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sexta-feira, 7 de março de 2025

Arthur Penn no Canadá


por Robin Wood

Esta entrevista foi realizada em três manhãs sucessivas de Novembro de 1969 durante viagens de carro para locais de filmagem de O Pequeno Grande Homem. Texto aprovado por Arthur Penn. 

RW: Hitchcock disse que para ele o filme está completo com a finalização do guião de rodagem. Welles disse que para ele o acto criativo essencial ocorre na sala de montagem. Onde consideras que fazes os teus filmes? 

AP: Penso que mais na sala de montagem. Acho que foi George Stevens quem disse que o processo de criação de filmes podia ser dividido em três fases, a preparação do guião, a rodagem em si, e o processo de montagem, e que a primeira e a terceira eram as mais importantes. Eu subscreveria isso. A rodagem em si, embora por vezes apaixonante e muito recompensadora, é no entanto a criação de uma espécie de material em bruto básico do qual se extrairá eventualmente um filme. Isso não é verdade em absoluto no caso de Hitchcock. Ele avança e o plano dele é definido para executar a intenção de uma ideia e, normalmente, faz isso incrivelmente bem. Mas esse não parece ser o meu caso. 

RW: Há muitos mais cortes em Alice’s Restaurant do que nos teus filmes anteriores. 

AP: Está relacionado com a natureza do material. Há uma ausência de linearidade. Não existe uma cena estável em Alice’s que seja autónoma e leve a cabo as suas próprias intenções. Há um grupo constante de temas paralelos que correm ao mesmo género de tempo nervoso, e acho que a necessidade de alternar entre uns e outros, e não ficar com uma experiência até ao seu termo explica isso. Acho que é mais um resultado do que uma intenção ou uma técnica deliberada.

RW: Até que ponto supervisionas a montagem dos teus filmes, e até que ponto é que a montagem já está na tua cabeça quando estás a rodar? 

AP: Bom, num certo sentido a montagem está na minha cabeça—não se pode rodar efectivamente sem ter uma espécie de composição final na nossa cabeça. Mas, por exemplo, neste momento eu estou a rodar a última parte de O Pequeno Grande Homem num dia de neve frio no Canadá, e é difícil para mim prever nesta altura qual deve ser o ritmo desta cena, digamos, ao final de duas horas e meia de filme. Poderia dar um palpite fundamentado, mas não queria que essa fosse a minha única opção quando chegasse a altura de organizar o filme; assim, há outras variáveis que eu rodo, em termos de grandes planos e outros ângulos, que me darão a oportunidade de alterar o ritmo de uma cena. Estou a ficar cada vez mais agarrado ao ritmo no cinema—não uma teoria profundamente avançada mas uma coisa visceral. E para responder à tua questão sobre a sala de montagem—nesse sentido eu não supervisiono corte a corte, uma vez que tenho uma montadora extremamente brilhante [Dede Allen], mas o que de facto lhe digo muitas vezes é “Isso não está a acontecer da forma certa, isso simplesmente não está ao ritmo que acho que devia estar,” e discutimos muitas vezes um com o outro, onde ela dirá, “Mas não é este o valor que achas mais importante?” e eu respondo, “Não, não acho que seja mais importante. Acho que é um valor, mas não acho que seja tão importante, digamos, como um tipo de energia temerária que por esta altura se devia estar a acumular no filme, e não está, e se pararmos para marcar uma posição tão certa vamos perder esse género de impulso.” Portanto nesse sentido eu participo na montagem, mas na verdade é um diálogo contínuo entre mim e a Dede durante meses, e é frequentemente inflamado, mas sempre carinhoso.

RW: A forma como filmas—reduzindo cada cena em várias partes, filmando cada parte em tomadas relativamente longas, mas muitas vezes com a posição de câmara alterada com lentes diferentes para grandes planos, planos médios. . . Isso agora é prática comum como modo de filmagem? Que vantagens é que sentes que tem? 

AP: Acho que é uma prática relativamente comum, embora ache que o faça mais do que qualquer outra pessoa. Mas há várias razões. Elas podem ser aceitáveis para toda a gente menos para o homem que tem de pagar a conta para o filme que está a ser lançado, mas as razões são estas—aqui estamos nós no meio do Canadá a umas dezasseis semanas do início do filme, e estamos a rodar uma cena que vem algures perto do final do filme. Ela tem um certo ritmo inerente que todos sentimos no plateau. Não é necessariamente o ritmo que vai ser necessário nessa cena quando o tivermos todo montado numa sala quente de cinema e estivermos apenas a quinze minutos para lá de um saco quente de pipocas no intervalo do filme. Também existe a possibilidade de que o actor, ao fazer uma variedade de tomadas, ultrapasse uma certa sensação estranha diante da câmara e faça algo que parece acidental, mas é o toque natural de que estamos à espera. Se se fazem os filmes em pequenas partes, a oportunidade para capitalizar esses pequenos toques fica disponível. Se o fizemos num plano geral de grua longo, que vai para cima e à volta, e ao longo de duas tendas e por dois bravos montados, pode haver uma parte de magia algures por lá enterrada. Voltar atrás e consegui-la de novo é praticamente impossível. Não gosto muito de travellings numa sequência em que seres humanos estão a ter uma partilha íntima. Aliás, hoje à tarde vou utilizar um par de travellings longos pela aldeia, mas não vão ser baseados nisso—vão ser de preparação para a narração e as recordações de Jack Crabb durante o filme. Mas eu gosto que uma cena com diálogos tenha o género anterior de troca arrítmica e espasmódica que acho que o diálogo realmente tem, mesmo ao seu nível mais tranquilo. 

RW: A primeira impressão com que se fica dos teus filmes é a excelência quase universal da interpretação, às vezes por intérpretes cujo trabalho não era muito distinto anteriormente—Janice Rule em The Chase, por exemplo. 

AP: Das três fases de Stevens, aquela em que se pode ser menos que excelente é a fase intermédia. Vemos muitas vezes nos filmes de muitos dos melhores realizadores coisas que passariam apenas por actuação representacional aceitável. Mastroianni estava-me a dizer só há um par de meses que não é pouco comum para Fellini pegar em alguém da rua que se parece com o que ele quer. Ele diz-lhes, “Conta, apenas,” e faz vir outro actor para dar a voz. Isso é uma espécie de construção sintética do terço do meio; por outras palavras, esse terço do meio é relativamente controlável. No entanto, eu gosto de boa representação. Eu estive rodeado de bons actores toda a minha vida profissional, começando nos primeiros tempos da televisão ao vivo, onde trabalhei com tantos bons actores, depois no teatro, onde tive outra vez a oportunidade, mais os anos no Actors’ Studio, e francamente imensos anos com uma geração inteira de actores americanos que estavam empenhados na representação, o que era um fenómeno relativamente novo depois da guerra. Previamente a isso o padrão dos palcos americanos tinha sido imitar a alta comédia britânica. Com o Group Theatre[1] e depois o crescimento do Group Theatre e dos seus membros que ensinavam representação, desenvolveu-se uma nova geração de actores americanos. Num certo sentido, eu fiz parte disso perifericamente e aprendi o ofício da representação dessa forma, também com alguns estudos com Michael Chekov. Portanto tenho a capacidade, acho eu, para interessar um actor e também para proporcionar certas condições que talvez não tivessem tido em interpretações anteriores, que lhes permitirão emergir, como no caso de Janice Rule, digamos, ou de outras pessoas, às quais não falta talento. Têm uma quantidade de talento tal, na verdade, que muitas vezes confunde e prejudica outros realizadores que tendem a dizer “Não, não faças isso! Faz só isto.” Sabe, algures no interior de todas as pessoas gordas há uma pessoa magra a tentar sair—bom, no interior de muito actor cujo talento básico não observamos com muita frequência há um bom actor a lutar para sair, mas não está a lutar com força suficiente, ou esforço suficiente, ou suficientemente contra o Sistema. Portanto um dos prazeres de trabalhar com actores é ser capaz de trabalhar com eles na sua linguagem, e por vezes ser capaz de os estimular a actuações fora do comum. 

RW: Isto é muito diferente, por exemplo, das abordagens de Hitchcock ou Antonioni para com os actores. 

AP: Diria que sim—o que fundamenta novamente essa distinção de Stevens. Essas distinções são essencialmente artificiais excepto como exagero para a compreensão, mas nos filmes de Antonioni não se aponta para as actuações visivelmente boas como a substância dos filmes, e no entanto os filmes são notáveis—ou alguns deles são. 

RW: Sim, efectivamente é suposto Antonioni não falar de todo com os seus actores sobre coisas como motivação, ou aquilo que vai acontecer a seguir. Isto, imagino, é bastante alheio ao teu método de trabalho. 

AP: Penso que sim. Não me passa pela cabeça privar ninguém de qualquer informação que possa produzir algum tipo de intuição ou algum tipo de comportamento apropriado—parece-me que as intuições, as peculiaridades, as contorções e rotações que são originais nos filmes de Antonioni são de Antonioni, que as pessoas são um pouco automáticas e uma espécie de bela estatuária, e entendo que a sua experiência com Richard Harris, por exemplo, tenha sido de uma hostilidade considerável, porque Harris estava a fazer as exigências que um actor tem todo o direito do mundo a fazer e não estava a receber nenhuma dessas respostas. 

RW: Salientei esse contraste em particular porque ontem estava a falar com Dean Tavoularis [o director de arte de O Pequeno Grande Homem] sobre isto, e ele fez algumas comparações muito interessantes entre trabalhar contigo e trabalhar com Antonioni. Ele salientou que do ponto de vista do director de arte, talvez fosse mais gratificante trabalhar com Antonioni, que estava tão obcecado com o aspecto visual global de uma cena, enquanto que tu estavas principalmente interessado em actores. 

AP: Percebo isso muito bem, mas sei que muitas vezes Antonioni simplesmente esperava pelas condições climatéricas certas e o aspecto certo e a luz certa e assim sucessivamente, e eu entendo esse impulso nos cineastas. Por outro lado, particularmente sob as pressões do filme de Hollywood como o estamos a designar, não entendo. Não o entendo com as enormes despesas, em que quando se tem todas as condições climáticas maravilhosamente organizadas e as montanhas estão à distância de forma primorosa e o sol está por cima delas se diga, “Actores, representem instantaneamente! Agora, neste momento!” porque tudo o resto está certo. Aquilo que se ganha são autómatos que funcionam à frente da câmara—embora de forma maravilhosa em determinadas ocasiões, mas noutras ocasiões não. 

RW: Consideraste descartar nalguma das fases da realização de Alice's Restaurant o monólogo original de Guthrie, totalmente? 

AP: Bom, só uma vez, e depois de forma mesmo muito breve. Ao decidir fazer o Alice’s Restaurant, o meu primeiro e quase irracional impulso foi tentar expandir a gravação de dezoito minutos para um filme inteiro. Rapidamente se tornou aparente para Venable Herndon e para mim próprio que não era possível fazer isso—não se iria suster. Também destruiria a forma e a sagacidade do original e tornar-se-ia uma obra penosa. Então decidimos penetrar nas bases dessa peça, e começámos a desenvolver um conjunto enorme de material pessoal, sobre o Arlo, sobre o Woody, sobre Pete Seeger, sobre o Ray e a Alice Brock, sobre a vida da igreja. Tinha conhecido muito disso pessoalmente, tendo sido residente nessa zona imediata. E portanto a certa altura, muito adiante no guião, descobrimos subitamente que tínhamos um filme que não era realmente sobre os dezoito minutos de “Alice’s Restaurant.” Por outro lado, parecia absolutamente desdenhoso pensar em descartá-los, e não podíamos chamar ao filme Alice’s Restaurant e ter nele o Arlo Guthrie e não ter essa parte, portanto o que fizemos foi mantê-los quase intactos, aproximadamente com a mesma duração que está na gravação—acho que em tempo de filme ocupa uns dezoito ou vinte minutos, muito como a gravação, mas é só isso. Mas é uma espécie de homenagem independente e pequena à gravação. É como um desvio de teatro de variedades, na verdade, e serve como uma espécie de processo de fermentação. Acho-o divertido, e penso que o público fica contente por se rir a essa altura do filme, e eu fico feliz por os ter a rir. 

RW: Porque é que Alice obstruiu deliberadamente quando Ray está a projectar o filme de Shelly e a sua mota? O que é que vês a passar-se na cabeça dela quando faz isso? 

AP: Oh, não sei se consigo conceber qualquer tipo de pensamento consciente na cabeça dela. Acho que quer mesmo intervir naquela relação de Ray e Shelly de alguma maneira e sente que a sua conservação em película pela parte de Ray a exclui. Portanto interpõe-se a si própria fisicamente—como digo, sem pensamento consciente, mas muito da mesma forma que uma criança se vai interpor a si mesma entre adultos numa conversa em que se faz uma exigência, em que a criança sente que de alguma forma a matéria que se está a discutir também é da sua província e que não se lhe está a prestar atenção suficiente. Essa é uma das razões. Outra era que quando estava na igreja eles mostravam filmes de corridas frequentemente, e o que era interessante naquilo é que tratavam o filme de forma tão displicente. A minha experiência de ver filmes é a de ir quase constantemente para uma sala de visualização, sentar-me e olhar para uma parcela de película, e é uma experiência bastante sagrada. Mas eles passavam-no na parede da cozinha, e as pessoas entravam e saíam e iam buscar uma cerveja e passavam mesmo pelo feixe de luz do projector. Era tratado de forma muito casual, e eu achei que era uma coisa muito agradável de se fazer. Portanto pensei que aqui era importante deixar isso claro também—que o cinema para este grupo de pessoas era diferente do que é para mim—e para a maior parte das pessoas que eu conheço. 

RW: A igreja ainda está a funcionar dessa forma? A Alice e o Ray ainda lá estão? 

AP: Sim. O Ray ainda lá está. A Alice está divorciada e está a viver em Stockbridge, mas não está a viver com o Ray. 

RW: Sentiste alguma dificuldade em fazer um filme tão íntimo e revelador, e muitas vezes crítico, sobre pessoas que ainda estão vivas e presumivelmente mesmo perto durante a rodagem? 

AP: Elas deram todas autorização, leram todas o guião, e ninguém manifestou objecções ao conteúdo. O Ray, que tem uma personalidade exuberante, teve uns episódios ligeiramente histriónicos um par de vezes sobre como a invasão da companhia cinematográfica não era diferente da invasão das forças americanas no Vietname, e aqui estávamos nós a fazer um filme anti-Vietname, e como é que podíamos fazer algo tão abusivo e intrusivo como isto? A analogia caiu por terra bastante rápido, e o Ray, quando o mau humor passou, foi o primeiro a admitir isso de forma bastante envergonhada a a rir-se e beber uma cerveja. A Alice, por outro lado, disse-me numa altura depois de ler o guião, “Não sejas demasiado simpático comigo. Conta-o como foi. Conta-o da forma como achas que foi.” Uma afirmação bastante franca, devo dizê-lo, e só me deixou com admiração por ela. 

RW: Achas que o filme teve algum efeito directo sobre eles e possivelmente na sua relação? 

AP: Não sei. Não os vejo desde que o filme estreou. Só recebi uma carta da Alice, uma vez que acabei de trabalhar nesse filme literalmente no dia anterior a começar a trabalhar em O Pequeno Grande Homem—não tive oportunidade nenhuma para os ver. Sei que o Arlo viu o filme—estive com ele diversas vezes quando o tinha visto, mas a Alice não o tinha visto antes de eu deixar Nova Iorque e ir para o oeste. Mas recebi uma note dela a dizer “É um belo filme, e estou muito agradecida, obrigado.” 

RW: A rapariga de Arlo no filme fica como uma espécie de cifra. Era este o objectivo? 

AP: Bem, suponho que sim. Eu não percebia como é que as raparigas funcionavam com o Arlo nessa altura da vida dele. Não sabia mesmo nada sobre o assunto. O Arlo é uma pessoa um bocado fechada e difícil de conhecer. Não consegui descobrir nada de específico, e depois pensei que a coisa melhor e mais honesta a fazer talvez fosse não fazer conjecturas para além do facto de existir uma relação sexual. Mas a extensão do assunto normalmente era, “Bom, ela é uma moça porreira,” estás a ver, e quaisquer inquéritos tinham esse resultado, e eu pensei que tudo o que podia fazer era transmitir um sentido que talvez não fosse exacto de todo. E acabou por ser assim. Ele na altura andava a sair com outra rapariga, e então essa relação terminou quase imediatamente, ou estava a terminar durante as filmagens, e eu não sabia nada do conteúdo da relação nem porque é que estava a terminar e portanto não estava qualificado para inserir nada disso no filme. 

RW: Então ela era mesmo a rapariga dele, na vida real?

