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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

LES GIRLS (1957)


por João Bénard da Costa

Como se disse que The Wrong Man de Hitchcock (aliás, um filme do mesmo glorioso ano de 57) parecia uma obra feita expressamente para comprovar as teorias críticas que a geração dos Cahiers tinha utilizado como chave da sua obra, pode dizer-se que Les Girls parece um filme feito por Cukor expressamente para comprovar teorias críticas que a mesma geração e os mesmos tinham utilizado para o consagrar como Autor. 

Releia-se o sintético parágrafo que Comolli lhe consagrou, nas páginas dos Cahiers: "O desejo destrói o seu objecto, é a regra do jogo. Cineasta do inferno das mulheres, Cukor fá-las passar primeiro pelo paraíso que não é melhor. Misoginia? Nunca. Plena utilização da natureza no artifício. Ternura extrema que só atinge a mulher no seu cerne, para lho restituir. Mais do que uma aprendizagem da vida, o que Cukor impõe às suas personagens é uma educação do amor. Tudo lhes serve de lição: mentiras, verdades, apresentações e representações. Mas o instrumento priviligiado é o cinema". Ou releia-se o que mais constantemente se diz de Cukor: "Cineasta das mulheres", "mestre da mise-en-scène", "gosto fabuloso", "ímpar domínio da linguagem cinematográfica". Ou ainda (perdoem-me a auto-citação) o que sobre ele escrevi em 1981: "todos os seus filmes são filmes sobre décors, actores, imagens falsas. A célebre interrogação sobre as fronteiras entre a comédia e a vida, entre a representação e a apresentação, entre a ilusão e o real, é levado ao paroxismo numa arte que exige, como Katherine Hepburn diz no assombroso The Philadelphia Story, 'complete surrender'. Não são apenas os seus personagens que vivem todos uma dupla vida (títulos aliás de um dos seus filmes) são também as suas histórias que vivem sempre em duas dimensões e os seus actores que sempre adquirem novas aparências (...) O cinema de Cukor é uma floresta de enganos. Se esta arte teve o seu Calderon, ele chamou-se George Cukor". Relendo tudo isso e vendo este assombroso filme, Les Girls parece feito para lhes (ou nos) dar razão. Provavelmente, nunca tal intenção passou pela cabeça de Cukor: é só mais um filme dele, na plena coerência com um universo pessoal, que teve aqui (como em tantos outros filmes) "apenas" uma das suas expressões cimeiras.

Mas repare-se num catálogo de maravilhas: no cast só há uma celebridade que é um homem chamado Gene Kelly. Mas alguém terá dúvidas que Kelly (cujo ponto de vista, afinal, predomina) é apagado e afogado pela trindade das girls, essas fabulosas Kay Kendall, Taina Elg e Mitzi Gaynor? Da primeira, ainda se pode dizer que na sua efémera carreira (a actriz morreu aos 33 anos, em 1959) foi fabulosa em tudo quanto fez nos últimos anos da sua vida (e recordo The Reluctant Debutante de Minnelli, em 58, ou Once More with Feeling de Stanley Donen, estreado em 60, já ela tinha morrido). Mas Taina Elg (vinda do Sadler's Wells e do Marquês de Cuevas) quem foi ou o que fez, antes ou depois? Meia-dúzia de "coisas" que justamente merecem meia-dúzia de linhas em dicionários de cinema mais exaustivos. E aqui, meu Deus, é absolutamente genial, quer enquanto pontua a história de Kay Kendall, quer enquanto faz o seu depoimento. Vejam-na no seu passeio com Kelly ("Angele have a lot of rehearsals"), no encontro com o namorado, futuro marido ("she was very afraid of men - Now, she is more courageous") como nurse no hospital, na sequência do "ding-dang-dong", deitada no sofá com Kelly (e só Cukor conseguiria fintar o código com tal posição mútua), quando canta ("tigresse") "Ça c'est l'Amour" ou de laço azul na cabeça (os outros têm-nos no rabo) no inadjecivável "Ladies in Waiting", a esconder-se do "tio de La Porte". E, depois, na cena conjugal (o pormenor do relógio), no início do depoimento (o chapéu), a "cobrir" a genial bebedeira de Kendall (a da Carmen) e não posso continuar por aí fora, se não não parava e era injusto para Key Kendall.

