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segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Perguntas sobre o cinema americano


por Claude Chabrol, Jacques Doniol-Valcroze, Jean-Luc Godard, Pierre Kast, Luc Moullet, Jacques Rivette e François Truffaut

1) Que faz neste momento? Se estiver a preparar um filme, quais são as condições de produção?

2) Trabalha mais facilmente para a televisão ou em cinema? Porquê? 

3) Está satisfeito com as condições (produção-distribuição) nas quais fez os seus filmes mais recentes? Porquê? Se não, porquê? 

4) Qual é o seu projecto mais acarinhado? Está a pensar realizá-lo, e em que condições de produção? Se lhe impossível realizá-lo, porquê? O que é que o está a impedir? 

5) Trabalha com mais ou menos liberdade do que há dez anos? Os temas quentes (tanto morais como sociais) hoje em dia estão-lhe mais acessíveis? 

6) Hollywood mudou de há dez anos para cá? em que sentido?

*

1 - Estou a preparar um novo filme para a Columbia. Vai-se chamar Mickey One e será rodado na Costa Leste. As condições de produção são excelentes: sou totalmente responsável pelo filme e os únicos limites que me impõem são financeiros. Permite-me rodar com um pequeno orçamento e, enquanto o respeitar, a minha liberdade será absoluta no que diz respeito ao argumento e à escolha dos actores. A Columbia nem sequer está autorizada a ler o argumento sem o meu consentimento. São condições pouco habituais para o cinema americano, é o mínimo que se pode dizer. 
 
2 - Não trabalho para a televisão há cinco anos. A televisão é impossível nos Estados Unidos, porque é propriedade exclusiva dos anunciantes, a a visão deles do mundo é uma mistura de luxo, felicidade e água de rosas... em suma, uma mentira quase total. 
 
3 - O meu último filme, O Milagre de Anne Sullivan, foi realizado para a United Artists em Nova Iorque. Fiquei contente com as condições em que fizemos esse filme, mas não fiquei muito contente com o resultado. 

4 - O meu projecto mais acarinhado é o de realizar um bom film. Tenho a certeza que consigo arranjar os meios materiais necessários. Mais não tenho assim tanta certeza das minhas próprias capacidades. Sou livre, mas isso pode ser assustador. 
 
5 - Hoje em dia temos muito mais liberdade. É realmente mais fácil ser autorizado a abordar diversos temas. O que é mais difícil, é saber a verdade sobre esses temas. 
 
6 - Eu não ponho os pés em Hollywood há cinco anos. Não acho que tenha mudado de forma significativa. Consegue-se a liberdade para fazer filmes, mas nenhuma liberdade social, porque Hollywood é uma cidade que teve a inteligência de estabelecer a sua moralidade e os seus costumes ao nível mais venal. Por isso, as mudanças, em Hollywood, só podem ser superficiais. Em suma, não gosto dessa cidade, e não tenho vontade nenhuma de lá trabalhar.


in «Situation du cinéma americain», Cahiers du Cinéma nº 150-151, Dezembro de 1963 - Janeiro de 1964.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

The Final, Unrealised Projects

...


by Lotte Eisner (1976)

...UND MORGEN: MORD! (... AND TOMORROW: MURDER!) - Planned in 1962 (written in Beverly Hills in 1961 and in Munich in 1962), the story deals with a seemingly respectable bourgeois, a severe defender of moral traditions, president of many social associations who in his youth had suffered various repressions which caused him to commit obsessive, sexual crimes. When he is discovered, he commits suicide. Only the police commissioner, with some few others, know the reality behind the laudatory obituary of the dead man.

DEATH OF A CAREER GIRL - In 1964, Lang was president of the Jury at the Cannes Film Festival; Jeanne Moreau was a member of the Jury and suggested that they make a film together. With the actress in mind, Lang wrote a detailed outline of the script. A mature and still beautiful woman, the head of an international economic network contemplates committing suicide because her life and ambitions seem to her to be empty. Her whole life is then seen in flashbacks. Beginning as a young girl working with the French resistance during the Nazi 'occupation', and, like Gina in Cloak and Dagger (Fritz Lang, 1946), by "touching scum becomes scum" in having affairs with Nazi officers. Poor and ambitious she uses men unscrupulously to further her career. As the only man who loves her and treats her with respect sadly explains to her, in the struggle upwards she has lost her soul. At the end of the film, she decides against suicide; as one of the living dead she opens yet another business conference with cold triumph. The agents of Lang and Moreau were unable to settle the conditions of production to their mutual satisfaction and the project was cancelled.

