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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Emil Anton Bundman A.K.A. Anthony Mann


Os Westerns de Anthony Mann*

Emil Anton Bundman nasceu a 30 de Junho de 1906, em S.Diego, na California. Começou como actor em Nova Iorque, mas em 1938 foi para Hollywood, juntando-se à Selznick International Pictures como director de castings, onde filmou screen tests para “Rebecca” de Alfred Hitchcock e para “Gone With the Wind” de Victor Fleming (e de uma data de outros realizadores). Nos anos 40, filmou uma série de film noir`s para a RKO, para a Eagle-Lion Films e outras companhias – alguns estão em domínio público – mas foram os seus westerns que o afirmaram e registaram (ou deviam registar - já lá vamos) como nome fundamental do Cinema Americano.

Fez 11 filmes dentro desse género, sendo o primeiro “Winchester 73” (primeiro filme da longa e estimulante colaboração com James Stewart – 8 filmes, 5 dos quais westerns) , estudo enigmático em torno da ganância e cuja narrativa gira em torno da Winchester do título (ela está sempre em campo narrativo), e o último, “Cimarron”, remake de um western de 31 (que venceu o Óscar de melhor filme nesse ano) mas que não é tão bom como podia ser por interferência do estúdio (M.G.M.). Pelo meio fez coisas tão prodigiosas como “Bend of the River” de 53 ou “Man of the West” de 58, dois dos melhores westerns de sempre (“Rio Bravo” e “The Searchers” incluídos). Estes últimos dois filmes, bem como “The Naked Spur”, “Winchester 73” e “The Man from Laramie”, estão associados a uma visão do mundo (coeso estética e moralmente) por parte do seu autor e a uma revolução em termos de representação do Homem (em geral) e do Oeste, que antecipa, mesmo, o cinismo e o desencantamento de realizadores como Sam Peckinpah ou Clint Eastwood.



Numa entrevista em 1967 (ano da sua morte), quando questionado sobre o ponto de partida para “The Naked Spur”, Mann disse isto:

We were in magnificent countryside–in Durango–and everything lent itself to improvisation. I never understood why almost all westerns are shot in desert landscapes! John Ford, for example, adores Monument Valley, but I know Monument Valley very well and it’s not the whole west. In fact, the desert represents only one part of the American west. I wanted to show the mountains, the waterfalls, the forested areas, the snowy summits–in short to rediscover the whole Daniel Boone atmosphere: the characters emerge more fully from such an environment. In that sense the shooting of The Naked Spur gave me some genuine satisfaction.”

Mann foi, parece-me, o primeiro a distanciar-se da paisagem dominante no western (as grandes pradarias e os desertos – Monument Valley) e, portanto, de John Ford. Em Ford as paisagens são abertas, por assim dizer, em Mann (como em Hawks, mas de maneira diferente) elas são fechadas e de um sufoco inacreditável. Isto permite, em “The Naked Spur” (e, de certa forma em todos estes filmes, exceptuando, talvez, “The Man From Laramie” - o mais “fordiano” dos cinco) um paradoxo admirável – num filme rodado inteiramente em exteriores, os sentimentos predominantes são os da claustrofobia e do desespero. As sequências finais dos restantes quatro filmes também são assim. Um ano antes, em “The Bend of the river”, Mann filmou um confronto final num rio, com uma raiva e violência tremendas, a água, nesse confronto, era tão importante e geradora de conflito como os homens que se enfrentavam– e o Glyn Mclyntock (Stewart) de “Bend of the river” é, a par com o Linc Jones de “Man of the West”, o herói mais violento dos westerns de Mann. Os duelos nas montanhas em “Winchester 73” e em “The Man from Laramie” e, claro, em “Man of the West” são de uma força incrível, porque essas montanhas, como de resto a paisagem, em Mann são quase personagens e, como nota Robin Wood, “are barren rock, not even safe cover, with bullets ricocheting in every direction”. A paisagem em Mann não é só contemplativa (se é que é contemplativa), marca, também, uma espécie de obstáculo, de barreira, aos heróis dos filmes como se de um destabilizador psicológico se tratasse – “a paisagem física e a paisagem mental”, escreve José Fernandez em “El western de Anthony Mann”.

