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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

THE LONG VOYAGE HOME (1940)


Os grandes Fords nunca acabam... E dos tais filmes "de estúdio" ou "dos abusos estéticos" ou "esteticistas" que causam tanta mossa em tanta gente talvez só se possa dizer que são os que mais persistem em reter os seus mistérios. Talvez impeçam também a publicação de livros com listas escrutinadas de temas e obsessões por mais umas dezenas de anos. The Informer, e a sua atmosfera de pesadelo, Mary of Scotland e o olhar esmagado e trucidado da Maria dos escoceses de Hepburn, The Fugitive e as suas luzes e sombras, daquelas dadas só a quem muito sabe e muito espera, Seven Women e o testamento definitivo do que é pôr em cena. Em The Long Voyage Home talvez haja de tudo isto. Não seria preciso tanto, mas ver Wings of Eagles e Flying Leathernecks quase de seguida acabou de uma vez por todas com quaisquer réstias de compreensão minhas que pudessem haver com o chamar-se clássico - às vezes com intenções tão malignas - a isto. O período clássico deve ter acabado por alturas das experiências insanas do pioneiro Allan Dwan ainda no mudo. Ele que de eléctrico não tinha só a profissão. Lá para o fim de ambos Wings e Leathernecks há sequências de batalha que chegam não se sabe bem donde e que invadem a tela como os pobres destacados chamados a combater são abatidos do nada pelas notícias e pelos actos pérfidos do destino. Luzes de fogo inimigo intenso na noite, câmara-à-mão forçada por correrias pela vida, Ford já disse ser essa a única justificação possível para a usar. Para armar às realidades, não. Planos separados por meses e anos... Enfim.

Em The Long Voyage Home, que talvez seja o filme mais fugidio de Ford (seja pela divisão em episódios, seja por não haver um personagem principal), há um nevoeiro intenso que jamais deixa as personagens. Personagens essas de que pouco ou muito pouco se sabe, adivinha-se só nos olhos e nos silêncios que contornos tomará esse passado que as deixa a vaguear entre mares e portos por tanto tempo e porque é que resolveram ou os obrigaram a embrenhar nesta tão long voyage home. O princípio do filme é, por isso, revelador, além de parecer anunciar já as viagens alucinatórias de Lewton, Tourneur e Robson pelos mesmos mares, os mesmos feitiços e tentações. Ward Bond e os círculos de fumo, um Wayne sueco e quase mudo, um Ian Hunter e um Barry Fitzgerald impenetráveis, e nas margens, mulheres a roçarem-se em árvores ao ritmo de batuques e encantamentos perigosos. Tão longe de casa, tão longe de tudo. Pode-se pensar também só por esta tão atmosférica apresentação que se está longe da estética fordiana, mas nada de mais errado. Que é aquela malta toda senão a gente de Ford, gente marcada, gente dada, e que é todo aquele cuidado com a luz, mesmo sendo luz fabricada, senão trabalho fordiano? E verdade é que a frase que o Wayne de The Searchers diz depois de disparar para os olhos do cadáver do índio no filme ("Has to wander forever between the winds") para além de se poder aplicar a ele próprio, também se pode aqui aplicar aos marinheiros que, como nos diz a epígrafe, "never change, moving from one rusty tramp steamer to another".

A narrativa episódica e a descentralização das personagens tem um efeito perturbador. Nunca efeitos por si só, são um processo de nos fazer ver a dura verdade destas vidas. A qualquer momento, pode chegar um dilúvio (Yank - Ward Bond), uma frota de alemães (Smitty - Ian Hunter) ou sacanas peritos em enganar e vigarizar marinheiros para fazerem parte das suas tripulações (Drisk - Thomas Mitchell). Há sempre olhos gananciosos e mercenários a espreitar por trás do nevoeiro, agentes do destino em todas as esquinas. Beber um copo só é possível com um olho em cada ombro. Mas se há forças a impedir o regresso a casa, a verdade é que a força maior é a que vem do interior destes homens que já não conhecem mais nada e a quiseram esquecer e ao passado.