AP: Não, havia outra rapariga com quem ele andava a sair—que por sinal também aparece no filme, noutro papel. . . . Mas não, esta rapariga é uma actriz chamada Tina Chen. 

RW: De que nacionalidade é suposto ela ser no filme? É para se presumir que é vietnamita? 
 
AP: Não é para se presumir que não! Devemos estar sem dúvida conscientes de que ela é eurasiática e que há algum tipo de aproximação internacional. 

RW: Numa entrevista nos Cahiers du Cinéma, há alguns anos, disseste que gostavas de fazer um filme sobre a posição dos negros nos Estados Unidos, mas não te sentias preparado para o fazer porque era tudo demasiado próximo. No entanto consegue-se sentir este desejo em quase todos os teus filmes. The Miracle Worker, The Chase, Bonnie e Clyde, Alice’s Restaurant contêm todos tanto referências directas como oblíquas à condição dos negros na América. 

AP: O melhor que posso dizer é que são uma espécie de analogias, porque ainda me sinto mal preparado para representar o mundo negro de forma responsável, isto é em termos de textura interna, da sua vida interior genuína, com mais do que quanto muito um palpite fundamentado. Seria uma coisa imprudente de se fazer, penso eu. Por outro lado, por exemplo, estou a fazer um palpite parcialmente fundamento sobre o homem vermelho. Mas sinto que, socialmente, a situação não está de todo no mesmo ponto. Pediram-me para fazer uma série de filmes sobre os negros, muito especialmente a auto-biografia de Malcolm X, que é um filme que estou muito tentado a fazer, embora não o vá fazer, mas gostei imenso do livro. Gostar não é a palavra, mas revelou-me imensa coisa. Sejam quais forem as referências visíveis no meu trabalho, elas estão na forma de analogias em vez de afirmações específicas sobre o mundo negro, com o desejo ardente de que algum dia possa ser capaz de o fazer. 

RW: Até surge em The Miracle Worker, em que a Annie usa o menino de cor de uma forma que se sente que não poderia ter usado uma criança branca. 

AP: Sim, acho que era verdade dos tempos. O tipo de resposta ao controlo, a criança dedicada quase passiva, era provavelmente representativo da criança negra no Alabama de final dos anos 1880 e provavelmente não teria resultado tão bem com outra criança branca que estivesse a lutar pelo seu próprio ego. Acho que hoje em dia a criança negra não se submeteria a isso, e que o impulso para a constituição de um ego firme e orgulhoso é certamente a chave para o movimento negro nos Estados Unidos nos nossos dias. 

RW: O que é que te fez decidir utilizar uma mulher negra para a primeira entrevista de recrutamento em Alice’s Restaurant

AP: Bem, pensei que era uma das poucas alturas em que havia uma oportunidade para equilibrar as coisas mostrando a ordem social estranha que às vezes coloca pessoas como a pessoa negra ao próprio serviço do Sistema; é uma das formas mais subtis e cativantes pelas quais as pessoas são mantidas no seu tipo peculiar de gueto mal definido executando as intenções do Sistema. 

RW: Neste filme e em Mickey One, especialmente, pareces muito preocupado com a brecha deixada pelo colapso geral da fé religiosa que talvez remeta directamente para The Left Handed Gun com Billy e o homem de palha. Em Alice’s parece-me que o tratas de forma completa pela primeira vez. 

AP: Eu não entendo isso em mim próprio de todo. Não tive qualquer formação religiosa na minha vida. Nunca tive nenhuma crença religiosa. Não tive quase exposição nenhuma à religião organizada, excepto como uma espécie de observador de passagem—por vezes no Sul onde testemunhei coisas muito como aquela tenda evangélica. Vou-te dizer qual acho que é um dos aspectos mais apelativos para mim: a sua própria teatralidade. É uma das poucas áreas da vida moderna que é genuinamente teatral. Eu gosto desse impulso, e quando o vejo em falta, lamento-o e lamento que não haja bastante mais celebração. E nesse sentido talvez se possa dizer algo de pessoal sobre isso. Em criança, fui criado pela minha mãe, que estava divorciada do meu pai, e éramos muito pobres. E um dos sintomas dessa grande pobreza, que foi a meio da Grande Depressão, era o facto de não haver celebrações de festas nenhumas nem a celebração mínima do aniversário de alguém, por exemplo. Talvez passasse de mãos de forma um tanto superficial algum tipo de coisa pequena, e era isso. A minha mulher é a oponente mais forte e mais declarada disso, e não o aceita mais. Nós temos um grande número de celebrações, quase de tudo. Para nós é perfeitamente possível celebrar o facto de ser Terça-Feira, e devo dizer que gosto dessa parte da coisa—essa parte da vida. . . . E ela faz mesmo um grande alarido do Natal e da Acção de Graças e do Ano Novo e dos aniversários das crianças e do Dia das Bruxas e de festas de que nunca sequer ouvi falar. Acho isso muito agradável. Portanto talvez esse aspecto religioso esteja relacionado com isso—só no sentido celebratório. Ainda não estou a falar, acho eu, da verdadeira essência da questão, mas como digo, francamente não entendo a essência da questão. 

RW: Mostras uma continuidade entre o encontro de evangélicos na tenda e o movimento hippie utilizando o mesmo hino, que volta a aparecer de novo à guitarra mesmo no final do filme a acompanhar os créditos finais. 

AP: Posso explicar isso dizendo simplesmente que o Arlo mo apresentou muito rapidamente. Ele veio a minha casa da primeiríssima vez que o conheci. Depois de um bocado, e de comermos algo juntos e de partilhar dos intoxicantes da vida, ele sentou-se e tocou “Amazing Grace” durance cerca de duas horas em várias versões e cantou, e cantámos todos, e foi mesmo bastante comovente. Fiz-lhe perguntas sobre isso, e ele disse que o tinha feito uma vez numa estação de rádio, e depois disse, “Esta é a única versão que conheço. As pessoas que conheçam outras, enviem-nas.” Ele teve qualquer coisa como outras 115 versões deste hino a chegar. É um hino protestante americano inicial—e maravilhoso, acho eu. Sei que é algo de significativo para ele, e devo dizer que a expressão “Graça Deslumbrante” é algo de muito significativo para mim como uma espécie de enunciado poético. Se tivesse de contrariar a maior parte dos meus sentimentos misantrópicos, seria com o facto de existir uma espécie de graça que acredito mesmo estar dentro de nós, que talvez seja a esperança derradeira, e que a certa altura exerceremos graça uns para os outros. 

RW: Ficou em registo teres dito que The Chase é um filme de Hollywood e não um filme de Penn. Pode ter sido uma reacção extrema provocada pelas dificuldades que tiveste com ele. O tempo modificou isso de todo? 
 
AP: Bom, muito ligeiramente. Sou suficientemente sujeito a reacções pessoais para dizer, agora que o filme está a ser recebido de forma bastante mais calorosa do que foi na altura, que é um bocado mais fácil reconhecê-lo como meu. Por outro lado, reconheço o quão meretrício isso é. O próprio processo de fazer o filme, isto é rodá-lo, mas não montá-lo, parece-me ser o paradigma absoluto do filme de Hollywood—como os filmes são feitos em Hollywood ao longo dos anos. Eu não montei um metro de película, portanto é-me difícil reconhecer, embora saiba que tenha rodado cada pedaço que está no ecrã. Não representa a minha selecção, por exemplo, e onde percebi que tínhamos rodado oito ou nove tomadas de uma determinada sequência, as escolhas que foram aqui exercidas eram muitas vezes exactamente as opostas às que eu teria feito. 

RW: Mencionaste algumas tomadas extraordinárias, especialmente de Brando, que terias gostado de usar. 

AP: Bom, são muito difíceis de reconstruir. Na verdade eram só momentos de improvisação, em que sentimos de alguma forma que o texto era empolado e excessivamente expositivo. Depois de nos debatermos com aquilo durante um bocado, eu sugeri ao Marlon que improvisasse, e ele fê-lo, e improvisou de forma arrebatadora. Talvez fosse desarticulado, não estava estruturado em frases inteiras e completas, mas era apaixonado e comovente e cru—mesmo cru—e achei que essa qualidade estava totalmente ausente da cena quando vi finalmente o filme no ecrã. Foi uma grande perda para mim, porque achei que era uma das melhores actuações que já tinha testemunhado. 

RW: Voltando atrás: quando fizeste o The Miracle Worker, já o tinhas produzido para os palcos e para a televisão. Sentiste diferenças importantes entre os tratamentos? Em que medida te sentiste envolvido num acto plenamente criativo por oposição a um acto interpretativo, ou achas que é impossível fazer qualquer distinção? 

AP: Não, acho que é bem possível fazer uma distinção, e sinto mesmo que há uma grande diferença. O palco e a televisão são meios de comunicação essencialmente verbais—a televisão ligeiramente menos que os palcos, mas ainda assim de forma bastante forte, uma vez que, para usar a definição de McLuhan para a imagem televisiva, uma imagem de baixo contraste é uma imagem de baixo significado. O nível verbal da peça, particularmente no teatro, era tão forte. Por isso, tivemos de criar uma espécie de antagonista, um antagonista natural na pele do pai que estava sempre a impor limites de tempo arbitrários às experiências de Annie com Helen—”Duas semanas, Miss Sullivan, duas semanas, e depois ela volta para nós!” Esse tipo de coisa era necessária no teatro, porque a mim e ao Bill Gibson pareceu-nos que não conseguíamos desenvolver mesmo cenas de conflito sem isso. Quando calhou fazer o filme, infelizmente não ficou claro para mim até o filme estar feito que não precisava de nada disso—que a maleita de Helen em todo o seu impacto visual era antagonista suficiente para qualquer número de protagonistas, e não tínhamos de recorrer a todo aquele diálogo arbitrário, e quase uma espécie de peça de costumes, baseada em guardanapos e alimentação e maneiras à mesa sulistas, para marcar a nossa posição. A posição era visível a partir do instante em que aparecia o genérico. E é interessante que eu retire mesmo mais prazer do genérico, e dos flashbacks da infância de Annie, do que de quase qualquer outra coisa no filme. Sinto que esses são os aspectos mais fílmicos e cinematográficos do filme. E os outros, para o bem ou para o mal, são o melhor que consegui fazer com aquilo que concebo como uma espécie de peça teatral em filme. 

RW: O Pequeno Grande Homem. Podias falar sobre como encontraste o romance de Berger pela primeira vez, o que te atraiu à ideia de o filmar, e quão fiel a ele é a tua adaptação? 

AP: Eu estava a trabalhar noutro filme sobre índios com o Jack Richardson, um filme original, e estava a correr moderadamente bem, mas não muito bem. Tínhamos-lhe dado alguma forma, mas estávamos realmente com dificuldades a defini-lo de forma adequada. Então no decurso disso li uma crítica ao Pequeno Grande Homem, e achei que seria uma matéria de pesquisa interessante. Achei-o mesmo bastante encantador, engraçado, e tinha um adorável tom de ironia, que pensei que seria um tom muito eficaz para um filme sobre índios. E portanto comprámo-lo. É muito difícil ser fiel a um romance, fiel no sentido de reproduzir os incidentes num romance em filme, porque há tantos que são incidentes puramente literários em qualquer bom romance, que não seriam bom cinema. O exemplo que te dei em relação a The Miracle Worker pode muito bem ser transferido também para um romance—pedaços de prosa amplamente descritivos, com todo o tipo de ironias implícitas nas frases, e observações tangenciais que lhe acrescentam um travo requintado, podem não ser reproduzíveis em cinema, ou pelo menos não por mim. Aquilo que estamos a tentar fazer é aproximarmo-nos o mais possível do travo do livro fazendo uma espécie de justaposição estranha de cenas: cenas bastante sensíveis e emotivas entre os índios imediatamente ao pé de cenas bizarras no mundo branco. As cenas bizarras no mundo índio, as estranhezas do Contrário, por exemplo, a personagem do heemaneh, Little Horse[2], o tipo de homossexual para o qual há uma posição muito clara e satisfatória na comunidade índia—as coisas que estamos a tentar manter no filme. Por outro lado, os assuntos tiveram de ser comprimidos simplesmente para os incluir no filme, e mais uma vez outros são simplesmente eliminados porque não conseguimos arranjar tempo. 

RW: Quanto controlo tiveste sobre o desenvolvimento do guião—controlo total? 

AP: Oh, sim. Tão total como se poderia ter com um autor que está mesmo a escrever o guião—é o Calder Willingham—sendo o controlo inteiramente pessoal e humano. Posso não gostar de alguma coisa, mas não lhe posso dizer, “tens de mudar isto porque eu não gosto. Se tu, o autor, gostas profundamente, então eu aceito.” Posso-lhe dizer qual é a minha reacção e pode não ser inteiramente favorável, mas não posso dizer, “Podes retirar isso, porque eu não gosto.” Nós tivemos um diálogo aberto muito rico e acho que recompensador durante vários anos em relação a isto. Mas não é, de forma alguma, uma espécie de filme de autor. Não é isso de todo. É um filme feito a partir doutro pedaço de material por um escritor extremamente bom, e nesse sentido, e não digo isto de forma pejorativa, é um pouco um filme clássico de Hollywood. 

RW: Podes aprofundar isso e explicar qual é exactamente a distinção que tens em mente? 

AP: As distinções são antes de tudo excessivamente restritas para tornar claras as diferenças. Não tenho assim tanta certeza de subscrever por inteiro o conceito claro e simples do filme de autor, como um pólo em oposição ao outro pólo que se poderia chamar de filme industrial clássico de Hollywood, que tem uma espécie de anonimato incorporado pela mera quantidade e número de pessoas—e também a sua ausência de mobilidade. Eu acho que um dos aspectos mais extraordinários de um grande filme de Hollywood é que o número de pessoas envolvidas torna quase impossível ao realizador seguir um impulso. O impulso tem de ser pensado, planeado e pré-seleccionado ao ponto de já não ser um impulso, mas uma espécie de plano de batalha determinado. Quando chega a essa fase está a ser executado por homens que são especialistas absolutos, que assumiram o controlo e o tornaram mais ou menos anónimo pelo facto de o terem traduzido em “Oh, esse é um daqueles planos em que se faz isto.” 
    Eu daria Alice’s Restaurant como exemplo da versão americana do filme de autor—foi perfeitamente possível para nós, por exemplo, estarmos a ruminar, e quando chegou a previsão de que se esperava neve na manhã seguinte simplesmente deixámos tudo o que estávamos a fazer e fomos fazer aquela sequência inteira do funeral na neve toda num dia, e foi feita de forma muito simples. Aqui estamos nós, e sou confrontado com os problemas de neve em O Pequeno Grande Homem; a necessidade de neve é prolongada, e ontem o resultado foi a quase que paralisação do plateau inteiro porque não havia lugar para pôr o equipamento, e o equipamento estava a derrapar. A disposição para a colocação do equipamento e a sua camuflagem, e o próprio equipamento, tornaram-se finalmente o grande objectivo de como íamos filmar, que era como é que se evita o equipamento? 

RW: Houve muitos filmes feitos à maneira da Hollywood clássica que parecem ser filmes de autor no sentido de estarem gravados por inteiro e de forma tão clara pela personalidade do seu realizador: por exemplo, os westerns da cavalaria de John Ford e dois filmes que me disseste que admiravas, O Rio Vermelho e Rio Bravo, que não podiam ter sido feitos por outra pessoa que não Hawks. 

AP: Oh, eu não acho que os filmes de autor sejam uma impossibilidade no sistema de Hollywood. Acho que O Mundo a Seus Pés é um dos maiores exemplos disso no sentido de ser feito por um homem apenas—havia um tipo de inteligência visível em cada fotograma desse filme. E no trabalho de Hawks e Hitchcock e John Ford, certamente, mas deixa-me que te diga que ao criar o seu tipo de filmes, não acho que seja muito difícil fazer isso. Em primeiro lugar, há um histórico enorme com estes homes de um certo tipo de filme bem sucedido; depois, são filmes ortodoxos a nível superficial, ou seja ao nível a que os chefes de estúdio lêem o guião—é o John Wayne a enfrentar o Monty Clift, estás a ver, e vão ter uma grande luta. Esse tipo de coisa é compreendida de forma muito clara. Aquilo que acontece agora, claro, é que os temas nos filmes se estão a tornar um bocado irreconhecíveis para os chefes de estúdio. Portanto, filmes como Easy Rider talvez nunca tivessem sido feitos se tivessem de passar pelo processo de filtragem dos vários intelectos que gerem um determinado estúdio, cujo resultado final é o de alguém passar um cheque de x dólares para se fazer esse filme. Pelo caminho eles podem todos fazer pequenas sugestões para o tornar mais conforme, como, “Bom, talvez não andem de mota, andam de carro, e talvez não fumem erva, e se encontrarem uma rapariga atraente...,” e muito em breve acaba-se com um filme de festa na praia. Eu estou a ser jocoso em relação ao assunto, mas o que estou a dizer é que com comités, um dia alguém pensa num camelo, e eles tentam desvendar um cavalo. E isto tem sido tradicionalmente verdade em relação aos filmes maiores e mais invulgares de Hollywood. Por exemplo, ao mesmo nível que se pode apontar para Ford e Hawks e Hitchcock, também se tem de apontar para o historial de Welles em Hollywood, em que o seu autorismo era constantemente limitado e finalmente levado a um ponto em que é quase patético nos últimos filmes, onde se pode ver um homem a lutar no interior da estrutura dos filmes por uma identidade que está a ser obliterada pelo próprio processo de Hollywood. Se se continua a ser um realizador de Hollywood, uma das decisões básicas de vida é a de quando é que se desiste da luta. E um grande número de pessoas talentosas desistiu bastante cedo da luta. 