E Mitzi Gaynor que no ano seguinte afundou o South Pacific de Logan e a carreira com ele? Repara-se talvez menos nela que nas outras duas, mas é contraponto essencial, até (e sobretudo) porque é ela quem dá a voz a Kelly. E já que vem a propósito, não resisto, desde já, a sublinhar, tão fabulosa inversão de "racontos" e expectativas. Ouvimos o depoimento de Kay Kendall (Lady Sybil Wren, naquela voz incrível, herdada e imitada de Joan Greenwood, a voz mais sexy do cinema); ouvimos o de Taina Elg: quando já sorrimos à espera da terceira testemunha (sem duvidar que seja a terceira das girls), em vez de Mitzi Gaynor, surge Gene Kelly, porque, para convencer tais juízes, só um homem pode mentir mais do que duas mulheres.

E era de mulheres (ainda e só) que eu estava a falar. Onde está o inferno delas, ou o seu paraíso, na expressão de Comolli? Em Paris, e no teatro, quando viviam juntas, candidatas a Kelly e a enredá-lo na sua rede (como no prodigioso bailado de Kelly e Elg, obviamente inspirado nas coreografias de Martha Graham?) Ou quando se casaram, uma com um Lord, outra com um ingénuo francês e a terceira com Kelly, a tudo e todos enganando? ("e nunca mais nos vimos depois daquele dia"). Mentiras, verdades, apresentações, representações. No fim de cada depoimento, ergue-se o cartaz "What is Truth?" mas o cúmulo da astúcia de Cukor é que nenhuma narração contradiz as outras e todas se contradizem umas às outras. Ou seja, é tão possível que a "verdade" seja o depoimento de Kay Kendall, mais o de Taina Elg, mais o de Gene Kelly, como todos sejam identicamente mentirosos e deturpados. E nem ri melhor quem ri no fim. O plano, no carro, de Gene Kelly e Mitzi Gaynor é assaz significativo sobre a "floresta de enganos".

Afinal de contas, só era preciso que os dois maridos acreditassem e que a acusação mais grave - a de tentativa de suicídio - se dissolvesse na fuga de gás.  Ninguém tem peau d'ange (ou só tem essa peau) e nem sequer foi Kelly quem enganou Mitzi Gaynor, com o suposto ataque cardíaco. Tudo na mise-en-scène sublinha que era efectivamente ela quem o não queria "so much excited". Como Kay Kendall ou Taina Elg, ao seu lord ou ao seu francês. De tudo aquilo, a verdade (e até essa sê-lo-á?) é que era primavera, que viveram juntas, que foram girls (antes de serem outras coisas) e que são femmes (ou seja, "infames" para utilizar o trocadilho de Godard).

Les Girls foi comparado, por muitos críticos, ao célebre Rashomon de Kurosawa, onde também havia flashbacks e várias versões da mesma história. Não lhes vejo qualquer outra semelhança, pois que o jogo com a verdade (e com a mentira) é aqui de raiz inteiramente diversa e não é casual que tudo se refira ao teatro (à ilusão cénica) e ao tribunal (a ilusão do "nothing but the truth").

Também, como musical, muito boa gente lhe torceu o nariz, achando que Gene Kelly era mal aproveitado ("et pour cause", digo eu) e que o argumento de John Patrick não se combina bem com as canções de Cole Porter, que teria sido mal servido (esta foi, aliás, a última partitura de Porter). O próprio Cukor disse, um dia, não se considerar um realizador de musicais como Minnelli ou Stanley Donen. Até acho que tinha razão, porque a origem da magia em Les Girls (que, à excepção de My Fair Lady, é o seu filme mais enquadrável no género) é doutra ordem, que tem que ver sobretudo com o espaço da ilusão como cinema e com o teatro como tempo dessa mesma ilusão. Mas, como ele próprio notou, se o "musical" é o género anti-realista por excelência trata-se de elevar a ficção à sua potência mais absoluta. Como cada girl tem uma cor (cor que depois domina os três flashbacks do filme, de acordo com a que para cada uma delas escolheu) cada verso tem um reverso e vice-versa, até ao infinito. Podemos sonhar, por exemplo, com um outro flashback, contado por aquela espantosa e pavoneante loura que Gene Kelly despacha tão depressa no início. Ou pelo espanhol do comboio. Ou pela bailarina dos flamengos. Todos teriam muito contar. Afinal de contas não há na dança, como no amor, inúmeras posições possíveis? É disso - esplendor da mise-en-scène - que Les Girls  também fala, ocultando tanto quanto mostra na genial elipse em torno da qual é construído.