Além de outras incríveis sequências (a fuga de Smitty, a conversa do Olsen de Wayne com a mulher da taberna - é também a primeira vez que conversa com alguém no filme -, toda a indecisão e rodeios que antecedem a chegada à taberna e depois os jogos de gestos e de olhares já na taberna, as luzes que se fecham para Arthur Shields no fim do filme, a carga de porrada do início do filme, Wayne a deitar-se ao sol e a olhar para os céus, etc, etc...), há uma que não mais se esquece: aquela em que os homens, na mudança de turnos, levados à loucura por saberem que há alemães nas redondezas, talvez pela fome também, acusam Smitty de ser espião e enquanto Thomas Mitchell lê várias cartas, vão reagindo um de cada vez à valente merda que fizeram. A transição brilhante dos seus olhares, a procissão de virar costas devagar à invasão da vida íntima do seu colega, o negativo do funeral da puta de The Sun Shines Bright, mas a mesma força e o mesmo cuidado. A mesma humanidade.

Ode aos homens que partem e nunca regressam.
The Long Voyage Home.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

APACHE DRUMS (1951)


É claro que Hugo Fregonese iria acabar por chegar aos olhos e às graças de Val Lewton. Prova-o a sequência nocturna de Saddle Tramp - como diz o Drew McIntosh aqui -, se não o provavam já as experiências estonteantes ainda na Argentina, Pampa bárbara e Apenas un delincuente, este último "peça tão poética, tocante e dinâmica como um mudo de Hitchcock ou de Walsh". Pois bem, não se anda nada longe disso, como não se anda longe das habilidades e minúcias de um Carpenter, dessa economia e desse saber raros de fazer tanto com tão pouco.

Posso martelar no óbvio e falar já do que Fregonese, Lewton e Charles P. Boyle fazem com a luz na sequência-final, na igreja cujas portas são a primeira coisa que vemos no filme, quando as forças exteriores e interiores se batem desigualmente e desalmadamente. Vinte ou menos minutos que são tempo bastante para um desenlace impossível de tão económico, para coreografias com velas, pistolas e cadeiras, para canções e percussões de guerra, para o breu e para os vermelhos de sangue a invadir as janelas altas tão altas que impedem qualquer defesa e para os terríveis tambores que fecham o espaço e matam aos poucos a esperança. Quando ela já não existe, Sally (Coleen Gray) pede a Sam Leeds (Stephen McNally) para dizer isso mesmo aos restantes e chegam ambos à conclusão que todos os outros hão-de querer "the truth", não há final feliz que desfaça esse desespero ou faça esquecer o ter-se ido tão longe. Que estejam índios do outro lado, não interessa, que este cerco é mais que universal. Receptáculo de todas as metáforas e de todos os medos...

É lá dentro também que se batem e resolvem conflitos antigos e que se fazem provas de valor merecedoras das quatro palavras, "This was a man", do reverendo irlandês do Arthur Shields de vários filmes de Ford. É de espaços tão pequenos, lotados e cercados como este, que nasce uma cidade e é daí que se lançam as sementes de uma sociedade. Depois de muito desespero, suor e sacrifício. Há as personagens serem estereótipos e há as personagens serem arquétipos, como aqui o são.

Já no anterior Saddle Tramp havia um desenlace ambíguo em relação ao destino do seu protagonista (nesse, Joel McCrea; neste, Stephen McNally), livre ou condenado a percorrer paisagens e talvez pensando sempre na frase que assombra o Neil McCauley/Robert de Niro do Heat de Michael Mann (revisto há pouquíssimo tempo e por isso, claro, aqui citado, que Mann não é estranho nenhum a estas andanças): "Don't let yourself get attached to anything you are not willing to walk out in 30 seconds flat if you feel the heat around the corner". Essa ambiguidade talvez seja resolvida em Harry Black, fabuloso filme com um Stewart Granger nos becos mais aguçados da angústia, em que também por uns momentos parece avistar-se porto seguro para lançar amarras. Mas aí tão depressa se avistam como se perdem de vista. Sobram outras coisas. Não tão seguras mas que chegam para passar os dias...

