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terça-feira, 3 de agosto de 2021

CIDADE NAS TREVAS (1956)


Sabe-se que Fritz Lang, tal como Alfred Hitchcock (e não é a única coisa que os aproxima, pois ambos começaram na Europa e durante o mudo, ambos preparavam os filmes meticulosamente, deixando muito pouco ao acaso e recusando a improvisação durante as rodagens, além de partilharem muitas obsessões temáticas), coleccionava recortes de jornais como forma de inspiração e pesquisa de material e temas para os seus filmes. Quando Peter Bogdanovich, no seu livro de entrevistas ao realizador austríaco (Fritz Lang in America) lhe perguntou porque é que gostava de trabalhar a partir de jornais, Lang respondeu-lhe que “eu acho que os filmes não são apenas a arte deste século, mas sim, e impondo uma palavra de Abraham Lincoln, a arte ‘do povo, para o povo, pelo povo.’ Foi inventada mesmo na altura certa – quando as pessoas estavam prontas para uma arte das massas. (Sabe, por acaso, o que é que fazia mesmo propaganda ao modo de vida americano? Os filmes americanos. Goebbels percebeu o enorme poder dos filmes como propaganda, e eu temo que mesmo hoje as pessoas não saibam que meio de propaganda tremendo os filmes podem ser.) Mas de qualquer maneira, onde é que vamos buscar o nosso conhecimento da vida? Aos factos, não à ficção. Naturalmente, podem-se aprender uma data de coisas em romances e em peças, mas é sempre visto através dos olhos doutro homem. Não se esqueça que nesses dias não havia televisão: hoje quando há um motim, nós vêmo-lo; Pelo Vietname, podemos ver o que é uma guerra na selva. Antes disso, as actualidades levavam bastante tempo a chegar aos cinemas, e só os jornais é que eram notícia fresca. 
 
“Um realizador devia saber tudo. Um realizador devia-se sentir em casa num bordel – o que é muito fácil – mas também se devia sentir em casa na Bolsa – o que já é um bocado mais difícil. Devia saber como se comporta o duque de Edimburgo, como se comporta um trabalhador e como se comporta um gangster. Agora, eu diria que é impossível aprender isto tudo por experiência. Mas a melhor coisa a seguir a isso é ler jornais – mesmo se não forem objectivos, pode-se aprender a separar as coisas objectivas das subjectivas.” 
 
Quando deu com o guião de While the City Sleeps, Lang mostrou ao argumentista, Casey Robinson, um artigo sobre um assassino em série que tinha deixado a mensagem “Please catch me before I kill more” no espelho da casa de uma das suas vítimas, o caso real que tinha inspirado o autor do livro The Bloody Spur, Charles Einstein, que tinha sido a base para o argumento de Robinson (no livro, o assassino escreve “help me for God’s sake” e no filme, “ask mother”). 
 
Sabendo da sua crença que um realizador devia saber tudo sobre o mundo que o rodeia, não é com grande surpresa que descobrimos que Lang aplicava o mesmo princípio ao cinema. Como muitos realizadores austro-húngaros em Hollywood (Otto Preminger, Billy Wilder, Michael Curtiz), Lang acreditava muito mais no guião, na preparação e na pré-produção do que em potenciais descobertas durante a rodagem (como faziam Hawks, Chaplin e Ford com extraordinários resultados), e dirigia os seus actores em conformidade. Joan Bennet, que trabalhou com ele em The Woman in the Window (1944), Scarlet Street (1945) e no fabuloso Secret Beyond the Door (1948), numa carta a David Overbey[1], escreveu que “um dia normal com Fritz Lang como realizador só era normal num aspecto: era invariavelmente controlado como só ele conseguia. Para mim, isto era extraordinário. Ele era minuciosamente meticuloso, com uma compreensão completa do sentido que tinha tomado, do que queria exactamente e de como queria que os seus actores interpretassem, de modo preciso. A minha confiança nele era absoluta e inquestionável. Não havia demonstrações, discussões ou análises de personagens. Fritz dizia ao elenco dele o que queria — e era assim. Era fanático pelo realismo. Tal como o facto de me ter exigido a mim e a Michael Redgrave que fizéssemos o próprio plano de correr através da casa em chamas em Secret, o único momento assustador que eu tive em Scarlet Street foi a cena do esfaqueamento. Eu não me importava de ter tido um duplo se não fosse a insistência de Fritz pela verdade e a minha confiança nele e na sua integridade. Fritz era um realizador exigente, mas trabalhar com ele valeu bem a experiência. Como bem sabes, as técnicas de câmara dele eram distintas, originais e revolucionárias na indústria de cinema. Ela tinha um — suponho que se possa chamar um truque — que parecia usar só comigo. Ele normalmente ficava atrás da câmara durante a rodagem e fazia sinais com as mãos na minha direcção para pequenos movimentos que melhoravam os ângulos de câmara. Foi o único realizador com quem trabalhei que fazia isto, e embora parecesse ser uma fonte de aborrecimentos para outros com quem trabalhei, aceitei-o de bom grado devido à confiança consumada na sua habilidade.” 
 
Apesar de Lang não ter começado por dispor do controlo que gostaria quando chegou a Hollywood em 1934, mal-habituado às mordomias que lhe prestavam nos estúdios da UFA (não lhe impunham limites de orçamento ou tempo, chegava aos estúdios em grande pompa e circunstância, não mostrava complacência nenhuma para com técnicos e actores, de quem exigia exactamente o mesmo que exigia de si próprio), o realizador foi conseguindo impor-se por lá quando os estúdios perceberam que os seus métodos lhes poupavam dinheiro. Ao preparar as posições de câmara com antecedência para cada dia de filmagem (e convém lembrar que Lang trabalhava sobretudo em estúdio, que de outra maneira não o poderia fazer), sabendo tudo o que ia filmar, organizava as filmagens de forma a reduzir as mudanças de luz e de equipamento ao mínimo possível, tendo ainda tempo para repetir planos até estar completamente satisfeito e ganhando a confiança dos seus técnicos e dos seus actores por estes o verem a trabalhar no duro e acreditarem que as exigências a que os submetia se justificavam sempre com o resultado final (e abundam testemunhos semelhantes ao de Joan Bennet[2]). 
 
While the City Sleeps é o penúltimo filme de Lang em Hollywood, expressão pura desse método já cimentado, estudo profundo das relações de poder e influências numa empresa de comunicação, a New York Sentinel, posta à prova pela raiva homicida do “Lipstick Killer”, interpretado por John Drew Barrymore, Jr. Como nos filmes de Alfred Hitchcock, sabe-se de antemão a identidade do assassino, oportunidade para entrar na sua mente e ver também como reagem aos seus actos as pessoas que o rodeiam (um desfile de enormes estrelas de Hollywood: Dana Andrews, George Sanders, Ida Lupino, Vincent Price, Rhonda Fleming, Mae Marsh, Thomas Mitchell). Foi o que moveu e interessou Lang em M (1931), A Casa à Beira do Rio (1950) e no filme que mais se aproxima deste, A Gardénia Azul (1953). Em Lang, as compulsões homicidas parecem sempre um sintoma de um mal maior, de que os espectadores incautos ou os investigadores responsáveis participam sempre. A caça ao assassino em While the City Sleeps é só uma desculpa para os jornalistas avançarem na sua carreira por todos os meios possíveis, à custa de chantagens, subornos, intimidações, seduções, facadas nas costas ou pactos com o diabo e para o dono da companhia os ver esfolarem-se por isso como se assistisse à versão moderna dos jogos romanos da sua cabina privada, ficando como prova disso mesmo o plano pormenor dos três amendoins, a que ele dá os nomes dos seus jornalistas – plano a que João Bénard da Costa chamou o “mais sombrio” do “filme mais perverso da obra de Lang.”[3]  

Nos filmes de Fritz Lang, e este não é excepção, mostra-se o que o mundo faz às entranhas dos homens, pergunta-se se não as corrói por dentro e se não os transforma. Em While the City Sleeps, pergunta-se também se o olhar de um pivot de telejornal, quando vê o trinco da porta da namorada e o destrava para depois poder entrar, não é igual ao de um assassino a fazer o mesmo quando entrega as compras a uma mulher que não conhece e, a seguir, mata. Se essa cena serve para a personagem de Dana Andrews descobrir como é que esse primeiro homicídio aconteceu, o relevo dado ao olhar do jornalista não pode ser inocente. Como não é inocente a cena em que o “Lipstick Killer” se faz passar pelo personagem de Andrews, tornando-se no seu duplo, tal como antes o jornalista fora duplo do assassino (duas faces da mesma moeda?). Nem como nada é inocente neste filme tão perverso e que vai tão fundo na difícil demanda por saber o que vai na cabeça dos homens quando caem nas ciladas da ambição.

[1] in «Fritz Lang» de Lotte Eisner, Da Capo, Nova Iorque, 1986, pág. 376.

[2] Toda a informação relativa aos métodos de trabalho de Fritz Lang está no livro essencial dedicado ao cineasta e escrito por Lotte Eisner, historiadora e arquivista fabulosa que, durante a 2ª Guerra Mundial e a grande custo, ajudou Henri Langlois a salvar bobines de filmes, guiões originais ou objectos usados durante várias rodagens para gerações futuras.

[3] in «As Folhas da Cinemateca - Fritz Lang», Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 1996, pág. 146.

in «Uma Viagem Pelo Cinema Americano», OLIVEIRA, José, PALHARES, João, A.23 Edições, 2018.

domingo, 4 de abril de 2021

Raoul Walsh (1887-1980)


por Jean-Pierre Coursodon
 
O cliché de Raoul Walsh como mestre da aventura, o realizador de acção arquétipo, não só foi extenuado, como contribuiu para ofuscar outros aspectos igualmente importantes do seu cinema. A maior parte dos críticos considera o período de Walsh na Warner (de Heróis Esquecidos a Captain Horatio Homblower) como o melhor, mas, embora alguns dos seus filmes na Warner sejam exemplos notáveis do estilo do estúdio na sua forma mais eficaz, perguntamo-nos se tal estilo não seria de alguma forma alheio à personalidade de Walsh. A ênfase no ritmo e na velocidade, tão típica dos filmes da Warner, não é de forma alguma uma característica tanto de filmes iniciais ou tardios de Walsh. Realmente, o ritmo calmo—seja um encanto ou um incómodo—é um traço recorrente em toda a sua obra, parcialmente resultante do seu gosto por enredos divagantes, mas também um sinal de uma abordagem basicamente descontraída à produção cinematográfica. Pérolas menores de acção com a velocidade de um relâmpago como Jornada Trágica e Northern Pursuit podem parecer personificar a arte de Walsh, mas no entanto, e mesmo durante o período da Warner, ele aparecia ocasionalmente com um artigo lento e calmo (e.g., They Drive by Night), e nunca abria mão do seu gosto por narrativas extensas e desprovidas de acção, de que Uma Loira com Açúcar é um excelente exemplo. A insistência do estúdio na velocidade conseguia de facto tornar-se um obstáculo para Walsh quando aplicada a estórias fora do género da acção. Em The Man I Love, por exemplo, há uma verdadeira obsessão com o ritmo quase a sufocar as qualidades incipientes do guião que um toque mais relaxado na realização poderia ajudar a florescer. 