Por mim, continuo - e cada vez mais - perdidamente apaixonado por estas Girls. They Are Just ... Digamos, "too too".

in FOLHAS DA CINEMATECA - George Cukor

domingo, 6 de junho de 2010

Ainda "Kiss Me, Stupid"



KISS ME, STUPID
BEIJA-ME IDIOTA

Thank heaven for Mr. Billy Wilder

(da crítica do Times, quando da estreia londrina do filme)

Kiss Me, Stupid (o título é a última frase do filme e o exacto equivalente do "Nobody is Perfect" do Some Like it Hot ou do "Shut up and deal" do The Apartment) foi a mais acidentada produção dos anos de glória wilderianos. Os acidentes começaram quando Peter Sellers que devia fazer o papel de Spooner (imaginem-no) teve um grave problema cardíaco (o primeiro) e foi obrigado a deixar o "plateau" ao fim de três semanas de rodagem. Ray Walston, memorável pelo seu "Diabo" na peça e no filme Damn Yankees (Stanley Donen, 58) e que já aparecera em The Apartment como um dos frequentadores da casa de Lemmon, foi chamado à pressa para o substituir. Não sei como seria Sellers. Mas Walston é a cópia conforme (ainda mais crua e ainda mais cruel) do Tom Ewell do The Seven Year Itch. Logo que o vemos a dar lições de piano com a t-shirt com Beethoven, nos lembramos desse outro marido, com quem compartilha uma imaginação não menos delirante e um quotidiano não menos baço. Ao outro, entrava-lhe Marilyn pela casa abaixo; a este, trouxeram-lhe Kim Novak, de umbigo à mostra, Polly the Pistol chamada. E bem se podia chamar Polly la Douce, como a sua Irma, a que Shirley deu jeito e feitio.

Mas estou a pôr o carro adiante dos bois, na pressa de ir ao filme. Estava a falar de acidentes e desses o menor foi o da substituição de Sellers por Walston.

Mal o filme ficou pronto (e Wilder gastou rios de dinheiro a reconstituir em estúdio a rua da vilória da Nevada, réplica correcta e aumentada da da Rua Casanova de Irma La Douce) saltou-lhe em cima a catolicíssima Legião da Decência. Desta vez, para eles, Wilder fora longe de mais e, "sic", tinha produzido um filme sórdido, tão repugnante estética como eticamente. "Diálogos impúdicos e sugestivos, um lúbrico tratamento de sexo conjugal e extra-conjugal, uma mórbida atracção pela libertinagem, obrigam a condenar este filme por absoluta imoralidade".

Nos anos 60, ao contrário dos anos 50, esta pia veemência já não era habitual. A United Artists estremeceu e recusou-se a distribuir o filme. Wilder - num gesto sem precedentes - cortou a cena da "roulotte" em que Dean Martin e Felicia Farr iam para a cama ao som do "Oh, Sophie", cantado pelo papagaio, e chamou os dois actores para re-filmar a que agora se vê. E vemos efectivamente Dean Martin a adormecer como um anjinho. Só que ninguém nos jura (não ficámos lá para ver e o papagaio, que ficou, continua a cantar) que Dean Martin tenha dormido toda a noite. Tudo nos leva a concluir pelo contrário e a elipse acaba por ser bem mais maldosa.
Como era óbvio, não foi tal corte que acalmou as Ligas. A letra dada ao filme (C) queria dizer "Condemned" e Monsenhor Little, porta-voz da tal liga, advertiu 40 milhões de católicos que não podiam ver o filme sem cometer mortal pecado. Podia funcionar como chamariz, mas até não funcionou. Em contraste com Some Like it Hot (designação de Wilder para o "oscar") The Apartment ("oscar" do melhor filme em 1960 e "oscar" para Wilder), Irma La Douce (designação de Shirley Maclaine) e - todos - enormes sucessos comerciais, Kiss Me, Stupid foi um flop e teve, na América, péssimas e irritadas críticas. Só na Europa lhe fizeram justiça.

