sexta-feira, 26 de abril de 2024
BONNIE E CLYDE, de Arthur Penn
quarta-feira, 11 de setembro de 2019
A DISTANT TRUMPET (1964)
por Miguel Marías
quinta-feira, 3 de agosto de 2017
MOREAU NÃO BARDOT
por João Bénard da Costa
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
BETWEEN HEAVEN AND HELL (1956)
Isto, os desenhos narrativos. Mas para falar deste filme tem que se falar de muito mais; já falei de travellings, mas não dá para pôr em palavras o quão vertiginosos são, o quanto se misturam em cena a rasgar folhagem e a levantar poeira na desolação das Filipinas. Falei de iluminação a tiros de sinalizadores mas como explicar ou descrever o terror absoluto dum desses tiros disparado durante a noite e de surpresa naquele posto de observação? Um flash saído das coisas mais assustadoras já feitas até aí (e até depois disso) e um massacre. Porque é que Gifford treme das mãos a intervalos cada vez mais curtos? Porque é que o capitão 'Waco' não quer que os seus soldados respeitem as hierarquias no seu posto? Porque é que o tenente, amigo do passado e do paraíso, ordena aqueles trágicos disparos? Medo. Medo de morte da espera e da sentinela, seja de dia ou de noite, medo dum inimigo invisível (invisível e não "sem cara"), de adormecer e baixar a guarda... Enfim, já em 56 se sentia o "The horror, the horror..." sussurado tão afamado pelo Coronel Kurtz de Marlon Brando (no incrível filme de Coppola) e de que 'Waco' é já proto-. Paisagens tão terríveis como as de Walsh em Objective, Burma e The Naked and the Dead. Ou Fuller. Ou Milius. Ou...
E fica a descida pela colina de Sam Gifford e um daqueles desfechos mágicos, rápidos a que chamam "happy endings" em Hollywood e só fazem lembrar Buñuel e as eternas dúvidas. Mas, quê, quanto dura (se se chega a manifestar) a felicidade de sobreviver a tudo isto? Onde está a promessa de que se sai desse duro e eterno purgatório? Faz-se os impossíveis por quem espera nas colinas sem grandes certezas mas sobreviver vem a custo de lições fodidas e continuar não vai ser fácil. Não há nada de "happy" nisso.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
SUSANA (1951)
Esta tolerância com Susana não se deve a qualquer liberalismo de momento ou a qualquer distracção dos censores. Deve-se à suprema habilidade de Buñuel no uso da antífrase, ou seja em construir um filme cujo texto diz exactamente o contrário do seu contexto. Para o espectador desprevenido ou inocente (e os censores não costumavam ser particularmente argutos) não há filme mais moral: uma não casta Susana (Susana, a Perversa, foi o título do filme em França) tenta fazer o mal numa santa e unida família. Consegue fazer vacilar muita gente, mas, no fim, a sua perversidade é descoberta e castigada e a paz e a harmonia voltam a reinar. O bem triunfa sempre. A moral também. Só que todos os substantivos e adjectivos de conotação ética usados no período anterior (moral, casta, perversa, mal, santa, unida, castigada, paz, harmonia, bem) são a colocar entre todas as aspas possíveis, porque tudo é o contrário do que parece ser. Talvez não haja na história do cinema, ou na história de qualquer arte, muitas fintas à censura tão hábeis como Susana, outra das obras culminantes de Buñuel. É conhecida a admiração que Buñuel tinha por Sade, que expressamente evocou em L'Âge d'Or, com o episódio das Cento e Vinte Jornadas de Sodoma, representando o chefe das orgias sob os traços de Cristo. Entrando no sistema, Buñuel já sabia que não se podia permitir graças dessas (só nos anos 60 e 70 voltou a poder ser tão livre e tão explícito). Mas Susana é uma obra que me parece relevar especificamente do universo de Sade, concretamente de Justine ou les malheurs de la vertu. À sua maneira (que evidentemente censura alguma toleraria), Sade também praticou nessa obra a antífrase: na dedicatória inicial a Constance, "a sua boa amiga", diz-lhe que o livro é "à la fois l'exemple et l'honneur de ton sexe (...)""Ce n'est qu'à toi qu'il appartient de connaître la douceur des larmes qu'arrache la vertu malheureuse, détestant les sophismes du libertinage et de l'irréligion" (...) e que a sua finalidade é alcançar "une des plus sublimes leçons de morale que l'homme ait encore reçue".
