas é um programa aberto, onde o princípio da livre associação excelentemente funciona. Por exemplo: quando estreou Trás-os-Montes (1976), a maravilhosa obra-prima de António Reis e Margarida Cordeiro, muita gente falou da influência de Dovjenko e de Zemlia (A Terra), de 1930. Sendo obrigatório mostrar A Terra, filme central para a polémica e perplexidades referidas neste artigo, os programadores decidiram também incluir Trás-os-Montes. De Germania, Anno Zero, de Rossellini (1946), passaram tranquilamente para Les Carabiniers, de Godard, filme de 1963. Para evocar duas das máximas monstruosidades da guerra de 39-45 - os campos de concentração e a bomba atómica -, não hesitaram em vir até aos anos 50 repescar Resnais e os clássicos Nuit et Brouillard e Hiroshima Mon Amour. E, na sessão mais audaciosa, andaram para trás e para a frente, buscando de 1895 o comboio dos Lumière, de 1909 A Corner in Wheat, um "short" de Griffith, para depois avançarem até aos anos 80 com Trop Tôt, Trop Tard, de Straub-Huillet.

Mais figurarão todos os grandes do documentarismo desses anos e ver-se-ão algumas das grandes ficções, supostamente mais próximas do "tratamento criativo de actualidade", ou seja, da actualidade dos anos 30 e 40. Obras-primas como The Grapes of Wrath (John Ford, 1940), To Be or Not To Be (Lubitsch, 1942), Aniki-Bobó (Manoel de Oliveira, 1942). Por mim, teria incluído as duas ficções que, a par com o filme de Lubitsch, mais bem representaram essa guerra (Hangmen Also Die, Fritz Lang, 1943, e This Land is Mine, Jean Renoir, 1943), mas não se pode ter tudo, e sobretudo não se pode ter má boca quando há iguarias destas.

Contudo, a questão deste artigo - ou este artigo de questões - continua-me em aberto. Se estivesse no Porto, não perdia Dovjenko, não perdia Trás-os-Montes, não perdia Sjöström, não perdia Trop Tôt, Trop Tard, não perdia Michael Powell, não perdia As Vinhas da Ira, não perdia Leni Riefenstahl nem Lubitsch (ainda por cima associados no mesmo dia), não perdia Rossellini, nem Godard, nem Resnais, nem Oliveira. "À la rigueur", como se dizia em tempos mais rigorosos, não perdia o filme chinês de Mushi, que nunca vi. Mas não me apanhariam a rever os filmes do GPO britânico dos anos 30, os pios documentários sobre a Guerra de Espanha, os Listen to Britain dos anos 40 ou as chinesices ou vietconguices de Joris Ivens.

Anos a fio - eram os anos 50 - vi e revi Grierson e C.ª em dezenas (não exagero) de sessões de cineclubes, não me atrevendo a perguntar onde estava a graça. Anos a fio - eram os anos 60 - consumi "documentários" panfletários em nome de causas que julgava boas, sem que o meu zelo se inflamasse ou desinflamasse. Hoje, julgo saber porque é que o cinema do "real" nada me diz e porque é que estou do lado da "fábrica dos sonhos". Não é a falsa questão do "documento" que me separa dele. É a verdadeira questão da representação que levou tantos a socorrer-se dele para ocultar revelação que não foram capazes de figurar.

5. Este texto, muito provavelmente, vai arranjar-me mais inimigos do que todos quantos escrevi em vida minha. Mas deixem pousar. Quem vir todos os filmes desta semana de Setembro, pela primeira vez, daqui a uns anos continuará a lembrar O Triunfo da Vontade e Aniki-Bobó, A Terra e As Vinhas da Ira, Trás-os-Montes e Les Carabiniers. Recordará do mesmo modo London Can Take It, Night Mail, Le Six Juin à l'Aube ou L'Histoire du soldat Inconnu? Depois digam-me, se eu ainda for vivo.

