sexta-feira, 26 de abril de 2024
BONNIE E CLYDE, de Arthur Penn
domingo, 14 de março de 2021
"Cinéastes de notre temps": Raoul Walsh - Terça-Feira, 4 de Outubro de 1966, 21 horas, 2º Canal.
quarta-feira, 11 de setembro de 2019
A DISTANT TRUMPET (1964)
por Miguel Marías
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
A Grande Aventura de Raoul Walsh
por Peter von Bagh
Walsh foi um rebelde solitário em Hollywood: recusou a rede de segurança dos ‘argumentos de ferro’ e criou ondas de ideias "intraduzíveis". Era um guardião leal (sem o controlo e o prestígio de um Ford ou de um Hawks) do coração puro e irredutível da época de Griffith, e modernista por instinto. Ainda que tenha trabalhado sempre dentro do sistema, estava mais próximo do espírito de Stroheim ou de Ingram e regressava sempre ao sonho original da liberdade criativa.
O seu amigo Errol Flynn descrevia esta postura como um “entusiasmo fundamental” por “todas as coisas simples da vida: respirar, comer, beber, pescar, fruir, festejar e todas as outras coisas que começam por f”. Walsh interpretava do modo mais natural, espontâneo e relaxado fosse que género fosse, infringindo as convenções: este estado de felicidade indisciplinada é um elemento essencial nos seus filmes.
Sabia tratar o filme de acção (os westerns, os filmes de guerra) esvaziando-o completamente de acção. Tinha um sentido do absurdo admirável: só num filme de Walsh é que se pode ler a legenda, “a melhor guerra a que já assisti”, e só Walsh é que pode fazer passar frases como “Charmaine estava fascinada pela visão dos soldados que caminhavam para a morte” mantendo uma seriedade profunda. A guerra, um tema frequentemente desencarnado, inspira em Walsh uma inimitável dialéctica de farsa e de náusea (como em O Preço da Glória). Os homens são carne para canhão, não há metas escondidas e idealizadas. Walsh sabe ser igualmente duro com a sociedade e com a natureza humana, seja um ringue, uma empresa comercial ou a primitiva acumulação de dinheiro numa cidade do Oeste. Mas por baixo desta dureza palpitam um erotismo e uma vitalidade que incutem energia a tudo: actores, géneros, trama. Para não falar do sentido concreto da natureza, descrita frequentemente como um espaço maravilhoso atravessado pela emoção de uma morte grotesca.
A fantasia futurista de O Ladrão de Bagdad, com os seus cavalos alados, diz tudo sobre o boom financeiro e as ilusões dos anos vinte. As crises histéricas que caracterizam muitos filmes tardios exibem a crueldade em que a riqueza americana se radica: com as suas histórias de psicopatas, Walsh foi um observador lúcido da neurose do século, que também teve o seu declínio no equivalente romântico de amor e morte.
Walsh tinha um talento extraordinário para a observação do ambiente social. Como escreveu Manny Farber, sabia “tornar poético um ambiente pequeno-burguês melancólico e ferido”. Farber acrescenta que Walsh é “primo do Renoir de Toni, do Vigo de O Atalante, do Brassaï fotógrafo de estrada: um primo dedicado às pessoas, mais vivaz e divertido do que os seus equivalentes franceses”. Poucos souberam evocar a acepção do vigésimo século de modo tão belo e tangivelmente vivo.