Quem conheça o livro e as "lições de moral", percebe a antífrase de Sade, já que os "malheurs" da "virtuosa" Justine só existem para permitir as famosas descrições eróticas do autor, erotismo acentuado pela "inocência" e pela "virtude" da protagonista ao contar a sua vida ou como, tantas vezes, se teve que tornar "catin par bienfaisance et libertine par vertu". Quando esses "malheurs" terminam e Justine pode viver em paz no seio da família, tornou-se "sombria, inquieta, sonhadora" e acabou por ser fulminada por um raio.
A "virtude" de Justine é o equivalente da "perversidade" de Susana, filme que bem podia ter como subtítulo "les bonheurs de la perversité". Tudo começa como Justine acaba. Leia-se a descrição da tempestade final em Sade e tem-se a descrição da assombrosa sequência inicial de Susana: "L'éclair brille, la grêle tombe, les vents sifflent, le feu du ciel agite les nues, il les ébranle d'une manière horrible; il semblait que la nature ennuyée de ses ouvrages, fut prête à confondre tous les éléments pour les contraindre à des formes nouvelles". Só que a tempestade inicial na cela do reformatório onde prenderam Susana "para a ensinar a ser boa", não termina com um raio que a parta, mas com o "milagre" (primeira das supremas ironias) que lhe permite a fuga. Invocando Deus, de quem é criatura, e cujos desígnios são impenetráveis, Susana vê as barras da janela partirem-se e permitir-lhe a liberdade. Com fundo de arsenal demoníaco (trovões, raios, chuva) arrasta-se como a cobra bíblica, empapada em chuva (e, assim, com as formas mais ostensivamente sublinhadas) até à quinta paradisíaca onde a irão receber.
Ao inferno sucede-se o céu, e o espantoso décor exprime claramente que Susana, anjo exterminador, passou de um a outro. O mundo dos santos não lhe irá resistir. A imagem do paraíso (a quinta evoca-o expressamente) começa a perder-se quando ela se aproxima. Inexplicavelmente, o potro morre à nascença. O "mal" chegou. No final, Buñuel procede à antífrase contrária: quando a vida na fazenda se tornou um "inferno" (devido à presença de Susana); quando Jesus, pai e filho (não estou a falar da Santíssima Trindade, mas não juro que Buñuel o não estivesse) se sucederam à porta do quarto de Susana (ou dentro dele); quando a própria e virtuosíssima D. Carmen espancou Susana; quando todos estiveram quase a assassinar-se uns aos outros; a polícia chega, prende Susana e, em cinco minutos, o inferno volve-se no paraíso inicial. A mãe repreende suavemente o filho por começar a comer antes do pau (noutro sentido, também começara, sem que com tanta doçura o censurassem) e a família reúne-se amorosamente à mesa, sob o olhar contente da criada, como se nada se tivesse passado. Patinhos e cordeirinhos voltam a passear e a égua restabelece-se, por encanto. Cinco minutos, disse eu. Em termos de filme é talvez menos, o que torna mais inverosímil tal desfecho que só funciona pelo contraste implacável com tudo o que aconteceu, desde a fuga de Susana até à segunda prisão. Ninguém, com o mínimo de juízo, pode tomar a sério tal desfecho e, menos do que todos, Buñuel, que só o utilizou por redução ao absurdo, para implacavelmente desmontar aquela farsa de "paraísos" e "infernos", tão contíguos e tão afins. O realizador lamentou, em várias entrevistas, não poder ter sido mais irónico no final. Ainda bem que o não foi: essa implacável secura é o efeito mais subversivo, o "quantum satis" deste conto imoral transformado em conto moral (ou vice-versa).