6. E enquanto o sou, daqui mando um abraço muito especial à Margarida Cordeiro, co-autora de Trás-os-Montes, Ana e Rosa de Areia, três das grandes obras de arte portuguesas deste século. Teve de esperar 13 anos para poder realizar Pedro Páramo, o último projecto de António Reis e dela, o último em que trabalharam juntos. Espero que o faça. E que deixem de dizer - de uma vez por todas - que Trás-os-Montes, Ana ou Rosa de Areia são documentários. Embora sejam seguramente as mais criativas visões da nossa actualidade de portugueses e da nossa vida de portugueses.

in "Os filmes que nos vêem/os olhos que nos filmam", «O Independente», 15 de Setembro de 2000, pp. 64 e 65.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Jeanne Moreau, actriz:


Touchez pas au Grisbi (1954) de Jacques Becker


  Jules et Jim (1962) de François Truffaut 


La Mariée était en Noir (1968) de François Truffaut


 Gebo et l'ombre (2012) de Manoel de Oliveira

 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

sexta-feira, 1 de junho de 2012


Killer Joe está no 2º pote das estreias mais esperadas de 2012, neste espaço. No primeiro: Low Life (Gray), The Master (Anderson), O Gebo e a Sombra (Oliveira), Holly Motors (Carax), Like Someone in Love (Kiarostami) e Vous n'avez encore rien vu (Resnais). Também no segundo: O Cavalo de Turim (Tarr), Outrage (Kitano), Expendables 2 (West) e To Rome With Love (Allen). No terceiro: Piranha 3DD. Pretende-se, além de esperar tudo isto, ignorar com muito afinco os novos filmes de Michael Haneke, Christopher Nolan e Walter Salles. Talvez se vá ver o Cosmopolis esta semana. E cruza-se os dedos para que isto seja verdade.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

2011


Mario Bava

Passou-me completamente ao lado, este ano de cinema. Porque quis que passasse, se calhar, não sei.. Num 2011 ideal, o Rivette estreava um filme, o Resnais, o Kiarostami, o De Palma e o James Gray, idem. Num mais ideal ainda, o Jerry Lewis realizava e escrevia uma comédia com o Jim Carrey como actor.. Não vi os novos do Cronenberg, do Skolimowski, do Wiseman, do van Sant.. enfim, os Panahis, os Wakamatsus, o Canijo. Vi o primeiro plano do Melancholia e jurei não continuar, vou ver se faço disso a minha resolução de ano novo. Não sei porquê, não achei grande piada ao Hellman, mas vou revê-lo..

A descoberta do ano é o terror italiano, a sessão de cinema é a do Xavier na Guarda, o torrent do ano é o Noises Off do Bogdanovich e o megaupload do ano, o Profondo Rosso. Os dvds do ano (não os lançamentos, mas os que vi) são a caixa do Dr. Mabuse e o Rally Round the Flag, Boys!, do McCarey (edição portuguesa, cinco euros, Cinemascope imaculado). E o vídeo de YouTube do ano. Entre o que vi, o que não vi e o que não quis ver, ficam (estreados este ano em Portugal):

1. Tóquio (a curta do Carax (!!!!) e a do Bong (!) )
Hereafter
O Estranho Caso de Angélica

2. Habemus Papam
The Ward
Winter's Bone

3. Tree of Life (pelas cenas nos anos 50; fosse o filme todo só aquilo e, sim, tínhamos o 2001 de 2011, se calhar muito mais)

Mas vejam antes estes balanços aqui: 1 2 3 4 5 6 7 8 9

*adenda: o concerto do ano é o dos Acid Mother Temple & the Melting Paraiso U.F.O. no Hard Club: Puta que pariu!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A 'obscenidade' em Hollywood (I)



Showgirls (1995)

Se reverem o filme, verão que até as cenas que não contém sexo são pornográficas.

Ninguém sabe muito bem o que é 'pornografia' ou 'pornográfico', parece que se pode usar para muita coisa e em muitos contextos*. O Orson Welles dizia que havia duas coisas que não se podiam trazer para o cinema, a representação realista do acto sexual e orações a Deus. Mas adiante, parece que um dos significados instituídos de "pornografia" é "obras obscenas e sem qualquer mérito artístico", o que torna a coisa um bocado ambígua, se bem que seja melhor que "qualquer manifestação artística ou mediática que provoque pensamentos sexuais", que isso era o descalabro..

O 'porreirismo' mediático ou cinematográfico é uma forma de pornografia que precisa de denunciantes. Tudo o que de repente se torna numa fórmula, precisa de subversão, fale-se por exemplo do esgotamento formal de grande parte dos musicais nos anos 40 ou, neste caso, do 'porreirismo' (outra vez, a palavra) imagético dos anos 90. Para cada um desses males houve antídotos: The Gang's All Here foi um, entre muitos, para o primeiro mal, e Showgirls foi outro, entre muitos menos, para o segundo.