RW: Talvez se possa distinguir entre dois tipos de filmes de autor: um, a variedade Bergman directa de que O Mundo a Seus Pés é realmente mais próximo do que do filme clássico de Hollywood, porque é totalmente controlado por uma pessoa—filmes que fazem afirmações pessoais directas—e por outro lado, filmes que, embora sejam filmados a partir do guião de outra pessoa, talvez nem sequer da escolha do realizador, são permeados de formas bastante subtis pela personalidade do realizador. Tendo assistido à rodagem e a algumas rushes de O Pequeno Grande Homem, começo a sentir que isto vai acontecer, que está lá bastante de ti de formas bastante subtis, no tipo de actuações que estás a conseguir...

AP: O tipo de implante estilístico individual por vezes surge de forma bastante espontânea, como por exemplo nas dailies que tens estado a ver de O Pequeno Grande Homem. A noite passada vimos um plano da morte de Wild Bill Hickok, e algo que posso chamar de um toque de Penn, se quiseres, é a cara dele por cima do peito do pé de um sapato de homem. Isso aconteceu porque estávamos num saloon verdadeiro, em circunstâncias muito confinadas, e é muito difícil fotografar a cara de um homem se ele está literalmente no chão, de modo que levantar a cabeça do chão é um problema constante em cinema. Ou se crava a câmara abaixo do nível do chão ou se consegue que a cara fique em cima, e falámos sobre várias formas de ficar com a cara em cima. Depois apercebi-me que estaria tudo bem se ele tivesse caído na bota de um dos seus parceiros a jogar póquer, tendo sido atingido nas costas, e que um homem com a cara de um moribundo apoiada na sua bota ficaria paralisado e simplesmente a deixava lá, e não se mexia, e não reagia, tornando-se um objecto, e é isso que acontece. A cara de Hickok está como que cravada no peito do pé da bota; ele profere as suas últimas palavras a Jack e morre numa bota de tamanho 9[3]. Agora, isso não foi planeado—simplesmente aconteceu um minuto ou dois antes de chegarmos a essa sequência, e baseou-se inteiramente em conveniência. Isso torna-se uma espécie de toque autoral, por assim dizer—só digo isto como um toque. Não estou a sugerir que a teoria dos autores se pudesse realmente estender a isso; isso é absurdo. Mas é um toque personalizado. Portanto pode-se investir o guião de outra pessoa com toda uma série de toques personalizados. O tipo de distinção que estamos a fazer é entre a espécie de filme moderadamente autoral e o muito autoral, um em que se trabalha através do material de outra pessoa e se deixa uma marca nossa, e outro que é gerado como que visceralmente de nós e está profundamente imbuído com as motivações psicológicas, sociais e políticas da nossa própria vida.

RW: Na cena que estavas ontem a rodar fora da tenda do Pequeno Grande Homem, tens o Pequeno Grande Homem a a mulher índia Sunshine[4] a falar sobre o seu filho vindouro, uma cena bastante encantadora em que ela diz que o bebé está prestes a sair e ele diz, “Ele não pode sair até eu acabar de comer,” e então ela afaga a barriga e diz, “Não saias até o pai acabar de comer.” No pano de fundo disto, em plano geral, tens outra família índia reunida à volta da fogueira, um velho índio de pé sobre a fogueira a olhar em redor, a neve a cair, e para lá desta família índia novamente desertos nevados, bastante vazios. A cena parte deste momento bastante tocante para uma coisa mais obviamente cómica, com Sunshine a elogiar primeiro o Pequeno Grande Homem por trazer tanta comida para casa e depois mencionando imediatamente as irmãs—“Temos tanto para nós”—e começa a falar das irmãs. Acho que se envolvem muitas emoções diferentes nesta pequena sequência. 

AP: Primeiro, é uma sequência cómica soberba do livro; segundo, fomos confrontados com a necessidade de falar sobre a destruição do homem índio em batalha com os brancos, deixando para trás um número extraordinário de mulheres índias em proporção com os homens índios. O resultado da cena é que Sunshine vai pedir ao marido para também ser marido das suas três irmãs, que não têm filhos. É uma espécie de impulso de vida de uma personagem tribal para manter o seu povo vivo, sem nunca o pronunciar dessa forma. Colocando-o nos termos da cena, torna-se mesmo uma coisa bastante cómica. Sendo um homem branco e vindo de uma espécie de contexto moralista branco, Jack fica chocado com a ideia ao princípio. Mais tarde acaba por ver a sensatez da coisa, sem nunca ter uma daquelas descobertas sociológicas espantosas, e finalmente participa mesmo como marido de todas as quatro irmãs, e isso agrada imenso à sua mulher. Não é novidade que em momentos de grande aflição e em momentos quase genocidas, este tipo de suspensão da chamada moralidade de facto acontece—a preservação da espécie assume o controlo. Não é nossa intenção alguma vez especificar isso como sendo o impulso condutor da cena, mas é o tipo de cobertura intelectual sob a qual a cena existe. Espero que isso seja extraído, mas não o estamos a impor na cena. Espero que se revele mais cómico do que qualquer outra coisa e que os resultados de que estivemos a falar, os sociológicos, os genéticos, possam estar lá depois de uma reflexão, mas a cena está lá essencialmente para realizar o seu género de dever cómico...

RW: À qual a neve parece acrescentar uma tristeza, e o velho índio que está de pé a olhar mesmo em frente diante da fogueira...

AP: ... um certo tipo de melancolia: “Para onde foram os jovens todos?” Há isso, e há também o sentido de que Jack está na sua forma mais índia nesse ponto no filme. Nas suas identidades em mutação constante—tínhamo-lo mostrado antes a ser muito branco no seu período com os Pendrake em que estava a aprender este tipo de limites morais de forma muito severa—aqui ele é bastante índio e de repente tem de abandonar os seus limites morais brancos... Acho que é uma das melhores partes do filme—uma das partes mais bem escritas e mais bem concebidas. 

RW: Um pormenor—quando o Pequeno Grande Homem recebeu o seu jantar de Sunshine, o estufado estava muito quente, e Dustin Hoffman pegou em punhados de neve e largou-os na comida para a arrefecer. De quem foi essa ideia? De Calder Willingham, tua, ou de Hoffman? 

AP: Do Dustin, provavelmente, com certas limitações estabelecidas por mim. Por outras palavras, havia umas colheres índias bastante rudimentares que os aderecistas estavam muito ansiosos em aplicar na cena, e eu senti que a cena se tornaria um pouco mais viva se houvesse o obstáculo de estar com fome e ter uma refeição demasiado quente, e depois a mulher estava a falar sobre algo em que não se estava particularmente empenhado... Eu gosto de proporcionar aos actores este género de problemas—não resolvê-los, mas dar-lhes os problemas em si, e depois um bom actor consegue resolvê-los por si próprio. O Dustin é muito rápido—lançou-se àquilo e decidiu atirar alguma neve para o seu estufado de búfalo. 

RW: Então isso é uma espécie de toque combinado de Penn e Hoffman. 

AP: Sim, normalmente são... muito raramente são simplesmente implementados de fora. A ideia de um acidente controlado, ou de acto de invenção controlado, normalmente é baseada numa espécie de privação. Sabes a disponibilidade de uma equipa inteira para tornar as coisas fáceis para os actores. A necessidade psicológica de um actor é ter as coisas tornadas fáceis para ele; gosta de estar no seio da sua família, e psicologicamente isso é um bocado de postura. Eu não me importo que isso seja verdade em todo o lado menos no instante diante das câmaras, em que acho que deve haver um certo número de obstáculos ao vivo genuínos proporcionados aos actores que eles têm de resolver sozinhos, durante os quais ocorrem estas invenções acidentais, e fico encantado com eles quando o fazem. 

RW: Outro pormenor foi o de Sunshine a deitar os restos que não se acabaram de novo para a panela, para os guardar para a próxima refeição. 

AP: Esse foi totalmente meu, mas pensei apenas que a vida dos Índios das Planícies nunca foi muito provida de sustento, e certamente que a ideia de haver uma panela comunitária seria perfeitamente natural para uma sociedade comunitária. 

RW: Justificando o fracasso de A Terra dos Faraós, Hawks disse que não sabia como é que um faraó falava. Estás a sentir alguma dificuldade deste tipo ao dirigir personagens índias? 

AP: Sim. Não há qualquer dúvida em relação a isso. Decidimos desde o início aceitar uma espécie de coloquialismo inerente ao romance de Berger e utilizá-lo como se fosse a língua dos índios. Por exemplo, os índios neste filme não dizem “matou”, dizem “apagou,” e nós escolhemos expressões de gíria moderna para criar esse vocabulário índio. Apesar disso, ao observar os índios com atenção, fica-se impressionado com o facto deles terem um nível de comunicação diferente e menos verbal do que a cultura branca americana, digamos, e de facto proporciona pequenos obstáculos—para o Dustin, particularmente, quando tem de interpretar no mundo índio e sente que é instado a verbalizar demasiado. Se este filme acabar por não funcionar, não acho que vá ser esse o problema, embora possa ser sintomático do problema, que é o facto de simplesmente não termos criado uma vida índia realmente sólida. 

RW: Dizes que Alice’s Restaurant é um filme de autor. Como é que conseguiste preparar isso com todas as dificuldades de que tens estado a falar? 

AP: Uma das formas foi fazer tudo de forma bastante económica: tudo desde o meu próprio salário, e as quantias que éramos capazes de pagar aos actores, ao tamanho da equipa, passando pela quantidade de equipamento que tínhamos, o número de carros. Usufruímos de uma maior mobilidade como resultado de ter cada vez menos e menos e menos peças de maquinaria, de modo que era perfeitamente possível sair de repente e fazer qualquer coisa, e conseguimos fazê-lo a um nível bastante económico para um filme americano. Tenho sempre de referir isto—é diferente de um filme de qualquer outra parte no mundo, e esse princípio básico não deve ser ignorado. As exigências dos sindicatos na indústria de cinema americana são muito altas, e eles criam um obstáculo enorme a superar para pôr em película uma coisa bastante simples e terna e pessoal. Há formas de o contornar se se for um jovem cineasta apenas a começar, mas se se é um cineasta conhecido, então há um certo número de trabalhadores dos sindicatos que estão designados desde o início do filme, e as despesas aumentam. É muito difícil manter um filme até mesmo relativamente barato para alguém com qualquer tipo de reputação na América... Não se pode fazer o Easy Rider mais do que uma vez—isso não acontece. 

RW: Escreveste parcialmente Alice’s Restaurant. És creditado como co-autor do guião. Queres falar sobre a tua colaboração nele? 

AP: É sempre um bocado injusto distinguir aquilo que eu fiz em comparação, digamos, com o que Venable Herndon fez. Fizemos boa parte daquilo juntos—em conversa, em reflexões mútuas, ou em reflexões contraditórias. Mas passámos de facto alguns meses só a bater naquilo todos os dias, três e quatro e cinco horas por dia a elaborar as ideias do filme, a estrutura do filme. Eu diria que a maior parte da língua realmente falada no ecrã provavelmente é do texto de Venable, mas mais uma vez é muito difícil dizer isso, porque geralmente isso resultava de uma troca quase improvisacional entre nós que incluiria certos elementos do diálogo, que ele então incorporaria lá. E mais uma vez, há elementos que são incorporados directamente do Arlo: “Eu não abandonei a escola, a escola extinguiu-se à minha volta”[5]—este comentário era inteiramente do Arlo, entre muitos outros. Mas, por outro lado, vemos muitas vezes créditos no cinema em filmes franceses e italianos em que há quatro ou cinco escritores e o realizador listados como autores. Legalmente isso não é assim tão realizável nos Estados Unidos, embora realmente seja muitas vezes o caso que o realizador contribua para o argumento. Isso aconteceu em The Left Handed Gun e de certa forma em The Miracle Worker, aconteceu em Mickey One, aconteceu em The Chase numa certa medida, aconteceu em menor medida em Bonnie e Clyde e ainda em menor medida aqui em O Pequeno Grande Homem, mas não se é creditado porque há uma limitação associativa, uma limitação sindical, e aqui não se pode reivindicar a autoria exactamente da mesma forma. Têm de se apresentar provas da nossa participação na redacção efectiva do guião perante uma comissão do Sindicato dos Argumentistas. E isso é um bocado rebaixador, acho eu. Penso que era um dispositivo de protecção—nos velhos tempos era necessário impedir toda a gente no estúdio de se tornar o autor do guião, e que o autor do guião acabasse como moço de recados. Acho que hoje em dia é o contrário dessa condição que é verdade, em que muitas vezes há escritores, mas geralmente é o próprio cineasta que faz grande parte da concepção e da elaboração efectivas e frequentemente contribui para o diálogo. Realmente torna-se deselegante e pouco polido fazer essa afirmação, mas provavelmente podia ser feita por Hitchcock e por Hawks e por Ford em relação aos seus filmes, embora não tenha sido feita. Eu não acredito que os créditos de cinema sejam a linha de definição sobre quem participou mesmo e portanto quem é o autor e quem não é. Acho que isso é um dos equívocos básicos do conceito de autor e a razão pela qual a sua aplicabilidade é muitas vezes menosprezada no que diz respeito aos filmes americanos, por oposição aos europeus. 
    Eu não acho que, em teoria, se possa simplesmente ignorar as disciplinas que são inerentes a uma organização altamente qualificada e altamente técnica—elas também podem ser muito valiosas. Para mim foram. Ensinaram-me em vários filmes o que podia e não podia fazer, ou ensinaram-me pelo menos quais eram os limites, e o facto de as querer ou não violar tornou-se uma questão de minha escolha. Francamente há competências extremamente valiosas a adquirir com um meio de comunicação altamente industrializado à disposição. Mas o atrito ao outro nível também é muito grande. É-se uma criatura social, e também se é um membro de uma equipa, independentemente de se ser ou não o realizador. De algum modo, quando se está fora, e particularmente fora de Hollywood, como estamos aqui no Canadá, ou no Dakota, aparece uma espécie de homogenia de unidade, e então é muito difícil ser empregador e infractor dessas competências ao mesmo tempo. Há certas coisas que se faz que têm a anuência total da equipa, mas também se pode ter o sentimento de que “Não é assim que se faz” de uma forma altamente ritualista: “Não é assim que nós fazemos, meu filho”—quase começava a parecer fala de índio. Esse sentimento é muitas vezes comunicado pela equipa complexa de Hollywood. 
    Eu não acho mesmo que sejam necessariamente as próprias equipas ou as próprias competências técnicas. Acho que é muito mais o pessoal fiscalizador do estúdio. Aquilo que se encontra nos Estados Unidos, agora talvez em ligeiramente menor grau mas ainda, mesmo assim, é que a equipa—e isso inclui o operador de câmara, o homem do som, a maquilhagem, os figurinos, literalmente toda a gente—são mais responsáveis para com os dirigentes do estúdio do que para com o realizador individual, porque os dirigentes do estúdio representam uma continuidade no emprego para eles, e o realizador individual não. Resume-se a um facto económico tão simples quanto esse. Se eles fizessem coisas que fossem uma aberração nuns termos estúdio-industriais quaisquer, podiam muito bem acabar na lista de alguém como sendo de alguma forma malucos ou excêntricos ou incompetentes, e portanto há uma espécie de deflector ou um isolador de competência por que se tem de passar para se conseguir ter o momento de verdade imperfeito, ainda que altamente pessoal e por vezes revelador, no ecrã, e tem de se filtrar isso através de todos os géneros da mais subtil censura. É incorrecto chamar-lhe censura—é uma vontade virada noutra direcção. 