A tensão entre material e tratamento é uma característica recorrente ao longo da carreira de Walsh. É mais perceptível, talvez, nos seus filmes mais importantes do período do mudo tardio e do falado inicial, feitos numa altura em que a sua ebulição terrena estava no seu estado mais desinibido. O gosto irreprimível de Walsh pela brincadeira tinha de encontrar um meio de comunicação fossem quais fossem as consequências, e a sua indiferença pela natureza do veículo em mãos às vezes é surpreendente. Assim Carmen transforma-se numa demonstração das extravagâncias de slapstick de Dolores Del Rio, e fica-se paradoxalmente abalado quando Walsh troca a comédia pelo melodrama de forma tardia e brutal na última bobina. A cena apoteótica altamente estilizada e incrivelmente encenada no quarto de Carmen pode ser a melhor do filme, mas a sua atmosfera intensificada e dramática está estranhamente em desacordo com o ambiente leve que prevalece ao longo do filme. Da mesma forma, em O Preço da Glória, as cenas de comédia entre Quirk e Flagg relegam a realidade da guerra para um pano de fundo pouco convincente e puramente abstracto, de modo que as cenas de batalhas ocasionais—e bastante realistas—parecem deslocadas, e o discurso do título surge como uma intrusão absurdamente melodramática em vez do momento apoteótico de pathos comovente que se destinava a ser. 

Filmes falados iniciais como In Old Arizona e The Cock-Eyed World têm cerca de 80 por cento de alívio cómico, maioritariamente de gosto questionável. A queda de Walsh por exuberância latina—especialmente feminina—é saciada de forma exagerada em ambos os filmes, com Dorothy Burgess no primeiro e Lili Damita no segundo a fazer a Carmen de Del Rio parecer quase comedida. O comprometimento total de Walsh à causa da palhaçada disparatada explica a ausência de enredo de alguns destes filmes. The Cock-Eyed World, que dura quase duas horas, não tem história alguma. Consiste numa série de esboços sem ligação dedicados às arrelias incansáveis entre Edmund Lowe e Victor McLaglen e às suas brigas permanentemente renovadas por um conjunto de raparigas permutáveis numa variedade de países estrangeiros fornecidos pelo guião obsequioso do próprio Walsh (sempre que uma situação se esgota, a unidade de fuzileiros dos heróis é convenientemente expedida para um novo local). 

Embora tenha sido de bom gosto elogiar o humor rasteiro de Walsh pela sua estimulante boa disposição e vitalidade viril, não se pode escapar ao facto de que muita da sua produção pré-Warner é manchada por uma vulgaridade irritantemente estridente. Isto não foi certamente a única lacuna numa década que marcou o nadir da carreira de Walsh. Poucos, se algum, dos grandes realizadores se viram atrelados com um recorde tão elevado de esforços indistintos e por vezes insuportáveis durante um período de tempo semelhante. Fazia pouca diferença se os filmes eram ambiciosos ou rotineiros. As pretensões épicas de The Big Trail desabam sob a pressão das deficiências técnicas na gravação de som primitiva. The Man Who Came Back, um melodrama moralizante ridículo, atinge patamares incompreensíveis enquanto continua a superar a sua própria absurdidade, amontando uma reviravolta narrativa atrás de outra. Sailor's Luck é uma farsa repulsivamente buliçosa; Vamos para Hollywood, Every Night at Eight, e Hitting a New High são musicais mentalmente débeis e felizmente olvidáveis; Klondike Annie é exclusivamente para fãs de Mae West; O.H.M.S. e Jump for Glory, dois produtos mal produzidos e feitos à pressa que Walsh realizou em Inglaterra em 1937, são filmes sem traços redentores para pagar as despesas. Mesmo os melhores filmes da década de Walsh têm falhas graves. The Bowery, uma obra de época de estrutura tipicamente solta e com um enredo sinuoso, é pelo menos dois filmes num—e um a mais. Lidando ostensivamente com a vida de Steve Brodie, uma figura lendária larga o suficiente para qualquer filme se focar nela, tenta de forma bastante descarada duplicar o sucesso de O Campeão de Vidor ao voltar a emparelhar Wallace Beery e Jackie Cooper num tipo de relação semelhante. Nem o guião nem a realização alguma vez se reconciliam com o problema de balançar ou fundir os dois ingredientes que tendem a cancelar-se um ao outro até as personagens e acontecimentos perderem eventualmente a nossa atenção dividida. 

O aspecto mais desagradável dos filmes dos anos trinta de Walsh era o seu chauvinismo—e não só "masculino"—predominante, o seu racismo bem-humorado e prosaico. Seria injusto destacar o realizador por reflectir os ânimos e as atitudes endemicamente fascistas da altura, mas no entanto não se consegue evitar ficar um bocado irritado com a sua aceitação acrítica e utilização recorrente deles, na maior parte dos casos como material de comédia. Nos seus filmes do período, um sotaque estrangeiro é invariavelmente conotado com uma vilania de algum tipo. As mulheres ciumentas e/ou traiçoeiras normalmente são mexicanas ou francesas. Em Vamos para Hollywood o realizador de cinema Ned Sparks, preso a uma actriz francesa temperamental e sem talento, queixa-se dos produtores que "estão sempre a contratar 'talento' estrangeiro que não consegue fazer nada." Sailor's Luck tem alguma coisa para ofender todas as minorias dos carcamanos aos judeus aos homossexuais. Geralmente falando, é tomado como garantido que as leis não são realmente destinadas a proteger os estrangeiros. Tudo desde roubar bananas a vendedores de rua italianos até incendiar um cortiço em Chinatown é levado num espírito de pura diversão. Em The Bowery, Beery ralha a Jackie Cooper por atirar pedras às "janelas dos chinocas" ("It ain't refined"), e depois compadece-se dele e concede-lhe mais uma janela para partir antes da hora de dormir. No mesmo filme, duas brigadas rivais de bombeiros lutam uma com a outra pelo privilégio de extinguir um incêndio em Chinatown enquanto a casa arde com os ocupantes a gritar—um facto que pode amortecer a hilaridade da situação para o espectador de hoje em dia, embora fosse obviamente destinado a reforçá-lo. Não se deve depreender disto tudo que Walsh era mais racista do que a maioria dos outros realizadores em actividade na altura, porque muito provavelmente não era; significa apenas que era particularmente indiscriminado na sua escolha de material quando se tratava de arrancar uma gargalhada. 

Por outro lado, a vulgaridade de Walsh consegue ser uma fonte de observações maravilhosamente detalhadas. Por vezes ele capta de forma feliz o pitoresco dos maneirismos plebeus, a extravagância particular da altivez da baixa vida e da energia da classe operária. The Bowery e o encantador Me and My Gal abundam em pequenos pormenores com a ostentação confiante de roupas vistosas, a inclinação e oscilação e adorno de chapéus, o andar conquistador empertigado do macho e o rebaixamento colorido da fêmea. A relação Spencer Tracy-Joan Bennett em Me and My Gal reflecte todo sistema codificado de posturas e réplicas cujo atrevimento nunca resvala para o mau gosto. Infelizmente há poucos filmes assim na produção de Walsh nos anos trinta. 

O período de Walsh na Warner foi extraordinariamente fecundo. A atmosfera de criatividade disciplinada e profissionalismo dinâmico que lá reinava provou ser exactamente o que ele precisava para funcionar no seu melhor ("era um figo de um estúdio para qualquer realizador," comenta ele na sua autobiografia). Trabalhou com produtores inteligentes (Hal Wallis, Jerry Wald, Mark Hellinger), belos argumentistas (Robert Rossen, John Huston, William R. Burnett, Niven Busch) e elencos consistentemente notáveis (dirigiu James Cagney em quatro filmes, Humphrey Bogart, George Raft, e Ida Lupino em três cada um, e o muito subvalorizado Errol Flynn num recorde de sete filmes). Depois dos três filmes clássicos de 1939-40 com Bogart e o igualmente clássico Uma Loira com Açúcar assumiu o lugar de Michael Curtiz como realizador regular de Flynn e lançou-se numa série altamente bem sucedida que inclui três dos melhores filmes do realizador bem como da estrela: Todos Morreram Calçados, Gentleman Jim, Objectivo Burma. Visto puramente em termos de realização, Objectivo Burma é um feito impressionante, e o controlo de Walsh sobre o ritmo e o espaço, a narrativa e os detalhes, as interpretações e a logística, é de tal forma absoluto que quase consegue superar um diálogo batido que soa insistentemente a uma das paródias de Harry Purvis. 

Os arranques de tempo de guerra com Flynn foram ensanduichados entre a grande interpretação a três por Edward G. Robinson, Raft, e Marlene Dietrich em Manpower—um filme notável pelas suas relações de alta tensão e o seu fluxo ininterrupto brilhante de diálogo de tiradas e alívio de tensões—e o surpreendentemente comovente The Man I Love, um retrato inconvencional de uma mulher que está mais próximo do ambiente dos filmes de Walsh dos anos cinquenta do que qualquer coisa que tivesse feito até essa altura. Apesar da sua relativa falta de familiaridade com os westerns (o único desde The Big Trail, além de Todos Morreram Calçados tinha sido o desorientado e entediante Comando Negro), Walsh fez então—embora excepcionalmente não para a Warner—o memorável Pursued, um estudo de caso tenso e inquietante que introduziu o herói neurótico ao género. Ainda que sobrecarregado com referências freudianas e referências à tragédia grega (a especialidade do argumentista, Busch), Pursued é um filme a poderoso e apelativo, um equivalente raro em western a tais filmes noir contemporâneos como O Arrependido de Jacques Tourneur, do qual é vagamente reminiscente por causa da presença assombrada e assombrosa de Robert Mitchum. Os westerns posteriores de Walsh incluem o desigual mas por vezes soberbo Rio da Prata—o seu filme final com Flynn e uma das caracterizações mais fortes deste último—e Along the Great Divide, um dos filmes mais impressionantes de Walsh visualmente, assim como dois esforços derivados de clássicos não-westerns anteriores de Walsh (refazer os seus filmes num género diferente foi como que uma marca registada de Walsh ao longo da sua carreira): Colorado Territory, uma variação intrigante sobre o tema de O Último Refúgio, com uma esplêndida sequência final em que Virginia Mayo dispara sobre os perseguidores do seu amante antes de ser abatida a tiro; e Distant Drums, um remake não oficial de Objectivo Burma passado nos pântanos da Florida, com índios seminoles insurrectos a fazer o papel de inimigo. Um trabalho menor (a história é consideravelmente enfraquecida pela adição supérflua de um papel feminino), destaca-se ainda assim como um dos mais belos exemplos de rodagem em exteriores na filmografia de Walsh. 

