quarta-feira, 4 de maio de 2011

"The Yards" (1999)


The Yards é um portento de filme, prova que as coisas certeiras, as que fazem doer, em cinema, não estão em guiões nem em palavras, mas nos gestos dos Whalbergs, Phoenixs e Therons deste mundo, na encenação do acidente, na gestão sentida de planos, na proximidade acutilante da câmara, na mise en scène.

Não se resolve fazer um filme só porque sim. Se se filma, há uma gravidade imposta, é a responsabilidade de um cineasta. Se aquela família é tudo durante duas horas, não é devido a profissionalismos, a competências e a coisas "bem conseguidas", ou pelo menos não só devido a isso. Não. É a tal lembrança, o tal engenho, a tal sensibilidade. O travelling de James Gray (é o que fica, tem que haver um travelling só dele), fazer colidir todo o caos criativo, todas as ideias, certezas e dúvidas, estória e personagens, num só movimento de câmara.

Antes de começarem os créditos finais, depois da última coreografia do leitmotiv holstiano (há quatro, durante todo o filme, todas com significados e implicações diferentes, e fazem lembrar o que o Cimino fez com Mahler nas cenas-chave de Year of the Dragon) depois do luto, depois do grande plano desse actor enorme que é Mark Whalberg, depois do longo e penoso fade to black; as harpas, o contrabaixo, as cordas, o travelling à frente dos comboios, nas "yards". A delicadeza desse plano, que parece tudo resumir, a consciência e sabedoria impetuosas de quem pôs aquele plano ali, de quem o filmou. Tudo em perspectiva plena. A paixão secreta de Leo e Erika, a figura trágica de Phoenix (a dor e a raiva daquele personagem), a tristeza daquelas duas mães, o olhar dilacerado daquele pai, a humanidade, o não se poder pensar as coisas em termos de bem ou mal. A vida é um acidente terrível.

O talento de um artesão não está em conseguir projectar todas as implicações e dúvidas até ao infinito no fim de um filme, mas em querer fazê-lo, pelas suas personagens e pelo amor que lhes tem.

Isto, a "resolução". Primeiro, e enumero, o regresso de Leo a casa, a um paraíso instável e que, aos poucos, desaba; o encontro no corredor; os olhares que se trocam nesse encontro; um amor impossível; apagam-se as luzes, apaga-se o mundo; as velas e o primeiro prenúncio da tragédia; uma mãe frágil, doente, que quer acreditar que tudo melhorará. Todos querem. Leo é o intruso que vem abalar os alicerces daquela família, é ele que revela todos os "podres", todos os crimes, todos os pecados...

Zero de Scorsese, pouco de Coppola. Eu penso em Minnelli, acima de tudo (Ford e Cimino, também). Em Some Came Running. Sinatra e Whalberg, o mesmo olhar, o mesmo peso às costas, a mesma dor... Theron e MacLaine, o mesmo olhar também, fortíssimas. pilares. frágeis, instáveis... não é possível não as amar durante duas horas...

Phoenix, a figura mais trágica e triste de todo o filme. Depois do inferno se soltar, nas escadas, depois do terramoto, ao volante do carro, a chorar e a estremecer, desalmadamente. O respeito pelo Homem, a câmara nunca o tenta destronar, mas enaltecer, nos altos e nos baixos, na lei e no crime, esteja "certo" ou "errado" (The Yards é um documentário). O tempo, o compasso lento e doloroso dessa cena...

Um filme nuclear do cinema norte-americano...

5 comentários:

Álvaro Martins disse...

Foda-se grande texto João! Parabéns.

João Gonçalves disse...

Estes filmes quando "batem", "batem" mesmo bem :P

James Gray, para mim o maior dos americanos desta última geração. Ao lado de PTA.

grande crítica João!

Fifeco (Filipe Ferraz Coutinho) disse...

João,

Para quem estava com dificuldades a escrever sobre o filme, palavras não te faltaram eh eh.

Pouco mais há a dizer sobre esta fita. Apenas uma nota sobre do cinema do Gray: parece-me toda a sua obra bastante subvalorizada. Nenhum dos seus filmes teve o reconhecimento que merecia. Mas pegando no exemplo do João, que justamente o considera o maior de uma geração, o PTA também não recebe os louvores que são por demais evidentes. Talvez seja o lado negro com que olham para o seu cinema ou, então, nem a todos as suas mensagem atingem: mas quando bate, bate forte.

A título de curiosidade, o We Own the Night recebeu uma ovação de 8minutos quando estreou em Cannes. Vale o que vale é certo, mas não é qualquer cineasta que consegue isso.

João Palhares disse...

Obrigado a todos!
Bateu mesmo bem, sim. O We Own the Night está a precisar de revisão. E, concordo, o Gray é subvalorizadíssimo.

ze alberto disse...

Parabéns por um texto tão bem delíneado, João!
Falaste na proximidade com o Minnelli de "Some Came Runnig", cineasta cujo trabalho tanto me fascina. Como nunca vi esse filme faço votos para que o Chico coloque esse filme no MOTM em breve.
No outro dia vi um excerto de uma entrevista com o filósofo Gilles Deleuze em que ele recorria a Minnelli para dar um exemplo de um cineasta que tinha "ideias".

abraço.