- After this, Lang seriously considered making one last film in spite of his failing eyesight. Claude Chabrol, long an admirer of Lang's work, brought him together in Paris with his own producer, André Génoves, who offered him both complete artistic liberty and an adequate budget. Lang planned a story about contemporary youth, their conflicts and desires, their striving to free themselves from the traditions of the establishment, and their use of drugs. He described to me one beautiful sequence: coloured balls leap from a roof terrace and glide easily down stairs and through the air. A young girl intensely involved in an LSD dream glides down with them. Lang finally decided that his failing sight would not allow him to make the film.

(excertos da última página do livro de Lotte Eisner, dedicado a Fritz Lang)


quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Homenagem


No espaço de um mês, morreram Claude Chabrol, de quem me lembrarei sempre que vir este filme, Tony Curtis, cujos papéis em Sweet Smell of Success e Some Like it Hot serão sempre, por aqui, muito estimados, Sally Menke, força dinamizadora e inestimável do cinema de Quentin Tarantino e Arthur Penn, autor de Bonnie and Clyde, aquele tal que, junto com The Wild Bunch, virou o cinema norte-americano do avesso. Péssimas notícias, portanto.


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

"You Only Live Once" - 1937




Nem tanto pela história, nem tanto pelo retrato social mas por esta cena - a peça central "armadilhada" do filme de Lang - , pelos olhares de Fonda que abarcam em si uma consciência comum, um descontentamento generalizado, e pelo retrato da violência (o contra-picado mais acidentado que eu já vi - Welles incluído - o assalto ao banco e a tal peça central).
Foi Claude Chabrol quem me ajudou a ver como Lang, reduzindo as escalas dos planos gradualmente, primeiro com o travelling para a frente e, por fim, com os close-ups fechados nos lados e à frente, também (o vidro que separa Fonda de Sidney), "faz" dessa cena uma das mais violentas do Cinema - crueza e brutalidade, e são só olhares, gestos ínfimos, planos "cortantes" - são coisas, coisas que ninguém faz agora, pormenores, lá está...
É ver Fonda, separado de Sidney pelo tal vidro, a olhar de "esguelha" para os dois lados e a pedir-lhe que se aproxime mais - ela fá-lo - o plano fecha, mais ainda, em Fonda, e ele sussurra de forma horrível a frase que ditará os acontecimentos da 2ª parte do filme: "Get me a gun, a gun, get me a gun". E é uma coisa terrivelmente simples...

Claro que a seguir à trilogia judiciária os estúdios tiveram que "abafar" Lang. Não se podia ter alguém a realizar de forma tão apurada e tão sem concessões (se nem agora há quem o faça), não naqueles tempos - era impensável...

* addendum: Qual Hitchcock, qual Preminger, foram Lang (na maior parte dos seus filmes) e Wilder (em algumas comédias mas em "Stalag 17" e "Ace in the Hole", principalmente) os mais cruéis retratistas da Humanidade, por isso é que a seguir a um Lang se deve ver um Kiarostami e a seguir a um Wilder, um Tati, são os antídotos...

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

"Va Savoir" - 2001













"Ugo: "Il doit y avoir une ordre"
Dominique: Oui, il doit, mais quel? Allez savoir..."

Jacques Rivette é, para mim e junto com Alain Resnais, o mais fascinante dos cineastas da Nouvelle Vague (ainda não consigo aceder aos filmes de Jean Luc Godard - se é que é esse o problema - gosto dos filmes do Truffaut e do Chabrol e não conheço bem a obra de Eric Rohmer) e, claro, numa altura em que "auteur" e "mise en scène" são usados para descrever a obra de qualquer um (o que eles queriam, nos anos 50, era descobrir os impostores), louvado seja ele por nos mostrar, mesmo que seja de 3 em 3 anos, o que essas palavras significam e quão belas são, também.

"Va savoir" é o Teatro, a Literatura e o Cinema num círculo de convivências que dá pelo nome de Vida. Viver é interpretar, é encenar e o palco, uma extensão da vida (ou a Vida uma extensão do Palco). "Va savoir" são 6 personagens numa teia de enganos e desenganos (Lubitsch, Hawks), assentes em perfeitas dramaturgia e encenação. Mesmo num filme menor, Rivette consegue-nos "prender" às personagens e ao seu mundo circundante, unindo-as (e a nós, por extensão) à crença de que não há situações isoladas, tudo se alimenta, tudo se conflui num ciclo sem fim. "Senza Fine".

P.S. Posso falar em ciclos e extensões, personagens e convivências mas tais palavras nunca farão justiça a um filme. "Va Savoir" é "Va savoir", como "Rio Bravo" é "Rio Bravo" ou "Vertigo" é "Vertigo". São filmes, valem por si sós e são, sempre, a avaliação estética e equivalente deles mesmos.
(Ah, Jeanne Balibar...)