E diz-se "venham os próximos perigos e as próximas aventuras"...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

"I Walked With A Zombie" - 1943


















Tive oportunidade de rever os dois primeiros filmes da trilogia temática de Tourneur (realizador) e Val Lewton (produtor) no ecrã gigante (cortesia do Cineclube de Joane) e arranjei maneira de ver "The Leopard Man", o último tomo. Se o primeiro fundou as regras do cinema de terror, o último não lhe fica atrás em mistério, "innuendo" e magia. São ambos, portanto, grandes filmes, mas é o segundo a obra-prima (e parece-me dizer pouco).

Voltando a "Cat People": é um engenhoso filme de terror, onde o mote é sugerir, insinuar em vez de mostrar, e influenciou filmes vindouros como "Jaws" de Spielberg ou o "Alien" do scott. A própria parceria Lewton/Tourneur tinha sido, também, retratada no Cinema com "The Bad and The Beautiful" de Vincente Minnelli, em 1952 (Kirk Douglas seria Lewton - Minnelli dizia que era Welles, também - e Barry Sullivan, Tourneur).

E recentemente, tem sido difícil saber a quem atribuir a autoria dos filmes da trilogia (quanto é de Tourneur e quanto é de Val Lewton?), até porque quando se separaram, Lewton e Tourneur continuaram a fazer grandes filmes, e exemplos disso são o seminal "The Seventh Victim", do primeiro (produzido por Lewton e realizado por Mark Robson - montador dos três filmes de Tourneur), e "Stars In My Crown" (obra nuclear do Cinema Americano), do segundo. É possível, contudo, formular teorias:

"Cat People" é mais de Lewton do que de Tourneur, tanto, aliás, que ele (Lewton), em 43 e em 44 produziu a prequela do filme (que, por acaso, acho superior) e a sequela, respectivamente (o já referido "The Seventh Victim" e "The Curse of the Cat People" de Robert Wise), era um mundo seu. "The Leopard Man" é dos dois e, finalmente, "I Walked With a Zombie" é, sobretudo, de Tourneur:

I walked with a zombie.
It does seem an odd thing to say.   
Had anyone said that to me a year ago, 
I'm not at all sure I would 
have known what a Zombie was. 
I  might have had some notion -- 
that they were strange and frightening,       
and perhaps a little funny.  
But I  have walked with a Zombie...

Terror poético, apelando a todos os sentidos. Viagem deambulatória com o zombie (assim o diz o título) pelo desconhecido, por cearas e acampamentos. É, assim, um passeio pelo metafísico e uma reflexão metafísica, ainda, por abarcar em si, e num espaço fechado e inacessível (o ecrã e não só), o significado de TUDO ("Rio Bravo"; "Ne Touchez Pas La Hache"; "The Searchers"; ...), da Família (como instituição) à Morte, passando pelo voodoo...

"Jane Eyre das Índias orientais", ode rítmica e musical ao vivo e ao não-vivo e um dos (pelo menos) 20, 30 melhores filmes de sempre (está na Lista dos 50, lá por baixo das postagens). Arrebatador, avassalador...


"O filme de terror, de verdadeiro terror, mostra que inconscientemente todos vivemos no medo, Muitas pessoas ainda hoje sofrem de um medo sobre o qual não reflectem e que é constante. Quando o público está no escuro e reconhece a sua própria insegurança na das personagens do filme, é possível mostrar situações incríveis e ter a certeza de que o público as seguirá."
Jacques Tourneur


E foi um francês (depois americano) que, antes de Dreyer (no prodigioso "Ordet"), e por duas vezes (aqui e em "Stars In My Crown"), fez o "milagre" acontecer, através de outro milagre - o da mise en scéne. A fé no sobrenatural e em Deus confundem-se com a fé no Cinema. A encenação do Milagre, O milagre da Encenação.

Argumento de "I Walked With a Zombie"
"The Leopard Man" por Chris Fujiwara