Muitos anos depois, Pasolini, no Teorema, serviu-se de uma figura análoga para dizer o mesmo. Mas o seu ambíguo anjo é muito menos explosivo e subversor que Susana, a das aranhas, dos caldos e do nome casto.
E, já que falei de nome casto, por aí começo na breve análise do filme de que ainda apenas se citaram os "parágrafos" inicial e final. Na sequência da sedução de Alberto (entre livros e referências culturais) este explica-lhe o significado do nome de Apolo e exemplifica com o dela que quereria dizer castidade. Será extrapolar, pensar que se chama Jesus o primeiro seduzido (entre galinhas, como em Los Olvidados), o que a vende por trinta dinheiros e o que a denuncia à polícia? A pergunta fica, mas é de bom tamanho.
Mas, se aí se pode estar a fantasiar, não o estamos certamente quando pensamos nos lugares de sedução (galinheiro, poço); quando vemos Guadalupe de arma na mão ser igualmente seduzido; ou na inadjectivável (ó céus!) sequência em que os ovos se esmagam e a gema escorre pelas pernas de Susana, manchando-a a ela e a Alberto. Ou na simbologia religiosa (cruzes, santos) tão subversiva com a erótica (a oração ao crucifixo!). Ou no chicoteamento de Susana pela doce D. Carmen. Ou no súbito beijo que o marido dá à mulher, perfazendo a posse por interposta pessoa. Ou nas mãos entaladas nas portas. Mais uma vez - repito: para uma erótica assim é preciso remontar a Sade.
Dois parágrafos finais: o primeiro para Rosita Quintana, absolutamente genial. Houve quem risse (e talvez ainda hoje) dos seus trejeitos e do seu permanente gesto de baixar o decote. Quem ironiza, esquece a importância da figura da repetição na imagética surrealista e esquece o que o crítico mexicano José de La Colina observou a Buñuel na "entrevista-fleuve" que com ele fez: "De cada vez que Susana abre o decote para seduzir um homem parece parodiar a frase de Goebbels: 'Sempre que oiço a palavra moral, tiro as mamas para fora'". Boa ou má actriz (pouco importa) Rosita Quintana, entre as aranhas, os galos, as éguas e o bando de perús, é uma das mais extraordinárias presenças eróticas não só da obra de Buñuel como da história do cinema.
Por fim, há que notar como o estilo de Buñuel muda neste filme, em correspondência com o que faria em filmes futuros de sentido análogo: abandonando a fixidez da câmara (tão típica, por exemplo de L'Âge d'Or ou de Los Olvidados), cortando com o plano-sequência (são raros neste filme), a "respiração" da objectiva é um rodopio constante, saltando de personagem em personagem, de plano em plano, e ligando-os a todos no vórtice comum deste "abismo de desejo". Vórtice que é ainda o equivalente do final da narração da Justine de Sade: aí se fala do "voyageur égaré" que "voit en tremblant les sillons de la foudre". Neste filme tudo é viagem, perdição e visão fremente. Por muito que pareça o contrário, ou precisamente porque parece o contrário.
in AS FOLHAS DA CINEMATECA - Luis Buñuel
segunda-feira, 6 de maio de 2013
SUBIDA AL CIELO (1952)
Mas, para lá dessas vicissitudes, que tanto se sentem no filme (a pobreza das "maquetes", o décor de papelão). Buñuel tinha outro fôlego e reencontrava-se plenamente com o surrealismo que tivera que atenuar nos filmes que costumava classificar como "alimentares" e que agora pôde libertar "à rédea solta". Em Cannes, em 1952, o filme valeu-lhe segundo prémio sucessivo (desta vez, o da crítica internacional), em Paris, o de "melhor filme de vanguarda", além dum "Ariel" (ou seja, a versão mexicana do Oscar) como melhor realizador. O filme teve imediata distribuição internacional (em Portugal não passou, porque o proibiram) e críticas entusiásticas das principais revistas europeias. "Com esta obra-prima, Buñuel fez subir a Sétima Arte ao Sétimo Céu. Canonizem-no", escrevia-se na revista Positif em 1953 (nº4). E Claude Mauriac escrevia que Subida al Cielo estava para a obra de Buñuel como The Lady From Shanghai para a de Welles: a mesma desenvoltura, o mesmo ímpeto criador.