A razão não está, como se disse, no "miscast" de Dean Martin ("almost repellent in his leering") ou na do "harsh and ugly" Ray Walston. Fundamentalmente, a razão está no retrato desapiedado e implacável que Wilder dá da América provinciana (que era preciso sempre tratar com carinho) e da mulher americana, figura sacrossant em sociedades matriarcais. Apesar de tudo, Seven Year Itch, The Apartment ou Irma La Douce eram sobretudo sátiras ao homem, com Marilyn e Shirley a desencaderem imediatas "simpatias". Aqui, nem Felicia Farr (demasiado tonta e demasiado tronco - lá está o molde demasiado explícito e demasiado "sugestivo") nem Kim Novak (coisas de umbigos) salvam as mulheres casadas de se parecer demais com putas e as putas de se parecer demais com mulheres casadas. Essa identificação é que era insuportável. Cherchez la Femme. E não falo já (será preciso?) da única mãe do filme, essa que vemos na penumbrosa sequência em que Zelda prefere ir para Kim Novak ou para os copos do que ficar mais tempo a ouvi-la (tudo o que Orville dissera dela, era pouco). "I`ve been pursued for years by that nasty word - vulgarity", disse um dia Wilder, que acrescentou: "They object not to the vulgarity in my art, but to the lack of art in my vulgarity". Tinha razão para se irritar. Kiss Me, Stupid, o filme por que mais o atacaram, é a obstinada recusa a embelezar um mundo arrepiantemente sórdido. Nesse sentido, é um dos mais cáusticos olhares sobre alguma sociedade americana, precisamente a que mais bem tratada costuma ser.

E, agora, abram muito os olhos e os ouvidos, porque Wilder, em ajuste de contas, não perde pitada.

Ainda o genérico está a correr (em Las Vegas) e já um travelling nos atira dum carro para um anúncio de A Place in The Sun, filme de George Stevens sobre a "tragédia americana". Não vamos visitar esse filme, mas dean Martin em "show", um "show" que bem pode ter inspirado Herman José para o Estebes (nem faltam as coristas a dar à perna). Não há de facto nada mais repelente, mais abrilhantado e mais estúpido do que esse Dino (atenção à origem italiana) de que Dean Martin vai personagem de antologia. Em corpo inteiro (reparem no "gag" dos criados, digno de Lubitsch) está o "american swinger" a que uma só noite de castidade dava as tais dores de cabeça.

No seu desvio para Nevada - em rota para Hollywood - há algumas insinuações e a história do isqueiro não é inocente.

Depois vamos para outras dores de cabeças. As de Orville J. Spooner, a quem a colecção de camisolas (Beethoven, Bach e Brahms) não tiravam os ciúmes. "If the music be the food of love, play on". Mas quando lhe davam os "ataques" não ouvia Rachmaninoff, como o seu irmão gémeo do "itch", mas o som do órgão que tocava na Igreja. É com esse acorde que expulsa "the male Lolita", enquanto obviamente Felicia Farr é demasiada areia para a sua camioneta.
É então que o espantoso gordo - seu "brother in distress" - interrompe a viagem de Dino e o faz andar de casa de banho em casa de banho a trautear-lhe "Monas Lises". E logo que surge a ideia da noite para Dino, o que Dino vê da "mulher do anfitrião" é uma fetichizada genitalia. Para um "sex-maniac" não está mal, entre os duches e as garrafas de Chianti. A simbologia é excessiva para Spooner que se lembra de Cagney e vai buscar uma toranja ao frigorífico. Mas nem isso funciona e o único recurso é a troca de mulheres.

Não vou desenvolver: essa troca vai bastante mais longe do que Spooner alguma vez vez imagina, para satisfação das duas e - por fim - para satisfação dele também. "This is the way of all flesh".

Poe Why, por Where, e por What começam as últimas perguntas que ainda tenta fazer, na noite do triunfo e das televisões, quando Kim Novak passa de carro. Como única resposta, obtém o "kiss me, stupid".

E só peço ainda que reparem na cadeia de três lugares ("conversadeira", chama-se em Portugal) na constipação de Kim Novak, nas "small moons", na história da lagosta, no pedido de Felicia Farr para ouvir e "Melancholic Baby", no papagaio e nas notas.

E o filme que começou com Dino a cantar acaba com Dino a cantar. Todos retiraram daquela noite a quatro alguma satisfação. Polly teve a ilusão de ser Mrs. Spooner; Mrs. Spooner teve a sensação de ser Polly; Spooner teve a ilusão de ser Gershwin; Dino teve várias sensações e nenhuma dor de cabeça. Todos tiveram a inteligência da sua estupidez e a estupidez da sua inteligência.

Coisas que acontecem a quem, ao chegar a Climax, se descobre sem combustível. Coisas de néons, "bang-bang" e papagaios com muito boa memória.

Kiss Me, Stupid: um humor de perdição. Thank heaven for Mr. Billy Wilder.

