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Em 2014, há-de se beber um saké em homenagem a Ozu, que este ano não se conseguiu. Com moelas, se possível.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
* Killer Joe está no 2º pote das estreias mais esperadas de 2012, neste espaço. No primeiro: Low Life (Gray), The Master (Anderson), O Gebo e a Sombra (Oliveira), Holly Motors (Carax), Like Someone in Love (Kiarostami) e Vous n'avez encore rien vu (Resnais). Também no segundo: O Cavalo de Turim (Tarr), Outrage (Kitano), Expendables 2 (West) e To Rome With Love (Allen). No terceiro: Piranha 3DD. Pretende-se, além de esperar tudo isto, ignorar com muito afinco os novos filmes de Michael Haneke, Christopher Nolan e Walter Salles. Talvez se vá ver o Cosmopolis esta semana. E cruza-se os dedos para que isto seja verdade.
De vez em quando, convido bloggers a escolher um plano e a falar, também, sobre ele. O vigésimo convidado é o Diogo F, do A Gente Não Vê, que escolheu o 2º plano de Punch-Drunk Love, de Paul Thomas Anderson:
"Permitam-me, antes de ir buscar o plano, uma pequena introdução ou contextualização.Punch-Drunk Love, para mim um dos "maiores filmes mais subvalorizados", é mais uma obra-prima de Paul Thomas Anderson, que alega que "came right off my stomach". É de uma genuinidade, uma crueza e uma sinceridade que se sentem com a ligeira vibração e a intensa iminência de uma afiada lâmina, trémula, a uma gotícula da nossa veia. Imagino que a ingestão de um refresco no imediato final do filme cause uma sensação bastante similar à mesma acção quando precedida por uma forte, inesperada e fresca dose de mentol. Porque esta história, estes actores (Adam Sandler e Emily Watson) e esta estética são isso mesmo: rompantes, incrivelmente originais, brisas geladas. Anderson alia o seu dotado perfeccionismo kubrickiano à irreverência formal francesa dos anos 60, julgo eu que com particular enfoque em Shoot the Piano Player, de Truffaut, e conta a sua versão da história de amor trágico-cómica, por um lado ainda mais aguçada nas suas próprias preocupações humanas (a solidão e a redenção, nomeadamente), por outro, com um finíssimo balanço entre o realismo e o bizarro.
Estive indeciso entre escolher o primeiro ou o segundo plano e acabei por optar por este último, que introduz precisamente o tal balanço de que falo. O silêncio geral, apenas polvilhado pelo trânsito distante, e a luz fria e tosca, a princípio acinzentada, dão-nos a madrugada fria e sonolenta. Dentro de si, a personagem, num caminhar pesado e lento, aborrecido e solitário como desde logo o senti (claro que já condicionado pelo plano anterior). Mas é precisamente quando a câmara roda sobre ele, contra a sua pose, que simbolicamente nos envolvemos numa mística do eventual objecto da sua curiosidade, que mais se intensifica quando, além, só há o nada e um céu de um cor-de-rosa apocalipticamente sentimental. Chega, aliás, a vislumbrar-se o contraste entre o vermelho e o azul que vai pautar toda película, incluindo em deliciosos efeitos de lens flare. E avançamos em steadycam, um dos recursos mais utilizados pelo realizador, com a atmosfera já misteriosa, calada, com o avançar oscilado. E tudo isto nos cria rugas entre os olhos; tudo isto é estranho. Dois intrometidos pares de luzes, que ameaçam dar início à rotina de uma estrada usual. Mas eis que, como acordar com o som do tiro com que o desastrado invasor não nos soube atingir, um perturbante e surpreendente estrondo, um espalhafatoso capotar de um carro, a cidade que acordou de rompante; ou Barry; ou o filme; ou nós. Bizarro, dream-like reality. Magnífica a forma como, em tão pouco tempo, sem uma linha de diálogo, Paul Thomas Anderson cria uma atmosfera e um tom que não só vão com sucesso enformar todo o filme como se tornarão a sua mais forte imagem de marca, num dos maiores filmes da década de 2000 e, igualmente, um dos mais injustamente esquecidos (se lhe valeu a melhor realização em Cannes, foi completamente ignorado pela Academia, por exemplo)". (Diogo F.)
Uma ou duas vezes por semana, convido bloggers a escolher um plano e a falar também sobre ele. O terceiro convidado é o João Gonçalves, do Modern Times, que escolheu o primeiro plano de Boogie Nights (1997), de Paul Thomas Anderson.
"É verdade que fui pelo mais acessível e pelo mais fácil de nos impressionar. O plano sequência é aquele que mais fascina a maioria. Poderia escolher um plano do Monument Valley filmado pelo John Ford, ou simplesmente, um plano de um personagem de um filme do Ozu. Pensei nos belos planos que Tarkovsky criou em Offret, A Infância de Ivan ou em Stalker, por exemplo.
Mas como todos os dias são diferentes, hoje fiquei-me por um dos mais influentes cineastas americanos da actualidade, Paul Thomas Anderson. Influenciado por Scorsese neste plano, mais concretamente por Goodfellas. Do exterior para o interior, somos convidados a conhecer o espaço, o ambiente, e os personagens que vamos acompanhar ao longo do filme. No plano, a recriação dos anos 70, o bar, as roupas, a música. Boogie Nights é um dos melhores filmes dos ano 90, sem dúvida alguma". (João Gonçalves)
Luís Mendonça, autor do blogue CINEdrio publicou uma série de posts de indignação em relação à política de programação de Cinema (mas não só) da actual direcção da RTP2. Foi dele que nasceu a ideia de uma petição à qual se juntaram, depois, Miguel Domingues(I, II), Carlos Natálio(I), João Paulo Costa e Ricardo Lisboa (I, II). Há, ainda, um debate aqui.