RW: Alguns realizadores tendem a levar ao extremo as coisas que querem fazer, que no quadro mais restritivo seriam modificadas e controladas. Foi interessante ver recentemente Ride the High Country uns dias depois de A Quadrilha Selvagem

AP: Eu achei que Ride the High Country era um filme elegante, mesmo fantástico, e A Quadrilha Selvagem era de facto um péssimo trabalho de um homem talentoso—cheio de excessos, cheio de simbolismo com escorpiões, e uma espécie de descuido. Quer dizer, aquela imagem dos escorpiões a serem devorados pelas formigas parecia mesmo cinema tópico[5] de ordem muito inferior... e os cortes para as crianças, e a inocência das crianças, e a violência implícita nas crianças... está aí o nível mais baixo de simbolismo, acho eu, e isso não era verdade para Ride the High Country. Ride the High Country tinha uma espécie de carácter irónico, solto e duro como pedra—não tem as melhores actuações do mundo, mas não tem de ter. Uma das melhores coisas nele é o seu carácter cru, monossilábico e de feridas na sela. 

RW: Há directores de fotografia com quem te tivesses dado particularmente bem, com quem tenhas gostado de trabalhar, e que tenham dado um contributo criativo ao filme? 

AP: Muitos deles deram. Acho que o Stradling dá, acho que o Burnie Guffey deu em Bonnie e Clyde, embora fosse difícil para o Burnie, porque lhe estávamos a pedir um estilo de filme diferente do que ele gostava. Custou-lhe caro, e teve um ataque de úlceras a meio do filme, claramente porque aquilo que lhe estávamos a pedir for não era o que os melhores impulsos dele lhe ditavam. Mas novamente, esse sentido de um director de fotografia ser talvez aquilo que o Coutard e o Decaë podem ser em França não é verdade nos Estados Unidos. De novo, a questão do emprego constante muito raramente está relacionada com o realizador. Está relacionada com o estúdio, e com o estabelecimento de continuidade: eles querem saber qual vai ser o próximo filme deles, e se vão ter um ano de emprego remunerado em vez de estar à espera que o Penn tenha outra ideia, outro impulso para fazer um filme. Em França, o Decaë e o Coutard e o Ghislain Cloquet trabalham com um número limitado de pessoas, estás a ver. Acabei de receber uma carta de Ghislain Cloquet no outro dia, e ele tem andado a trabalhar com Robert Bresson, e ele tem alguns contactos disso, e faz os filmes deles e trabalha com eles e tornam-se uma espécie de colaboração. Isto não é verdade nos Estados Unidos. Os directores de fotografia são de alguma forma mais intercambiáveis, mas o nível de normas técnicas estabelecidas—sobre aquilo que vai para a câmara e o que sai do laboratório—é baseado na intercambialidade. Não é baseado na individualidade. Um director de fotografia fica doente, pode-se deixar lá outro, e tinha-se muitas dificuldades em reparar na diferença entre os trabalhos deles— não porque os homens em si não tenham um olhar original, mas porque têm de provar a sua competência a nível de executar as normas. Quando as executam de forma competente o suficiente num certo sentido para obliterar a sua individualidade, então tornam-se membros de pleno direito do sistema, e são intercambiáveis. É um facto bastante irónico e amargo, mas é um facto de uma indústria, por oposição a um esforço artístico individual que se pode dizer ser característico do cinema francês. 

RW: Quais são agora os teus sentimentos em relação a Mickey One? É o único dos teus filmes que eu não gosto. 

AP: Bom, continuo a gostar dele. Arrependo-me de não ter tornado claro o nível narrativo desse filme, porque há uma narrativa forte que é possível ali e teria tornado esse filme, eu acho, muito mais compreensível. Mas eu estava inebriado com a... talvez este possa ser um muito bom exemplo daquilo que estavas a falar há pouco, ter-se total liberdade e ter-se certas limitações. Não tenho assim tanta certeza de que a total liberdade seja necessariamente boa. Talvez seja correcto citar isso como um exemplo—um exemplo perfeito na medida em que eu estava inebriado com a ideia da total liberdade. Senti que não se tinha de lidar com as qualidades filistéias de contar a narrativa pura, e lidar com o subtexto como se fosse subtexto. Em vez disso filmei o subtexto e deixei a narrativa de lado na maior parte das vezes. Muitas das minhas analogias um bocado exageradas desse filme como sendo mesmo o posto avançado da era de McCarthy, e todo o sentido da culpa sem nome, pura e simplesmente nunca chegou à tela. Em retrospectiva isso é muito decepcionante, porque acho que era um filme recheado de boas ideias, a maior parte das quais acabaram em discussão e não na tela. 

RW: E a personagem do artista japonês? Ele parece uma das maiores fraquezas do filme, por parecer uma personagem tão simbólica e imposta ao público como um símbolo. 

AP: É, sim. Eu pretendia mesmo que ele fosse o sobrevivente, do refugo da bomba atómica e do refugo dos resíduos industriais que uma cidade deita fora—que de alguma forma se pode converter isso de metal básico em algo mais refinado. A ideia era essa. Mas tenho de dizer que pela altura em que está na tela, não posso criticar Peckinpah assim tanto em relação ao baixo nível de simbolismo. 

RW: Não se sabe como é que Yes, a sua criação artística, é para ser tomada, se é suposto ter validade ou não. Eu, pelo menos, nunca tive a certeza. 

AP: É suposto... 
 
RW: Eu não consegui deixar de pensar em Yes, aliás, junto aos móbiles de Shelly em Alice’s Restaurant, que não se pretende claramente que tenham grande validade artística. 

AP: Não, não têm. Mas o Shelly também é absolutamente o contrário desse tipo de homem... não, no caso de Alice’s Restaurant são apenas prova palpável do desejo de um homem em fazer outra coisa com as mãos e com a vida, mas isso é tudo. Não são muito talentosos e não são muito significativos. O trabalho do sobrevivente em Mickey One era suposto ser significativo. 

RW: Os protagonistas dos teus filmes, com a excepção parcial de Annie em The Miracle Worker, parecem sempre envolver-se, às vezes pelas suas próprias acções, em situações que não conseguem enfrentar ou controlar. Isto corresponde à tua visão pessoal das coisas? 

AP: Acho que sim. Acho que há muito pouco que se possa fazer em relação ao próprio destino. Refiro-me a resultados externos—quanto efeito se tem sobre o que acontece na própria vida. Como se vive com isso é uma questão totalmente diferente, e o que é a avaliação pessoal do próprio comportamento, é mais uma vez uma questão totalmente diferente. A parte interior da vida é diferente da parte exterior, mas eu diria que na maior parte das vezes, o meu sentido do lado exterior de viver é que, na melhor das hipóteses, é uma coisa muito aleatória. As forças são mesmo tão fortes em todas as direcções que acho difícil conceber alguém a tomar controlo da sua vida ao ponto de o resultado estar genuinamente ao seu alcance. 

RW: O Pequeno Grande Homem segue este padrão de alguma forma? 

AP: Sim, O Pequeno Grande Homem segue sem dúvida esse padrão. Aliás, o Pequeno Grande Homem é essa personagem mesmo ao extremo, no sentido de se esforçar muito pouco para afectar a sua vida, escolher um objectivo e alcançá-lo. Envolve-se com objectivos que lhe são atribuídos por outros e ora os completa ora os falha conforme o determinam os acontecimentos—durante os quais se tem uma visão bastante boa do Oeste como podia bem ter sido nesse momento da invasão do branco ao mundo índio. O Pequeno Grande Homem é essa personagem inactiva ao extremo. Como digo, pessoalmente eu não subscrevo isso como modo de vida... Acho que se deve protestar contra ele—resistir-lhe—e luta-se contra ele constantemente e de forma violenta, mas acho que em última análise teria de dizer que não sei se o protesto e a luta resultam necessariamente numa mudança palpável e visível. 

RW: No meu livro, sugeri que pertences àquilo que se pode chamar livremente de tradição romântica, em que coloquei Blake, Lawrence, Yeats—uma tradução que dá especial ênfase à espontaneidade, em viver dos impulsos, viver dos instintos. Aceitas essa colocação? 

AP: Bem, teria todo o gosto em aceitá-la. Não sei se é verdade, mas aceito-a! Acho que posso dizer que é verdade em relação ao meu trabalho com os actores. Não sei se poderia reivindicar isso como estilo de vida, embora haja muito nisso que poderia querer reivindicar. 

RW: Tu pareces admirar o comportamento espontâneo nas tuas personagens, e ser atraído por ele, mesmo quando é destrutivo para as personagens. Estou a pensar, por exemplo, em Bubber Reeves em The Chase, Bonnie e Clyde. Embora sejas críticos deles e vejas as suas limitações, também pareces muito atraído por eles porque, de certa forma, são livres e espontâneos e impulsivos. 

AP: Sim, certamente que gosto disso em qualquer narrativa—gosto do chamado comportamento impróprio, a chamada afecção imprópria, para adoptar o termo psicológico, porque parece ser a própria essência da verdade relativa ao comportamento humano—que se ri nos momentos de maior raiva, que há lágrimas nos momentos aparentemente mais impróprios. Há misturas estranhas de comportamento que têm um toque de veracidade nelas que o comportamento delineado de forma bastante clara da maior parte das interpretações na maior parte dos filmes não tem. Acho que Bergman é um mestre nisso, na verdade. O facto de ter feito uma cena tão erótica, embora não ache que tenha sido esse o seu impulso, em Persona tendo duas mulheres sentadas numa sala vagamente escura a uma distância considerável uma da outra, e uma a contar uma experiência sexual, que provavelmente é em parte verdade e em parte um certo embelezamento fantasioso, é um feito notável. Não consigo pensar em mais ninguém que tivesse tido a audácia total para fazer isso—e no entanto a verdade daquilo soou na minha cabeça como um sino. Eu prezo isso nos actores. 

RW: Disse-se que Bonnie e Clyde é um filme perigoso por incentivar a revolta, sem sugerir ou insinuar qualquer ideologia ou programa coerente ou positivo. Sentes que há alguma verdade nisto? 

AP: Bom, eu não acredito que haja revolta sem um programa que surja dela. Os activistas que geram revolta não têm necessariamente objectivos ideológicos claramente definidos: uma revolta surge de uma condição social. Não penso que surja da definição de objectivos abstractos, e da tentativa de alcançar esses objectivos. Os activistas revoltam-se; depois vem um grupo de intelectuais que subscrevem as propostas da revolta, os objectivos, e então vê-se ao longo da história como o impulso da revolta, e os objectivos tal como são definidos pelos intelectuais que herdam a revolta, não são necessariamente coincidentes, e há uma espécie de sub-revolta posterior subjacente, um grande abalo e muitas vezes um grande banho de sangue que acontece depois quando a revolta seguiu de algum modo a sua forma. Portanto não acho que isso seja uma crítica particularmente válida, porque se pode fazer essa crítica a quase qualquer revolta na história e encontrar as mesmas coisas em falta. 

RW: É bem sabido que Bonnie e Clyde foi escrito antes de te ter sido oferecido—na verdade, foi oferecido a Godard e a Truffaut, julgo eu, antes disso. Gostavas de falar sobre os contributos específicos que sentes que trouxeste? 

AP: Houve uma espécie de reorganização do guião original pela qual fui responsável a meio do filme. A reunião de família acontecia bastante mais cedo no guião do que no filme, a boleia ao coveiro e à namorada, e a descoberta de que é um coveiro—a espécie de presságio da morte que perfura a escapada romântica de Bonnie—estava numa posição diferente. Não havia o tipo de fio para a reunião de família que existe na presente versão, e sei que sou responsável por isso. Mas, por outro lado, era um guião escrito de forma excelente desde o primeiro momento. O estilo e o tom do filme foram realmente estabelecidos pelos escritores, nesse caso, e nesse sentido foi um dos filmes mais fáceis de fazer. Havia um brio maravilhoso na escrita. Cada pequena cena tinha o seu pequeno acabamento elegante, e por aí seguia, e foi um guião muito bom para trabalhar. Havia uma complicação sexual no guião original que não me parecia particularmente adequada: C. W. Moss realmente como amante de Clyde e de Bonnie. Eu senti que essa triangulação profundamente empenhada e implicada talvez não resultasse necessariamente no comportamento que o filme exigia de Bonnie e Clyde, ou seja este tipo de experiências de substituição. Senti que isso era tão complicado e detalhado e limitativo por si só que talvez acabássemos por não ter o tipo de pessoas que conduziam setecentas e oitocentas milhas por noite, que era verdade no caso da Bonnie e do Clyde reais, e era suposto ser verdade para as nossas personagens. Agora posso estar completamente errado no meu julgamento, mas simplesmente não sabia como fazer um ménage à trois dessa forma. Além disso, a personagem de C. W. Moss não parecia merecer esse nível de intimidade sexual passando ao mesmo tempo por uma espécie de condição de pária social, e portanto pedi a Benton e Newman que tivessem isso em consideração. Eles fizeram-no, e alteraram o guião para a forma que tomou no filme, e foi algo que aparentemente fizeram de bom grado e sem grande resistência. 

RW: Na verdade, ainda aparecem pequenas ressonâncias disso no filme—a forma como Clyde usa C. W. Moss ao tê-lo no mesmo quarto, para se impedir a si próprio de ter intimidade com Bonnie numa altura em que não o consegue. Tu tens uma espécie de relação triangular bastante similar com a Alice, o Ray e o Shelly, que sentimos poderem-se envolver facilmente num triângulo homossexual-heterossexual. Há indícios disto, eu acho. 

AP: Há, sim. Eu acho que em Alice’s Restaurant elas são concretizadas de forma mais completa, embora não o acto homossexual em si, mas as aspirações românticas desse tipo de apego entre Shelly e Ray e entre Shelly e Alice concretizam-se em maior ou menor grau de intimidade. Mas, no caso de Clyde, pensei que estávamos a lidar com um homem que era muito mais debilitado e inibido sexualmente e que quando muito o paralisaria ainda mais se tivesse mesmo consumado literalmente um comportamento homossexual ou um comportamento heterossexual na presença de outra pessoa, particularmente de outro homem: ficaria de alguma forma imobilizado. Admito que não haja uma base intelectual muito consistente para isto—antes uma totalmente pessoal e psicológica, mas acho que consigo fundamentar um caso bastante bom nesse sentido, embora outros talvez conseguissem apresentar um caso igualmente bom para a triangulação homossexual.

RW: Mencionaste Bergman há pouco... Bergman disse que eras um dos maiores realizadores do mundo. Sentes que existe alguma afinidade entre o teu trabalho e o dele? Os vossos filmes parecem diferentes em todos os aspectos óbvios. Há alguma coisa que te atraia nos filmes dele? 

AP: Bem, permite-me que comece com devoção cega... Há tantas coisas que me atraem no trabalho dele que nem sequer consigo começar a enunciá-las, excepto para dizer que para mim são a essência da poesia do cinema; são os trabalhos mais requintadamente pessoais realizados a partir das auto-confrontações mais profundamente honestas. A predisposição dele para entrar no que devem ser zonas extremamente dolorosas da sua vida, uma e outra e outra vez, para as compreender e sondar a verdade, parece-me ser a própria essência da experiência poética. E depois ser dotado dos meios para expressar isso e recriá-lo para outros o compreenderem é uma benção a que se pode chamar de génio, e eu não tenho hesitação quanto a isso—em dizer que Bergman é um génio. É muito menos o conteúdo e a imagética particular mas mais a experiência de um filme de Bergman que eu gostaria de emular. Acho que seria rebaixar a minha própria reacção ao seu trabalho falar dele em termos desta imagem ou daquela relação ou desta forma de contar uma estória de uma maneira mais ou menos técnica. Isso seria desvalorizar o tipo de experiência que tenho com um filme de Bergman, que é realmente sagrada e um pouco estética, e incrivelmente plena, e é a isso que eu reajo mais do que ao trabalho de qualquer outra pessoa. Acho que não conseguia fazer justiça ao trabalho dele isolando e delineando especificidades. 

RW: Podes destacar alguns filmes dele em particular que admires, ou aos quais reajas, especialmente? 

AP: Acho que o grupo recente de filmes têm sido extraordinários, penso que de Luz de Inverno para a frente. Isso sugere imediatamente que não há filmes extraordinários entre os mais antigos, e isso também não é verdade. Mas pessoalmente parece-me que reagi de forma diferente e mais intensa aos filmes até Persona e A Vergonha, que me deixaram absolutamente atónito. Não consegui recuperar o fôlego durante dias depois disso, e eles obcecaram-me e eu fiquei obcecado por eles. A referência dele à minha pessoa foi uma das coisas mais surpreendentes que já encontrei publicada. 

RW: Para o bem ou para o mal, Jean-Luc Godard é provavelmente a figura mais importante no cinema moderno como uma influência no sentido histórico de desenvolvimento. Queria-te perguntar qual é a tua posição em relação a ele, o que é que achas do seu trabalho e de que forma é que a sua obra evoluiu. 