João Bénard da Costa

* Do "nobody`s perfect" ao "kiss me, stupid", passando pelo "shut up and deal", Wilder era um exímio e metódico contador de histórias. A sua autoria está até no genérico, porque desde 51 que as pessoas sabem ao que vão: a uma produção e realização de Billy Wilder (e co-argumento, também)... Para já não me seduzem as superficialidades (que diz Bénard serem só aparentes, porque escondem uma subversão demolidora) de "Sabrina" e "The Seven Year Itch" e não morro de amores por "Some Like It Hot", que é facilmente o mais acessível dos Wilders...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

"Haut Bas Fragile" - 1995





























Mais um Rivette, que é como quem diz mais uma obra-prima e como já se sabe, é dizer pouco. Não será tão bom como "Céline et Julie vont en bateau" que é um portento de filme como poucos o são mas é, também, encantador à sua maneira. Aqui, tudo leva o seu tempo (à volta de 3 horas) para haver justiça na representação, no retrato daquelas três mulheres, Louise, Ida e Ninon, seja através da sua relação com o espaço, onde cada gesto e cada comportamento contam, seja através da sua relação com elas próprias (passeios reflexivos e pausados) e com as outras personagens (as danças longas na discoteca, o jogo de cartas). Não é um musical tanto pelo "glamour" dos números mas mais pela relação íntima dos personagens com a Música (a música ajuda Ida a encontrar a sua mãe verdadeira e a dança é algo que nasce da mais natural das formas, pelo menos para Louise e Ninon).

E a quem se regressa? A Hawks, mais uma vez - e parte da trama faz lembrar "Gentleman Prefer Blondes" - a Minnelli, talvez, e a Donen, inevitavelmente:
"The inspiration of Up Down Fragile? The MGM low-budget films of the 50s that were shot in four or five weeks on sets left over from other films. In particular, a Stanley Donen movie, Give a Girl a Break [1953], a simple film shot in next to no time with short dance numbers."

Jacques Rivette
Mas o que mais me impressiona em "Haut bas fragile" nem é a corajosa e perigosa incursão pelo Musical (se bem que o incluísse aqui, se o tivesse visto antes), mas aquela opção de delinear o guião tendo em conta aquelas personagens, aquelas pessoas, vá (e da mais empática das maneiras, que, hoje em dia e para a maior parte dos filmes, parece ser pedir muito) e pontuando-o com os mais decisivos momentos das suas vidas (dirão que para todos os filmes é assim - OK, mas não desta maneira) mas de forma a não duvidarmos que o são por um único momento.

Para isso contribuíram, muito certamente, os actores, porque como noutros filmes de Rivette, escreveram as suas personagens, e aí, e por isso mesmo, atinge-se um nível de cumplicidade máximo e, sobretudo, um nível de "apagamento do autor", que era um dos objectivos de Jacques Rivette, o mais secreto dos génios. Pois é, ainda não o tinha tratado por tal, aqui. Pois então, Rivette é um génio e, acreditem ou não, para mim há poucos...

Leituras complementares: Crítica de Jonathan Rosenbaum / Crítica de Ruy Gardnier

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Uma Viagem Pelo Musical - 8 (Final)



Há que dizer que, entre "posts" da enorme "Viagem Pelo Musical", vi "Show Boat" de James Whale e "It`s Always Fair Weather" de Kelly e Donen (e como Kelly é tão importante para Donen), duas obras-primas do Musical. Além daquele que é, para mim, o melhor Musical de sempre - "Yolanda and the Thief". Eis então, as 15 obras-primas do Musical e as 10 que, sendo do Musical, também o são do Cinema:

As 15:

Gold Diggers of 1933 (1933) de Mervyn LeRoy
Show Boat (1936) de James Whale
Cover Girl (1944) de Charles Vidor
Anchors Aweigh (1945) de George Sidney
The Pirate (1948) de Vincente Minnelli
On The Town (1949) de Stanley Donen e Gene Kelly
Carmen Jones (1954) de Otto Preminger
A Star is Born (1954) de George Cukor
Guys and Dolls (1955) de Joseph L. Mankiewicz
Artists and Models (1955) de Frank Tashlin
Une Femme est une femme (1961) de Jean Luc Godard
Les Parapluies de Cherbourg (1964) de Jacques Demy
New York, New York (1977) de Martin Scorsese
All That Jazz (1979) de Bob Fosse
One From The Heart (1982) de Francis Coppola

As 10:

The Wizard of Oz (1939) de Victor Fleming
Meet Me in St. Louis (1944) de Vincente Minnelli
Yolanda and the Thief (1945) de Vincente Minnelli
Singin` in The Rain (1952) de Donen e Kelly
Gentlemen Prefer Blondes (1953) de Howard Hawks
The Band Wagon (1953) de Vincente Minnelli
Brigadoon (1953) de Vincente Minnelli
It`s Always Fair Weather (1955) de Donen e Kelly
Bells Are Ringing (1960) de Vincente Minnelli
Les Demoiselles de Rochefort (1967) de Jacques Demy

FINALE

sábado, 5 de setembro de 2009

Tashlin, Mansfield - Mansfield, Tashlin


The Girl Can't Help It (1956)

Will Success Spoil Rock Hunter? (1957)

Francis Fredrick von Taschlein, melhor conhecido por Frank Tashlin, nasceu a 19 de Fevereiro de 1913, em Weehawken, New Jersey. Fez várias curtas de animação durante os anos 30, escrevendo, também, diálogos ("gags") para os irmãos Marx. Nos anos 40, trabalhou para a Warner e foi um dos grandes nomes da animação da década, suplantado, só, por Tex Avery e Chuck Jones (que são os maiores, para todos os efeitos).

E nos anos 50, depois de ter trabalhado várias vezes com Bob Hope, realiza o seu primeiro "live action feature": Son of Paleface (1952), remake de The Paleface, de 1948. E desse filme em diante, participou sempre na escrita dos guiões para os seus filmes (salvo raras excepções: The Man from the Diner`s Club, por exemplo).

Private SNAFU's girlfriend, Sally Lou, reads his letter in Censored (1944). Warners' animators, especially Tashlin, took full advantage of the servicemen-only audience: there was never such blatant pulchritude in a standard Looney Tunes film.
Censored (1944)

Vera Jayne Palmer (depois Jayne Mansfield), nasceu a 19 de Abril de 1933, em Bryn Mawr, Pennsylvania. Estudou Drama na UCLA. Começou a carreira cinematográfica em 1954, num papel secundário em "Female Jungle", de Bruno VeSota. Interpretou Rita Marlowe no espectáculo Will Success Spoil Rock Hunter, na Broadway (papel que voltaria a interpretar no Cinema). Trabalhou, depois, com Raoul Walsh, em The Sheriff of Fractured Jaw (1958), e com Stanley Donen, em Kiss Them For Me (1957).

Kiss Them For Me (1957)

The Sheriff of Fractured Jaw (1958)

E quando 'Francis' e 'Vera' se juntaram para filmar The Girl Can't Help It, começou um dos capítulos essenciais da comédia norte-americana. The Girl Can't Help It é tão bom comoArtists and Models. Obras-primas da comédia, mas que precisam, claramente, da expressão "da comédia" para subsistirem como "obras-primas". São, ainda assim, grandes filmes. Sem dúvida alguma.

Obra-prima, com ou sem "da comédia" à frente, é Will Success Spoil Rock Hunter?. Filme onde conflui toda, ou quase toda, a Comédia norte-americana. Do humor mordaz dos irmãos Marx (como já disse, Tashlin escreveu para eles), às críticas sociais de Cukor (ainda assim, Adam's Rib é, para mim, qualquer coisa de insuperável). Crítica vincada à televisão, é quase um filme-protesto, e também à sociedade americana. E acho, com grande certeza, que a parceria Tashlin/Mansfield é superior à Wilder/Monroe. Adoro Wilder (acho-o, até, superior a Tashlin) e adoro Monroe (e acho-a, claro, superior a Mansfield), só não os adoro juntos.

E se Tashlin não é, como Lewis, um "autor", a verdade é que fez com Will Success Spoil Rock Hunter?, um filme comparável a qualquer de Lewis.

Jayne Mansfield na Wikipedia / Jayne Mansfield no site da Playboy / Frank Tashlin em Senses of Cinema / Entrevista a Frank Tashlin

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Uma Viagem Pelo Musical - 3

1ªParte 2ªParte

Stanley Donen


Stanley Donen não é um realizador que eu aprecie tanto como Vincente Minnelli, e provavelmente estou a ser injusto (faltam-me ver ainda muitos filmes dele - o tempo dirá) mas não o acho um cineasta tão completo como Minnelli.
Vi 5 dos 27 filmes que ele realizou (de Minneli foram 19 - faltam 14!) e portanto nem os devia estar a comparar.
5 filmes, então: "On The Town" (co-realizado com Gene Kelly), "Royal Wedding", "Singin In The Rain" (mais uma vez co-realizado com Gene Kelly), "Funny Face" e "Charade". Este último não é um Musical, e portanto não o irei analisar. É um óptimo filme ainda assim, uma muito divertida e inventiva homenagem a Alfred Hitchcock .