Perto do final do seu período na Warner, Walsh fez aquele que hoje é provavelmente o seu filme mais famoso e mais admirado do pós-guerra, o espantoso Fúria Sanguinária  Em alguns aspectos, a personagem de James Cagney é atípica em relação aos heróis de Walsh. Artista demasiado "salubre" para mostrar mais do que um interesse ocasional por neuróticos e psicopatas, parecia pouco preparado para retratar o suplício emocional de um gangster epiléptico com uma fixação pela mãe e ilusões de grandeza. Por outro lado, a insanidade do herói é um meio pelo qual se intensifica o tema familiar de Walsh da rebelião do indivíduo contra a sociedade. A afirmação a posteriori (por um crítico da Time citado por Andrew Sarris) de que Walsh era "o único realizador em Hollywood que se podia ter safado com um plano de James Cagney sentado ao colo da mãe," é hiperbólica, mas é um facto que se safou mesmo, e isso é o que importa. A intensidade maníaca da realização de Walsh é tão inexorável que se vai acumulando muito naturalmente até ao clímax grandioso do "top of the world", uma imagem indelével de auto-imolação resplandecente. 

Embora Fúria Sanguinária seja frequentemente incluído em listas de filmes noir notáveis, até uma análise superficial mostra que carece da maior parte das características estilísticas e temáticas do género. O herói pode ser mais neurótico do que dez personagens de film noir juntas, mas o aspecto e o ambiente do género simplesmente não estão lá. É efectivamente significativo o facto de Walsh, que foi mais activo, e criativo, durante o apogeu do género, nunca se ter envolvido nele de todo. Fúria Sanguinária pode ser descrito de forma mais rigorosa como o último dos grandes filmes de gangsters, e o canto do cisne da estética tradicional da Warner. 

O período de Walsh na Warner demonstra não só a sua mestria sobre o filme de acção, como também um dom inesperado para a psicologia individual, especialmente no tratamento das personagens femininas. As relações têm primazia sobre a acção em They Drive by NightO Último Refúgio, e The Man I Love. As mulheres interpretadas por Ida Lupino nos primeiros dois filmes recebem pelo menos tanta atenção como os homens, enquanto a sua actuação como cantora de clube nocturno antes da libertação domina totalmente o terceiro. Muitas das primeiras secções de They Drive by Night focam-se na empregada sarcástica de Ann Sheridan, e a ênfase nas duas mulheres em Colorado Territory—especialmente a inconvencional Colorado Carson de Mayo—é, senão inaudita, pelo menos bastante invulgar num western. 

Esta ênfase em personagens femininas tornar-se-ia um traço dominante nos filmes de Walsh dos anos cinquenta. Ao mesmo tempo, e desviando-se raramente dos géneros de acção, tornou-se cada vez mais relaxado e moroso no seu tratamento da acção. O ritmo lento tornou-se a regra em vez da excepção. Não acontece grande coisa em The Tall Men, Band of Angels, ou mesmo Battle Cry ou Os Nus e Os Mortos todas produções grandes, vastas e com mais de duas horas de duração que partilham uma atmosfera decididamente indolente. Em Band of Angels, o esforço físico mais estimulante de Clark Gable é fechar uma janela durante uma tempestade. A soltura estrutural, uma característica de Walsh desde os seus filmes mudos, mas moderada durante o período da Warner, fornece o denominador comum para a maior parte dos seus filmes tardios. A indolência e a soltura deterioraram-se em qualquer coisa próxima do desleixo em A Distant Trumpet, o último filme de Walsh, que só pode ser descrito como um desastre, embora contenha de facto algumas das cenas de batalha mais incrivelmente encenadas e filmadas não só na obra de Walsh mas em todo o cinema americano. 

Durante a rodagem de A Distant Trumpet, Walsh disse a um entrevistador que uma cena de amor entre Troy Donahue e Suzanne Pleshette ia ser a mais importante no filme, e acrescentou: "Como em todos os meus filmes, toda a história gira à volta da cena de amor." Uma declaração bem surpreendente, mas não para ser descartada de forma superficial, porque embora não possa ser tomada literalmente (a cena entre Pleshette e Donahue acaba por ser um dos pontos baixos de A Distant Trumpet, e o interesse amoroso em muitos filmes de Walsh é frequentemente rotineiro e convencional), sustenta efectivamente o argumento de que há mais coisas em Walsh além da acção e da aventura. No entanto, a importância das cenas de amor não é assim tão significativa, nos filmes de Walsh dos anos cinquenta, as mulheres, não os homens, tendem a ser as personagens centrais, e esse envolvimento romântico raramente é a sua única, ou mesmo a sua maior, preocupação. 

Vários filmes de Walsh dos anos cinquenta lidam com a contenda de mulheres oprimidas para conseguir dignidade e independência, sejam uma escrava branca no sul de vésperas da Guerra Civil (Band of Angels), uma animadora de dance hall no Havai da Segunda Guerra Mundial (The Revolt of Mamie Stover), ou a mulher judia de Assuero a implorar que o seu povo seja poupado (Ester E o Rei). Mesmo num western como The Tall Men, a figura em foco acaba por ser a personagem de Jane Russell, apesar do título e das três vedetas masculinas de renome para o sustentar. Quando é confrontado com um filme de guerra, e portanto um elenco predominantemente masculino, Walsh usa os pretextos mais frágeis para deixar esgueirar o máximo de mulheres possível. A maior parte dos 149 minutos de duração de Battle Cry é dedicado a gente como Mona Freeman, Nancy Olson, Dorothy Malone, e Anne Francis a divertir-se agradavelmente com os seus namorados fuzileiros num esquecimento extasiante do que quer que signifique o título do filme. Em Os Nus e Os Mortos, que, ao contrário de Battle Cry, decorre quase integralmente no terreno, as mulheres são introduzidas não apenas nas conversas dos soldados, mas através de flashbacks (e.g., as cenas entre Aldo Ray e Barbara Nichols) e uma sequência onírica totalmente desnecessária em que Cliff Robertson se vê a si próprio como o mulherengo supremo a namorar uma meia-dúzia de beldades ao mesmo tempo (Walsh também tinha filmado um striptease aparentemente tórrido por Lili St. Cyr para a sequência de abertura, mas muito pouco conseguiu sobreviver às objecções do Código de Produção). 

The Revolt of Mamie Stover, Um Rei e Quatro Rainhas, Band of Angels, e Ester E o Rei formam um grupo coeso de filmes "femininos" cujas heroínas tentam escapar à sua condição social e do estado de subjugação em que ela as mantém. Nalguns casos, a heroína faz parte de um grupo feminino (as quatro noras em Um Rei e Quatro Rainhas, as animadoras de saloon em The Revolt of Mamie Stover, as raparigas do harém em Ester E o Rei) mantido sob regras rigorosas por uma mulher mais velha (i.e., assexuada) (Jo van Fleet como sogra das raparigas em Um Rei e Quatro Rainhas, Agnes Moorehead como Madame em Mamie Stover) ou, no caso de Ester E o Rei, um eunuco. Negam-se-lhes muitas actividades "normais", como o sexo e/ou o romance, e, no caso de Mamie Stover e das suas colegas, conviver com a "boa" sociedade local. Portanto os filmes estão estreitamente relacionados de forma temática sob as diferenças de género e de enredo. Por exemplo, Jane Russell interpreta praticamente o mesmo tipo de personagem em The Tall Men e The Revolt of Mamie Stover, uma jovem ambiciosa e diligente obcecada com o dinheiro e a ascensão social (além disso, ambos os filmes acabam com a mesma reviravolta improvável, com a heroína a renunciar às suas ambições e a optar pela vida "simples"). Band of AngelsEster E o Rei baseiam-se ambos no arquétipo da bela cativa cujos sentimentos para com o captor se alteram gradualmente do ódio e do escárnio para o amor. 

A atracção de Walsh por arquétipos talvez seja mais evidente em Um Rei e Quatro Rainhas, um pseudo-western cujo charme modesto reside menos na sua realização do que na indiferença do guião por tudo o que não se trate do realismo mais superficial, e as suas incursões irreverentes no domínio do mitológico e da fantasia. A sua premissa altamente rebuscada—sobre o dilema de quatro esposas que não sabem qual delas não é viúva—é matéria de conto de fadas (e, tal como acontece normalmente nos contos de fadas, as esposas pertencem a quatro irmãos). O filme joga com o encanto exercido por comunidades matriarcais e auto-suficientes, bem como o tema ligeiramente sado-masoquista da castidade imposta perante a presença de um aliciamento erótico intenso. Muito do seu humor deriva de uma inversão sistemática do equilíbrio sexual do poder, à medida que a situação de western clássica da mulher solitária entre os homens concorrentes é mudada para o homem solitário entre mulheres concorrentes (uma das cenas obrigatórias é invertida de forma muito literal quando Barbara Nichols apanha Gable sorrateiramente enquanto ele dá um mergulho despido). O tesouro escondido dos irmãos, outro recurso do conto de fadas—e o macguffin da história, em terminologia hitchcockiana—pode ser interpretado ou como metáfora ou como substituto (ou ambos) para a gratificação sexual. Tal como o sexo, o dinheiro é tabu, e a mãe dos irmãos guarda-o com a mesma vigilância com que guarda a castidade das "viúvas" (actuando como substituto do seu filho ainda vivo, seja ele quem for, anda sempre com uma espingarda manifestamente simbólica). Usando a atracção sexual como engodo, Gable e cada uma das mulheres formam parcerias experimentais com o propósito de obter o dinheiro escondido, embora qualquer um deles o pudesse igualmente conseguir por si próprio. A partir do momento em que uma destas parcerias se torna operacional, conduzindo assim à criação de um casal (Gable e Eleanor Parker, levando o saque com eles, afastam-se do grupo e do domínio repressivo da mãe), o dinheiro ja não cumpre qualquer propósito temático e pode ser descartado: sem mais delongas, Gable entrega-o a uma milícia de passagem. 

Um Rei e Quatro Rainhas não é um grande feito cinematográfico. A realização de Walsh é rotineira, por vezes mesmo descuidada (há vários planos que não combinam nas primeiras cenas), e visualmente aborrecida com a excepção de um travelling em plano geral de Gable a cavalgar por uma colina acentuada abaixo no final da sequência por baixo dos créditos. O contraste entre a personagem excessivamente sinistra de Jo van Fleet e a onerosidade de muito do humor (e.g., a piada sobre as galinhas a precisar de um galo) é consistentemente dissonante. A certo ponto no meio do filme, no entanto, Walsh concilia-se inesperadamente com a qualidade fantasiosa do material e insere um interlúdio deliberadamente irrealista: Gable a dançar à vez com cada uma das quatro mulheres enquanto elas rivalizam pela atenção dele, uma expressão pertinente do tema do filme em forma de comédia musical (é fornecido um acompanhamento de orquestra completa para quadrilhas na banda-sonora, embora o único instrumento musical em redor, na cena, seja uma concertina). 