quinta-feira, 1 de junho de 2017
A postura e o trabalho necessários da revista FOCO

Numa mesa redonda do The Dick Cavet Show, nos anos setenta, Robert Altman e Frank Capra concordavam (!) que ainda não se tinha feito um grande filme que fosse puramente um filme e sem dever nada às outras artes, que usasse o que lhe era intrínseco formalmente para se expressar como uma música ou um poema ou uma pintura o faziam com as suas ferramentas próprias. Não tenho poderes de adivinhação e não sei o que seria um filme assim, nem sou capaz de conceber que o cinema se calhar ainda nem tenha filmado o seu D. Quixote ou a sua Capela Sistina. Mas concordo que estamos numa época de transição (não só no cinema e que, como todas as transições, demora o seu tempo), como escrevia há pouco tempo o Sérgio Alpendre no seu blog. Tendo visto pela primeira vez um filme como o Bang Bang de Andrea Tonacci, mesmo que já do longínquo ano de 1971, só posso acreditar que o potencial e as ideias para o cinema não se esgotaram para os séculos vindouros e a viagem está só no princípio. A FOCO sabe isto, sabe que há um passado e um futuro, bases e fundações para se conhecerem, rumos e direcções para se seguirem. E a discussão vai passar por lá, certamente, de Samuel Fuller às Duas Vanguardas, às quais admito ter começado por torcer o nariz, quando soube que iam fazer parte da nova pauta da revista, mas que agora acredito estarem a ser abordadas e estudadas com a curiosidade e o interesse certos, numa tentativa de discutir isto mesmo, como na viragem do século XIX para o século XX se discutia a música e os becos sem saída da harmonia e a literatura e a nova fronteira do fluxo de consciência. É possível continuar a fazer o cinema que Hawks, Ford, Walsh, Capra ou Lang ajudaram a cimentar até à perfeição nos anos 40 e 50 ou há-mesmo-que fazer como o muito decidido Adriano Aprà (tomou a decisão há cinquenta anos) e indagar no underground e nas vanguardas para ter um vislumbre do futuro?
Mas o mais importante, e o que se calhar distingue mesmo a FOCO das outras revistas (sejam electrónicas ou impressas e principalmente pelo que se escreve mas também pelo que se traduz e volta a publicar por lá) é a tentativa editorial corajosa (e que imagino que não lhes dê propriamente muita fama no Brasil) de escolher alguns cineastas em detrimento de outros e, nas palavras de João Bénard da Costa, dar "testemunho do que vai durar contra o que parece que está para durar".
O primeiro lançamento da colectânea da revista FOCO foi no Fundão, durante os Encontros Cinematográficos, com a presença dos editores e de Luís Miguel Oliveira, que também lá escreve. No próximo dia 6 (Terça-Feira) estarão presentes noutro lançamento na livraria Linha de Sombra, na Cinemateca Portuguesa, que terá também música a cargo da Marta Ramos e do João Parreira. Longa vida à FOCO!
sábado, 24 de dezembro de 2016
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
A PERFECT WORLD (1993)
A excepção e a regra. Uma reconciliação com o mundo e com os homens. "Voltei a acreditar que um e outros podem ser perfeitos."
Quando fui ver A Perfect World estava num daqueles dias em que se tende a exagerar a natural imperfeição do mundo e dos seus habitantes. Um daqueles dias em que se toma a parte pelo todo ou uma dor de cabeça por um cancro no cérebro. Um daqueles dias, por exemplo, em que, quando presenciamos tristes figuras, de quem as esperávamos e de quem as não esperávamos, generalizamos que só há figurações tristes nestes tristes tempos deste triste espaço. Que "faz frio pensar na vida". O que a vida faz às pessoas. O que as pessoas fazem da vida. De associação em associação, de recorrência em recorrência, tudo ou muito (mas um muito que é demais) nos começa a parecer sinistro. "Há qualquer coisa de sinistro no olhar daquele carneiro", dizia Nuno Bragança quando não gostava ou desconfiava de uma pessoa. Em dias, como o dia em que vi A Perfect World, descobri "qualquer coisa de sinistro" no olhar de quase todos os carneiros, mesmo daqueles que têm lã quentinha e a quem gostamos de passar a mão pelo pêlo ou que nos passem a mão pelo pêlo. Os amigos não são para essas ocasiões.