"On The Town" - 1949


"Royal Wedding" - 1951


"Singin In The Rain" - 1952


"Funny Face" - 1957

First things first: Donen tinha trabalhado com Gene Kelly em "Anchors Aweigh" como coreógrafo e parece que ambos merecem mais crédito pelo resultado do filme que o próprio George Sidney, o realizador ("O Musical" de João Bénad da Costa). "Anchors Aweigh" e "On The Town" (primeiro filme de Donen e Kelly) são aliás muito parecidos.
"On The Town" é um grande filme. Não será tão bom como "Singin In The Rain" mas é já uma amostra, (e uma brilhante amostra, verdade seja dita) daquilo que a dupla Kelly/Donen era capaz de fazer. De "New York, New York" a "Come Up To My Place" todos os números musicais são memoráveis.

New York, New York, a helluva town.
The Bronx is up, but the Battery's down.
The people ride in a hole in the groun'.
New York, New York, it's a helluva town!!



"Royal Wedding" é um filme menor. Mas inventivo e sedutor, ainda assim. No primeiro filme a solo, Donen não superou nem igualou o que tinha feito com Kelly e o filme não é uma viagem alucinante como "On The Town" (dando a ideia que Donen sem Kelly não faz grandes filmes), mas tem os seus momentos. Um que merece destaque é este, um número já clássico, Fred Astaire a dançar no tecto em plano sequência!!:




Para "Singin In The Rain" (segundo musical da dupla) não há palavras. É O Musical: Nunca o Espectáculo e a Sátira se uniram de forma tão sedutora e mágica como em "Serenata à Chuva".Gene Kelly, Donald O`Connor, Debbie Reynolds, Jean Hagen e Cyd Charise (ainda que por pouco tempo, a sua aparição no filme é inesquecível - rivaliza com o resto do elenco) ... É um filme que fica com as pessoas, pessoas essas que o acompanham do início ao fim sem uma queixa que seja: Porque "Singin In the Rain é o mais perfeito dos Musicais, porque todos os Musicais a este filme se comparam (e há alguns que o igualam, mas o filme tornou-se o termo de comparação para todo o Musical, e ganha por isso mesmo). Todo o filme é memorável, não há pausas e é de visionamento obrigatório.




Em 1957, veio "Funny Face", muito bom filme, quase tanto como "On The Town", e se eu dei o benefício da dúvida a Donen, foi por causa deste filme. É para Paris, o que "On The Town" foi para Nova Iorque. Se Donen é um autor (a ver vamos), a sua marca só pode ser esta: A exploração do Trio em Cinema, as relações, os laços dentro de um grupo de três pessoas:


Gene Kelly, Frank Sinatra e Jules Munshin


Betty Garret, Ann Miller e Vera Ellen


Donald O`Connor, Debbie Reynolds e Gene Kelly

Kay Thompson, Fred Astaire e Audrey Hepburn

Fim da 3ª Parte

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Uma Viagem Pelo Musical - 2

Vincente Minnelli



Quando a MGM deu a Arthur Freed uma unidade independente em 1939 (a Arthur Freed Unit) depois do óptimo trabalho que este fez em "The Wizard of Oz" (como produtor associado), o Musical chegou aquele que pode ser considerado o seu apogeu. Os "anos Freed" vão de "Babes in Arms" (de Busby Berkeley - o coreógrafo tornou-se realizador) de 1940 a "The Subterraneans" (Ranald Mcdougall) de 1960. Foram feitos musicais dignos de nota fora da "Freed Unit" ("Carmen Jones" e "Centennial Summer" de Otto Preminger sob a chancela da Fox, "Anchors Aweigh" de George Sidney - nas fotos em baixo - e mais dois que abordarei nos posts seguintes) mas é nesta companhia que se reunem os talentos mais geniais do género: Vincente Minnelli (cuja obra abordarei neste post) e Stanley Donen. Bem como Fred Astaire, Cyd Charise, Judy Garland, Judy Holliday, Gene Kelly e Frank Sinatra.