AP: Bom, penso que o trabalho dele é notável. Sempre achei que sim desde o seu primeiro filme. Acho que é um inovador de uma capacidade extraordinária. É o homem que tem de aparecer em qualquer meio e quebrar as regras todas e mudar a organização do material; é um homem de ideação muito considerável. Acho que é um homem profundo. Não acho que seja um homem muito apaixonado ou piedoso, e devo dizer que acho que falta vida aos seus filmes, o que não quer dizer que não os ache fascinantes—mas acho-os sempre pouco cativantes emocionalmente, pouco cativantes a nível humano. Eles são todos filípicos em maior ou menor grau, com uma espécie de credo político pregado às testas do punhado de pessoas que estão à frente das suas câmaras. Como dizíamos no outro dia, tende cada vez mais a ser menos que um punhado de pessoas, e normalmente uma, e está-se a tornar uma imagem do próprio Godard. Ora eu não posso negar esse tipo de paixão, e digo, é feito de forma brilhante e artística, mas de alguma forma quero muito mais de um filme, embora consiga ver um filme como Weekend com admiração pelas capacidade, a audácia absoluta do homem, a audácia escandalosa que é uma qualidade por que daria muito para ter mais. Mas, ó, anseio tanto por um momento em que esse homem saia de trás dos óculos escuros!

[1] O Group Theatre foi um colectivo de Nova Iorque formado em 1931 por Harold Clurman, Cheryl Crawford e Lee Strasberg.
[2] Cavalo Pequeno.
[3] O tamanho 9 equivale ao número 43 em Portugal.
[4] Raio de Sol.
[5] "I didn't drop out of school, school dropped out from around me," no original.
[6] Penn diz "1A", que pode ter dois significados, um relativo à 1ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos e outro relativo às primeiras páginas dos jornais. Optou-se por "tópico" na tradução.

in «Movie» nº 18 (Inverno de 1970–71): 26–36; republicado in «Arthur Penn - New Edition», de Robin Wood (com Richard Lippe; editado por Barry Keith Grant), Wayne State University Press, Detroit, 2014.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Vincente Minnelli: Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. O tempo e as mudanças


por Jorge Silva Melo

Olhemos para um plano que surge a meio do filme. Ingrid Thulin (maravilhosa) e Glenn Ford passeiam à noite em Paris, aproximam-se de uma caleche, beijam-se, ela sobe. É um simples e lento travelling de recuo em que vamos vendo as duas personagens, o muro do Sena, umas árvores, o luar no rio. Até aí, todo o plano - melancólico, tenso, irresoluto, silencioso - é cinzento, azul, prata. Chegam à caleche e o lado esquerdo do enquadramento é invadido pelo muito vermelho cabedal da carruagem. E eles beijam-se. Ela, casada e admirando o marido, interrompe o beijo e sobe para a caleche. Panorâmica de acompanhamento que faz com que todo o vermelho tinja o écran, sangue da alma da Thulin esparramando-se a nossos olhos, sobre o nosso coração.

Plano maravilhoso sobre o qual se podia ficar a falar horas. E plano tão de Minnelli. Ele pega numa cena que é feita de lugares-comuns: namorados que ainda não sabem que o são passeiam melancolicamente perplexos, não só em Paris mas no lugar-comum de Paris, as margens do Sena ao luar. E o seu estado de alma é dado pelo ritmo muito lento do plano, e pelo fundo: o Sena prateado, e depois o vermelho do assento. O que é tocante neste plano é que estes clichés da representação são acoplados, é que nele se passa do cinzento das almas ao rubro da paixão. O assunto do plano é o que nesse deambular turístico mudou nas personagens, o que é filmado é o tremor das suas almas. E assim é que o filme fala do tempo e das mudanças.

Vindo do musical e obcecado pela pintura impressionista, Minnelli não hesita perante o lugar-comum. Põe personagens a falar com a Notre-Dame ao fundo, põe o avô a morrer debaixo de uma chuva torrencial e com relâmpagos "à deixa", põe o nazi interpretado por Karlheinz Boehm a declarar-se nazi com uma aterradora lareira atrás, põe Thulin e Ford a passearem em Versalhes sobre as tão convencionais, e tão lindas, folhas mortas de um Outono dos anos 30. Os veludos são vermelhos nos seus filmes, o fogo arde como as paixões e as guerras, as personagens, se estão em Paris - e nos seus filmes estão muitas vezes na Europa -, estão numa Paris que eu chamaria de bilhete postal se eu não achasse tão verdadeiros os bilhetes postais. No seu maravilhoso filme sobre Van Gogh, este irá mesmo mover-se dentro dos seus quadros, cuidadosamente reconstruídos, vinhetas.

Esta estilização sem medo, este tratamento emblemático do cenário, da situação e da cor tem, é claro, a ver com a necessária convenção do filme musical - e é pelo musical que Minnelli descobre que o cinema, "arte grosseira" que não aguenta duas ideias ao mesmo tempo (ao contrário da poesia, com a qual tanto tem a ver), só tem a ganhar com a simplificação das figuras de retórica - a que só o tempo e a maneira irão dar luz.

E é disso mesmo que Minnelli tem consciência quando, em 1961, mais interessado em namorar pela Europa aquela que iria ser a sua terceira mulher, aceita, sem entusiasmo, a encomenda da Metro, de fazer uma nova versão do romance de Blasco Ibañez cuja adaptação, em 1921, tanto contribuira para a glória de Rodolfo Valentino. Na sua (tão decepcionante!) autobiografia, conta como tentou opôr-se à transposição da intriga para a 2ª Guerra Mundial ("um argentino vivendo em Paris podia ser neutro em 1914, mas não em 1939"), acha que não tem tempo para a preparação de um filme que custa 25.000 dólares (da altura) por dia, que vai acabar por ter 15.000 figurantes, 90 décors, 250.000 toneladas de equipamento militar, 5 meses de rodagem e é o seu filme mais longo. E acha que Glenn Ford não é o actor indicado.

"Eu queria", conta ele, "ser posto à prova, mas àquele ponto, não. Mas, já que tinha que fazer o filme, mais valia desenvolver o aspecto visual e épico da narrativa, relegando as fraquezas da história para segundo plano."

Que melhor declaração de guerra maneirista? Minnelli aceita filmar um romance tardo-naturalista (Blasco Ibañez, o de Sangue e Arena), adaptado de uma maneira com a qual não concorda, aceita uma série de imposições de produção, tem que filmar sentimentos que ele acha desenraizados de uma história que os permitiria. Aceita porque os quer tratar. E o resultado é um filme paroxístico à imagem do falso "gótico tardio" (ou Napoleão III?) em que mandou criar as figuras dos cavaleiros - Conquista, Guerra, Peste e Morte -, que utiliza "como parte integrante da narrativa para além do seu valor simbólico".

Este Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse é um filme flamejante: da lareira ao vento, da chuva aos corpos, dos automóveis a toda a brida pelos Campos Elíseos, das galinhas que, no convencional campo francês, saltam muros com o suto (que plano!), da alma de Ingrid Thulin às folhas mortas de Versalhes, da consciência de Glenn Ford (maravilhoso actor, basta vê-lo, aqui, e na Corrupção, de Lang), tudo está num desequilíbrio febril, num excesso de tensão, numa latência de pulsões que só é possível - e voltamos ao princípio desta reflexão - por serem do senso comum, banais, cansados, conhecidos de todos, puros lugares-comuns os fios folhetinescos e, se calhar, simplistas de que se tece a teia.

Se há filme que prova que o cinema não é um argumento é este (e mais dois milhões de outros!). Um filme é uma maneira de olhar o mundo. E pode partir (Minnelli acha que deve) de uma representação convencional, pode até partir de uma visão redutora e simplista, pode até partir de lugares-comuns, pode partir de contratos fortuitos. (Como a pintura religiosa, por exemplo, a partir de cujos motivos feitos tanto pôde ser dito.) O que não pode é deixar de trabalhar formalmente os seus meios, o que não pode é limitar-se a ilustrar.

E se a infernal rede de sentidos que Minnelli constrói neste filme nos empolga (e o filme é empolgante), é apenas porque Minnelli sabe que é a realização, a mise-en-scène, o que complexifica e torna o cinema cinema. Ele é realizador.

Vejam o plano sublime em que a Thulin e Ford dançam no cabaré latino, a maneira franca como, pela dança, cada um deles vai ficando em grande plano frontal, prefigurando os famosos grandes-planos do Persona de Bergman, e, a meu ver, com uma bem mais imponderável suspensão do tempo.

Espanta-se Minnelli dos elogios ("o triunfo da cor, a pura mise-en-scène") que o filme recebeu um pouco por toda a Europa; parece compreender as acusações da crítica americana ("argumento inconsequente", "realização amaneirada"). Só se reconcilia com o filme quando diz que há, hoje em dia, quem pense que ele influenciou "três filmes extraordinários que são Os Malditos de Visconti, O Conformista de Bertolucci, O Jardim dos Finzi-Contini de De Sica." É evidente que os influenciou. Só que nenhum desses filmes é extraordinário - e o de Minnelli é.

Porque ele trata o "lugar comum" como um ícone?

Público, 18 de Fevereiro de 1995

in Século Passado

quarta-feira, 8 de abril de 2015

"It's bollocks!"


“What I resent is people who say, “Film is old, who cares about film, now we’ve got digital.” Well, that’s fine. You can go shoot your movie on digital, that’s great. But there are other people who want to use a different medium. The problem is when you get rid of film you can’t choose that anymore. It’s not that digital objectively sucks, although it’s not my taste. Fine, you wanna shoot digital, that’s great! But the thing… I read somewhere, I think it was Mike Leigh who criticized what Tarantino was saying about film was “bollocks” or something, and I felt that what Mike Leigh said was bollocks. Because he’s basically saying that what the artist wants to use doesn’t matter. And how can that be the case? Would he walk up to a painter and say, “That tube of cadmium red light, you can’t use that anymore, and if you wanna use cadmium red light, bollocks!” [HTN laughs] You know what I’m saying? Well fuck that guy! Whaddya mean “bollocks?” I found that pretty awful, I have to say. I mean, maybe I didn’t read it in context, maybe he was meaning something else. Then I read something else, I think it was Mike Leigh but I’m not sure who it was now, but he was saying also in connection to Tarantino’s comments like, “Oh, now there are all these amazing movies on video.” I don’t know what the fuck he’s watching because maybe there are all these incredible films I’m missing that are on YouTube, but everything I see on YouTube sucks. [HTN laughs] So this digital revolution, which was supposed to bring all this “amazing” new cinema. Guess what? You watch Virgin Spring, which was made, what, 50 years ago, and that’s better than any YouTube video I’ve seen recently. So I don’t know what he thinks technology has brought to us.”

A Conversation With James Gray (THE IMMIGRANT)

via Cinephilia & Beyond

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O OUTONO DE JOHN FORD


por Peter Bogdanovich

Na manhã seguinte à minha chegada (em companhia de Polly Platt) aos exteriores de Cheyenne Autumn em Monument Valley, o homem do departamento de publicidade veio ter connosco ao pequeno almoço para perguntar - parece que não tinha sido informado - qual era a minha tarefa. "John Ford", disse eu.

Empalideceu. "Oh, não."

"Sim", disse eu.

"Oh, não, não", disse ele outra vez e olhou à volta nervosamente como se quisesse assegurar-se que ninguém nos tinha ouvido. Perguntei-lhe qual era o problema e, tremendo, tentou explicar que Mr. Ford nunca concedia entrevistas, odiava jornalistas, fugia da publicidade, detestava falar dos seus filmes e era totalmente inacessível para todas as pessoas. Tive a nítida impressão que este tipo envelhecido e agora quase desvairado preferia que o chão o tragasse a arriscar-se mesmo em pensamento a mencionar a Mr. Ford que eu estava dentro de um raio de mil milhas.

Contra-ataquei dizendo que os patrões dele, a Warner Bros., acabara de pagar a nossa viagem de Nova Iorque para o Arizona e que estavam perfeitamente informados da minha tarefa quando arranjaram os bilhetes. (De facto, tinha sido necessário pressionar mais Harold para concordar com o artigo do que a Warner's; ele não se mostrara muito interessado, mas John Ford estava há anos entre os realizadores que eu mais gostava e estava ansioso por conhecê-lo e vê-lo trabalhar; por isso, depois de muita insistência da minha parte, Harold capitulou). Bem, disse o desgraçado homem das r.p., podíamos observá-lo de longe durante algum tempo, mas eu não podia falar a Mr. Ford ou mesmo deixar que ele me visse. Nessa altura, concordar com isso parecia a única forma de chegar a pôr o pé no plateau, por isso aceitei.

Durante dois dias, com o homem da publicidade sempre agarrado aos meus calcanhares, cumpri as regras que ele tinha imposto. Mr. Ford puxava frequentemente de um lenço e chupava-o, o que segundo me informou nervosamente o homem da publicidade era sinal de descontentamento ou irritação. Só algum tempo mais tarde descobri que isto era um disparate, visto que Mr. Ford, quando não está a fumar um cigarro ou a chupar num charuto, está sempre a chupar num lenço - não é um sinal de coisa nenhuma, excepto de provavelmente estar a tentar reduzir o consumo de tabaco.

Na primeira tarde de Domingo - o único dia em que não filmavam - encontrei por acaso Jack Garfein (o realizador) que estava ali de visita à então sua mulher, Carroll Baker; iam dar um passeio a cavalo. Garfein e eu tínhamos um amigo comum, Gene Archer, que estava nessa altura no New York Times, e servi-me disso como pretexto para me apresentar. Quando ele me perguntou que raio estava eu ali a fazer, disse-lhe.

"Jack Ford sabe que você está cá?", perguntou ele.

"Não, isso é que é o problema", e contei-lhe a situação.

"Oh, por amor de Deus", disse ele, "isso é ridículo. Ele há-de gostar imenso de o ver. Eu digo-lhe que está cá."

Cerca de quatro horas depois um jipe desceu ruidosamente a colina onde Ford e as estrelas estavam instalados (o resto da companhia ficava em baixo em reboques, num dos quais tínhamos sido instalados), e ouvi Ray Kellogg, o segundo assistente de realização, gritando muito alto qualquer coisa que acabei por descobrir ser uma aproximação imperfeita do meu nome. Fui a correr.

"É MacDonabitch?"

"Sim."

"O Velho quer que vá jantar com ele - por volta das seis. O.K.?"

"O.K.!"

Já estavam todos sentados quando cheguei, mas quem quer que fosse estava sentado à direita de Mr. Ford (eu estava demasiado excitado para me lembrar) foi mudado para outro lugar para que eu me sentasse lá. Fez-me um simpático cumprimento com a cabeça, pronunciou o meu nome correctamente e disse, "Sérvio?"

Disse que sim com o ar mais descuidado possível, mas estava impressionado. Durante toda a minha vida as pessoas tinham sempre partido do princípio que o nome era ou russo, ou polaco, ou checo, ou húngaro; às vezes adivinhavam que era jugoslavo, mas ninguém o tinha definido com tanta exactidão à primeira tentativa. Nesta altura o co-produtor do filme, um tal Bernard Smith (sobre quem direi em breve mais umas coisas), fez uma observação qualquer ao realizador relacionada com negócios. Ford olhou para ele em silêncio e com um ar carrancudo durante um bocado, depois voltou-se para mim: "Existe um palavra para o que ele acabou de dizer."

Inclinei-me para ele. "Sim?"

"Govno", disse Ford. Fiquei siderado. A palavra é o equivalente sérvio de "merda".

Na semana seguinte, Mr. Ford foi mais do que cooperativo para comigo no plateau; foi, no seu modo um pouco rude, notavelmente amigável. Era frequente estar frio nos exteriores e Polly começou a usar um cobertor índio enrolado à volta dela, levando Ford a chamar-lhe "Teepee-que-Anda". Eu andava com um chapéu de camurça de que ele manifestamente não gostava, por isso um dia gritou "Guarda-roupa" e mandou-os arranjarem-me um chapéu de cavalaria. Depois, ele próprio viu se me ficava bem, ajustando as abas à soldado de cavalaria até se sentir satisfeito com o resultado. "É melhor que aquela maldita coisa que você usava."