Antigamente, um bom filme de Capra, um bom filme de Ford, eram o antidepressivo ideal para essas ocasiões, que provavelmente têm mais que ver com coisas nossas de que com coisas vossas. Hoje - Capra morreu, Ford morreu e não há ninguém com muita saúde - é mais raro achar filmes com essas virtudes. Mas, no ser humano, a capacidade de bem é tão espantosa como a capacidade de mal e, mesmo que a moral vigente não seja mais a moral edificante, há sempre excepções à regra. A Perfect World (título que não deve ser lido ironicamente) é uma dessas excepções. De resto, num diálogo do filme (e dos mais importantes) é de regras e excepções que se fala.
T.J. Lother, o miúdo que Clint Eastwood descobriu (decalcado a papel químico de 4700 miúdos análogos do cinema americano) confessa a Kevin Costner que roubou o fato do fantasminha e a máscara do "halloween". Pergunta-lhe se está zangado com ele, pergunta aliás recorrente na boca de uma criança educada por Testemunhas de Jeová e por muitas proibições. Costner responde-lhe que não se deve roubar, mas que quando uma coisa apetece muito e não há dinheiro... E acrescenta, à laia de moral, "todas as regras têm excepção". É quase no fim do segundo grande "travelling" de acompanhamento, no caso em questão de acompanhamento do carro em que o adulto e a criança por duas vezes permutam estatutos: o adulto faz-se criança (para o bem e para o mal, nunca tinha deixado de o ser) e a criança torna-se adulto. Nesses dois "travellings" (muito longos e admiravelmente filmados) Kevin Costner e T.J. Lother ligam-se um ao outro e ligam-se a nós.
No cinema americano, abundam exemplos de histórias de crianças que foram parar às mãos de bandidos. Ou se divertiram muito, ou ficaram, para sempre, vacinadas contra o maniqueísmo dos "bons" e dos "maus". A Perfect World, a esse nível, é só mais um filme desses e não destrona o arquétipo de todos, Moonfleet, de Fritz Lang. Como não destrona, em termos de imagem emblemática, a oposição corpo grande - corpo pequeno, ou pai-filho, que explicou a adesão das gerações do pós-guerra a uma parábola como Ladrões de Bicicletas. Por alguma razão, a imagem publicitária do filme (Kostner, enorme, e T.J. Lother, pequenino, de mãos dadas) reenvia imediatamente ao filme de De Sica.
Mas, em A Perfect World, dão-se passos muito consideráveis para questões morais bastante mais complexas. Centro-me numa sequência e num adereço: a sequência em casa da família negra e a utilização do fato e da máscara do "halloween".
Se, algum dia, o mundo pareceu perfeito ao miúdo chamado Philip foi na manhã que passou em casa dos velhos negros e do neto. A amizade com Costner selara-se quando este interrompeu o que estava a fazer com a dona do restaurante e seguiu viagem com o miúdo, sem - novamente - se zangar com ele. Depois de terem sido acordados na floresta (pelo negro) tudo pareceu a Philip (e digo a Philip, porque a sequência é subjectiva) a perfeita celebração dessa amizade: o velho disco, a velha música, Costner a dançar com a velha, ele a dançar com o miúdo. Neste momento, o bem pareceu estar do lado mau, definitiva e pacificamente. Se a polícia tivesse entrado naquela casa, naquele momento, o miúdo ficaria a odiar polícias e a adorar ladrões pela vida fora.
Mas o que aprendeu, e o que aprendeu de repente, foi que não há simplicidades dessas. Determinado por um valor ("adultos não devem tratar mal as crianças") Kevin Costner estraga a festa e, como todos os fundamentalistas, assume por razões éticas um comportamento monstruoso (a tortura e a ameaça de morte à família negra). E o que o miúdo descobre naquele momento é que o amigo é também um monstro e que nenhuma amizade justifica o pacto com a monstruosidade ou com a ignomínia. Por isso dispara e mata o amigo. Esse tiro é, por isso mesmo, um dos tiros mais belos da história do cinema.
