terça-feira, 7 de julho de 2020

OBJECTIVE, BURMA! (1945)


1945 – USA (142') ● Prod. Warner (Jerry Wald) ● Real. RAOUL WALSH ● Gui. Ranald MacDougall e Lester Cole, a p. de uma história de Alvah Bessie ● Fot. James Wong Howe ● Mús. Franz Waxman ● Int. Errol Flynn (capitão Charles R. Nelson), William Prince (tenente Sydney Jacobs), James Brown (sargento John Treacy), George Tobias (cabo Gabby Gordon), Henry Hull (Mark Williams), Warner Anderson (coronel J. Carter), John Alvin (Charles Hogan). 

Há dois anos que o general Stilwell foi expulso da Birmânia pelos japoneses, barrando assim aos americanos o caminho para a China. O exército preparou activamente a reconquista do país. Como prelúdio a essa acção, um grupo de soldados, sob a direcção do capitão Nelson, é enviado de pára-quedas para a selva. Têm como missão a destruição de uma estação de radar não suficientemente localizada para ser bombardeada. Um jornalista, Mark Williams, acompanha os homens. É muito mais velho que eles e salta de pára-quedas pela primeira vez na vida. O grupo ataca a estação de surpresa, dizima os soldados japoneses que estão a almoçar e faz explodir todas as instalações com TNT. Esta primeira parte da missão, completamente bem sucedida, foi quase ridiculamente fácil de cumprir. Mas agora é preciso voltar e as dificuldades começam. O avião que devia levar os soldados para a base é constrangido a dar meia-volta porque chegam uma centena de japoneses e Nelson pede pelo rádio que se anule a aterragem. Dois dias mais tarde, e depois de quarenta e cinco quilómetros de marcha lenta e cansativa na selva, tem lugar o primeiro envio de mantimentos por pára-quedas. Antes disso os homens tinham-se dividido em dois grupos. Nelson descobre que não vai poder ser levado com os seus homens de avião porque não há mais nenhuma pista de aterragem utilizável na região. Os soldados vão ser reabastecidos a cada quatro dias. O grupo de Nelson encontra os dois únicos sobreviventes do outro grupo, vítima de um massacre apavorante. Os homens chegam a uma aldeia birmanesa, abandonada na mesma manhã pelos japoneses. Matam os sentinelas ainda presentes e descobrem os corpos atrozmente torturados dos seus camaradas. Um moribundo suplica a Nelson que lhe acabe com o sofrimento e morre a falar com ele. Depois de um tiroteio, os americanos escapam aos japoneses que voltaram a aparecer na aldeia e deixam mortos no terreno. Durante o segundo envio de mantimentos, Nelson recebe novas ordens: é preciso abandonar o caminho de regresso para a base e avançar para norte. Os soldados não têm tempo para levar as caixas de abastecimento porque os japoneses, posicionados para uma emboscada, disparam sobre eles. Avançam dolorosamente pela selva, atravessam rios e não conseguem sinalizar a sua presença a um avião que os procura. O velho jornalista, esgotado com a fadiga, começa a perder a razão. Os soldados escalam uma colina, local do ponto de encontro estabelecido pelas novas ordens. Não há nada em redor e isso desespera-os. Encontram o jornalista morto. Graças a um pequeno vidro de bolso, Nelson assinala a sua presença a um avião que envia mantimentos de pára-quedas. Mas os japoneses avistaram o grupo e, quando cai a noite, atacam a colina. Falando em americano, um deles arma uma cilada a um soldado e mata-o. Mas o seu companheiro não cai na armadilha e livra-se do japonês com uma granada. A luz de uma tocha ilumina os japoneses no sopé da colina. Sofrem perdas severas e abandonam o terreno. No dia seguinte, de manhã, o grupo vê uma multitude de aviões a invadir o céu birmanês. «Estão a chover pára-quedas!» grita um soldado. Nelson contacta o seu superior e entrega-lhe um punhado de chapas de identificação, dos soldados que pagaram com a vida a destruição da estação de radar. Entra no avião com os seus homens. 

► Uma das enormes obras-primas de Walsh e a obra-prima do filme de guerra americano (com Os Nus e Os Mortos do mesmo Walsh e Bravos até ao Fim de Fuller). Em dois dos filmes anteriores com Errol Flynn, Walsh tinha retratado a guerra como um jogo (Desperate Journey) e como uma oportunidade insólita e inesperada para a redenção individual (Uncertain Glory). Em Objective, Burma! ele mostra-a como uma aventura colectiva grave e mobilizadora de todas as energias. A interpretação de Flynn, sem floreios nem ironia, situa-se à imagem dessas intenções. Está aqui o triunfo absoluto da arte clássica em que o concreto e o abstracto, a descrição analítica e sintética da realidade, o emprego dos grandes planos e dos planos gerais, as figuras de estilo e o espetacular se harmonizam na perfeição e dão lugar a uma obra que, realizada a quente, num contexto e com objectivos militares precisos, alcança imediatamente a intemporalidade. Daqui a cinquenta anos vai-se ver esta obra com a mesma admiração que inspira hoje em dia. O filme é fascinante pelo génio com que Walsh decompõe constantemente as diferentes fases de uma acção, as diversas reacções daqueles que as realizam, para as recompor quase imediatamente dando uma visão global dessa acção e da atitude física e mental dos combatentes. Quer se trate das múltiplas atividades do acampamento interrompidas pelo anúncio de um briefing daqui a uma hora; da calma, do nervosismo ou da ansiedade dos pára-quedistas antes de um salto; desse mesmo salto; as diversas atitudes dos soldados parente a fadiga, o perigo e o desânimo ou uma renovação de esperança e de energia, Walsh opera uma síntese da realidade que engloba todos os seus aspectos sem privilegiar nenhum de forma artificial. Certo, o filme não esconde que é a descrição de uma vitória ainda não totalmente conquistada. Com uma sobriedade surpreendente (e que corta com o tom um bocado pomposo dos filmes de guerra da altura), Walsh mostra-nos essa vitória em gestação, e mais do que em gestação, na solidariedade profunda e tangível dos membros da equipa e do seu líder. Cada um deles, tanto por vontade própria como por necessidade visceral de sobreviver, funde-se com o grupo e com o processo da acção a realizar. Dando a cada personagem as suas características próprias, Walsh afasta-se do pitoresco fordiano bem como dessas pontuações neuróticas que abundam no filme de guerra hollywoodiano dos anos 50. No próprio coração do combate levado a cabo pelo seu país, pretende testemunhar que o perigo, a urgência, a vontade de sobrevivência e a coragem suscitam, na célula salubre que escolheu para examinar, reacções imunitárias contra os riscos de destruição interna e reacções de agressividade contra o inimigo externo. Também quer mostrar que, nos dois casos, essas reações são suficientemente poderosas para alcançar a vitória. Uma parte de esperança e uma parte de realismo (uma parte de sobrenatural cósmico, igualmente, sensível na maneira de filmar e apreender a Natureza) animam também esta obra em que Walsh, graças aos seus talentos de cronista, pintor e poeta épico, conseguiu captar o instante com um imenso recuo e conferir a uma página da história imediata os acentos da eternidade. 

N.B. O filme foi amputado frequentemente nas suas várias reposições. A cassete comercial da Warner Home Video apresenta a duração original do filme em v.o. legendada (sob o título de Objective, Burma!). Excelente restituição da fotografia de James Wong Howe.

Jacques Lourcelles, in «Dictionnaire du Cinéma - Les Films», Robert Laffont, Paris, 1992.

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