E sem dúvida se pode dizer que Subida al Cielo é um dos pontos culminantes da fase mexicana da obra de Buñuel e talvez seja, em absoluto, um dos seus filmes mais delirantes e deslumbrantes. Se, a partir de Los Olvidados, Buñuel começou a recorrer a uma imagética análoga à das suas primeiras famosas obras (a sequência do sonho no filme referido ou a repetição da figura da mão entalada na porta, utilizada em Susana, como a fôra em Un Chien Andalou - lembram-se da mão coberta de formigas?), em Subida al Cielo essa recapitulação é ainda mais evidente: o caixão com a criança evoca-nos Las Hurdes; as metamorfoses da noiva e de Raquel (confundindo-se no sonho e na culpa do protagonista) trazem-nos as metamorfoses de Un Chien ou de L'Âge d'Or; as obsessões de sexualidade oral vêm directamente do célebre plano da estátua de L'Âge d'Or, etc., etc., etc. Para não falar do bestiário buñuelesco (carneiros, vacas, galinhas) com estas últimas já em citação implícita no plano em que o vendedor das ditas abre o livro com imagens dessas aves. Por outro lado, Subida al Cielo aponta inúmeras pistas da obra futura: o tema da viagem, a mãe no alto da coluna como Simão, o deserto, a mescla de política e erotismo (o personagem do candidato a deputado); a mistura de uma galeria de personagens ultra-inverosímil e ultra-insólita, no mesmo espaço fechado. Basta pensarmos numa das sequências mais famosas do filme: aquela em que a rapariga com um carro de bois consegue desatolar a camioneta, enquanto o tractor do candidato se afunda. Cerca de trinta anos antes, estamos já em Le Charme Discret de la Bourgeoisie. Porventura com mais pureza e mais liberdade imaginativa. Em relação ao filme citado, como às prestigiosas obras dos anos 60 e 70, é possível objectar com a carência de meios técnicos. O que é brilhante nesses filmes é aqui rudimentar e muita gente tropeça no papelão e na "maquete" do autocarro. Mas não querendo transformar defeitos em virtudes (o próprio Buñuel lamentou não ter os recursos que ele próprio vira em Hollywood), essa mesma pobreza de meios acentua o onirismo do filme, tornando tudo mais inverosímil e mais delirante. A propósito de Los Olvidados, notei como a mulher, o sexo e a culpa eram os três temas dominantes de Buñuel. A propósito de vários outros filmes, tenho notado como a frustração é sempre a sua imagem suprema.
Pego nestas duas pistas para o pouco espaço que me resta.