Mas Clint Eastwood ainda foi mais longe. Costner diz ao miúdo, depois, que se calhar não ia matar ninguém (é irrelevante, a tortura fora mais grave) e, em campo aberto (na sequência final), dá muito mais dados para ser compreendido e amado. E quando manda Philip embora, pede-lhe que ponha a caraça e vista o fato do fantasma. É nessa altura que essa caraça e esse fato adquirem a dimensão mais obscura e sacral. Porque com elas, o miúdo não é miúdo mas uma aparência construída para meter medo. Passa de criança a homúnculo e dissolve-se-lhe, sob a máscara, a infantilidade. Como máscara, pode enfrentar as outras máscaras (os polícias) num mundo por igual mascarado, num mundo em que sem máscara ou se é criança ou se está perdido.
Num filme de 1932 - Blonde Venus -, Sternberg fez aproximável uso de uma caraça e de uma criança para dar a Marlene um terceiro homem mais forte do que o marido e do que o amante. Em A Perfect World, desde a sequência do armazém e sempre que o miúdo tira ou põe a máscara, são dadas as pistas para a transformação daquela criança no adulto que um dia será, e, eventualmente, no monstro que um dia pode vir a ser. Quando foi ele que deu o tiro tinha a cara e os olhos transparentemente nus. Quando a polícia deu o segundo tiro - o tiro da abjecção - o contracampo é a máscara.
No fim, já o miúdo vai ser levado para a sua "nave espacial", Clint Eastwood dá o soco no agente federal e Laura Dern atira-lhe um pontapé aos tomates. Esses dois actos violentos são o equivalente (adulto e "legal") do tiro que a criança dera. A criança não a vemos nem a ouvimos mais. Clint Eastwood ouvimo-lo dizer (e são as últimas palavras do filme): "Já não sei nada de nada". Alguma vez, alguém, pensou ouvir semelhante confissão da boca de Clint Eastwood?
Mas foi por causa dessas palavras, do tiro do miúdo, do soco de Clint Eastwood e do pontapé de Laura Dern que me reconciliei com o mundo e com os homens e que voltei a acreditar que um e outros, às vezes, podem ser perfeitos. As estrelas do céu por cima de nós e a lei moral dentro de nós? Professor Immanuel, é mais ou menos isso.
in As Imagens Recorrentes, crónica no Suplemento "Vida" do semanário "Independente", 23 de Dezembro de 1993
sábado, 12 de outubro de 2013
THE WINGS OF EAGLES (1957)

No texto sobre The Searchers, referi a reapriação crítica a que tal obra deu origem, depois de anos de silenciamento ou, no caso da crítica europeia, de relativo menosprezo pela obra de John Ford. Foi, ainda, sol de pouca dura. Os filmes seguintes - este The Wings of Eagles, The Rising of the Moon, The Last Hurrah, Gideon of Scotland Yard, isto é as obras realizadas por Ford em 57 e 58 foram alvo da mesma indiferença, que só veio a desaparecer definitivamente a partir de The Horse Soldiers (59) e, sobretudo, de Sergeant Rutledge (60) e Two Rode Together (61). Isto é, quando Ford voltou ao Oeste, sendo os seus westerns a primeira parte recuperada da sua obra.
Ainda hoje, se pode dizer que esse preconceito continua, se não para as obras dos anos 30 e 40, para a década de 50 (a partir de 1960, Ford quase dó faria westerns). Ainda hoje, não é pacífica a ideia que The Wings of Eagles seja a mesma história (e tenha a mesma grandeza) de She Wore a Yellow Ribbon, Rio Grande ou The Searchers, mais uma vez a tragédia de um homem que nunca alcançou o que queria, mais uma vez a secreta ferida (de que a ferida evidente do filme é uma transposição) dum amor perdido e sempre lembrado. Não é certamente por acaso que o acidente de Wayne intervém após uma sequência em que ele percebe, como o protagonista de Rio Grande, que há coisas a que não se pode voltar. Semelhante injustiça foi praticada com as obras-primas que são The Rising of the Moon e The Last Hurrah.