As opiniões de forma geral são drasticamente divididas quando se trata de avaliar o período tardio de um dos grandes realizadores "clássicos". O que para alguns se traduz como decadência ou senilidade incipiente é elogiado por outros como a proeza da maturidade por excelência. Dependendo do ponto de vista de cada um, alguns dos filmes tardios de Howard Hawks ou Alfred Hitchcock apresentam-se como auto-caricaturas ou reformulações magistralmente aparadas do Weltanschauung dos realizadores. Não há razões para tal discordância violenta em relação aos filmes tardios de Walsh, embora se possa abrir uma excepção para a avaliação de A Distant Trumpet por alguns autoristas como o ponto culminante da sua carreira. Walsh ao decaiu nem se excedeu a si próprio, amadureceu, e o estilo relaxado dos seus anos tardios compensa no charme o que lhe possa faltar em potência. Pode-se argumentar que não fez nenhum "grande" filme mesmo depois de Fúria Sanguinária, e fez sem dúvida uns quantos bem fracos (e.g.. Glory Alley; Saskatchewan; The Sheriff of Fractured Jaw; A Private's Affair; Marines, Let's Go), no entanto o seu período final, embora não seja o mais bem sucedido dele, é o mais pessoal, e provavelmente o mais apelativo. Para dar apenas um exemplo, Ester E o Rei é consistentemente comovente apesar de uma absurdidade à superfície que Walsh escolheu ignorar, trabalhando de dentro, por assim dizer, e com uma delicadeza tão espantosa que a nossa sensação de algo de vagamente errado em todo o projecto bem como em muitos planos individuais é balanceado de forma eficaz por um sentido predominante de aptidão na realização. Por isso, é possível concordar com o crítico dos Cahiers du Cinéma que descreveu o filme como "o mais puro exemplo do génio de Walsh," embora o seu "génio," neste caso, fosse claramente lidar com material e circunstâncias que iam acabar por impedir o filme de atingir a grandeza. 

A carreira de Walsh é tão formidável como a de John Ford em termos de produção, longevidade, e dedicação pura ao ofício, mas no entanto, embora tenha de facto importância histórica quando considerada como um todo, só alguns dos seus filmes podem ser incluídos em qualquer lista razoavelmente selectiva de "clássicos" da tela. Contudo, esse facto é irrelevante como critério para avaliar a estatura de Walsh. Não se deve andar em busca de "marcos" na sua filmografia, mas ficar grato pelos muitos momentos de prazer que proporciona. Como demonstra a maior parte da literatura sobre Walsh, a qualidade desse prazer é extraordinariamente difícil de analisar. Qualquer pessoa que já tenha desesperado com as insuficiências da linguagem crítica e com a sua incapacidade em transmitir certas experiências estéticas, devia sentir simpatia por um crítico—como Michel Marmin no seu Raoul Walsh—que sustenta que, em resposta à beleza, "o silêncio é a prova mais calorosa de gratidão." A beleza de filmes como Sea Devils—que provocou esta observação—talvez não seja sublime ao ponto de deixar os críticos mudos, mas é de uma natureza que induz um certo desamparo. É mais sensato reconhecer este desamparo do que racionalizar um sentimento de euforia esquivo numa apreciação puramente intelectual. Os filmes de Walsh lembram-nos que raramente conseguimos deslindar o que nos afecta realmente nos filmes.


Creditado como R. A. Walsh nos primeiros filmes mudos. 

Mudos:
1915—Regeneração; Carmen; 1916—The Serpent; Blue Blood and Red; 1917—The Honor System; The Silent Lie; The Innocent Sinner; Betrayed; The Conqueror; This Is the Life; The Pride of New York; 1918—A Mulher e a Lei; The Prussian Cur; On the Jump; Every Mother's Son; I'll Say So; 1919—Evangeline; Should a Husband Forgive?; 1920—The Strongest; The Deep Purple; From Now On; 1921—The Oath; Serenade; 1922—Kindred of the Dust; 1923—Lost and Found on a South Sea Island; 1924—O Ladrão de Bagdad; 1925—East of Suez; The Spaniard; 1926—The Wanderer; The Lucky Lady; The Lady of the Harem; O Preço da Glória; 1927—Macaco Falante; Loves of Carmen; 1928—Sadie Thompson; A Dança Vermelha; Me, Gangster 

Sonoros:
1929—In Old Arizona (co-realizador: Irving Cummings); The Cock-Eyed World; Hot for Paris; 1930— The Big Trail; 1931—The Man Who Came Back; Mulheres de Todas as Nações; The Yellow Ticket; 1932—Wild Girl; Me and My Gal; 1933—Sailor's Luck; The Bowery; Vamos para Hollywood; 1935—Under Pressure; Baby-Face Harrington; Every Night at Eight; 1936—Klondike Annie; Big Brown Eyes; Spendthrift; 1937— O.H.M.S. (Grã-Bretanha; E.U.A., You're in the Army Now, 1937); Jump for Glory (Grã-Bretanha; E.U.A., When Thief Meets Thief); Artistas e Modelos; Hitting a New High; 1938—College Swing; 1939—St. Louis Blues; Heróis Esquecidos; 1940—Comando Negro; They Drive by Night; 1941—O Último Refúgio; Uma Loira com Açúcar; Manpower; 1942—Todos Morreram Calçados; Jornada Trágica; Gentleman Jim; 1943—Background to Danger; Northern Pursuit; 1944—Uncertain Glory; 1945— Objectivo Burma; Salty O'Rourke; The Horn Blows at Midnight; 1947—The Man I Love; Pursued; Cheyenne; 1948—Rio da Prata; Fighter Squadron; 1949—One Sunday Afternoon; Colorado Territory; Fúria Sanguinária; 1951—Along the Great Divide; Captain Horatio Hornblower; Distant Drums; 1952—Glory Alley; O Mundo nos Seus Braços; Barba Negra, o Pirata; 1953—The Lawless Breed; Sea Devils; A Lion Is in the Streets; A Fúria das Armas; 1954—Saskatchewan; 1955—Battle Cry; The Tall Men; 1956—The Revolt of Mamie Stover; Um Rei e Quatro Rainhas; 1957—Band of Angels; 1958—Os Nus e Os Mortos; The Sheriff of Fractured Jaw (Gra-Bretanha; E.U.A, 1959); 1959—A Private's Affair; I960—Ester E o Rei (co-realizador creditado em Itália: Mario Bava); 1961—Marines, Let's Go; 1964—A Distant Trumpet 

Não creditados:
1933—Hello, Sister! (sem realizador creditado; co-realizadores não creditados: Erich von Stroheim, Alfred L. Werker); 1945—San Antonio (David Butler); 1947—Stallion Road (James V. Kern); 1950— Montana (Ray Enright) 1951—The Enforcer (Bretaigne Windust; Walsh parece ter realizado a totalidade ou virtualmente a totalidade deste filme) 

Créditos de realização não determinados diversos:
1914—The Life of Villa (Christy Cabanne?; co-realizador possivelmente não creditado: Raoul Walsh); 1916— Pillars of Society

in «American Directors», Volume 1, McGraw-Hill Book Company, 1983, pp. 350-357.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

HIGH SIERRA (1941)


1941 – USA (100') ● Prod. Warner (Hal B. Wallis) ● Real. RAOUL WALSH ● Gui. John Huston e W.R. Burnett a p. do R. de W.R. Burnett ● Fot. Tony Gaudio ● Mús. Adolph Deutsch ● Int. Ida Lupino (Marie Garson), Humphrey Bogart (Roy Earle), Alan Curtis (Babe Kozak), Arthur Kennedy (Red Hattery), Joan Leslie (Velma), Henry Hull (Doc Banton), Henry Travers (Pa Goodhue), Jerome Cowan (Healy), Minna Gombell (Sra. Baughman), Barton MacLane (Jack Kranmer), Elizabeth Risdon (Ma), Cornel Wilde (Louis Mendoza), Donald MacBride (Big Mac), Paul Harvey (Sr. Baughman). 
 
Nativo do Indiana, o gangster Roy Earle, condenado à perpétua, recebeu o seu perdão do governador e é libertado depois de oito anos de encarceramento. A primeira iniciativa dele ao sair da prisão de Chicago é ir passear num parque. Ele deve a sua libertação ao seu associado Big Mac que, agora muito doente, tinha preparado o assalto de um hotel de luxo em Palm Springs para ele. Depois de ver de novo a sua quinta natal, Roy viaja para a Califórnia. Contempla ao longe, fascinado, o Monte Whitney, o pico mais alto dos Estados Unidos. Conhece um casal de agricultores do Ohio que se vêm instalar na região. A filha deles, a encantadora Velma, sofre de um pé torto. Roy junta-se aos dois cúmplices que Big Mac lhe atribuiu, Red e Babe, no seu refúgio de montanha. Babe vive lá com uma rapariga, Marie, dançarina de cabaret, o que não agrada nada a Roy. Uma vez resolvido o plano de ataque graças às informações fornecidas por Mendoza, um empregado do hotel, Roy vai ter com a família de Velma. Conversa com ela a olhar para as estrelas. Depois vai ver outra vez Big Mac que nunca deixa a cama e evocam juntos os bons velhos tempos. Roy leva o seu amigo, o doutor Banton, para examinar Velma. Ele diz que a operação é muito possível e recomenda um cirurgião. Ao voltar para o acampamento na montanha, Roy encontra Red e Babe a meio de uma luta por causa de Marie. Usando a força, restabelece a paz entre eles e quer-se livrar da jovem. Ela suplica-lhe que lhe dê uma oportunidade. Contando-lhe a sua vida, apaixona-se muito rápido por ele. Roy aceita mantê-la. Volta a ver Velma, cuja operação que ele financiou foi perfeitamente bem sucedida. Pede-a em casamento mas ela não o quer. O assalto ocorre como previsto. Os cofres são esvaziados do seu conteúdo em jóias. Mas surge um polícia no final da operação e o ser aparecimento provoca um tiroteio. Roy foge com Marie. O outro veículo, onde desaparecem Red, Babe e Mendoza, tem um acidente grave. Só Mendoza vai sobreviver, e «vai despejar tudo». Como combinado, Roy vai entregar as jóias a Big Mac mas encontra-o morto. O tenente dele, Kranmer, quer-se apoderar das pedras. Fere Roy, que o mata. Roy vai-se tratar a casa do amigo Benton e volta a casa de Velma que o rejeita definitivamente. Está prestes a casar-se com um antigo noivo. Roy contacta o intermediário indicado por Big Mac e vai esperar pela sua parte durante vários dias. O jornal fala do trio que ele forma com Marie e o cão que traz má sorte que adoptaram. Decide separar-se provisoriamente de Marie. A polícia persegue-o enquanto se dirige de carro para as montanhas altas da Sierra Nevada. Tem de acabar o caminho a pé e esconde-se entre as rochas. É logo cercado pelos polícias e tem de suportar um cerco sem esperança. Um atirador vai matá-lo, apanhando-o pelas costas. Correndo para o socorrer, Marie não pode fazer nada por ele. 
 