Como é óbvio, é preciso chafurdar a fundo na mediocridade, na obscenidade e na merda para se chegar ao ponto ou tomada de posição ou de consciência, enfim, a que se quer chegar nestes casos, e por isso é que o meio e o ambiente do filme do Verhoeven são 'mundanos' e 'corriqueiros'. Não funcionava doutra maneira.. É um filme sobre a natureza "animal" mais primitiva do ser humano (lembro a cena em que aparecem os macacos nos camarins) e que materializa o pensamento mais primitivo e básico que está por trás de tanta publicidade, programa de televisão e filme. Vivemos numa altura em que o formato reality show vingou, quer dizer, não é propriamente um mundo bonito, o que temos à frente.. precisa-se de mais filmes assim, que chamem as coisas pelos nomes.. de brisas de ar fresco, de vez em quando..

*Eu acho que pornografia é qualquer representação (artística ou não) que tem como único propósito provocar derrames de líquidos variados nas pessoas, seja o porno mais bruto com a Tori Black, seja a Júlia Pinheiro a baixar os óculos com tom "sério" e "compreensivo" quando vai expremer a vida privada das pessoas, em directo, e as lágrimas das pessoas, em casa.. ou a Fátima Campos Correia a perguntar ao Manoel de Oliveira se "é feliz", com um sorriso condescendente na cara - e isto foi anteontem, na RTP1

terça-feira, 6 de setembro de 2011



idoso(a) |idózu|. s (Por idadoso, de idade + suf. -oso|. Que tem muita idade. ANOSO, VELHO. JOVEM, NOVO. Pl. idosos.

O dicionário está ERRADO!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A década em filmes...


Mulholland Drive (2001), de David Lynch

Femme Fatale (2002), de Brian de Palma

25th Hour (2002), de Spike Lee

Spider (2002), de David Cronenberg

Vai e Vem (2003), de João César Monteiro

Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera (2003), de Kim Ki-Duk

O Quinto Império (2004), de Manoel de Oliveira

Cigarette Burns (2005), de John Carpenter

Silenî (2005) de Jan Svankmajer

Il Caimano (2006), de Nanni Moretti

Paranoid Park (2007), de Gus Van Sant

The Tracey Fragments (2007), de Bruce MacDonald

There Will Be Blood (2007), de Paul Thomas Anderson

Ne Touchez pas La Hache (2007), de Jacques Rivette

O Homem de Londres (2007), de Béla Tarr

Quatro Noites com Anna (2008), de Jerzy Skolimovski

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Reminiscências nas "Recordações" do Monteiro...



"Jaime" (1974)

"Recordações da Casa Amarela" (1989)


"A primeira vez que vi a cidade de Lisboa, pensei comigo: Esta terra é como uma dama que tem que ser engatada com muito jeito. Nada de pressas, nada de deitar a mão antes do tempo, é preciso andar devagarinho com olho vivo e não cheirar-lhe os pés. É preciso, sobretudo, um homem lembrar-se que nasceu numa aldeia de pategos e aprender a aguentar-se.

A minha vizinhança foi quase toda corrida da cidade. Vieram com uma pressa tamanha que bateram com o nariz no primeiro muro e ficaram espalhados por aí. Verdade seja que eu também não tenho uma morada para cartão de visita, mas é por cautela. Tenho tempo de passar a melhor poiso. Nunca gostei de pressas, os meus vizinhos devem desconfiar de mim porque nunca me ouviram dizer que estava à rasca. Desaproveito não saberem fazer nada senão queixarem-se uns dos outros...

Na cidade ainda se diz "Ó patego, olha o balão" mas quem anda metido na construcção civil é que sabe onde andam os pategos, quanto custam os balões. Ainda não há como um homem ter nascido patego para levar à confiança a gente da cidade"
"Verdes Anos" (1963)


"Não consegui pregar olho esta noite, tenho o corpo cheio de bagas vermelhas. Coço-me com a ponta dos dedos, ao de leve, para não provocar feridas. Se meto a unha (e é uma tentação), estou feito.

Seriam três da manhã quando saí para a rua - a cabeça latejava por dentro, já não podia mais. Ainda os sentia a passear em cima de mim, a esfregar as patinhas de satisfação. Esforçava-me por não fazer bulir um pentelho e de repente, Zás, acendia a luz, sacodia os lençóis e punha-me a vasculhar a cama toda que nem doido. Nem um, nem um finalmente esborrachado entre as minhas unhas que esguichasse sangue por todos os lados. Só se aventuram às escuras os cobardes e mesmo assim devem vir camuflados, cobertos pelos pós das frinchas e dos recantos afiados do quarto. Largar um fósforo a isto tudo, atear fogo à palha podre do colchão e dançar de alegria no meio das labaredas enquanto os ouço (crack, crack) a estalar como castanhas ao lume.