A mulher é mãe, a legítima e a amante. Mais do que qualquer outra obra essas três imagens se confundem aqui. Para executar a última vontade da mãe moribunda, o protagonista renuncia à noite de núpcias na ilha paradisíaca das imagens iniciais e aventura-se na fabulosa viagem, sem ter consumado o casamento. Abandonando a mulher, encontra Raquel, a mulher-amante, imagem da sedução, tal como em tantos outros filmes, e nomeadamente em Susana, desta vez encarnada na espantosa Lilia Prado. A sua virtude e a sua fidelidade (à mãe e à mulher) resistem quanto podem. Mas no sonho já tudo se confunde: as ofertas de Raquel transformam-se nas oferendas nupciais, os frutos nas imagens do sexo, o fio passado de boca em boca no cordão umbilical que a mãe lhe estende do alto da coluna. E o banho, em que antes Raquel o tentara seduzir, volve-se na posse aquática, com Raquel vestida de noiva, sucessivamente com a aparência da mulher e a sua propria. Essa sequência de sonho da noiva empapada, com a sua carga animalística (e a espantosa banda musical) é um dos pontos culminantes da obra de Buñuel, na fusão de todos os arquétipos femininos. É a seguir que o chauffeur adormece e Oliverio conduz a camioneta, assumindo-se como condutor, até que um novo encontro com a imagem materna (a inenarrável sequência da festa em casa da mãe de Silvestre) o leva à decisão de prosseguir a viagem sozinho, na companhia de Lilia Prado. E no lugar chamado "Subida al Cielo" (dando o título ao filme e dando-lhe, também, a sua metáfora mais poderosa) perfaz-se a posse de Oliverio por Raquel, desvirginização do protagonista, sua primeira noite de núpcias. A seguir, a imagem de Raquel desfaz-se ("Lo que queria, já lo tuvo") e, dessa noite prodigiosa, fica só a culpa e a ligação de Raquel com o candidato a deputado. Regressado a casa, Oliverio encontra a mãe morta e essa morte, velada pela mulher que ficara à espera dele, parece-lhe o castigo da sua culpa. Se a mãe não o esperou, como lhe prometera, foi porque ele comeu do fruto proibido (qualquer coisa do mito bíblico perpassa na história de Oliverio e Raquel) e o personagem assume a sua expulsão do paraíso. Só que as expulsões em Buñuel não são definitivas: o artifício do advogado permite-lhe a impressão digital salvadora do testamento. É a marca do corpo da mãe (mesmo quando morto) que assegura a continuidade da primogenitura. Mesmo quando o primogénito foi, simultâneamente, Abel e Caim.
Não me posso deter nas inúmeras pontuações de sexo e morte que atravessam o filme. Limito-me a sublinhar que a mesma miúda que permitiu à camioneta sair do atoleiro é a que, no final, aparece morta, devido à picada duma víbora. O incrível plano da entrada do caixão no autocarro e, sobretudo, aquele outro, sublime, em que outra criança o abre para ver o rosto da morta ("pariece que está dormindo. Que lástima que la traga la tierra") é a ilustração suprema dessa obsessão e das tantas metamorfoses do filme. Por outro lado, tudo se frustra em Subida al Cielo: frustrada a noite de núpcias, frustrada a viagem do protagonista "em tempo útil", frustrada a carnal "subida al cielo" (Raquel contenta-se com a breve posse), frustrado o expediente mais ou menos legal do advogado. Como se frustram e são frustrados todos os outros companheiros de viagem: desde o candidato a deputado (a lapidar sequência da sua recepção-enxovalho) ao vendedor de galinhas; desde o chauffeur a Raquel; desde D. Nemésio (que ensinava boas maneiras à "voyeurista" criança) ao assombroso coxo, ultra-buñueliano personagem, com a perna de pau presa na lama.
E o resto é tudo. Ou seja, o tema da viagem, com os sucessivos impedimentos à sua constituição, fundindo no surreal, os velhos contos das princesas e dragões, das crianças perdidas na floresta e das intermináveis aventuras de amor e morte, duas ou a mesma face duma única imagem impossível: a da subida ao céu que não existe.
in AS FOLHAS DA CINEMATECA - Luís Buñuel
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Manifesto fora-da-lei

1 – Meu filme é um far-west sobre o III Mundo. Isto é, fusão e mixagem de vários gêneros. Fiz um filme-soma; um far-west mas também musical, documentário, policial, comédia (ou chanchada?) e ficção científica. Do documentário, a sinceridade (Rossellini); do policial, a violência (Fuller); da comédia, o ritmo anárquico (Sennett, Keaton); do western, a simplificação brutal dos conflitos (Mann).
2 – O Bandido da Luz Vermelha persegue, ele, a polícia enquanto os tiras fazem reflexões metafísicas, meditando sobre a solidão e a incomunicabilidade. Quando um personagem não pode fazer nada, ele avacalha.