► Sem ser uma obra-prima, o filme tem uma dupla importância na carreira de Bogart e na de Walsh. Para o seu quarto filme com Walsh (cf. Women of All Nations, 1931, The Roaring Twenties, 1939, They Drive by Night, 1940), Bogart, mesmo antes das obras decisivas que iam dar um carácter mitológico à sua personagem (A Relíquia Macabra, 1941, Casablanca, 1943) administra – pela primeira vez – a prova dos seus dons num primeiro grande papel, «positivo» e trágico. Está sozinho como estrela e, embora tenha interpretado muitas vezes papéis de «vilões», aqui suscita a simpatia do público ao longo de um itinerário trágico cuja responsabilidade, no plano dramático, repousa inteiramente sobre os seus ombros. (Bogart conseguiu o papel porque George Raft o recusou, não querendo morrer no final. Foi seguido na sua recusa por Paul Muni, James Cagney e Edward G. Robinson.) Os pontos de contacto entre Walsh e Bogart, apesar da estima mútua entre os dois homens, são diminutos. Bogart é um actor demasiado racional, demasiado controlado, e a sua personagem é um «homem honesto» de forma demasiado fundamental para convir inteiramente a Walsh. Falta-lhe esse excesso, esse ardil, essa monstruosidade e esse aspecto picaresco indispensáveis aos heróis walshianos, ou noutro registo, essa passividade trágica que um Joel McCrea vai exprimir na perfeição em Colorado Territory, remake em western de High Sierra. A década de 30-39 não tinha sido muito favorável para Walsh. Se a tinha começado de forma admirável com The Big Trail, um dos filmes faróis da sua carreira, daí em diante não tinha conseguido prolongar ímpeto de uma forma verdadeiramente digna dele. High Sierra é apaixonante como início do grande regresso de Walsh e pelos esforços do realizador, parcialmente coroados com sucesso, para transformar a personagem de Roy Earle em herói walshiano de pleno direito e para dar ao conjunto do filme uma dimensão cósmica, essencial à sua obra. Através de Roy Earle, Walsh tenta fazer o retrato de um personagem dominado por uma necessidade desesperada e quase obsessiva de liberdade. A sua natureza e o seu carácter impelem-no para fora da cidade, para fora da sociedade (e portanto para fora do film noir), três domínios que restringem a sua experiência e o asfixiam. Só consegue estar à vontade perto dos picos, nos grandes espaços, nas solidões do ilimitado na direcção do qual o empurra, mesmo quando é demasiado tarde, o seu instinto animal (cf. as sequências da perseguição final). As alturas da Sierra Nevada são de alguma forma o cemitério dos elefantes deste personagem, demasiado apertado na sociedade, no papel – e na etiqueta – que ela lhe colou às costas. O fatalismo do filme, que é interessante estruturalmente quando assegura uma ligação entre o universo do filme de gangsters e o do film noir, expressa-se frequentemente de forma artificial e repetitiva (cf. o papel do cão). Walsh sente esse fatalismo como uma limitação, evidentemente. Isso deve-se sem dúvida ao guião de Huston. Bem preferível para ele será a adaptação do romance de Burnett pelo seu amigo e colaborador de sempre, John Twist, em Colorado Territory. Bela composição de Ida Lupino, uma actriz que se integra sempre de forma admirável no universo walshiano; o filme confirmou a celebridade que tinha acabado de adquirir sob a direcção de Walsh em They Drive by Night

N.B. Remakes: Colorado Territory (Walsh, 1949), I Died a Thousand Times (Morri Mil Vezes, Stuart Heisler, 1955). Este último filme, de estilo mais primitivo que High Sierra, é uma obra forte e cativante, muitas vezes mais comovente que o filme de Walsh. Jack Palance, Shelley Winters e Lori Nelson retomam os papéis de Bogart, Lupino e Joan Leslie.

Jacques Lourcelles, in «Dictionnaire du Cinéma - Les Films», Robert Laffont, Paris, 1992.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

ERROL FLYNN: GALANTERIA A TODA A SELA


por João Bénard da Costa

Dentro de um mês (mais precisamente a 14 de Outubro) fará 30 anos que Errol Flynn morreu. Há cerca de um mês (mais precisamente a 20 de Junho) fez 50 anos que Errol Flynn nasceu. E há 50 anos (o ano da guerra) Errol Flynn era, aos 30 anos, o mais popular dos astros de Hollywood. Se 1939, em termos de cinema americano, foi o ano de todos os milagres, para ninguém foi mais milagroso do que para ele. «The Perfect Specimen», como lhe chamava o título de uma das suas fitas de 1937.

Não sei se Errol Flynn foi ou não the perfect specimen. Todas as lendas, todos os relatos, lhe atribuem facetas contraditórias e nalguns casos chegam mesmo a atribuir-lhe uma personalidade sinistra. Em 1980, Charles Higham publicou um livro explosivo: Errol Flynn, the Untold Story, onde baseado em muita documentação e testemunhos ditos insuspeitos, tentou provar que o actor fora espião ou, pelo menos, agente duplo, pago pelos nazis e pelo FBI. Incidentalmente, jurava também que o «macho» fora bissexual e tivera histórias, entre outros, com Howard Hughes e Tyrone Power.

The Untold Story ou The Very, Very, Told Story serviu já para um telefilme que passou na RTP há uns anos e deu pasto a não sei quantos artigos, livros, defesas e ataques. Talvez o mais fidedigno seja o das memórias que escreveu com a ajuda de um ghost-writer e foram publicadas postumamente. Título: My Wicked Wicked Ways. Em epígrafe, São Paulo, Isaías e o livro dos Salmos são convocados para amaldiçoar os danados (wicked), jurando-lhes que jamais terão paz, e que as dores de todos os mundos cairão sobre as cabeças deles. Errol Flynn diz detestar particularmente aquele género de livros que começa com coisas do género: «Ah, que alegria e felicidade houve na graciosa casa do professor Flynn quando se ouviram os primeiros vagidos do pequenino Errol.» A «graciosa casa» ficava em Hosbart, na Tasmânia (Austrália) e Flynn, que detestou convocá-la, amou recordar o sarcophilus ursinus, um marsupial carnívoro, conhecido pela sua extrema ferocidade, e, por isso mesmo, chamado «o demónio da Tasmânia».

Pode ser que Flynn tenha sido um demónio, mas, trocando a biografia pela filmografia, nenhuma imagem lhe convém menos do que a de sarcophilus ursinus. Se houve, alguma vez, no cinema um leal cavaleiro, ele chamou-se Errol Flynn, e como lhe rezava o epitáfio na Carga da Brigada Ligeira (The Charge of the Light Brigade, de Michael Curtiz, 1937) nunca um homem morreu tão galantemente como ele, quando, à frente da 27ª Divisão dos Lanceiros, atirou a cavalaria contra a artilharia russa, no Vale da Morte, na Crimeia. E com os seus «onward, men!» matou Surat Khan antes de morrer ele próprio, com os seus homens todos, os seus cavalos todos, ao som de Max Steiner e de Tennyson. Ninguém que tenha visto essa carga de cavalaria deixará para sempre de amar Flynn, na primeira dessas mortes heróicas with his boots on, que continuariam até ao filme que glosou esse título, realizado por Raoul Walsh em 1942 e que em Portugal se chamou, literalmente, Todos Morreram Calçados.

Errol Flynn não teve grande reputação como actor, junto de gente séria, nos 17 anos (1935-1952) da sua máxima glória e popularidade. Nunca percebi porquê. Jack L. Warner, um dos irmãos da firma que o teve sob contrato nesses Flynn years, também o achava de medíocre talento. Mas verificava que, para todos os Walter Mitty do mundo, « he was all the heroes in one magnificent, sexy, animal package... Actor or no actor, he showered an audience with sparks when he laughed, when he fought or when he loved». E chamou-lhe, em hora mais lúcida, «one of the most charming and tragic men I have known».

Precisamente, essa mistura de encanto e tragédia deu a Errol Flynn o lugar único entre tantos dos seus émulos da altura, talhados no mesmo molde: o bigodinho, a insolência, a virilidade, a natural autoridade. Só que Flynn foi sempre, não mais vulnerável do que os outros, mas mais fremente, mais marcado pela aura da marginalidade. Não sei porque se espantaram tanto aqueles que descobriram que o homem tinha duas caras e fazia jogo duplo. Acaso não as teve sempre, acaso não o fez sempre nos seus filmes mais célebres? Acaso Robin Hood não era um bandido, mesmo que em floresta célebre, e não assaltava inocentes antes de escolher tomar partido por Ricardo contra João? Acaso o capitão Thorpe não era mesmo torpe, antes de resolver servir Isabel de Inglaterra contra os espanhóis em The Sea Hawk (O Gavião dos Mares) de Curtiz, em 1941? Acaso todos os feitos que fez no mar os não fez como pirata - deste o mítico Captain Blood do mesmo Curtiz, em 1935? Acaso todos os feitos que fez em terra os não fez ou como vilão a pouco e pouco enobrecido ou como militar a pouco e pouco indisciplinado?

A mítica carga resultou de uma desobediência qualificada. Só foi parar ao Dakota e a Little Big Horn (They Died With Their Boots On), porque bebia de mais. Os personagens de Flynn, os heróis de Flynn, são sempre os mais excessivos, os mais crispados, os mais neuróticos. E apanhavam-no sempre por um visível calcanhar de Aquiles (geralmente whisky muito velho ou mulheres muito novas) a ele que nessa guerra de Hollywood - que, como a de Tróia, durou dez anos - foi sempre mais parecido com Ajax do que com qualquer outro dos heróis de Agamémnon.

Comparem-se os dois lendários filmes de piratas do ano de 1935, o ano em que ele nasceu como big star. Captain Blood e Mutiny on the Bounty (Frank Lloyd). Na Bounty, o imediato Fletcher (Clark Gable) teve todas as razões, até segundo os códigos navais, para acabar por se revoltar contra o despótico Laughton. Se falhou nalguma coisa, foi na demora e por isso o tribunal o absolveu, no fim. Nenhum tribunal do mundo teria absolvido o capitão Blood que, se veio a ter razão política (escolheu Guilherme de Orange contra o legítimo Jaime II), nunca teve razão moral. A não ser a que lhe deu Olivia de Havilland no primeiro dos oito filmes que fez nos braços dela.

No segundo (A Carga), pressentia-se que era mais pela coita de amor com Olivia e por orgulho ferido do que por nobres razões que se lançava - ligeiramente - para o massacre da morte mais grave. No remake de The Dawn Patrol (Goulding, 1938), cantava que «This world is a world of lies ! ... Hurrah for the next man who dies». Em Dodge City (Vida Nova de 1939), seu primeiro western e sexto dos onze filmes em que foi dirigido por Michael Curtiz, era um irlandês a que nada de humano fora estranho, no pior e no pior sentido. Diz-se que foi depois do êxito desse filme que a Warner desistiu de lhe ensinar maneiras, percebendo que o fascínio de Flynn provinha de não ter nenhumas.