Antes de entrarmos na breve análise deste genial filme, convém recordar que The Wings of Eagles causou, à época, particulares engulhos, e não me refiro agora aos críticos, mas aos meios oficiais americanos. A sequência entre o senador Barton e "Spig" Wead durante a reunião do Comité do Congresso tem uma óbvia dupla leitura e não se refere apenas ao período histórico do filme. Wayne diz ao senador que estão a perder o poder naval e que "some day we might lose something bigger than that". E Barton responde-lhe falando dum "country yelling 'pacifism' at us. Disarmament, tax reduction - no more wars - and the navy is going out of business". ora, em 57, os tempos eram da "doutrina Eisenhower" e da coexistência pacífica e, no ano anterior, o Congresso tinha reduzido sensivelmente o orçamento da marinha. Através de Wead, Ford lutava mais uma vez pela sua arma e pela sua dama, a dizer, com Wayne, que se estava, nos anos 50, como nos anos 30, a trair um dever, "or we don't know what duty is". O remoque à Casa Branca era claro.
Para lá deste aspecto (não tão anedótico como isso) The Wings of Eagles é um biopic de Frank "Spig" Wead, que como o Capitão Brickley de They Were Expendable foi um personagem real e um grande amigo de Ford.
E, como They Were Expendable, The Wings of Eagles é, em primeira instância, uma obra de homenagem, e um gesto de amor, para com um homem que Ford profundamente admirava e profundamente amara. A Bogdanovich disse: "Ao princípio, não quis fazer o filme porque 'Spig' era um grande amigo meu. Mas também não me resignei à ideia que fosse outro qualquer a fazê-lo. Conheci-o quando ainda era um jovem cadete, de sapatos pretos, antes dele começar a voar. Nessa altura ainda não estava na marinha mas passava grande parte do meu tempo com ele e com outros oficiais. 'Spig' sempre esteve interessado em escrever e ajudei-o e encorajei-o como pude. Fizemos uma série de filmes juntos. 'Spig' morreu nos meus braços. Tentei contar a história com o máximo de verdade possível e tudo no filme é verdade. A luta no clube - com os bolos atirados - aconteceu realmente e fui testemunha dela com os meus olhos. Também a queda na piscina é rigorosamente verdadeira. O avião aterrou de facto na piscina - e no meio do chá do almirante. Só o título é que sempre me pareceu estúpido e não me consolo com ele. A minha ideia era chamar ao filme 'The Spig Wead Story' mas a Metro objectou que 'Spig' era um nome que se prestava ao ridículo e que as pessoas se iriam interrogar sobre quem era 'Spig' Wead".
Acentuando esta declaração, noto que o Almirante "Spig" Wead, após o seu acidente, se dedicou de facto ao cinema e foi argumentista de vários filmes: dois de Ford (Air Mail de 32 e They Were Expendable de 1945) além de clássicos como Dirigible (Frank Capra, 1931) e Ceiling Zero (Howard Hawks, 1936). Isso deu origem a uma incursão, única na obra de Ford, no film on film, com a visão de vários excertos dessas obras, bem como excertos da admirável série de documentários que Ford realizou durante a guerra (as fabulosas sequências dos overlights e das batalhas aéreas). Além disso, o próprio Ford interveio no filme, por indirecta pessoa. Ao seu actor preferido, Ward Bond, confiou um papel que em grande parte é o próprio Ford, vestido e caracterizado como ele (cachimbo, os óculos escuros) e rodeado dos Oscars que o próprio Ford tinha ganho. Quando Bond diz: "Não quero uma história sobre barcos e aviões, mas sobre os homens que andaram neles, sobre o modo como pensavam e falavam", está a citar as palavras do próprio Ford, reproduzidas sic na típica frase "I want it from a pen dipped in salt water, not dry Martinis".
