quarta-feira, 27 de novembro de 2013

BETWEEN HEAVEN AND HELL (1956)


Fleischer. Richard Fleischer. É ver The New Centurions e a seguir este Between Heaven and Hell, e torna-se missão capital gritar o seu nome aos sete ventos. Não que não haja mais, porque há: Bandido, com um Robert Mitchum a fazer já as vezes de um James Coburn (no tão belo Giù la Testa de Leone); The Vikings, e o cinema feito poesia com barcos como pontos no horizonte, recebidos pelas melodias das trompas de quem ficava e esperava família ou amigos de mares longínquos; Barabbas, e o Quinn a quem deram tantos longos anos de arrependimento e não sabe como fazer o bem; Soylent Green, e aquelas fotografias montadas de um catastrofismo aterrador e que antecedem o filme; Mandingo, e a concentração emotiva e combativa naquela plantação da qual mal passámos os portões, sabemos ser palco de desenhos da fatalidade. E também 20.000 Leagues Under the Sea, Violent Saturday, The Girl in the Red Velvet Swing, Compulsion10 Rilington Place e até essa pérola e competentíssima peça de género chamada Red Sonja.

Em Between Heaven and Hell, cai o mundo. Robert Wagner regressa aos palcos situados entre o céu e o inferno do já profético What Price Glory, de Ford. Neste último, olhava ele para os sinalizadores luminosos nos céus, recordando os encontros naquela pequena aldeia na França, e é ceifado sem ter vivido que chegasse. No de Fleischer vive demais. Vive para ouvir a chamada para os desembarques no Pacífico (Filipinas), vive para se apaixonar por uma mulher que sabe quem ele é muito melhor do que ele próprio, vive para fazer amizades verdadeiras e para por elas se expurgar. No inferno que assumimos prontamente ser a guerra mas que questiona as fundações do "paraíso". Sem o inferno orquestrado a travellings velocíssimos e iluminado a tiros de sinalizadores, o tal "paraíso" seria um inferno por si, comandado sem freios pelo patrão Sam Gifford (o nome da personagem de Wagner) que só despromovido a soldado raso é que aprende a amar o próximo. Por isso o "entre", as fronteiras nebulosas por que se atravessa um homem que ainda não sabe quem é, as paisagens agrestes em que as ameaças vêm não só do inimigo mas também da cobardia dos irmãos de armas.

Isto, os desenhos narrativos. Mas para falar deste filme tem que se falar de muito mais; já falei de travellings, mas não dá para pôr em palavras o quão vertiginosos são, o quanto se misturam em cena a rasgar folhagem e a levantar poeira na desolação das Filipinas. Falei de iluminação a tiros de sinalizadores mas como explicar ou descrever o terror absoluto dum desses tiros disparado durante a noite e de surpresa naquele posto de observação? Um flash saído das coisas mais assustadoras já feitas até aí (e até depois disso) e um massacre. Porque é que Gifford treme das mãos a intervalos cada vez mais curtos? Porque é que o capitão 'Waco' não quer que os seus soldados respeitem as hierarquias no seu posto? Porque é que o tenente, amigo do passado e do paraíso, ordena aqueles trágicos disparos? Medo. Medo de morte da espera e da sentinela, seja de dia ou de noite, medo dum inimigo invisível (invisível e não "sem cara"), de adormecer e baixar a guarda... Enfim, já em 56 se sentia o "The horror, the horror..." sussurado tão afamado pelo Coronel Kurtz de Marlon Brando (no incrível filme de Coppola) e de que 'Waco' é já proto-. Paisagens tão terríveis como as de Walsh em Objective, Burma The Naked and the Dead. Ou Fuller. Ou Milius. Ou...

E fica a descida pela colina de Sam Gifford e um daqueles desfechos mágicos, rápidos a que chamam "happy endings" em Hollywood e só fazem lembrar Buñuel e as eternas dúvidas. Mas, quê, quanto dura (se se chega a manifestar) a felicidade de sobreviver a tudo isto? Onde está a promessa de que se sai desse duro e eterno purgatório? Faz-se os impossíveis por quem espera nas colinas sem grandes certezas mas sobreviver vem a custo de lições fodidas e continuar não vai ser fácil. Não há nada de "happy" nisso.

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