Bette Davis nunca se consolou de o ter a ele e não a Olivier como Essex da sua Isabel de Inglaterra de 1939 (sétimo Curtiz), mas achou que «Errol was someting to watch», e achou-o a ponto de lhe mandar cortar a cabeça para não ver demais. Em Virginia City (oitavo Curtiz), era um evadido da prisão, que roubava qualquer coisa como cinco milhões e se apaixonava por uma corista duvidosa (Miriam Hopkins).

Em 1941, acabou a fase Curtiz da carreira de Flynn e começou a fase Walsh. Nunca duas forças da natureza se combinaram tão bem como nos sete filmes que fizeram juntos: They Died With Their Boots On (1942). Desperate Journey (1942) - e quem como Flynn podia acabar um filme em que andou a matar nazis a clamar: «Now for Australia and a crack at the Japs!»? - Gentleman Jim (1942); Northern Pursuit (1943 - em que há aquele plano em que jura a Julie Bishop que nunca amou outra mulher e depois se vira para a câmara - para nós - pisca o olho e diz: «What am I saying?» - Uncertain Glory (1944); Objective, Burma! (1945); Silver River (1948).

É o septeto mais irridente - mais irrisório - com o papel mais espantoso em Gentleman Jim, como foi conhecido Jim Corbett, o homem que venceu John L. Sullivan (Ward Bond) e impôs o boxe como nobre arte.

Se ninguém morreu mais galantemente do que ele na Crimeia, ninguém recebeu o aviso do destino mais tragicamente do que Errol quando, no fim, lhe aparece ao espelho o fantasma do adversário a felicitá-lo pela vitória. Flynn respondeu-lhe que, quando a sua hora chegasse, esperava retirar-se com metade dos amigos de Sullivan e metade do respeito que este conseguira. E acrescenta: «Nunca mais haverá outro John L. Sullivan

Acredito que, nesse dia, ele tenha pensado que nunca mais haverá outro Errol Flynn. E não há. Quase todos os outros ídolos da época encontraram - mais ou menos - sucessores. Só ele - e Bogart - foram rigorosamente inimitáveis. Bogart nunca decaiu, como Flynn, entre tanta coisa pesada, nos anos 50. Mas, até na decadência irrecusável, manteve o ar de audácia que, como o Durward de Walter Scott, o fez sempre figurar entre os vencedores e jamais entre os vencidos. Principalmente - muito principalmente - nas grandes derrotas.

Hollywood fechou-se sobre o corpo dele e de alguns mais. Em 1957, morreu Bogey. Em 1958, Tyrone Power. Em 1959, Errol Flynn. Em 1960, Clark Gable. Em 1961, Gary Cooper. Em seis anos sucessivos «foram-se pouco a pouco amortecendo» os astros «que nestes sonhos nos guiaram» «olhos fitos nos quais até contávamos.» Tanta coisa, tanta coisa que contávamos.

Hoje, sem Flynn nem galanteria, morremos «with our boots off». On ficou ele. Ou os outros, como ele, que voltaram nas transparências finais, a recapitular, ressuscitados, a arte de bem cavalgar a toda a sela.

in «Muito Lá de Casa», Assírio & Alvim, Lisboa, 1993.

sábado, 4 de julho de 2020

THEY DIED WITH THEIR BOOTS ON (1941)


1941 – USA (140’) ● Prod. Warner (Hal B. Wallis) ● Real. RAOUL WALSH ● Gui. Wally Kline e Aeneas Mackenzie ● Fot. Bert Glennon ● Mús. Max Steiner ● Int. Errol Flynn (George Armstrong Custer), Olivia de Havilland (Elizabeth Bacon Custer), Arthur Kennedy (Edward « Ned » Sharp, Jr.), Charles Grapewin (California Joe), Gene Lockhart (Samuel Bacon), Anthony Quinn (Crazy Horse), Stanley Ridges (Major Romulus Taipe), John Litel (general Philip Sheridan), Walter Hampden (William Sharp), Sydney Greenstreet (general Winfield Scott), Regis Toomey (Fitzhugh Lee), Hattie McDaniel (Callie). 

West Point, 1857. O jovem cadete George Armstrong Custer, vestido com um uniforme extravagante que mandou fazer à semelhança do de Murat, chega todo fogoso à célebre escola militar. É vítima de uma farsa de Ned Sharp, que vai ser o seu principal inimigo ao longo de toda a vida. O pior classificado dos alunos da sua turma, mas especialista em todos os exercícios militares e mais apto que qualquer outro a suscitar o entusiasmo dos seus subordinados, Custer vê-se patenteado com um ano de avanço para se poder ir alistar em Washington, pouco depois do início da guerra de Secessão, na 2ª Cavalaria. O general Scott, de quem se fez amigo, acelera o seu destacamento. Em 1861, Custer participa na batalha de Bull Run. Recusa obedecer ao seu superior Ned Sharp, põe-no K.-O. e passa ao ataque em vez de seguir uma ordem de retirada, em recompensa do que o general Sheridan lhe vai dar uma licença e uma medalha. Em Monroe, Michigan, a sua cidade natal, Custer encontra a jovem Elizabeth Bacon por quem se tinha apaixonado à primeira vista em West Point e pede que se case com ele quando se tornar general. De qualquer forma, o avanço dele anda mais rápido que as suas esperanças mais loucas e ei-lo efectivamente tornado general à cabeça da Brigada do Michigan, promoção que ao princípio vai tomar por uma boa farsa. Desobedece mais uma vez às ordens e toma a iniciativa de ir atacar as tropas de Jeb Stuart em Hanover com o 7º regimento do Michigan. É um fracasso. Volta ao assalto com os 5 e 6º regimentos; novo fracasso. Com o 1º regimento, provoca a rendição de Stuart e permite assim aos nortistas alcançar a vitória em Gettysburg. No regresso, é celebrado como herói e casa-se com Elizabeth. Ned Sharp e o seu pai William Sharp querem fazer as pazes com ele e pedem-lhe para ser o presidente da sua companhia de caminhos de ferro. Esperam assim vender inúmeras acções, graças à glória associada ao seu nome. Custer recusa. Agora que a guerra acabou, a inactividade pesa-lhe. A mulher vai ter de solicitar junto do general Scott um destacamento para ele, porque se pôs a beber. Sacrificando o seu conforto e a sua vida dourada, parte com Custer para Fort Lincoln, no Dakota. O primeiro feito de armas de Custer será deter Crazy Horse, o chefe dos Sioux. Descobre que Ned Sharp, proprietário de um bar, vende armas aos índios. Sem se preocupar com os procedimentos legais, manda fechar esse bar e põe fim ao tráfico de armas. Crazy Horse é libertado por um dos seus. Custer reformula a 7ª Cavalaria e dá-lhe a sua canção preferida, a melodia irlandesa «Garry Owen». Pacifica a região. Crazy Horse promete que o seu povo vai abandonar todos os seus territórios, com a condição de lhe deixarem o santuário dos Black Hills. Ameaça reunir todas as tribos e dar um último e sangrento combate se o acordo, uma vez assinado, for violado. Isto tudo não é conveniente para os negócios de Ned Sharp, que para retomar o comércio faz correr o boato, com o pai e o major Paipe (com quem Custer tinha outrora entrado em conflito em West Point), de que há ouro nos Black Hills. Para o sucesso do seu plano, os três homens precisam que Custer seja eliminado. Taipe faz reabrir o bar de Sharp antes de passar em revista o regimento de Custer, enquanto comissário do governo. Os cavaleiros estão todos bêbados: é uma debandada geral. Louco de raiva, Custer bate em Taipe. Vai a tribunal marcial em Washington. Sabendo-se vítima de uma conspiração, não consegue fazer-se ouvir e não vai poder provar que Taipe tinha sido comprado por Ned Sharp e o pai. Vai implorar ao Presidente Ulysses Grant que lhe restitua o seu comando e é bem sucedido. Como tinha anunciado Crazy Horse, as tribos índias executam a sua fusão, depois dos Black Hills serem infestados de exploradores de ouro. Na véspera do último combate, Custer obriga Sharp a esvaziar com ele uma garrafa de álcool. Custer faz um brinde à glória e Sharp ao dinheiro. Quando este último está morto de bêbado, Custer faz com que seja levado para o local dos combates. Depois despede-se da mulher e lê no seu diário íntimo que tem o pressentimento do desastre. Na batalha de Little Big Horn (25-6-1876), os homens da valorosa 7ª Cavalaria, lutam a dez contra um, caem numa emboscada e são massacrados. Ned Sharp, que não teve outra escolha senão combater, morre de armas na mão, pouco antes de Custer receber o golpe fatal. O seu sacrifício ajudou a infantaria do general Terry a aguentar-se até à chegada do general Sheridan. Depois da morte de Custer, a mulher utiliza uma carta dele para obrigar Taipe a demitir-se e consegue que o território dos Black Hills seja definitivamente entregue aos Sioux. 

► Primeiro dos sete filmes que rodou com Errol Flynn na Warner, eis a obra-prima épica de Walsh para os anos 40 e 50. Flynn estava um bocado cansado da direcção ditatorial de Curtiz, com quem tinha feito doze filmes em seis anos, e essa fatiga, fortuita para a história do cinema, permite a Walsh explorar nele novas formas de sensibilidade e desenvolver, através de uma série prestigiosa de filmes, outras facetas da sua personalidade, umas vezes comoventes, outras vezes irónicas ou cínicas. Mantendo a sua distância em relação à História, deixando de lado o aspecto ambíguo e contestado do verdadeiro Custer, Walsh edifica com Flynn uma figura deliberadamente mítica, encarregada de exprimir o seu culto do heroísmo e dos valores que considera essenciais. Custer aparece aqui como um homem que vê de forma precisa, que diz a verdade, que odeia as concessões e cujo sacrifício sem ilusões servirá ao mesmo tempo a causa do seu país e a dos índios. Através das peripécias de um fresco biográfico que se espalha por 20 anos, Walsh também vê nesta personagem a oportunidade de dar vazão ao seu ódio pela política baixa, a especulação e a ditadura do dinheiro. Flynn encarna certamente uma personagem directa: apesar das virtudes que ele defende e o ódio que sente pelos Sharp, Taipe e outros tristes coexistirem mal dentro de si e o empurrarem finalmente para o caminho do sacrifício e da tragédia. O filme tem, sobretudo na última parte, algumas das melhores sequências da obra de Walsh. Não se pode esquecer a cena comovente e elegante da despedida de Flynn a Olivia de Havilland (neste último dos oito filmes que rodariam juntos) e, naturalmente, a carga final onde triunfa o estilo único de Walsh, aliando como ninguém o soube fazer a amplidão ao estremecimento, o frenesim dos planos aproximados à serenidade grandiosa dos planos de conjunto, verdadeiras pinturas, iguais em génio à mais bela pintura americana e, por exemplo, à de Remington que Walsh adorava. 