E não deixa de ser uma surpreendente coincidência que este seja (aparte uma obra posterior para a televisão) o último filme de Ward Bond para Ford. O assombroso actor, que desde Salute (1929) surgiu em dezenas de obras e em dezenas de papéis, saiu do mundo fordiano, identificando-se com o seu realizador, representando-o.
Se me demorei tanto neste aspecto, foi para sublinhar o empenhamento pessoal de Ford neste filme, um dos seus favoritos, uma das suas obras mais autobiográficas. Mas, passando para além destes aspectos, podemos voltar à semelhança entre o percurso de "Spig" Wead e o de Ethan Edwards em The Searchers, papéis não por acaso confiados ao emblemático John Wayne.
E o que é mais extraordinário neste filme, é como os próprios episódios biográficos servem essa intenção profunda: o sofrimento físico de "Spig" traduz o seu sofrimento moral. Esse pioneiro da aviação e da marinha, que nas assombrosas sequências iniciais vemos no máximo de acção e de proezas físicas, é também o homem paralisado, para sempre ligado a esse momento antológico do cinema de Ford que é o repetido plano da sua imobilidade no hospital e as sequências em que Dan Daley e Wayne vencem o que os médicos consideravam irremediável com a fabulosa cantilena: "I'm going to move that toe". O tempo dessa obsessiva canção, a tensão física de Wayne (as suas costas nuas) e a portentosa elipse, quando finalmente Wayne mexe os dedos do pé (dada pelo olhar de Daley) são momentos inadjectiváveis de uma arte levada ao seu ponto máximo. E, para falar em pontos máximos, pessoalmente estou inclinado em crer que a "morte" de Wayne no final (literalmente uma ascensão ao céu, em corpo e alma) é o mais belo momento do cinema de Ford e uma das coisas mais admiráveis alguma vez vistas nesta arte. É, de facto, preciso ser-se muito grande para conseguir tal coisa sem cair no ridículo e impondo uma tão única comoção (repare-se no recuo da câmara e no longo plongé sobre a cadeira, ponto perdido no espaço entre os dois navios, onde sabemos estar o corpo do herói). Diria ainda que, pela primeira vez, não se fez um travelling, mas a câmara filma o travelling, no sentido mais absoluto do termo.
Citei dois momentos máximos: mas que dizer da constante transição entre a comédia e o drama, sem que haja alguma vez ruptura, tudo fluindo naturalmente das cenas mais impagáveis (as lutas e os bolos, o vôo inicial de Wayne) às sequências mais trágicas? Que dizer do modo como é tratada a relação entre John Wayne e Maureen O'Hara, "traída" não por outra mulher mas pelas amantes permanentes de Wayne que são os barcos e os aviões (repare-se, por exemplo, na fabulosa sequência em que Maureen O'Hara volta a casa, com uns copos a mais e de cigarro na boca, antes da queda de Wayne)? Que dizer da espantosa relação de amor entre Wayne e Dailey, com o climax, para além da sequência já citada, no olhar do último sobre o primeiro no final do filme? Que dizer do desdobramento do plano, quando Dailey coloca em frente de Wayne o espelho que lhe permite ver os pés? Ou, mais adiante, na fabulosa iluminação nocturna de Wayne, pouco antes de mexer os pés, ouvindo o toque da alvorada? Ou, finalmente (e longe de esgotar as coisas inadjectiváveis) na última visita de Wayne a Maureen, antes de Pearl Harbour, quando aquele homem sem família possível a não ser a beautiful lady que é o navio, diz à mulher que "fora da família, não há nada"?