A programação de um canal de televisão que se pensa alternativo (ou de alternativa), dedicado à Arte e à Cultura, não pode ser a que tem praticado. Passam filmes uma vez por semana, normalmente; quando o "5 para a Meia Noite" está de férias lá programam eles uns filmes e é "lá programam" porque não há critério: repetem-se vários filmes no espaço de um ano (Woodstock, Rio Bravo, Magnolia - para citar só alguns), as sessões duplas pensam-se das mais preguiçosas e desleixadas das maneiras, seja por actor, realizador, nacionalidade - às vezes nem relação há, entre filmes - sem respeito a formatos (filmes em CinemaScope exibidos em 4:3), nem sei se o "Zabriskie Point", este Sábado, passou em panorâmico ou não... (já agora, houve reacções bastante favoráveis, na blogoesfera, à Sessão Dupla desta semana: I, II, III)
Já me juntei à petição, por achar que muito mais podia ser feito naquele canal que, ainda assim e convenhamos, é o melhor que temos. Nunca vi filmes da enigmática "5 Noites, 5 Filmes" nem as apresentações de Bénard da Costa e, hélas, nunca a RTP2 me fez descobrir um filme, um realizador ou incentivou a criatividade, a sede de cultura, enfim..
Propostas tenho poucas (o Ricardo Lisboa, no primeiro post que dedicou à petição, tem bastantes), mas o caminho poderá ser uma maior comunicação com o próprio meio cinematográfico, em Portugal; um crítico residente a apresentar as sessões, convidados também. Se se faz um ciclo sobre o Cinema Novo, porque não convidar realizadores e técnicos para o apresentar, porque não fazer um documentário? Se se programa um filme (seja ele qual for), porque não contextualizá-lo, porque não torná-lo acessível a mais pessoas que, porventura, o adorariam ver e descobrir? Porque não restaurar e programar "filmes silenciados" por distribuidoras, como o "Xavier" ou o "Jaime"e lembrar Manuel Mozos e António Reis, autores desses filmes? Porque não a associação a escolas, a Festivais e a Cineclubes? Talvez não haja meios, não sei, mas para melhor que o que se tem visto, há de certeza... Digamos e façamos qualquer coisa antes que os anos passem a voar e a situação piore, não nos contentemos com uma programação que, apesar de "de qualidade" é dispersa e insuficiente, repetitiva e infundada.. Para se juntarem à Petição basta enviar um mail para peticaortp2@hotmail.com com, pelo menos, as seguintes informações: nome, idade, mail e residência. Senão, Goodbye Sober Day, the years grew wings and flew away... Não deixemos fugir esta oportunidade! Vamos a eles!
O filme de Edward Yang é um monumento, um épico intimista (como "Magnolia") e, sobretudo, universal. Diz tanto a pessoas do Taiwan (ou "Formosa" - já foi colónia portuguesa) como a pessoas do Japão, da China, da Europa e da América....
Envolvente, sereno e meticuloso - faz lembrar o cinema de Ozu - é de uma perfeição tremenda (planos, enquadramentos...).
São 5 pessoas a aprender sobre a vida, sobre o Amor, sobre a morte, e, no fim, são tantas mais: somos todos nós, os novos e os velhos, os homens e as mulheres, e (claro e sempre) sem olhar a credos e raças: o Mundo inteiro está aqui, já todos passámos por isto, de uma maneira ou de outra. Foi o filme-sensação do Festival de Cannes em 2000 (não sei porque é que o trier ganhou a Palma de Ouro) e o melhor filme de 99 (já estava pronto nesse ano), junto a "Magnolia" e o "Vento Levar-nos á" do Kiarostami.
Ano de dois prodigiosos argumentos, pelos vistos: "Crash" e "Sideways": e se há coisas que eu goste menos que maus filmes, são filmes pretensiosos, coisas pequenas que se acham capazes de altos voos, filmes ultra-condescendentes... Argumentistas/realizadores, pois... (onde andam os herdeiros de Wilder e de Fuller na América? só há Paul Thomas Anderson?). Têm bons actores? Claro que sim, mas isso não chega, nunca chegou.
Nesse ano saiu "Spider Man 2" de Sam Raimi. É mau, mas gostei mais...
O Scorsese, o Lee (Spike) e o Mann resolveram fazer os seus piores filmes nesse ano: "Collateral", "The Aviator" e "She Hate Me" (não os acho maus, atenção!), o Depp e o Foxx fizeram grandes papéis em péssimos filmes ("Neverland" e "Ray"), o Pitt lutou contra os troianos e o Damon contra todos em Supremacia, o Nichols e o Jeunet brindaram-nos com mais dos seus filmes de autor (o Ed Wood é mais autor que eles juntos), e claro!, veio o filme do "twist" por excelência: "Saw".
Mas, acima de tudo, 2004 é o ano de uma obra nuclear do Cinema Português, "O Quinto Império". O subtítulo é "Ontem Como Hoje" e é o filme onde Paredes, Camões, Pessoa, Régio e Oliveira se encontram, onde o povo português se encontra a si mesmo, através da figura de D. Sebastião... Oliveira, no Presente ("Ontem como HOJE"), pensa, analisa o Passado, com olhos postos no Futuro... Teatro filmado ou Cinema encenado... A confirmação de Oliveira como um verdadeiro cineasta da Palavra (Rivette, Dreyer).
É o melhor filme de 2004, e um dos melhores do seu autor...