N.B. Assinale-se algumas das aparições mais importantes da personagem de Custer no grande ecrã: nos traços de Ronald Reagan, como jovem amigo e companheiro de Jeb Stuart (Errol Flynn) lutando contra John Brown (Raymond Massey) no muito negro e muito dramático Santa Fe Trail de Michael Curtiz (1940); em Fort Apache de Ford (1948); como paspalho ridículo e abominável (Robert Mulligan) em Little Big Man (1970), o grande fresco picaresco e desmistificador em que Arthur Penn se inspirou no romance de Thomas Berger. Em 1967, Robert Siodmak rodou em Espanha um filme dedicado a Custer (Custer of the West) interpretado por Robert Shaw. É uma obra que dá uma no cravo e outra na ferradura e em que Siodmak não consegue, apesar dos seus esforços, transmitir uma síntese convincente da personagem. Custer inspirou igualmente, mais ou menos, várias personagens de westerns que levam outros nomes: como o oficial interpretado por Robert Preston em The Last Frontier de Anthony Mann (1955).

Jacques Lourcelles, in «Dictionnaire du Cinéma - Les Films», Robert Laffont, Paris, 1992.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Um olhar sobre Raoul Walsh


por Jean-Claude Biette

Ao longo de toda a produção de Raoul Walsh podemos observar um conjunto de traços comuns a muitos filmes de Hollywood do período áureo anterior ao separatismo conquistador da televisão, quando o reinado dos géneros, como o western, o filme de aventuras ou o filme de guerra (para citar apenas aqueles em que Walsh realizou os seus melhores filmes) tinha tido tempo de correr riscos, de avançar livremente, de encontrar regras, de se tornar mais denso, de se tornar mais clássico, de perdurar em majestade finita.

Nessa altura, a narrativa opunha-se à dramaturgia num duelo[1] em que esta última era a parceira antagónica privilegiada, ao passo que o projecto formal, quase minoritário a cada novo passo, não ultrapassava a aplicação correcta, ou elegante, na melhor das hipóteses, de um certo número de convenções tacitamente aceites por todos, produtores, realizadores, actores, técnicos, público e crítica do período anterior a qualquer política de autores. Desde o fim do cinema mudo, a câmara tem a missão de fazer esquecer a sua presença para que o mundo representado, visto e ouvido no menor dos filmes, graças a uma complexa e pesada aparelhagem técnica (a narrativa e a dramaturgia são também técnicas, por mais antigas que sejam), com a obscuridade da sala a completar a autentificação do brilho ou da intensidade do filme, surja tão verosímil como o real natural, como se o real se pusesse de repente, nesta condensação de acções encadeadas, de movimentos múltiplos e de mudanças de perspectiva, a contar histórias e a produzir dramaturgia.

Foi esse o credo tácito do cinema hollywoodiano, que durante muito tempo se exprimiu nesta língua comum, antes de começar no início dos anos 40 a perder um pouco da sua segurança de uma grande comunidade.

Orson Welles como elefante branco e Jacques Tourneur como térmite, foram os primeiros a incomodar o formigueiro. Em breve, outros cineastas fariam ponto de honra secreto em modificar as palavras e, a seguir, as frases da linguagem comum utilizada, que se perpetuaria no pós-guerra: Samuel Fuller, Nicholas Ray ou Anthony Mann, cujo estilo, a escolha dos ingredientes dramatúrgicos e a liberdade conquistada para as suas personagens são a afirmação de que o cinema mudava, que podia e queria ser novo. Na sua maturidade próxima, Run of the Arrow, Johnny Guitar e The Far Country, para tomarmos apenas o western como exemplo, são filmes ainda enraizados na crença de que um género é uma coisa suficientemente flexível e viva para poder acolher os desvios ideológicos e existenciais que separam as gerações. Esta tomada de poder estilístico sobre a "realidade" anterior inocentemente aceite por todos como linguagem universal de Hollywood (visto que Hollywood é quase o universo) terá, além disso, permitido que jovens críticos e futuros cineastas estabelecessem algumas referências preciosas (à custa de ver pouco Ford e ainda menos Walsh); e a televisão preparava a sua ascensão enquanto os géneros declinavam lentamente. Quando só o cinema reinava, os géneros estavam lá para estabelecer na sociedade uma repartição de territórios com fronteiras: alguns tinham a função de falar das realidades da altura, outros tinham a função de as fazer esquecer. Entre a função do género e o objecto daí resultante existia toda a distância que separa um bom realizador de um autêntico encenador ou de um cineasta. Assim, as preocupações de uma época podiam ser exprimidas por um desvio de cineasta (por vezes favorecido por um argumento, quando não o era por uma produção) dentro de um género em que elas não tinham lugar. É o caso do mccarthysmo codificado em westerns como Johnny Guitar ou ainda Silver Lode de Allan Dwan.

Nos anos 40, todos os filmes de Walsh atingem o cumprimento feliz do seu programa narrativo dentro dos limites consentidos - na melhor das hipóteses, ou ditados, no pior dos casos - pela casa de produção, a Warner Bros. Deste modo, os filmes - de mar, de guerra, de aventuras, westerns - cujo actor principal é Errol Flynn têm em comum o facto de, quer tenham sido realizados por Walsh ou por outro (digamos, por exemplo, Curtiz), contarem uma história combinando acções e peripécias segundo um encadeamento no qual as raras pausas reservadas à dramaturgia - ou seja, um tempo para que os actores dêem algum livre curso a uma interpretação controlada - estão previstas de modo a que a acção seja retomada de forma ainda mais vigorosa. Talvez se deva a esta época a pouca teorização que Walsh exprimiu quando dizia que o cinema era "acção, acção, acção", coisa que qualquer outro realizador poderia ter dito.

O primeiro filme de Walsh da série Flynn foi They Died with Their Boots On, em 1941, e o último foi Silver River, em 1948. Esta série inclui, no meio de filmes menores, dois outros grandes filmes, Gentleman Jim (1942) e Objective, Burma! (1945). Nos intervalos desta série, Walsh roda também outros filmes sem Errol Flynn, dos quais pelo menos um se afasta muito: a obra-prima que é Pursued (1947).

Quando se tenta distinguir os traços característicos do conjunto dos filmes que ele realizou entre 1915 e 1964, reflexo amplificado do cinema hollywoodiano ao longo da sua evolução, podemos ver que há algo de pessoal em muitos deles, excelentes mas muitas vezes menores e enclausurados na encomenda, tal como na longa vintena de filmes realizados entre 1941 e 1964, que, de longe, os ultrapassam: um equilíbrio, que parece resultar mais da natureza do autor do que de uma arte deliberada, entre a truculência e a distância. Com efeito, Walsh dá às suas personagens não só um lugar preciso numa sociedade, um carácter identificável de que os actores produzem a imagem exacta, mas reduzindo, sem o afirmar, o heroísmo (no sentido neutro de herói do filme) até ao nível do comum destino humano, afecta-as com uma relação pessoal com a vida, que se inscreve a cada passo numa representação do mundo de forma única, como num quadro que, a partir do momento em que o expomos ao lado dos precedentes, manifesta também a grande variedade do pintor.

No conjunto da obra de Walsh, cada filme é, na sua duração dramatizada, no enredo encantador que os espaços desenham, uma representação do mundo, um teatro não falado do universo, o receptáculo ocasional de uma harmonia pouco segura. Combatem-se duas forças, muitas vezes dentro da mesma personagem: a truculência (o impulso associal para o mundo) e a distância (o estado alerta dos solitários, a consciência daquilo que afasta do todo e do que pode aproximar do outro). Isso dá muita liberdade aos actores e às actrizes. O próprio Walsh foi actor durante a sua juventude e era talvez ao seu conhecimento do teatro shakespeariano, subjacente à maior parte dos seus filmes, que ele devia esta singular aptidão para sentir em cada filme que, na medida em que se ele compõe de elementos materiais sempre diferentes (história, género, actores, cenários, espírito do tempo e interdições de representação), não tinha outra opção senão produzir uma representação do mundo única, incessantemente recomeçada, incessante e inevitavelmente diferente.

Supondo que a visão que Walsh tinha do mundo era una e avessa à evolução, ele procedeu, contudo, nesta perspectiva de representação, muitas vezes de um filme para outro, a ligeiras deslocações de registo no desempenho dos actores, como se, tendo em conta a soma dos elementos singulares de que se compõe, cada filme pedisse um reajustamento da tonalidade dramática que teria ditado uma grande poética das representações do mundo. Podemos observar esse aspecto na maior parte dos seus filmes a partir de meados dos anos 40. Isso começa pela simples variedade dos caracteres psicológicos interpretados por Flynn nos sete filmes que Walsh e o actor levaram a cabo juntos: foi nessa altura que Walsh se tornou um grande cineasta. O realizador tinha desde há muito tempo o génio das distâncias, uma maneira única não só de lançar os actores e de encontrar um ritmo, mas também de reflectir o mundo na sua encenação desde o ponto de vista das distâncias físicas e do ponto de vista das distâncias morais, materializando-as umas sempre no espaço das outras. Mas, mais tarde, os frente-a-frente nos olhares, nas frases e nos silêncios que interiorizam a narrativa em Band of Angels (1957), The Naked and the Dead (1958), Esther and the King (1960) e A Distant Trumpet (1964) têm uma beleza definitiva que não se conhecia na sua produção dos anos 40, assim como as paisagens a perder de vista das montanhas, dos bosques, das margens e do mar em Colorado Territory (1949), Distant Drums (1951) e Sea Devils (1953) reanimam um pouco da antiga poesia do mundo.

Como explicar - e será possível explicá-lo? - que até ao fim dos seus dias de actividade, ou quase, ele tenha frequentemente realizado um filme menor antes ou depois de um filme inesquecível? "Quandoque bonus dormitat Homerus[2]", poderia ter-nos sussurrado o general Alexander Quait em A Distant Trumpet (1964), esplêndido ponto final da sua obra. Podemos adivinhar como nasce a indiferença em certos filmes de Nicholas Ray, tanto estes surgem directamente de uma inspiração emotiva que age ou não age; em Walsh é mais difícil: o ofício tem uma parte sólida e constante nos seus filmes, há nele um realizador desperto. Mas um êxito do ofício não nos ensina nada de essencial, no filme, sobre aquele que com ele se regozija. É nos momentos em que Walsh é plenamente cineasta que um bom filme sem êxito como Along the Great Divide (1951) pode elucidar-nos o que é que lhe faltou para que o seu filme fosse o que poderia ter sido. O argumento é tão denso e cheio de intenções que ele o obriga a lutar incessantemente para dar vida a personagens que não a querem e que têm dificuldade em desembaraçar-se dela. Algumas boas cenas isoláveis reavivam o desentolar de um filme cujos termos dramatúrgicos (as relações de filiação regularmente declinadas são um desafio às capacidades interpretativas dos actores - Kirk Douglas e Virginia Mayo - para inscreverem uma verdade sustentável no tempo) podem, ainda, ter consistência no interior de uma sequência, mas que têm dificuldade em substituir-se umas após as outras e em assegurar uma sedimentação real da narrativa. O recurso à psicanálise frustra-se, ao passo que quatro anos antes aureolava discretamente Pursued com uma complexidade suplementar. A fraqueza do argumento encontra-se também no facto de não ser deixado nenhum tempo dramatúrgico entre as sequências, o que permitiria, quanto mais não fosse através da sombra trazida por algumas elipses, fazer viver esta história sem privá-la da sua dureza.