E é impossível, voltando a falar de actores, esquecer que este é também o último filme de Maureen O'Hara para Ford e o terceiro do seu par com Wayne. Como em Rio Grande, é "traída"; como em The Quiet Man continuam as zaragatas entre os dois. Só que em The Wings of Eagles não há regresso ao passado, nem há happy end. Há só a memória dum retrato ("good morning Miss America") e aquele incrível diálogo no hospital, sem troca de olhares possível, com a voz que sai do corpo de Wayne a dizer: "Take your turn. I take mine. You're just through". E todos os telefonemas se interrompem.
The Wings of Eagles é sobretudo um filme sobre a solidão. Talvez o mais belo filme sobre a solidão, de que me lembro. A máxima comoção. O único filme de Ford construído sobre o cinema é o único que, no momento capital, elide o olhar.
in AS FOLHAS DA CINEMATECA - John Ford
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Emil Anton Bundman A.K.A. Anthony Mann
Emil Anton Bundman nasceu a 30 de Junho de 1906, em S.Diego, na California. Começou como actor em Nova Iorque, mas em 1938 foi para Hollywood, juntando-se à Selznick International Pictures como director de castings, onde filmou screen tests para “Rebecca” de Alfred Hitchcock e para “Gone With the Wind” de Victor Fleming (e de uma data de outros realizadores). Nos anos 40, filmou uma série de film noir`s para a RKO, para a Eagle-Lion Films e outras companhias – alguns estão em domínio público – mas foram os seus westerns que o afirmaram e registaram (ou deviam registar - já lá vamos) como nome fundamental do Cinema Americano.
Fez 11 filmes dentro desse género, sendo o primeiro “Winchester 73” (primeiro filme da longa e estimulante colaboração com James Stewart – 8 filmes, 5 dos quais westerns) , estudo enigmático em torno da ganância e cuja narrativa gira em torno da Winchester do título (ela está sempre em campo narrativo), e o último, “Cimarron”, remake de um western de 31 (que venceu o Óscar de melhor filme nesse ano) mas que não é tão bom como podia ser por interferência do estúdio (M.G.M.). Pelo meio fez coisas tão prodigiosas como “Bend of the River” de 53 ou “Man of the West” de 58, dois dos melhores westerns de sempre (“Rio Bravo” e “The Searchers” incluídos). Estes últimos dois filmes, bem como “The Naked Spur”, “Winchester 73” e “The Man from Laramie”, estão associados a uma visão do mundo (coeso estética e moralmente) por parte do seu autor e a uma revolução em termos de representação do Homem (em geral) e do Oeste, que antecipa, mesmo, o cinismo e o desencantamento de realizadores como Sam Peckinpah ou Clint Eastwood.




Numa entrevista em 1967 (ano da sua morte), quando questionado sobre o ponto de partida para “The Naked Spur”, Mann disse isto:
“We were in magnificent countryside–in Durango–and everything lent itself to improvisation. I never understood why almost all westerns are shot in desert landscapes! John Ford, for example, adores Monument Valley, but I know Monument Valley very well and it’s not the whole west. In fact, the desert represents only one part of the American west. I wanted to show the mountains, the waterfalls, the forested areas, the snowy summits–in short to rediscover the whole Daniel Boone atmosphere: the characters emerge more fully from such an environment. In that sense the shooting of The Naked Spur gave me some genuine satisfaction.”
