segunda-feira, 5 de setembro de 2011

2ª série dos Planos (XXI)


I / II / III / IV / V / VI / VII / VIII / IX / X / XI / XII / XIII / XIV / XV / XVI / XVII / XVIII / XIX / XX

De vez em quando, convido bloggers a escolher um plano e a falar, também, sobre ele. O vigésimo primeiro convidado é o Gabriel Passos, do Sétimo Projetor, que escolheu este plano de Le Monde Vivant, de Eugène Green:













"Em penumbra, banhadas pela fraca e instável luz de uma tocha desafiada pelo vento impetuoso, duas mãos se buscam. Seus movimentos revelam um anseio tornado realidade pela fé na palavra. Esta, como uma ponte entre espírito e corpo, conjuga as partes de um todo que se aperfeiçoa continuamente na harmonia de uma formação coerente consigo mesma, celebrando a libertação e transubstanciação do desejo que nunca foi de outra coisa senão deste momento sagrado. Momento cada vez mais raro no cinema.

A entropia de um reinado da mentira, da desvirtuação da palavra, pronunciada por corpos estraçalhados e espíritos embotados está assente na inconsciência e sono profundo com que o cinema de Green não pactua e toma as vezes de atalaia, dando a ver e alertando seus semelhantes que em dado momento de decadência nem todos dançam na lama. Diante da frontalidade de seus personagens, olhares penetrantes, pronuncia clara e caminhos retos, qualquer cínico que, não obstante a confusão, tenha vislumbrado a mínima faísca de consciência, só conquistada a duras penas, há de se envergonhar. A contemplação duma encenação tão justa e ordenada, transparente e objetiva, deixa às claras os cacos da cultura de nossos tempos.

Seus heróis são cavaleiros que percorrem seus trajetos guiados pela intuição atinada pelos germes do devir que guardam e acalentam dentro de si, libertando donzelas e crianças e decepando ogros. Estes vilões simiescos que devotam suas forças a estancar o tempo ao passado nebuloso ao qual pertencem, se alimentando do sangue do futuro e aprisionando a beleza que sublima, não são comprometidos com suas palavras, sendo estas só mais um elemento desconexo de um ser sem nenhum princípio de coesão. Deformados em total arbitrariedade, tais monstros se assemelham aos filões do cinema contemporâneo. A antípoda, portanto, a ser combatida pela arte de Green, este sopro de ar fresco — da palavra, do corpo, do espírito." (Gabriel Passos)

O próximo convidado é o Projeccionista.

2 comentários:

João Palhares disse...

A simetria deste plano é assombrosa..

Lucrécio Luz disse...

Esse texto é o que eu chamo de "punheta literária".