3 – Orson Welles me ensinou a não separar a política do crime.
4 – Jean-Luc Godard me ensinou a filmar tudo pela metade do preço.
5 – Em Glauber Rocha conheci o cinema de guerrilha feito à base de planos gerais.
6 – Fuller foi quem me mostrou como desmontar o cinema tradicional através da montagem.
7 – Cineasta do excesso e do crime, José Mojica Marins me apontou a poesia furiosa dos atores do Brás, das cortinas e ruínas cafajestes e dos seus diálogos aparentemente banais. Mojica e o cinema japonês me ensinaram a saber ser livre e – ao mesmo tempo – acadêmico.
8 – O solitário Murnau me ensinou a amar o plano fixo acima de todos os travellings.
9 – É preciso descobrir o segredo do cinema de Luís poeta e agitador Buñuel, anjo exterminador.
10 – Nunca se esquecendo de Hitchcock, Eisenstein e Nicholas Ray.
11 – Porque o que eu queira mesmo era fazer um filme mágico e cafajeste cujos personagens fossem sublimes e boçais, onde a estupidez – acima de tudo – revelasse as leis secretas da alma e do corpo subdesenvolvido. Quis fazer um painel sobre a sociedade delirante, ameaçada por um criminoso solitário. Quis dar esse salto porque entendi que tinha que filmar o possível e o impossível num país subdesenvolvido. Meus personagens são, todos eles, inutilmente boçais – aliás como 80% do cinema brasileiro; desde a estupidez trágica do Corisco à bobagem de Boca de Ouro, passando por Zé do Caixão e pelos párias de Barravento.
12 – Estou filmando a vida do Bandido da Luz Vermelha como poderia estar contando os milagres de São João Batista, a juventude de Marx ou as aventuras de Chateaubriand. É um bom pretexto para refletir sobre o Brasil da década de 60. Nesse painel, a política e o crime identificam personagens do alto e do baixo mundo.
13 – Tive de fazer cinema fora da lei aqui em São Paulo porque quis dar um esforço total em direção ao filme brasileiro liberador, revolucionário também nas panorâmicas, na câmara fixa e nos cortes secos. O ponto de partida de nossos filmes deve ser a instabilidade do cinema – como também da nossa sociedade, da nossa estética, dos nossos amores e do nosso sono. Por isso, a câmara é indecisa; o som fugidio; os personagens medrosos. Nesse País tudo é possível e por isso o filme pode explodir a qualquer momento.
segunda-feira, 21 de março de 2011
2ª série dos Planos (VI)
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Buñuel e Cinema...
A propósito de uma aula (onde pareceu haver discussão - pareceu):
Dizer, sobre "Un Chien Andalou", ser experimental e manifesto artístico de um cineasta em plena liberdade, evocar a semiótica e merdas dessas, é dizer menos que nada.
Que estava livre para fazer o que muito bem entendesse e experimentar formas, sabia o Buñuel muito bem. Se ele, aliás, estivesse estado na aula de hoje, era bem capaz de nos mandar a todos para o caralho e com as sílabas todas (sim, porque ele não era cordial nem sequer boa pessoa).
Porque achar que a apreensão do Cinema (e da Arte em geral) se dá nos domínios do explicável é a coisa mais aberrante do mundo e acho os exageros de alguma crítica e não só, por demais enervantes. E é por isso que mais vale dizer de um filme que tenhamos adorado, “foda-se, puta-que-pariu de filme”, do que “pô-lo num saco” e o catalogar, reduzindo-o a palavras e a expressões redundantes.
É experimental, é radical? Não, é Buñuel, é Cinema, com toda a complexidade que esses nomes pedem e implicam - e inadjectivável é o melhor dos adjectivos. São imagens, planos em confronto interno e à beira da destruição, sugerindo a heresia, a anarquia e a rebelião, é Cinema que recusa ser denominado mas ao qual, infelizmente, deram um nome. Isto é dizer pouco, mas mais do que “experimental”, “surrealista” e “revolucionário”, ainda assim.