Ora, esta atenção que ele tão generosamente nos dispensava, não estava a agradar nada ao produtor, principalmente, calculo eu, porque tinham chegado aos exteriores um jornalista e um fotógrafo da Life, a quem Ford muito jovialmente ou ignorava ou insultava. Costumava referir-se ao jornalista como "aquele tipo da Vida, Morte e Fortuna." Finalmente, o produtor Smith (com quem tinha também cometido o erro táctico de não o entrevistar) deve ter decidido que se tinha de fazer qualquer coisa e, assim, fui informado, com muitas tremuras e gaguejos pelo homem da publicidade, que teríamos de partir - amanhã; o nosso atrelado, continuava a desculpa, era preciso para membros da companhia que estavam a chegar. Uma vez que dissera à Warner's que precisaria de pelo menos duas semanas para fazer um bom artigo, fiquei, e não pouco, aborrecido e perturbado por ser posto a andar passado pouco mais de uma semana. Perguntei se Mr. Ford estava informado deste pedido e recebi uma resposta evasiva que dava a entender que tinha sido Mr. Smith a dar a ordem. Finalmente tinha uma razão para falar com o produtor, o que fiz com fracos resultados. Ele explicou melifluamente o alegado problema de falta de espaço, metendo ao mesmo tempo várias insinuações sobre as suas "contribuições" para a produção.

Nessa tarde, quando Mr. Ford se dirigia para o jantar, disse-lhe que tínhamos de partir no dia seguinte e agradeci-lhe a paciência que revelara.

"Para onde é que vai?", perguntou ele. Expliquei-lhe os problemas de espaço de que tínhamos sido informados e que não queria abusar da hospitalidade dele ou fazer ondas. "Ora, venha daí, vamos comer", disse ele e assim fizemos. Pouco depois de nos termos sentado entrou o produtor. Ford chamou-o delicadamente. "Ouve, Bernie", disse ele num tom muito moderado, "dá o meu quarto aqui ao Bogdanovich que eu fico com outra pessoa qualquer lá em baixo."

O produtor ficou com uma cor esquisita. "Oh, não Jack, não podemos fazer isso."

"Não, não tem importância nenhuma", disse Ford ainda muito calmamente, "dá-lhes o meu quarto se não há lugar e eu fico com outra pessoa."

"Jack, não sejas - quer dizer, isso é ridículo - nós podemos arranjar outra solução qualquer."

"Ah, podem, Bernie? Achas que podes arranjar lugar para eles?"

"Claro, posso pois, Jack, não te preocupes com isso."

"Oh, obrigado, Bernie." O produtor começou a afastar-se aliviado. Ford gritou-lhe: "Mas, ouve, se houver qualquer problema, eles podem ficar com o meu quarto, já sabes." Smith, com um sorriso amarelo, acenou-lhe com a mão. A expressão de Ford tornou-se finalmente carrancuda e inclinou-se para mim. "Fique o tempo que quiser", disse ele.

Ao longo dos anos, desde que o artigo foi publicado, as minhas relações com Mr. Ford não foram sempre tão amigáveis ou tão fáceis; é impossível ser-se amigo ou admirador dele sem sofrer algumas picadas da língua mordaz do irlandês ou sofrer um to que daquilo que Cagney designava por "malícia". Mas ele é um dos grandes homens do cinema, e está entre as poucas pessoas realmente fascinantes que tenho conhecido. O artigo que se segue, o livro que acabei por escrever sobre ele (que se serviu de algum deste material) e o documentário de longa-metragem que realizei sobre a carreira dele, considerados separadamente, ou em conjunto, não conseguem sequer fazer justiça a quem ele é ou àquilo que ele conseguiu realizar.

O OUTONO DE JOHN FORD

"DEVE ESTAR A APARECER NO CIMO DAQUELA ELEVAÇÃO DAQUI A SEGUNDOS", disse Danny Borzage olhando ansiosamente para a estrada. Borzage, um velho de barbas com um ar jovem que tocava acordeão, estava vestido com a farda azul e amarela de um soldado da Cavalaria dos E.U. de 1878. A canção que tocava era "Greensleeves." Passava um pouco das 8 e 30 da manhã em Monument Valley, o sol estava quente, o vento seco e fresco. "Toco sempre quando ele chega ao plateau", dizia Borzage. "Começo sempre com "Bringing in the Sheaves." Levantou de novo os olhos para a estrada. O resto da enorme companhia estava a preparar-se para as primeiras cenas do dia; alguns estavam ali, de pé, a ouvir o acordeão. "Em 1924, ele estava a fazer um filme chamado The Iron Horse", disse Borzage. "O meu irmão Frank estava a fazer um filme no mesmo sítio. Bem, já não sei como, conseguiram-me uma audição com ele. Nesse tempo, sabe, tinham sempre música ambiente no plateau para ajudar os actores. Bem, encontrei-me com ele e ele perguntou-me se sabia tocar 'My Buddy.' 'Sim, senhor, por acaso sei.' Mandou-me parar antes de eu ter acabado e fiquei um bocado nervoso, pensei que não conseguira o lugar." Borzage deu outra olhadela à estrada. "Depois perguntou-me como é que eu me chamava. 'É alguma coisa ao Frank Borzage?' E eu disse, 'Sim', bem e ele disse, 'Porque é que não disse logo?' E eu disse, 'Porque não quero o lugar por causa dele.' E ele disse 'Vá lá e diga ao Frank Borzage que o irmão tem um emprego.'" Borzage sorriu. "E desde aí tem-me dado sempre trabalho."

"Lá vem ele, Danny!", gritou alguém, e precisamente nessa altura, apareceu no cimo da estrada, uma carrinha station branca. Borzage levantou-se e dirigiu-se rapidamente para a berma da estrada. Quando a carrinha se começou a aproximar, começou a tocar "Bringing in the Sheaves" fazendo as notas crescer e cair dramaticamente. O carro parou lentamente a uma distância de nove metros do sítio onde Borzage estava a tocar. O silêncio caíra sobre a companhia.

John Ford estava sentado à frente, espreitando pela janela através de uns óculos de lentes grossas, o olho esquerdo coberto por uma pala prata. Trazia um velho chapéu de feltro de abas largas inclinado sobre o lado esquerdo da cara; na fita de cabedal do chapéu estava espetada uma pena cor-de-laranja. Chupava um pequeno charuto apagado. Borzage tocava "My Darling Clementine."

O aderecista aproximou-se e entregou-lhe uma chávena de café. O director de fotografia e o homem do guarda-roupa tinham saído do carro e estavam de pé junto da janela de Ford. O realizador beberricava o café olhando calmamente em redor. O filho, Patrick Ford, que dirigia a cavalaria, tinha-se juntado ao grupo da janela do carro, juntamente com Wingate Smith, cunhado de Ford e primeiro assistente de realização. Borzage tocava "She Wore a Yellow Ribbon" enquanto se desenrolava uma conversa em surdina junto da janela. Pouco depois o pequeno grupo separou-se, um a um, cumprindo instrucções. Alguém abriu a porta e o realizador saiu do carro. Ford ficou parado por uns momentos observando a cena, uma mão a segurar a chávena e a outra na parte de trás da anca. Era magro, uma figura quase frágil, mas quando se dirigia para a câmara o andar era desenvolto, balançando os braços, o corpo oscilando levemente de um lado para o outro. Borzage olhou para cima e sorriu-lhe envergonhadamente, dando alguns passos atrás.

Ford vestia um casaco desportivo castanho desbotado e umas calças largas de caqui. As pessoas afastavam-se do caminho quando ele se aproximava. Borzage tocava "We Shall Gather At the River." O realizador tinha uma cara dura de ianque, quase má, pequenos tufos de barba branca hirsuta nas faces chupadas. Os olhos eram de um azul pálido. Tinha um lenço cor-de-laranja atado ao pescoço e os atacadores dos sapatos de ténis azuis escuros estavam desapertados. Passou por um Navajo e fez com a mão direita um gesto meio aceno, meio saudação. "Yat'hey, Shi'kis", disse ele e o homem respondeu, "Yat'hei."

Recentemente, em Nova Iorque, James Stewart entregava-se a reminiscências sobre John Ford, tendo acabado de aparecer no papel de Wyatt Earp no último filme do realizador, Cheyenne Autumn.

"Gosto imenso dele. Isso... isso é a primeira coisa", começou ele. "E isso está, claro, misturado com respeito e... e..." Franziu os lábios e abanou a cabeça duas vezes. "Admiração." Stewart inclinou-se para a frente na cadeira. "Ele é... é um génio. A forma como trata um argumento. Fá-lo visualmente. Odeia conversa. Só gostava que houvesse mais gente como ele." Stewart franziu os lábios e abanou a cabeça. "Andam sempre a falar do grupo habitual de Ford, sabe... eu acho que é um raio de uma boa ideia! Gostava que todos fizessem o mesmo. As pessoas sabem trabalhar em conjunto. Não têm de... cada filme não tem de ser a primeira vez. E uma com uma data de realizadores... sabe... é uma pançada de riso no plateau e a gente diverte-se e... e depois vemos o filme e dizemos, 'Onde é que está?... Onde é que está o...' Mas Ford põe isso no écran. E é um verdadeiro chefe. Acho que é o melhor de todos." Abanou a cabeça com veemência.

"Subi ao escritório dele para falarmos do guarda-roupa", continuou Stewart. "Para o primeiro filme que fizemos, Two Rode Together. E, claro, ele não falou de vestuário nenhum!" O actor resmungou imitando Ford. "Falou da Marinha... e da guerra... depois um pouco da... Marinha e um pouco da... guerra... e da Marinha. E eu só conseguia ouvir uma palavra em cada dez. Eu já não ouço muito bem e ele resmungava e... aquele lenço em que está sempre a chupar... eu só abanava a cabeça." Stewart abriu e fechou levemente a boca como se estivesse a comer. "Depois, acabou por me perguntar o que é que eu achava que devia usar no filme." Fez uma pausa. "Pensei... e ele disse, 'Ora antes que diga alguma coisa, vou-lhe dizer o que vai usar!' E mandou sair o homem do guarda-roupa, voltou com um fato e aquele... aquele chapéu! Bem, a aba do chapéu era... tão grande como isto!" Indicou o tampo da mesa a que estávamos sentados. "Bem, pu-lo e... eu parecia... era uma coisa horrível. E ele perguntou-me o que e que eu achava!" Stewart limitou-se a olhar para o espelho. "'Bem, não sei'... Ele diz, 'Tem cláusula de Aprovação-de-Chapéu no seu contrato?' Eu disse, 'Não sei.' Então ele disse, 'Tragam o contrato'... E toda a gente foi procurar o contrato e não o encontraram porque eu não tinha nenhum!" Fez uma pausa. "Passado um bocado saí e trouxe o meu velho chapéu... o chapéu que tenho usado em todos os westerns... já velho quando o arranjei. E... pu-lo. Olhou para ele durante algum tempo e disse, 'Tem Aprovação-de-Chapéu'" Stewart riu-se. "No filme seguinte, disse-me, 'Ainda tem Aprovação-de-Chapéu', e nesse nem me deixou sequer usar chapéu!"

Stewart saiu por momentos da sala e voltou com um copo de água. "Fui muito cuidadoso com o que fazia em The Man Who Shot Liberty Valance", disse ele. "Além disso, estava sempre a embirrar com Duke Wayne. E estávamos a duas semanas do final das filmagens e nem um murmúrio... E um dia, estávamos a filmar a cena do funeral... o caixão ali e Wood Strode", explicou ele, referindo-se ao actor negro que entrou em vários filmes de Ford. "E Woody estava com a maquilhagem de velho e trazia um fato-macaco e um chapéu. Ford aproximou-se de mim e acenou com a cabeça para Woody. 'O que é que acha do fato de Woody?'" Stewart fez uma pausa. "Esperei e depois disse, 'Bem é um bocado Tio Remus, não é?' Ora... ora porque é que... porque é que eu... quem me dera poder retirar aquelas palavras e só... só..." Stewart tinha a mão por baixo do queixo e fez com os dedos os gestos de estar a engolir as palavras até ter os dedos na boca. "Ele limitou-se a olhar para mim... só olhou e soube o que era... soube... Ele diz, 'E o que é que tem de mal o Tio Remus?' Eu disse, 'Porquê? Nada.' Ele diz, 'Eu inventei aquele fato. É exactamente o que eu queria!' 'Ouça, Patrão', disse eu... Ele diz, 'Woody, Duke, toda a gente, venham todos cá.' E vieram todos. 'Olhem para Woody', diz ele. 'Olhem para o fato dele', diz ele. 'Parece o Tio Remus, não é?' 'Sim, Patrão, sim, Chefe, sim, senhor', diziam eles como um bando de papagaios. 'Um dos actores', continua ele, 'um dos actores parece que tem objecções! Aqui um dos actores parece que não gosta do Tio Remus! De facto, nem tenho mesmo a certeza que ele goste de Negros!'" Stewart recostou-se na cadeira. "Mais tarde alguém me disse, 'Pensavas que te conseguias safar, não pensavas?'"

***

Monument Valley fica dentro da Reserva dos Índios Navajos, escarranchado na fronteira Arizona-Utah. Os montes e mesas vermelhos lembrando catedrais que formam a paisagem foram criados pela erosão e os seus nomes correspondem às formas que têm: The Mittens, The Big Hogan, Three Sisters; as sombras modificam-lhes a aparência a cada minuto. Há na região uma ausência de tempo que a torna uma maravilha natural tão notável como o Grand Canyon, mas muito mais dramática. John Ford fez lá vários filmes, o mais recente dos quais é Cheyenne Autumn que conta a história da fuga heróica de trezentos Cheyennes, homens, mulheres e crianças de uma reserva em Oklahoma (onde, por inanição, os esperava a morte pela fome e pela doença) para a sua região nativa no Yellowstone, a umas mil e quinhentas milhas de distância. Perseguidos durante todo o caminho pela Cavalaria só oito conseguem sobreviver para verem a terra natal.

No filme entravam duas gerações de actores de Ford. Dos veteranos, para além de Danny Borzage, estavam George O'Brien, a estrela do cinema mudo cujo primeiro papel principal foi num western de Ford, em 1924, The Iron Horse. O filho de John Wayne, Patrick, estava na escala de serviço pela sétima vez, apesar do pai, que entrara em mais de dezassete filmes do realizador, não estar. Podemos ver Pat com dez anos em em Rio Grande, com treze em The Quiet Man, com dezassete em The Searchers, e com vinte e quatro em Cheyenne Autumn. Harry ("Dobe") Carey, Jr. começou com Three Godfathers de Ford (1948), um filme que era dedicado à memória do seu pai já falecido, Harry Carey, que actuara em mais de vinte e cinco filmes de Ford, começando em 1917 com Cheyenne's Pal; Dobe entrara em outros oito, incluindo um retrato do jovem Dwight Eisenhower em The Long Gray Line. Ben Johnson, um campeão com o laço e uma estrela de rodeo, foi um duplo do realizador antes de ter feito papéis principais em seis filmes. Jimmy O'Hara, cuja irmã Maureen fez quatro filmes com Ford desde o primeiro, How Green Was My Valley, estivera em três. Para Dolores del Rio, Ricard Widmark, Carroll Baker e Mike Mazurki, Cheyenne Autumn marca apenas uma segunda volta com o realizador. É o primeiro filme para Victor Jory ("Sempre tentei trabalhar com ele na Fox durante os Anos Trinta. Ele diz que não tentei, mas tentei"), Ricardo Montalban, Sal Mineo e Gilbert Roland. ("Ele conhece-me desde os primeiros tempos, quando eu era um figurante e usava o meu nome verdadeiro, Luis Antonio Alonso. Ainda me chama Luis").

Todos os actores de Ford têm a sua história favorita - John Ford e a maior parte deles têm várias. Ao fim de dezoito dias num plateau de Ford, as histórias tornam-se quase lendárias, mas o artista veterano de Ford insiste sempre que são todas verdadeiras. Diz-se por exemplo, que Ford nunca vê as rushes, coisa que nem o realizador mais experiente arriscaria. E que também nunca olha para o guião. A única vez que olha, dirá alguém, é quando vai mudar o diálogo.

Entrando no plateau num dia lúgubre e nublado em que ninguém pensava que haveria filmagens, Ford disse-lhes para prepararem tudo para a cena do funeral. Olharam uns para os outros: não havia nenhuma cena de funeral no guião. 'Que cena de funeral?', perguntaram. 'A cena do funeral', gritou Ford, 'a cena do funeral!' Perante o dia que estava, tinha decidido que o ideal era uma cena desse tipo e por isso incluiu-a no filme (Wee Willie Winkie).

E houve aquela altura em que ele e Henry Fonda (que participou em sete filmes de Ford) se envolveram em acesas discussões durante a filmagem de Mister Roberts, até que foi necessário aclarar as coisas e os produtores convocaram uma conferência para eliminar as divergências. E quando Fonda se levantou para expressar as suas queixas, Ford ergueu-se subitamente da cadeira e deu-lhe um murro no queixo.