Mann foi, parece-me, o primeiro a distanciar-se da paisagem dominante no western (as grandes pradarias e os desertos – Monument Valley) e, portanto, de John Ford. Em Ford as paisagens são abertas, por assim dizer, em Mann (como em Hawks, mas de maneira diferente) elas são fechadas e de um sufoco inacreditável. Isto permite, em “The Naked Spur” (e, de certa forma em todos estes filmes, exceptuando, talvez, “The Man From Laramie” - o mais “fordiano” dos cinco) um paradoxo admirável – num filme rodado inteiramente em exteriores, os sentimentos predominantes são os da claustrofobia e do desespero. As sequências finais dos restantes quatro filmes também são assim. Um ano antes, em “The Bend of the river”, Mann filmou um confronto final num rio, com uma raiva e violência tremendas, a água, nesse confronto, era tão importante e geradora de conflito como os homens que se enfrentavam– e o Glyn Mclyntock (Stewart) de “Bend of the river” é, a par com o Linc Jones de “Man of the West”, o herói mais violento dos westerns de Mann. Os duelos nas montanhas em “Winchester 73” e em “The Man from Laramie” e, claro, em “Man of the West” são de uma força incrível, porque essas montanhas, como de resto a paisagem, em Mann são quase personagens e, como nota Robin Wood, “are barren rock, not even safe cover, with bullets ricocheting in every direction”. A paisagem em Mann não é só contemplativa (se é que é contemplativa), marca, também, uma espécie de obstáculo, de barreira, aos heróis dos filmes como se de um destabilizador psicológico se tratasse – “a paisagem física e a paisagem mental”, escreve José Fernandez em “El western de Anthony Mann”.
Os heróis, nos filmes de Mann, são homens que querem, à força toda, assentar, mas que por diversos motivos (sempre traumáticos, sempre) não conseguem. O passado pesa-lhes violentamente, têm vinganças pendentes, ajustes de contas com os inimigos e com eles próprios, com o passado, (sempre o passado) e encontram, dentro de si, violência, violência que repudiam, ao levar a cabo as suas vinganças. Porque, em Mann, não se mata por matar nem se acaba aí, o homicídio deixa marcas irreparáveis, levanta questões e dilemas infindáveis. Para as audiências da altura era ainda tão espantoso, porque os heróis desencantados e descrentes eram James Stewart e Gary Cooper, os heróis inocentes e influenciáveis de Capra nos anos 30 e 40 – subversão inteligentíssima de Mann. E Hitchcock deve ter visto os filmes de Mann antes de começar a sua própria colaboração com Stewart.
Finalmente, se bem que se possa falar de muito mais (o “scope” de Mann, as suas “pinturas”, os jogos psicológicos entre personagens - “The Naked Spur” será o exemplo máximo – e as mãos alvejadas e feridas como imagem recorrente – a mão é um ponto de vulnerabilidade e naqueles tempos era o de maior, por sinal), abordarei a representação da dor em Mann: Stewart e Cooper não são invulneráveis, entram em lutas e magoam-se , e bem (aquelas cenas de pancadaria, de uma frieza indescritível, brutais e desconfortáveis) e Mann filma-os a gritar, a gemer em planos fechados, procurando (e encontrando) o sufoco – o tal desconforto – e penso, por exemplo, nas cenas de “The Man from Laramie”, em que Will (Stewart) é amarrado e imobilizado para que um só homem (Dave) lhe bata, ou nas imagens de Howard Kemp (Stewart) a rastejar pela relva e pelas rochas em “The Naked Spur”, de uma violência tremenda e de uma mestria na sua representação.
Mann não tem, no entanto, a exaltação que merece, não se fala nos seus westerns, mesmo que James Stewart tenha dito que alguns dos seus melhores filmes tenham sido com o realizador ou que Mann tenha, nos anos 50, levado o western numa nova direcção. Até em “The Searchers” se nota a sua influência (se bem que seja discutível). Robin Wood, mais uma vez, adianta uma explicação: o conhecimento do Cinema clássico pelas novas gerações fez-se pela televisão, e as capacidades de Mann (“painterly talents”, diz Wood) diminuem no ecrã pequeno, não se notam. Talvez sim, talvez não, mas Mann, quando no seu melhor, rivaliza com Hawks ou Ford e é um cineasta essencial ("Bend of the River", "The Naked Spur" e "Man of the West", principalmente)...
Fontes:
Jonathan Rosenbaum, “Mann of the West”
José M. López Fernández, “Hombres del Oeste en tierras lejanas – El Western de Anthony Mann”
Robin Wood, “Mann of the Western”
*Trabalho para Géneros
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
"I Was a Male War Bride" - 1949



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