Na medida em que Walsh realizou um grande número de obras, por vezes várias no mesmo ano, os grandes filmes surgem apenas quando se encontra o bom equilíbrio, não só entre truculência e distância (o que nunca falta e que torna atractivos os seus filmes menos bons), mas sobretudo entre os imperativos categóricos da narrativa e as necessidades opostas (que forçam um abrandamento da acção que faz avançar a narrativa) de dilatação dramatúrgica. Quando este equilíbrio (que deve ser, graças ao "duelo", um ligeiro desequilíbrio) não é achado, é aos constrangimentos erróneos da produção e à ideologia espectacular das companhias que se devem as falhas que revelam subitamente os preconceitos de uma época, pois o génio de Walsh não deixa de ser exercido, tanto nesta arte de dirigir uma narrativa nitidamente mais depressa do que a velocidade de cruzeiro do espectador, como na arte de interrompê-la para abrir as perspectivas da dramaturgia, mas sem se furtar a fazer a junção entre ambas. É verdade que alguns argumentistas lhe convinham mais do que outros. O mesmo acontece com os actores, os operadores, e talvez alguns técnicos cujo trabalho continua a ser difícil de caracterizar exclusivamente através do visionamento dos filmes.

Se, pelo contrário, tomarmos em consideração Silver River (1948), filme cujo tema é a prata na sua relação mais material com a guerra (a da Secessão), com o funcionamento de uma cidade mineira (Silver City, pontuada por uma visita do presidente Grant) e com as relações entre um militar despromovido por ter tomado a iniciativa de queimar os cofres de dinheiro de que os nortistas poderiam vir a apoderar-se, McComb (Errol Flynn), e um casal de empresários mineiros cujas bases sentimentais deixam a desejar, os Moore (Bruce Bennett e Ann Sheridan), podemos ver que a relação entre a narrativa e a dramaturgia está bem preparada pelo argumento que, ao criar paralelamente ao trio de protagonistas duas personagens com um papel inversamente simétrico, dá o que fazer a Walsh, que lhes confia, de uma forma assimétrica, como veremos, a responsabilidade dinamizadora do filme: ao primeiro, um chantagista humilhado por McComb, "Banjo" Sweeney (Barton MacLane), dá-lhe o comportamento intempestivo das intervenções violentas, ou seja, a acção; ao segundo, um advogado alcoólico sem clientes contratado por McComb, John "Plato" Beck (Thomas Mitchell), atribui-lhe a insinuação moral que envenena uma outra zona da narrativa com a história bíblica de David, que manda para o combate o marido da mulher que ele deseja.

Graças a esta estrutura clara e bem dirigida, Walsh está bastante livre para estabelecer à sua maneira o diálogo e o relance dialéctico entre a narrativa e a dramaturgia, de modo que se no fim a narrativa leva a melhor, deixando-nos a possibilidade de interpretar o sentido, o realizador terá, contudo, sido obrigado a passar pelos abrandamentos de ritmo da dramaturgia, que conferem ressonância às decisões dos protagonistas, estimulados simultaneamente pelo amor e pela ambição (McComb e Georgia Moore).

Talvez seja justo observarmos que neste duelo entre narrativa e dramaturgia que atravessa um bom número de filmes, em que uma ou a outra conquistam o poder, consoante os casos, é aquela que perde que provoca as cenas mais marcantes de um filme. É justamente nessa medida que aquela que não é a regra favorece os momentos de excepção. Adopto de boa vontade o termo, proposto por Pierre Léon, de cena insubmissa*. Podemos também reparar que frequentemente nos filmes de cineastas uma ou várias sequências fogem ao registo geral do filme, não só pela sua tonalidade, na condição de que o terceiro termo (o princípio formal) permaneça minoritário, mas também pela sua escrita visual ou pelos seus cortes. Assim, em Silver River, há três sequências encadeadas no decurso das quais os elementos da narrativa diminuem a favor da dramaturgia. Primeira: McComb e "Plato" Beck contemplam uma vasta extensão de planaltos ladeados por montanhas ao longe, património futuro, com um castelo por construir, do ex-militar cuja fortuna cresceu porque ele decidiu alterar as regras do jogo em proveito próprio. No momento em que ambos abandonam o lugar, um homem ferido de morte vem até junto deles e cai a seus pés, a tempo de avisá-los de que os índios Shoshoni (que nunca veremos no filme) o atacaram. McComb leva o corpo no seu veículo e pede ao advogado silêncio sobre a questão dos índios. Segunda sequência: o marido da mulher cobiçada, proprietário mineiro, anuncia ao seu associado, McComb, que parte imediatamente para o território Shoshoni para lá chegar antes dos outros prospectores de jazidas. Perante o olhar do advogado, McComb permanece mudo. Terceira sequência: no grande bar vazio anexo à sala da cena anterior, assim que o marido atravessa a sala, o advogado recomeça a beber e, embriagado, recrimina McComb (que curiosamente costuma beber leite). Acaba por esbofetear o seu patrão e amigo, que cai e, enquanto o outro o levanta, o coloca sobre uma mesa de jogo, da qual retira o forro para o cobrir, ele lança-lhe um último aviso, recordando-lhe a história do rei David. Os planos destas três sequências têm uma amplitude que lhes é própria. Agora carregada de drama, a narrativa recupera os seus direitos. Desta forma, a crónica histórica, impulsionada por relações económicas em permanente movimentação, recebe o contributo de possantes dados individuais que cumprem a sua encarnação, em primeiro plano. McComb é uma das grandes personagens criadas por Walsh. O substituto de Errol Flynn será, mais tarde, Clark Gable. Era uma época - a dos filmes a preto e branco realizados para a Warner - em que Walsh, por vontade própria ou não, tinha sabido aceitar esta vitória final da narrativa, conferindo-lhe um sentido pelo lado da ambiguidade. Há três excepções em que se vê a dramaturgia levar a melhor sobre a narrativa: Pursued (1947), Colorado Territory (1949) e White Heat (1949).

Nesta regulação pelos géneros, em que alguns jovens cineastas - Fuller, Ray e Mann, para citá-los de novo - realizam também westerns, produz-se uma compressão temporal ambivalente, pela qual as regras que definiam os géneros em cada produtora serviam também para realizar uma filtragem, mais ou menos apertada, na representação do presente e do passado para um público mundial, com uma espécie de inconsciência colectiva acerca daquilo que neles se trama de História, quando esta, por si só, ocupa, a cada passo, a realização de um objecto de espectáculo. Enquanto os jovens cineastas, depois de Citizen Kane, conferem aos seus filmes um afastamento implícito em relação ao género, convidando a uma percepção moderna de acontecimentos antigos assombrada pela descoberta dos campos de extermínio, pela memória de Hiroxima e envenenada pelo mccarthysmo, que lançou o fogo da histeria em Hollywood, os cineastas mais velhos, como Ford, Dwan ou Walsh, que aprenderam o cinema junto de Griffith, trazem ao género, tal como ele se redefine a cada momento no presente, uma anterioridade fundadora - eles representam a História que têm, e que, se não foi vivida e observada, foi pelo menos recolhida junto de testemunhas directas ou através da escuta de uma transmissão oral - que, ao submeter o filme aos apelos do presente, o arrasta na direcção das fontes ainda vivas do passado. Assim se foi construindo uma tradição real dessa coexistência de um fundo sedimentário de épocas, sem que se tomasse consciência de se tornar uma tradição. Hawks, que trabalhava num presente perpétuo, não devia sentir-se retido pelo passado nem atraído por um futuro intangível. Enquanto Griffith permanecia como o grande cineasta da aurora do século XX, impedido de chegar à claridade do dia, DeMille terá sido o único cineasta do século XIX: é ao facto de ele ter efectivamente rodado filmes no século XX que devemos o seu estranho exotismo erótico.

Walsh sabia, em cada rodagem, onde encontrar a verdade apresentável das personagens. Um conhecimento experiente das paixões guiava-o na senda escarpada que vai das personagens aos actores e, depois, dos actores às personagens, sem que ele deixasse de observar o mundo. Toda a sua obra se desenvolveu em estruturas restritivas, por vezes tão prosaicas que em Hollywood quase ninguém nesse vasto domínio - a não ser Ford - suscitou tanta poesia possante e pudica. A violência das paixões na sua obra é sempre gerida pelo segredo bem guardado da distância certa. Walsh conhecia também o segredo da repartição dos planos para chegar a uma dramatização infinita no espaço.

O uso da cor e, mais tarde, do cinemascope permitiu que o seu cinema pudesse modificar um dia as proporções da luta entre a narrativa e a dramaturgia. Então, na maior parte das vezes, é a dramaturgia que leva a melhor, sem que a narrativa, tornada um discreto agente do contexto referencial, viesse alguma vez a sofrer com isso. Exemplos esplêndidos de cenas insubmissas - aqui, portanto, de expressões repentinas da narrativa: em The Revolt of Mamie Stover (1956), o ataque a Peal Harbor, ou ainda, em Band of Angels (1957), as três narrativas (a narrativa «marítima» e as duas narrativas de Hamish Bond). O cinemascope terá induzido nos anos 50 um abrandamento da acção: The Tall Men (1955), por vezes no limite da paralisia contemplativa, põe em destaque as relações interiores das personagens. Isoladas no espaço desse amplo ecrã, elas deslocam-se sem pressas, tal como o fariam num palco. O corte do plano torna-se mais raro. Estamos no Teatro do Cinemascope. Enquanto Clark Gable (será uma ironia propositada de Walsh?) marca o seu lugar na distância que o separa ainda de Jane Russell por estas palavras reiteradas: "I dream small" ("Eu sonho em pequeno"), o filme, por seu lado, continua majestosamente a ver o mundo em grande.

[1] V. «Une règle de trois», in «Le gouvernement des films», Trafic, nº 25, Primavera 1998.
[2] «Por vezes o bom Homero dormita» (Horácio, Ars Poetica)
* N. do T. «Scène rétive», no original em francês.

Trafic, nº 28.
Tradução de Jorge Filuzeau Garcia

in «Raoul Walsh», Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, Lisboa, 2001 [org. Manuel Cintra Ferreira].