Mas o gesto mais conhecido de Ford diz-se ter acontecido quando o director do estúdio mandou um homem dizer a Ford que estava atrasado dois dias em relação ao plano. Ford perguntou ao homem quantas páginas lhe parecia que eles filmavam diariamente. Cerca de cinco páginas por dia, estimou o homem, e então Ford pediu o guião. Folheou-o, contou dez páginas, rasgou-as, atirou-as ao ar e disse ao homem para dizer ao patrão que agora já estavam dentro do plano. E de facto nunca filmou essas dez páginas.

Mas qualquer outro companheiro habitual dele dirá, aquela vez que... E, é claro, as histórias nunca acabam.

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O jantar do realizador, dos actores e da equipa foi servido num pequeno edifício de adobe, parte de Goulding's Lodge, que fica na aba mais baixa de Rock Door Mesa, abrangendo uma magnífica vista de Monument Valley. Presa ao alpendre da entrada há uma sineta que nunca soa antes de John Ford se ter sentado à cabeceira da terceira mesa a contar da porta.

Trazia um casaco azul da marinha, calças de caqui e parte superior do pijama, o colarinho aberto, uma camisola deformada. Não trazia chapéu e o cabelo era branco e fino. Ao sentar-se tirou do bolso a sua navalha de cabo de osso e cravou-a a seu lado. Pouco depois de todos terem chegado e de a comida estar a ser servida, o co-produtor disse qualquer coisa sobre as filmagens do dia. "Pat Wayne!" chamou Ford.

"Sir!" disse Wayne.

"Onde está a escudela?" Wayne levantou-se e foi buscar uma pequena escudela de madeira (cheia de várias notas de dólar e algumas moedas) que estava em cima do piano. "Quando é que ele já deve?", perguntou Ford.

"Com esta faz dois dólares, sir", disse Wayne.

Carroll Baker virou-se para mim. "Há-que pagar uma multa quando se fala de negócios ou dos filmes de Mr. Ford à mesa." Cortou um naco de carne. "Um dia destes", disse ela calmamente, "ele estava a contar-me qualquer coisa acerca de The Long Voyage Home, parou, pagou os cinquenta cêntimos e depois acabou a história."

O resto do jantar passou-se a jogar às perguntas. Ford começou com uma coisa que era animal e vegetal. Ninguém conseguiu descobrir e por fim, com desgosto, informou os jogadores que era, evidentemente, o chinelo marroquino de Sherlock Holmes, o que ele usava como bolsa de tabaco. "Deve ser um dos adereços mais famosos da literatura", resmungou. "Parece que ninguém, incluindo Jory, leu Sherlock Holmes."

Acabada a refeição, o realizador ficou um pouco mais, fumando um charuto que cortara a meio com o canivete e conversando com os actores. Depois saiu e fez sinal ao filho. "Vou telefonar à Mãe", disse. Os dois Ford foram-se embora juntos.

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A trinta quilómetros corre o rio San Juan. Dos lados erguem-se altos penhascos vermelhos e ao fundo das margens há ervas, árvorezinhas e bocados de troncos prateados arrastados pela corrente. A água é da cor do barro.

Quando "Bringing in the Sheaves" saudou a chegada do realizador, homens e mulheres Navajo (representando o papel de Cheyenne) a cavalo e arrastando travois estavam reunidos na borda do rio. Entre eles havia vários duplos vestidos e maquilhados de índios. Na escarpa, a várias centenas de metros da borda estava a Cavalaria. Toda a zona fervilhava de actividade. Lee e Frank Bradley (intérpretes de Navajo que trabalharam em onze outros filmes de Ford) gritavam instruções às suas gentes através de megafones.

Ford estava de pé a olhar para o rio e a mascar o seu charuto, que segurava pela parte inferior. "Este rio foi desenhado por Remington", disse, cobrindo a paisagem com o braço. "É o rio do Oeste mais típico que conheço. Clássico." Abanou a cabeça. "Sabe, o produtor perguntou-me, 'Porque quer filmar aqui? O que é que isto tem de tão interessante?' Uma coisa deste género, sabe. E ainda: 'Porque não vai aos Adirondacks? Às Catskills?'" Ford tirou o charuto da boca. "O que você quer dizer é 'Grossinger's!'"

Afastou-se rapidamente e dirigiu-se a um dos vaqueiros. "Carroll pode entrar no rio na carroça?", perguntou.

"Bom, quando eu entrei em..." começou o homem.

"Não me venhas com a história da tua vida!", interrompeu Ford, deitando fora o charuto. "Responde à pergunta."

O homem disse que podia.

Ford concordou com a cabeça. "Óptimo", disse, tirando um grande lenço branco do bolso de trás. Veio alguém que lhe deu um megafone. "Pronto, Lee. Frank. Mandai avançar a vossa gente!", gritou, mascando uma ponta do lenço, que lhe caía sobre o peito como um guardanapo mal posto. "Devagar!" Os intérpretes transmitiram as instruções e os Navajos entraram na água do rio. Ford gritou para Chuck Hayward (duplo), que estava a meio do rio: "Está bom, aguenta-os aí, Chuck! Está perfeito!" Os Navajos estavam espalhados pelo rio, parados. "Vamos lá encher esses espaços vazios e tirar esses travois!" Virando-se para a Cavalaria, Ford deu algumas indicações e tudo ficou pronto, a câmara apontada para as tropas que se viam ao longe.

"OK, estamos a filmar", disse Ford.

"Arranquei", disse o operador de câmara.

"Muito bem. Dick!" A Cavalaria avançou a trote. "Muito bem. Lee! Frank! Eles que andem!" A tribo avançou lentamente pela água. Widmark levantou o braço. "Trooopa. Aaalto!" Pat Wayne repetiu. A Cavalaria parou e Widmark olhou para os índios. Lentamente a câmara fez uma panorâmica a partir das tropas, através das ladeiras rochosas e nuas, lentamente à volta e para baixo em direcção aos Navajosm alguns dos quais tinham alcançado a margem, outros atravessando ainda o rio cinzento, os cavalos aos corcovos. O único ruído era o dos cavalos a relinchar e do movimento de pessoas a andar na água. A câmara fixou-se bastante tempo na cena. "Está perfeito!"

Harry Goulding, o alto e envelhecido homem do Oeste que é proprietário do pavilhão de Monument Valley, estava ali a observar. Abanou a cabeça e disse com um cerrado sotaque do Oeste. "É obra, não é?", disse calmamente. Goulding foi quem trouxe Ford pela primeira vez ao vale, em 1938, quando o realizador procurava um lugar para rodar Stagecoach. "Não sabia se ia entrar para o estúdio ou se ia parar à cadeia", disse com um sorriso tímido. "Os Navajos tinham sido duramente atingidos pela Depressão, meu Deus, se um índio entrasse na nossa loja e pusesse um dólar no balcão, Mrs. Goulding e eu teríamos desmaiado." Abanou a cabeça. "Então fui ao estúdio e mostrei um saco de fotografias a Mr. Ford e três dias depois havia uma data de empregos para os Navajos e uma data de vidas foram salvas." Tirou o chapéu, passou a mão pela cabeça e tornou a pôr o chapéu. "Então surgiu a Hay Lift", continuou Goulding. "Em 1949, imediatamente depois de Mr. Ford ter acabado de rodar She Wore A Yellow Ribbon aqui, tivemos uma tempestade que deixou o vale coberto com cerca de três metros de neve. Aviões militares largaram comida. Graças a isso e aos muitos milhares de dólares que Mr. Ford trouxe, bem, foi evitada mais uma tragédia." Goulding olhou para lá do rio. "E este ano ouvi dizer que os seus amigos iriam ter muito pouco que comer, e cá está ele outra vez."

Ford gritava pelo megafone. "Disse a cinquenta pessoas para porem essa gente daqui para fora!", disse irritadamente. "Vamos lá pô-los a andar daí para fora. Sequem-nos. Dêem-lhes café ou seja lá o que for!" Goulding tornou a virar-se para mim. "Já lhe digo", continuou com simplicidade, "para os Navajos ele é qualquer coisa de sagrado. Sempre que têm de suportar tempos difíceis, bolas, eis que lhes aparece isto." Voltou a tirar o chapéu e a passar a mão pela cabeça. "Foi adoptado pela tribo Navajo", disse, tornando a pôr o chapéu e sorrindo ligeiramente. "Deram-lhe um nome especial, os Navajos", continuou, olhando para Ford. "Natani Nez. É esse o nome dele, e só dele. Natani Nez", repetiu docemente Goulding. "Quer dizer Chefe Alto", disse.

John Ford nasceu Sean Aloysius O'Fearna em Cape Elizabeth, Maine, a 1 de Fevereiro de 1895. Os pais tinham vindo para a América de Galway, Irlanda. Realizou o seu primeiro filme em 1917. (Era um two-reeler chamado The Tornado, sobre um vaqueiro que salva a filha do banqueiro das garras de um bando de foras-da-lei e utiliza o dinheiro da recompensa para mandar vir da Irlanda a mãe. Era também o actor principal). Sendo o único realizador que recebeu seis Prémios da Academia, é também o único que foi citado quatro vezes pelos Críticos de Nova Iorque. Como Comandante na Marinha, fez o primeiro documentário de guerra americano, The Battle of Midway (1942), assim como December 7th (1943), um relato do ataque a Pearl Harbour e das suas consequências; ambos receberam Oscars para os melhores documentários nos anos em que apareceram. Ao longo de quarenta e seis anos Ford fez quase cento e quarenta filmes.

Uma noite estava sentado na sua cama no Quarto 19 de Goulding's Lodge. A desarrumação era total. Havia roupa por todo o lado: no chão, em mesas e cadeiras, mesmo no frigorífico. Havia também pilhas e pilhas de livros sobre todos os assuntos possíveis e imagináveis espalhados pelo quarto e junto da cama. Nesta havia um exemplar de Gods, Graves and Scholars. A mesinha de cabeceira estava coberta de charutos, fósforos, um relógio, comprimidos, copos, um par de navalhas e alguns lápis, folhas de papel, guiões e lenços puídos. Preso à cabeceira da cama estava um candeeiro. O realizador falava de cinema e podia-se perceber um ligeiro mas distinto sotaque do Maine nas suas palavras.

"Adoro fazer filmes, mas não gosto de falar deles", disse, cortando um charuto a meio com o canivete. "Quer dizer, sabe, tem sido uma vida inteira. Mas as pessoas perguntam-me qual é o meu preferido. Respondo sempre que é o próximo." Erguendo o braço, puxou a manga do pijama de seda debotado para baixo. "Sabe, faço um filme e a seguir passo para outro." Abanou a cabeça. "Amo Hollywood. Não me refiro aos altos escalões", disse sarcasticamente. "Refiro-me aos escalões mais baixos, aos carregadores, aos técnicos."

Alguns momentos depois Ford acendeu o meio charuto e falou da dificuldade de encontrar histórias decentes para filmar. "O meu agente", começou, "estava numa conferência sobre direitos num dos estúdios. E mostraram-lhe um livro com um desenho de um freira na capa. Deu um salto", disse Ford gesticulando. "O meu cliente é católico e isso deve interessar-lhe muito", diz. Ford fez uma careta e chupou a ponta do lenço. "Li o livro. Era acerca de uma freira que tinha sido seduzida por um chulo e se apaixona por ele. Fica grávida. Era para fugir com ele e ele diz-lhe para ir ter com ele a uma ponte qualquer na manhã seguinte." Agarrou no lenço e segurou-o perto da boca. "Foi lá ter. Bong! Uma hora. Nada de chulo. Encadeado. Bong, bong. Duas horas. Nada de chulo. Encadeado outra vez. Três horas. Então deita-se ao rio." O realizador tornou a pôr o lenço na boca. "Quando o meu agente veio ter comigo atirei-lhe o livro à cabeça", disse, imitando o gesto. "Jesus. Sabe, é este o género de porcaria que aparece agora." Abanou a cabeça.

"Quanto a isto", disse, apontando para o guião de Cheyenne Autumn que estava na mesa, "há muito que o queria fazer. Sabe. Matei mais índios que Custer, Beecher e Chivington todos juntos." Ergueu o braço e tornou a puxar a manga para baixo. "Os europeus sempre se interessaram pelos índios. Só os vêem a cavalgar ou as suas brutalidades. Quis mostrar o que realmente são. Gosto muito dos índios", disse com emoção. "São... são um povo muito moral. Têm uma literatura própria: não escrita, oral. São muito bondosos. Gostam das suas crianças e dos seus animais. E quis mostrar, uma vez que fosse, o seu ponto de vista." Ford beliscou as bochechas. "É espantoso..." Fez uma pausa. "É espantoso trabalhar com eles, como percebem tudo tão rapidamente apesar da barreira da língua." Esfregou a boca com o lenço.

"Mas sabe, não há nada como um bom argumento. E nunca vi nenhum." Fez uma pausa. "Sim, já vi. Já vi um. Esta coisa de O'Casey que farei a seguir. Baseada nas suas autobiografias. É o primeiro argumento que li que dá para começar logo a filmar." (Era Young Cassidy). Gesticulou. "Bom, sabe como é: uma-imagem-vale-mil-palavras. Argumento são diálogos. Não gosto de tanta conversa. Tento pôr as coisas em termos visuais. Sabe, regressar aos velhos tempos." Agarrou na outra metade do charuto e acendeu-a. "Não gosto de filmar livros ou peças. Prefiro agarrar num conto e alargá-lo em vez de agarrar num romance e condensá-lo." Voltou a beliscar pensativamente as bochechas. "Os produtores não sabem nada de fazer filmes", disse com seriedade. "E é por isso que faço os meus filmes de modo a que só possam ser montados de uma única maneira." Deu uma chupadela no charuto. "Vão para a sala de montagem e dizem, 'Bom, vamos lá meter um grande plano aqui'." Ford fez uma pausa. "Mas não há nenhum. Não o filmei."

O realizador afirmou que sempre desejou fazer uma peça de teatro. "Gosto da forma", disse e pegou num copo com água sediça que estava na mesinha de cabeceira. Tirou um comprimido de uma caixinha. "B quer dizer Bufferin, não é?", disse e engoliu o comprimido. "Uma vez recebi uma carta da gente da Metropolitan Opera", disse sardonicamente. "Era uma prosa floreada e rebuscada; queriam convidar-me para encenar The Girl of the Golden West. Mas é claro que não se esqueciam de me dizer que não teria nada a ver com os cenários, o guarda-roupa, a música, etc..." Ford tirou o charuto da boca, segurando o braço pelo cotovelo. "Respondi-lhes dizendo antes de mais que achava que The Girl of the Golden West era uma ópera piolhosa." Fez uma pausa. "Mas que estava muito interessado em dirigir La Bohème." Voltou a meter o charuto na boca e deu uma chupadela. "Bem, pode calcular, sabe, o que pensaram sobre isso! Este sujo e velho vaqueiro... este velho sarnoso... quer fazer La Bohème! Bom, tenho a certeza que sabia mais sobre a Margem Esquerda que o gerente da Metropolitan", disse fazendo um gesto com a mão. "Responderam-me dizendo que não estavam interessados em que eu dirigisse La Bohème." Deu uma gargalhada.

***

O local de filmagem era uma faixa de terreno arenoso entalada entre duas paredes a pique de rocha vermelha - um estreito canyon numa das pontas - e o realizador, depois de ter sido acompanhado até lá pela música de Danny Borzage, subiu a colina arenosa. Muita gente, em fila indiana, seguia-o. No local de filmagens estavam também dois homens da Life, um fotógrafo e um jornalista.

Um grupo de guerreiros Cheyenne deveria descer a colina, carregando sobre a Cavalaria; a câmara estaria no fundo da colina. Vários duplos estavam vestidos de índios, encarregando-se Ford de os orientar. Depois de ter dado algumas instruções a Chuck Hayward, que iria chefiar a emboscada, pediu uma pena para o chapéu de outro duplo e caminhou lentamente para ao pé de mim. "Se acha que este plano não requer organização..." resmungou ao chegar perto de mim.

Meia-hora depois, Ford sentou-se, cruzou as pernas e agarrou no megafone. A câmara estava apontada para o alto da colina onde não se via ainda nada. "Pronto. Está a filmar", disse.

"Arranquei!", disse o operador.

"Muito bem, Chuck!", gritou Ford pelo megafone. Ao fazê-lo um grupo de cavaleiros começou a galopar pela colina arenosa, gritando e disparando as espingardas. A Cavalaria, no fundo da colina, ripostou e os tiros reverberaram alto no vale. Os cavaleiros desceram rapidamente a colina, levantando uma poeirada, e passaram tão perto da câmara que o megafone de Ford lhe foi arrancado da mão. Não se mexeu. Um índio tinha caído do cavalo e estava estirado no solo a meio da colina. A câmara fez uma panorâmica acompanhando os índios que se perdiam na distância. "Está perfeito."