A humidade vinda do rio encharcava-me os ossos, deixei de ouvir as badaladas da Sé. Acabou-se me o tabaco, o que ainda assim foi o pior de tudo. A comichão já não me incomodava muito, a não ser nas costas das maõs. O ardor nos tomates só começou mais tarde - pela manhã, se não estou em erro. Rabiei durante não sei quanto tempo, não se via vivalma, nem um ladrão de carros para dar dois dedos e cravar um cigarro. Por fim lá topei uma padaria aberta. As carcaças caíram-me na fraqueza - o costume.

Tenho um pacote de manteiga escondido no meu quarto. Aposto que a puta da velha não o encontra nem que vire tudo do avesso. Já não caio noutra: "Senhor João, o quarto não tem serventias". A velha descobriu um cacho de bananas podres por cima do guarda-fatos e foi um pandemónio. Não volto a comprar bananas da Colômbia, compram-se ainda verdes e dois dias depois estão completamente podres..."
"Recordações da Casa Amarela" (1989)

É ver os dois hospícios nos filmes do Reis e do Monteiro e o guarda a espreitar para a cela de João de Deus por uma abertura circular esculpida na porta de madeira (citação ao início do filme de António Reis, parece-me). É ver os dois monólogos de abertura (desabafos) com a cidade de Lisboa como ponto de partida (e, depois, de chegada) nos inícios dos filmes do Rocha e do Monteiro, outra vez. O travelling inicial no "Verdes Anos" só acompanha parte da voz em off, mas o de "Recordações" ressuscita-o. Cita, também, a cena final ("Ah, minha senhora"), curiosamente...

A Lisboa que Rocha e Monteiro representam deixa de ser a de Revista dos anos 30 e 40 (safam-se o "Douro, Faina Fluvial" e o "Maria do Mar", de Oliveira e Barros, respectivamente - era o que eles, Lopes / Vasconcelos / Monteiro / Rocha, diziam) para se tornar numa de pesadelo e de enorme convulsão social (e cultural), a verdadeira e real Lisboa.

Júlio e João de Deus são, então, duas faces da mesma moeda, derrotados no jogo do amor tanto por culpa deles como da própria cidade e seus habitantes. O Júlio da segunda parte de "Verdes Anos" não é o mesmo da primeira (o mesmo para Deus e não será demais apontar que no filme de Monteiro há uma ressureição), as suas acções não são explicadas nem, sequer, explicáveis - a elipse temporal que separa a primeira e segunda partes de "Verdes Anos" é, aliás, das mais terríveis da História do Cinema (sim, da História do Cinema). É ver, ainda, como Rocha filma os encontros de Júlio e Ilda - antes da elipse, todo e cada um desses encontros parece o primeiro (espontaneidade, liberdade, serenidade) e depois, cada um o último - até um o ser, mesmo...

Sobre o filme do Monteiro escreverei mais umas coisas: é o meu preferido da trilogia (como não podia deixar de ser, vi os outros e agora tenho de ver, à força toda, o "Quem Espera por sapatos de Defunto...."), se bem que algo me diga que o "Comédia de Deus" é o que preferirei daí a uns anos quanto mais não seja por me parecer o mais enigmático dos três, o que mais segredos parece resguardar; ai, as alusões a Rivette ("aquilo que é, é", diz Lívio a João de Deus), a Minnelli, a Murnau, a Stroheim, a Dostoievsky, etc; O plano que aqui postei é retomado em "Bodas de Deus" mas em reverso, da esquerda para a direita, para César Monteiro tudo tem o seu negativo e não existe, aliás, sem ele: o sagrado e o profano, o amor e a perversão, a virgem e a puta, a Cultura e a cultura, Schubert e Barreiros; Bénard da Costa diz (e João de Deus, também, nas "Bodas"), que "João César pagou (para ver, como no poker), sabendo que só Deus pode ver tudo e que esse é o princípio essencial da tragédia", e o princípio essencial da trilogia, necessariamente... Por fim, a comédia trágica ou a trágica comédia lusitana que César teceu é um dos melhores filmes dos anos 80, como o "Verdes Anos" é dos 60 e o "Jaime" dos 70. Assim, sem grandes dúvidas...

Sobre o "Jaime", e pedindo muita desculpa, dou a palavra ao César Monteiro, no próximo post... mas não sem antes dizer que é coisa poderosíssima. Essencial, também...

"Vai e dá-lhes trabalho"...