Vincente Minnelli nasceu em 1903. Trabalhou no teatro, na Broadway até a MGM o contratar para realizar "Cabin in the Sky" em 1943. Seguiram-se maravilhas como "Meet Me in St. Louis" ou "The Pirate" nos anos 40 e óptimos filmes como "An American In Paris" e "Gigi" (ambos ganharam o Óscar de Melhor Filme em 1951 e 1958, respectivamente) nos anos 50.
De Vincente Minnelli muito se disse: falou-se da sua obsessão pelo enquadramento e pela iluminação, da psicanálise (os personagens nos seus filmes estão à beira de neuroses - memórias reprimidas, sociedade e famílias castradoras) e claro dos seus movimentos de câmara. O ponto da psicanálise é aliás bastante interessante porque nos remete obviamente para os seus melodramas (sendo "Some Came Running" e os seus personagens disso o exemplo máximo, ou o Van Gogh de "Lust for Life"), se bem que faça também sentido para os seus Musicais: os personagens nestes últimos conseguem salvar-se por assim dizer, da neurose. "The Band Wagon" e "The Bad and the Beautiful" ilustram isso mesmo, ambos sobre o Cinema - sobre a encenação - os resultados são muito diferentes, são aliás contrários no que ao percurso das personagens e aos seus sentimentos dizem respeito. Tony Hunter (Fred Astaire) em "The Band wagon" tem todos os motivos para se sentir infeliz (vedeta esquecida de Hollywood, sem emprego), mas nunca se vai abaixo, porque é o personagem de um Musical. O oposto acontece com Jonathan Shields (Kirk Douglas) em "The Bad and the Beautiful" - ele tem todos os motivos para se ir abaixo no filme (realizador sem sucesso, vai à falência) e vai-se porque é personagem de um Melodrama. Os filmes são duas faces da mesma moeda, uma é um hino ao espectáculo que se vive em Hollywood, e o outro uma denúncia às hipocrisias e enganos que a esse espectáculo estão associados.







Brigadoon, Brigadoon
Blooming under sable skies
Brigadoon, Brigadoon
There my heart forever lies

Assim começa "Brigadoon", o meu Musical preferido de Minnelli (juntamente com "Bells Are Ringing", do qual falarei mais à frente). Tommy Albright (Gene Kelly) encontra o seu amor (Cyd Charise) em Brigadoon, uma terra encantada, de sonho que o obriga a "lutar" com a Realidade e com a vida citadina (nunca a cidade pareceu tão horrível num filme, como as suas pessoas e rotinas).
É o sublime de Brigadoon, as montanhas, as brumas, as pessoas que Encantam Tommy Albright e o próprio espectador, e os levam numa viagem sem retorno porque de Brigadoon ninguém quer sair, e quem sai quer voltar de seguida.
"Brigadoon" leva a dualidade Fantasia/Realidade tão longe que se chega a esquecer da narrativa, apostando mais nas cores da Escócia, nos números musicais e nos seus planos (que neste filme não são menos que mágicos - todo e cada um deles), transformando-o num filme verdadeiramente experimental para os parâmetros dos estúdios de Hollywood, e um outsider - foi um flop na estreia.

BRILHANTE!

"Bells Are Ringing" de 1960 esteve longe de ser um sucesso. É contudo, um filme genial - do carisma da sua actriz principal, passando pela mise en scène de Minnelli, a todo o sentimento de "simpatia e bondade com o próximo" que atravessa o filme.
Ella Peterson (Judy Holliday) trabalha na "Susanswerphone", uma central de atendimento e apaixona-se por uma voz cantando a esse respeito:

I`m in love with a man
Plaza-O-Double-O-Double-Three
What a perfect relationship
I can`t see him, he can`t see me

Último papel de Judy Holliday (papel que vale por uma vida) - todo o filme é construído à volta da sua personagem e da relação com o escritor Jeffrey Moss (Dean Martin).
Ella Peterson é um ser humano notável, daqueles personagens cuja empatia é (ou pelo menos devia ser) imediata.E "Bells are Ringing" é um filme que estimula as pessoas a tornarem-se melhores, ou a quererem ser melhores no mínimo.
Por todas as suas homenagens (à Nouvelle Vague, que começava agora a ganhar notoriedade, a Marlon Brando e ao Actors studio) por todo o seu apelo à "joie de vivre", pelo seu scope e claro (SEMPRE em Minnelli) os seus enquadramentos e "Just In Time":

Just in time
I found you just in time
Before you came my time
Was running low
I was lost
The losing dice were tossed
My bridges all were crossed
Nowhere to go

Now you`re here
And now I know just where I`m going
No more doubt or fear
Cause I found my way
For love came just in time
You found me just in time
And saved my lonely life
That lovely day


Fim da 2ª Parte