Várias pessoas desataram a correr para ver se o índio estava ferido, mas este começou a andar cuidadosamente antes que tivessem chegado perto dele. Outro grupo reuniu-se à volta de Ford. Um homem, exibindo o megafone espatifado, abanava a cabeça "Estivemos quase a ir mais cedo para casa hoje", disse.

Ali perto, outro técnico mostrava como os cascos dos cavalos quase tinham espezinhado Ford. "O cavalo não se atreveria", disse o seu companheiro.

O realizador tinha-se erguido da cadeira e voltava-se agora para a companhia. "Amanhã faremos isto com película", anunciou com cara séria. "Hoje foi para a Life!"

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Carroll Baker, vestida à professora Quaker, um xaile castanho sobre os ombros, caminhou em direcção à mesa do almoço. "Disse a Mr. Ford que queria usar o cabelo caído neste filme", dizia ela, "como as mulheres nos filmes de Ingmar Bergman. Ele disse, 'Ingrid Bergman?' 'Não', disse eu, 'Ingmar Bergman.' 'Quem é?' Respondi, 'Bergman, sabe, o grande realizador sueco.' Deixou passar a minha afirmação em claro e eu achei que era altura de mudar de assunto", disse Miss Baker. "Mas quando ia a sair, ele disse, 'Oh, Ingmar Bergman! É o tipo que disse que eu era o maior realizador do mundo.' E, é claro, sabe, é mesmo." Riu-se, puxou o xaile para a cabeça, que tinha o cabelo apanhado, e sentou-se à mesa.

Richard Widmark estava sentado na outra ponta, a acabar o seu Jell-O e a mastigar um biscoito. "Nunca me diverti tanto num filme", dizia, "como quando fiz Two Rode Together, quando trabalhei com Jimmy Stewart e o Velho." Fez uma careta. "Sou um pouco surdo deste ouvido", disse, "e Ford é um pouco surdo do outro, e Jimmy ouve mal dos dois!" Widmark pôs a mão em concha junto do ouvido. "Por isso, passámos o filme todo a perguntar: 'O quê? O quê? O quê?'"

De regresso para o almoço, Ford falou do feiticeiro Navajo. "O original era um tipo chamado Fat. O que trabalha agora é um dos seus discípulos." Apontou com a cabeça para Harry Goulding, que conduzia. "Costumava dizer a Harry o que queria e obtinha tudo o que precisava. Nuvens de trovoada... Uma noite disse a Harry, 'Diz-lhe que queremos neve.' No dia seguinte saí do meu quarto e uma fina camada de neve cobria o vale." Um Navajo de cara enrugada e cabelo preso por um pano vermelho aproximou-se pela parte de trás do carro. "Este é o novo feiticeiro", explicou Ford. "Yat'hey", disse para o Navajo. "Yat'hey", respondeu o feiticeiro. "Hako", disse o realizador e o homem aproximou-se a trote. Harry parou o carro. Ford ergueu o braço e apontou para o céu. "Nijone", disse, abanando a cabeça. O homem sorriu. "Ah sheh'eh", disse Ford e ergueu outra vez o braço. "Nijone." O Navajo assentiu com a cabeça e o jipe partiu. "Não há em Navajo nenhuma palavra para nuvens aos flocos e por isso é um pouco difícil. Da primeira vez que as fez ficaram perfeitas." Fez uma pausa. "Mas estavam no sítio errado!"

***

A grande maioria das seiscentas pessoas envolvidas na realização do filme de seis milhões e meio de dólares chamado Cheyenne Autumn vivia em trailers e tendas que tinham sido postas como se de uma pequena cidade se tratasse na base de Rock Door Mesa. Era domingo e o quadro preto junto da sala de jantar tinha uma informação a giz: Missa ao Meio-Dia. Um padre tinha percorrido 300 quilómetros para dizer a Missa. Às 11 e 40 os carros começaram a descer do pavilhão. Em primeiro lugar chegou o realizador, seguido por Dolores Del Rio, que era acompanhada por Ricardo Montalban, Mike Mazurki e Gilbert Roland vieram a seguir e depois Pat Wayne. Seguiu-se George O'Brien. Entraram todos e a correr apareceu Jimmy O'Hara uns segundos depois. Ford mandou alguém voltar ao alto da colina para trazer a escudela que estava em cima do piano; o dinheiro nela contido iria para o peditório. Lá dentro, na parte mais afastada da sala, tinha sido improvisado um altar. Gilbert Roland tinha arranjado uma velha cruz espanhola para dar mais dignidade à ocasião; estava pregada numa mesa. Ardiam duas velas. O resto do salão ainda mantinha o aspecto de sala de jantar. Cerca de quarenta pessoas assistiam à Missa. Pat Wayne e Jimmy O'Hara faziam de sacristães. Mike Mazurki encarregou-se do peditório.

***

Do outro lado do canyon onde tinham rodado, Ford mandou colocar alguns dos guerreiros a cavalo, uns à sombra e outros ao sol. Era uma cena de discussão entre Montalban (um chefe) e Sal Mineo (um jovem bravo), que violentamente deita fora a espingarda, monta e parte. Ford estava sozinho, esfregando as mãos. Ouvia-se bastante barulho: "Wingate!" chamou o realizador. "Mas o que é isto? Greve? Motim?"

Smith falou pelo megafone. "Vá, vamos lá a fazer menos barulho, se faz favor!"

Estava calor e Ford tinha tirado o casaco e a camisola; trazia uma camisa branca com os punhos desabotoados. Mascava no lenço. "Bom, alguém tem alguma razão para não fazermos isto?", gritou. "Senão, vamos a isto." Durante o ensaio Ford apanhou um dos jovens Navajos a fazer caretas para a câmara. Chamou-o, mandou-o pôr um joelho em terra e deu-lhe umas palmadas. O Navajo dava risadinhas despropositadas e toda a gente gargalhava. Quando o jovem se afastou, Ford fez um gesto fingindo que lhe ia dar um soco na cara.

A câmara começou a filmar e quando Mineo correu para o cavalo, este espantou-se e ele falhou o primeiro salto. Zangado, agarrou o cavalo e saltou para a garupa, chicoteou-o e partiu, seguido por alguns guerreiros. "Está perfeito", disse Ford. "Mandem imprimir." Mineo regressou e perguntou ao realizador se podia tentar mais uma vez. Ford encarou-o alguns momentos, chupando no lenço. "Queres fazer mais uma vez com a câmara vazia, Saul?" Mineo sorriu e disse que a coisa lhe tinha parecido pouco convincente. "Estavas muito zangado", explicou Ford. "E falhaste. Gostei. Completamente dentro do espírito da personagem. Não quero que pareça premeditado. Como no circo." Mineo desmontou e afastou-se. Ford chamou-o. "Mas podes voltar a tentar com a câmara vazia, Saul." Mineo riu-se e abanou a mão.

À noite, muito depois do jantar, Ford e George O'Brien sentaram-se à conversa. Na outra ponta da sala de jantar estava uma televisão, para grande desgosto de Ford. A recepção era pouco nítida, mas Nancy Hsueh, Carmen D'Antonio (actrizes) e Pat Wayne estavam a ver um filme chamado From here to Eternity. Ford estava a falar da sua infância no Maine, dos pais, que tinham crescido no mesmo condado irlandês mas só se tinham conhecido na América, e de algumas figuras que tinha conhecido na sua juventude.

No écran da televisão Montgomery Clift fazia o toque de silêncio, Ford virou-se, fez um óculo com a mão e olhou com cenho carregado para o televisor. "George", disse voltando-se para a frente, "viste um filme meu chamado Christmas Eve at Pilot Butte?" O'Brien disse que não se lembrava. "Mil novecentos e vinte e um. Com Harry Carey e Irene Rich. Foi o primeiro filme que se fez com fotografia nocturna verdadeira. Era baseado numa história de Courtney Riley Cooper chamada Christmas Eve at Pilot Butte. Gostava de fazer um remake. Uma bela história." (O filme foi exibido com um título diferente: Desperate Trails.)

Ainda se ouvia o toque de silêncio e Ford tornou a virar-se. "Este tipo não sabe tocar a silêncio", murmurou espantado. "Tens razão, Jack", disse O'Brien. Ford virou-se ainda mais e com um ar zangado e pôs-se a ver quem estava a assistir ao filme. "Pat (o filho de Ford) nasceu quando estávamos a fazer esse filme", disse, encarando-nos de novo. "E Dobe (o filho de Carey) também. Com uma semana de diferença." Chupou no charuto.

Do aparelho de televisão veio o som de bombas a serem lançadas, aviões a picar e depois uma notícia de rádio: "Hoje de manhã, aviões da Força Aérea Imperial Japonesa atacaram Pearl Harbour..." Ford virou-se todo na cadeira. "Deus Meu! O que é isto?" O'Brien riu-se. "Oh", disse Ford e lançou um olhar mal-humorado à televisão.

***

Uma parte de um leito de lago seco tinha ficado coberta de salva e cardos. Os Cheyennes deveriam pegar-lhe fogo a fim de tentarem impedir o avanço da Cavalaria que lhes ia no encalço. Estava-se num dia ventoso de Outubro e Ford não parecia muito seguro sobre o modo de começar a sequência. Andava de um lado para o outro, preocupado com os perigos potenciais da situação. Por fim, depois de tomadas todas as precauções, decidiu como queria começar. Prepararam-se duas câmaras, a principal num camião de modo a poder ser retirada se o fogo escapasse ao controlo. Os duplos e vários Navajos prepararam-se para o primeiro take.

Ford deu instruções claras: só uma pequena parte do terreno devia ser incendiada agora, e estava a ser pulverizada com uma mistura altamente inflamável. Ford virou-se repentinamente para Chuck Hayward e disse-lhe para começar o plano passando a cavalo em frente da câmara principal, assegurando-se que o seu archote aceso brilhasse directamente nas lentes. Esfregou as mãos, dobrou a aba do chapéu e verificou se o camião da água estava a postos. Os archotes foram acesos. O realizador confirmou as suas instruções e as câmaras começaram a filmar. "Chuck!" Os cavaleiros, com os archotes voltados para baixo, avançaram para a área determinada. A segunda câmara encravou. "Pronto, chega. Apaguem!" Antes que os intérpretes pudessem traduzir, os Navajos incendiaram a salva em dois sítios. "Vamos a isto mesmo assim!", gritou alguém, mas Ford disse calmamente que não. Alguns homens apressaram-se a abafar o fogo antes que se pudesse espalhar. Os archotes foram apagados.

O realizador aproximou-se da sua cadeira junto da câmara principal, sentou-se e ergueu o megafone. Perguntou se a segunda câmara já estava arranjada. Não houve resposta. "Por amor de Deus, respondam!" Disseram-lhe que ainda não estava pronta. "Muito bem, que se lixe! Vamos filmar só com uma câmara! Acendam os archotes." A câmara arrancou e os cavaleiros, com archotes a arder nas mãos, galoparam para dentro de campo, incendiando a salva de passagem. Os arbustos começaram a arder e o fogo espalhou-se rapidamente enquanto os guerreiros se afastavam dando gritos ferozes. O calor provocado pelo incêndio era intenso e o camião com a câmara afastou-se alguns metros. Ford continuava sentado, de pernas cruzadas. Gritou aos duplos para voltarem a passar pela câmara aos berros. Assim fizeram e Ford levantou-se. "Está perfeito!" Os homens apressaram-se a apagar o fogo. Wingate Smith estava ali perto e alguém comentou que Ford não se tinha afastado do fogo quando toda a gente o tinha feito. "Bom", disse Smith sorrindo, "ele gosta de ser sempre o último."

Pat Ford aproximou-se a cavalo, cachimbo na boca, o chapéu puxado para a frente, e eu perguntei-lhe se era verdade que Cheyenne Autumn seria o adeus do pai ao western. "Não, c'os diabos!", exclamou. "Há-de continuar a fazer westerns mesmo depois de morto", disse com brusquidão. "Ele adora estes vaqueiros, estes índios e este vale." E depois de dizer isto partiu na senda da Cavalaria.

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Sábado à noite, depois do jantar, era costume haver uma festa. Cerca de trinta pessoas estavam reunidas na sala de jantar. Montalban e Miss Baker abriram a festa, dançando ao som de "Put Your Little Foot", que Danny Borzage tocava. Tinham ensaiado, mas apesar disso não se saíram lá muito bem. Quando pararam, Borzage atacou "Tennessee Waltz." John Ford levantou-se subitamente, despiu o casaco, deitou-o para o chão, descalçou os ténis e agarrou em Miss Del Rio. Dançaram sozinhos durante alguns momentos e depois vários outros pares juntaram-se-lhes. Carmen D'Antonio tentou dançar flamenco.

A música mudou e, a uma ordem de Ford, todos os que estavam de pé deram as mãos para "Virginia Reel". O realizador deu o sinal na altura de "Virar!" Depois Miss Baker disse que sabia uma canção, levantou-se e cantou "Come Out And Play With Me", uma canção infantil sobre uma rapariguinha que não pode ir brincar porque a sua boneca está doente. No último verso fingiu estar a soluçar de tristeza. Foi muito aplaudida e regressou feliz ao seu lugar.

Montalban agarrou numa guitarra, sentou-se numa mesa e cantou várias canções espanholas. Ford pediu os tradicionais gritos de aplauso no fim de cada uma. Quando Montalban acabou, Borzage atirou-se a uma polka e o realizador dançou-a com Miss Baker, numa demonstração de graciosidade e exuberância. Carmen D'Antonio tentou dançar flamenco.

Pouco depois Jimmy O'Hara avançou para cantar algumas canções irlandesas a pedido de Ford. A primeira foi "The Young May Moon", e depois "Kevin Barry", uma balada sobre um revolucionário enforcado em 1920.

Just a lad of eighteen summers,
Yet there's no one can deny
As he went to death that mornin'
Proud he held his head on high...

Ford recostou-se na cadeira, a cabeça encostada à parede. Fixava o tecto.

Another martyr for old Ireland,
Another murder for the crown,
Whose brutal laws may kill the Irish,
But can't keep their spirits down...

Quando a canção acabou, Ford não aplaudiu, mas toda a gente o fez.

Subitamente, ouviu-se um cântico vindo do exterior. Alguém veio informar que os Navajos tinham vindo cantar para Ford. O grupo passou-se para o alpendre, à frente do qual seis Navajos, vestidos descuidadamente com Lewis e camisas desportivas mas com lenços coloridos amarrados à cabeça, interpretavam um cântico cerimonial. Moviam-se e cantavam em conjunto ou em contraponto, arrastando os pés ao mesmo tempo. Os cânticos celebravam a época das colheitas e os sons eram atonais e agudos, os movimentos staccato mas graciosos. Interpretaram dois cânticos e no final de cada um Ford comandou os aplausos. Os Navajos foram convidados para a sala de jantar e interpretaram mais dois cânticos. Ford assistia com profunda concentração. Quando terminaram, agradeceu-lhes. "Ah'sheh'eh, shi'kis", disse ao chefe. "A'ha'alani."

Depois de eles terem partido alguém pediu a Jimmy O'Hara para cantar de novo. Ford fez-lhe um sinal de concordância com a mão e disse-lhe, "Canta o Hino Nacional, Jimmy." O'Hara sabia o que ele queria dizer e, acompanhado por Borzage, cantou "The Wearing of the Green", uma canção que é cantada tradicionalmente na Irlanda durante a semana da Páscoa (a melodia é a mesma de The Rising of the Moon). Depois do segundo refrão, Ford contribuiu com um verso:

Oh, Paddy dear an' did you hear
The news that's goin' 'round?
The Shamrock is by law forbid
To grow on Irish ground.
St. Patrick's day no more we keep, 
His color can't be seen.
For they're hangin' men and women
For the wearin' of the green.

Toda a gente se juntou no último refrão.

For the wearin' of the green, boys,
The wearin' of the green.
Oh, they're hangin' men and women
For the wearin' of the green.

Pouco depois Ford olhou para o relógio. "Meu Deus!", disse com fingido espanto. "São 9 e 28! Danny, toca mais uma valsa." O acordeão atacou "Missouri Waltz" e o realizador dançou com Miss Del Rio. A seguir dirigiu-se para a porta. Nessa altura, o grupo começou a cantar "Auld Lang Style", e fê-lo durante todo o tempo que ele demorou a sair e a entrar no seu quarto. Algumas pessoas ficaram ainda: dançaram um pouco mais e cantaram algumas canções, mas a festa tinha acabado.

Abril de 1964

in NACOS DE TEMPO - Crónicas de Cinema de Peter Bogdanovich
Tradutores: Maria Dulce Teles de Menezes e Salvato Teles de Menezes