Os heróis, nos filmes de Mann, são homens que querem, à força toda, assentar, mas que por diversos motivos (sempre traumáticos, sempre) não conseguem. O passado pesa-lhes violentamente, têm vinganças pendentes, ajustes de contas com os inimigos e com eles próprios, com o passado, (sempre o passado) e encontram, dentro de si, violência, violência que repudiam, ao levar a cabo as suas vinganças. Porque, em Mann, não se mata por matar nem se acaba aí, o homicídio deixa marcas irreparáveis, levanta questões e dilemas infindáveis. Para as audiências da altura era ainda tão espantoso, porque os heróis desencantados e descrentes eram James Stewart e Gary Cooper, os heróis inocentes e influenciáveis de Capra nos anos 30 e 40 – subversão inteligentíssima de Mann. E Hitchcock deve ter visto os filmes de Mann antes de começar a sua própria colaboração com Stewart.

Finalmente, se bem que se possa falar de muito mais (o “scope” de Mann, as suas “pinturas”, os jogos psicológicos entre personagens - “The Naked Spur” será o exemplo máximo – e as mãos alvejadas e feridas como imagem recorrente – a mão é um ponto de vulnerabilidade e naqueles tempos era o de maior, por sinal), abordarei a representação da dor em Mann: Stewart e Cooper não são invulneráveis, entram em lutas e magoam-se , e bem (aquelas cenas de pancadaria, de uma frieza indescritível, brutais e desconfortáveis) e Mann filma-os a gritar, a gemer em planos fechados, procurando (e encontrando) o sufoco – o tal desconforto – e penso, por exemplo, nas cenas de “The Man from Laramie”, em que Will (Stewart) é amarrado e imobilizado para que um só homem (Dave) lhe bata, ou nas imagens de Howard Kemp (Stewart) a rastejar pela relva e pelas rochas em “The Naked Spur”, de uma violência tremenda e de uma mestria na sua representação.

Mann não tem, no entanto, a exaltação que merece, não se fala nos seus westerns, mesmo que James Stewart tenha dito que alguns dos seus melhores filmes tenham sido com o realizador ou que Mann tenha, nos anos 50, levado o western numa nova direcção. Até em “The Searchers” se nota a sua influência (se bem que seja discutível). Robin Wood, mais uma vez, adianta uma explicação: o conhecimento do Cinema clássico pelas novas gerações fez-se pela televisão, e as capacidades de Mann (“painterly talents”, diz Wood) diminuem no ecrã pequeno, não se notam. Talvez sim, talvez não, mas Mann, quando no seu melhor, rivaliza com Hawks ou Ford e é um cineasta essencial ("Bend of the River", "The Naked Spur" e "Man of the West", principalmente)...

Fontes:

Jonathan Rosenbaum, “Mann of the West”

José M. López Fernández, “Hombres del Oeste en tierras lejanas – El Western de Anthony Mann”

Robin Wood, “Mann of the Western”

*Trabalho para Géneros

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Uma Viagem Pelo Musical - 8 (Final)



Há que dizer que, entre "posts" da enorme "Viagem Pelo Musical", vi "Show Boat" de James Whale e "It`s Always Fair Weather" de Kelly e Donen (e como Kelly é tão importante para Donen), duas obras-primas do Musical. Além daquele que é, para mim, o melhor Musical de sempre - "Yolanda and the Thief". Eis então, as 15 obras-primas do Musical e as 10 que, sendo do Musical, também o são do Cinema:

As 15:

Gold Diggers of 1933 (1933) de Mervyn LeRoy
Show Boat (1936) de James Whale
Cover Girl (1944) de Charles Vidor
Anchors Aweigh (1945) de George Sidney
The Pirate (1948) de Vincente Minnelli
On The Town (1949) de Stanley Donen e Gene Kelly
Carmen Jones (1954) de Otto Preminger
A Star is Born (1954) de George Cukor
Guys and Dolls (1955) de Joseph L. Mankiewicz
Artists and Models (1955) de Frank Tashlin
Une Femme est une femme (1961) de Jean Luc Godard
Les Parapluies de Cherbourg (1964) de Jacques Demy
New York, New York (1977) de Martin Scorsese
All That Jazz (1979) de Bob Fosse
One From The Heart (1982) de Francis Coppola

As 10:

The Wizard of Oz (1939) de Victor Fleming
Meet Me in St. Louis (1944) de Vincente Minnelli
Yolanda and the Thief (1945) de Vincente Minnelli
Singin` in The Rain (1952) de Donen e Kelly
Gentlemen Prefer Blondes (1953) de Howard Hawks
The Band Wagon (1953) de Vincente Minnelli
Brigadoon (1953) de Vincente Minnelli
It`s Always Fair Weather (1955) de Donen e Kelly
Bells Are Ringing (1960) de Vincente Minnelli
Les Demoiselles de Rochefort (1967) de Jacques Demy

FINALE

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Uma Viagem Pelo Musical - 1

ou

Como um Filme me fez (re)pensar todo um Género:

O filme foi "Les Demoiselles de Rochefort" e este é o meu maior post de sempre:


Quando chegou o som ao Cinema, o primeiro filme sonoro (por assim dizer) foi um Musical -"The Jazz Singer". 2 anos depois, outro musical ("The Broadway Melody") ganhava os Óscares apenas na sua segunda edição e no que aos Óscares diz respeito foram 10 os Musicais que receberam a estatueta de Melhor Filme,e com 82 anos de existência isso significa que mais de 10 % dos laureados são Musicais (se bem que nem sempre da melhor qualidade, é verdade).
Já se faziam curtas musicais durante os anos 20, cortesia de Lee deForest e antes de "The Jazz Singer", a Warner e a First Nacional usando o processo Vitaphone, produziram centenas de curtas sonoras, entre as quais interpretações de bandas e pianistas, mas ninguém estava ainda preparado para a explosão do Musical.
Em 1933 estreia "Gold Diggers of 1933" de Mervyn Leroy e encenado pelo grande Busby Berkeley (hoje em dia não se sabe qual deles é o maior responsável pelo resultado do filme):o Musical da Broadway abordava as feridas da 1ª Guerra Mundial mas o filme, feito na altura da Grande Depressão, pode ser visto como uma metáfora para os acontecimentos de finais de 20, senão veja-se que o filme começa com uma alegria imensa através do número festivo "We`re in the Money" e acaba naquele que é provavelmente o número musical mais terrivelmente pungente de todos os tempos (sim, mais que os de "Dancer in the Dark"), Remember my Forgotten Man:
I don't know if he deserves a bit of sympathy
Forget your sympathy, that's all right with me
I was satisfied to drift along from day to day
Till they came and took my man away

Remember my forgotten man
You put a rifle in his hand
You sent him far away
You shouted: "Hip-hooray!"
But look at him today

Remember my forgotten man
You had him cultivate the land
He walked behind the plow
The sweat fell from his brow
But look at him right now

And once, he used to love me
I was happy then
He used to take care of me
Won't you bring him back again?

'Cause ever since the world began
A woman's got to have a man
Forgetting him, you see
Means you're forgetting me
Like my forgotten man
Não vi vários dos musicais de Fred Astaire e Ginger Rogers. Vi apenas "The Gay Divorcee", mas acredito sinceramente que foram sucessos mais pelo estatuto de estrelas do par do que pela qualidade dos filmes. Não vi "Love Me Tonight" (1932) de Rouben Mamoulian nem "Hallelujah, I´m a Bum" (1933) de Lewis Milestone. Mas destaco os esforços dos irmãos Marx e da Disney, ainda que não possam bem ser considerados Musicais, não no verdadeiro sentido da palavra.



FINALMENTE e a fechar os grandes Musicais antes da equipa de Arthur Freed tomar de assalto o género, 1939 é o ano de "The Wizard of Oz" de Victor Fleming. Toda a magia do filme, o sublimar das cores e a mensagem mais deliciosamente dúbia da história do Cinema através do uso das próprias cores - o Kansas a preto e branco e as cores de Oz. Dir-me ão que o Kansas e Oz são uma e a mesma coisa e que a imaginação de uma criança é a mais explêndida das coisas, mas naquele final há (penso eu) um enorme sentido de perda. "The Wizard of Oz" é o filme com mais poder na cultura popular: as filmagens caóticas, a enorme infelicidade da "child actress" Judy Garland, a "Yellow Brick Road", a "Wicked Witch of the west", as leituras sexuais, as mensagens escondidas. É um filme mágico, sublime e tem já nele toda a fantasia e beleza do Musical, a capacidade de nos levar para um lugar melhor, para escaparmos à realidade enfadonha do dia a dia.