Temos de abrir os nossos olhos! Porque, de resto, o que significa a mais icónica imagem de “Un Chien Andalou”? Abre os olhos, abre os horizontes, vê o novo Cinema: Na mais cruel e literal das formas, é verdade, mas isso mesmo, ainda assim, porque não é por acaso que é Buñuel (nos primeiros minutos do seu primeiro filme) a desferir o golpe de navalha, é tudo simbólico. “Preparem-se para o meu Cinema”...
O admirável paradoxo; é preciso “não ver” um bocado para “ver”, finalmente. Cegar para ver, ignorar para compreender: “Now that I am blind, I can see”. Muito obrigado, Luis Buñuel. Por tudo, mas pelo Cinema, principalmente. O Teu Cinema...

quarta-feira, 24 de março de 2010
"La Coquille et le Clergyman" - 1928*

“La Coquillet le Clergyman” é, sim, o primeiro filme surrealista, mas a minha questão é outra: resistirá à comparação com o “Un Chien Andalou”, de Salvador Dalí e Luis Buñuel? - sem me alongar demais nesta questão e pedindo muita desculpa digo, apenas, que “Un Chien Andalou” é Cinema e “La Coquille et le Clergyman” é História do Cinema - é arquivo...
É, no entanto, uma manifestação vincada – radical - e um “divórcio”, ainda que muito rudimentar, em relação ao cinema "teatral" e “polido” de D. W. Griffith e uma interessantíssima incursão pelo sonho e pela paranóia de um padre (a repressão do desejo sexual é, assim, o motor principal).
As imagens não estão mais ao serviço de uma história, propriamente, nem de interpretações, gestos e olhares, mas de sentimentos – da ambiguidade e do caos – as imagens não mostram, ou pelo menos não literalmente, as imagens sugerem, valem por si (uma imagem é uma imagem) e não pelo que mostram. Tudo isto foram sugestões inovadoras, mas não exploradas em pleno, penso eu.
O autor do argumento, Antonin Artaud – associado ao movimento surrealista, “deserdou” o resultado final e não é pouco comum dizer-se, ou enfim, escrever-se que “La Coquillet et le Clergyman” é só surrealista por associação a Artaud. Não vou tão longe, até porque o filme reflecte a procura de pureza do Cinema, de distanciação e autonomia em relação às artes ditas maiores, de uma especificidade própria e demais notória...
domingo, 29 de novembro de 2009
Diz-me o que vês, dir-te ei quem és - Tarkovsky
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
"Prince of Darkness" - 1987







''Prince of Darkness,'' which opens today at the Movieland and other theaters, is a surprisingly cheesy horror film to come from Mr. Carpenter (''Halloween,'' ''Escape From New York,'' among others), a director whose work is usually far more efficient and inventive. Martin Quartermass, whose first screenplay this is, overloads the dialogue with scientific references and is stingy with the surprises. You may well suspect things are not going to go well when the movie spends its first 15 minutes intercutting between the opening credits and scenes introducing the characters.
"You try to make a studio picture your own, but in the end it`s their film.And they`re going to get what they want. After that experience I had to stop playing for the studios for a while and go independent again.""Depois das minhas atribulações com as "majors", sobretudo por causa de Big Trouble in Little China, as pessoas da Alive Films vieram ter comigo e deram-me carta branca para realizar um filme de terror. Foi Prince of Darkness, que pude controlar da primeira à última imagem. (...) Um filme em primeiro grau, brutal e sem concessóes. Fi-lo sob o efeito da raiva e creio que isso se sente, com muita força, ao longo de todo o filme. É que Big Trouble in Little China e Prince of Darkness correspondem a um período muito difícil da minha vida profissional."John Carpenter
"Na minha modesta opinião, Howard Hawks foi o maior cineasta americano"
"Luis Buñuel é um dos meus cineastas preferidos"
sábado, 25 de julho de 2009
"El Angel Exterminador" - 1962












