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domingo, 4 de abril de 2021

His name was Raoul (III)



O HOMEM E A OBRA

Diálogo com Raoul Walsh, por Louis Skorecki
- Entrevista com Raoul Walsh, por Oliver Eyquem, Michael Henry e Jacques Saada
- Notas sobre dois filmes de Raoul Walsh, por Jacques Lourcelles
Ó Caminho de Vida Nunca Certo, por Jorge Silva Melo
Raoul Walsh, por Edmond T. Gréville
WALSH, Raoul (1887-1980), por Jean-Pierre Coursodon e Bertrand Tavernier
Um olhar sobre Raoul Walsh, por Jean-Claude Biette
Raoul Walsh, por Jean Douchet
Raoul Walsh. O Oeste Torrencial, por Miguel Marías
Raoul Walsh: A Fase James Dean, por João Bénard da Costa
- A Grande Aventura de Raoul Walsh, por Peter von Bagh
Todas as Bobines de Raoul Walsh, por Philippe Garnier
- Raoul Walsh (1887-1980), por Jean-Pierre Coursodon
Raoul Walsh: O precipício da vida, por Jorge Silva Melo
- Raoul Walsh, por Edgardo Cozarinsky

OS FILMES

- Viva Villa!, por Raoul Walsh
- The Thief of Bagdad (1924), por Jacques Lourcelles
- What Price Glory? (1926), por Jacques Lourcelles
- What Price Glory? (1926), por Kevin Brownlow
- The Big Trail (1930), por Jacques Lourcelles
- High Sierra (1941), por Jacques Lourcelles
- They Died With Their Boots On (1941), por Jacques Lourcelles
- Desperate Journey (1942), por Jacques Lourcelles
- Gentleman Jim (1942), por Miguel Marías
- Gentleman Jim (1942), por Jacques Lourcelles
- Uncertain Glory (1944), por Jacques Lourcelles
- Objective, Burma! (1945), por Jacques Lourcelles
- Pursued (1947), por Jacques Lourcelles
- Silver River (1948), por Jacques Lourcelles
- Colorado Territory (1949), por Jacques Lourcelles
- White Heat (1949), por Jacques Lourcelles
- Captain Horatio Hornblower (1951), por Jacques Lourcelles
- Along the Great Divide (1951), por Miguel Marías
- Distant Drums (1951), por Jacques Lourcelles
- The World in His Arms (1952), por Jacques Lourcelles
- Blackbeard, the Pirate (1952), por Jacques Lourcelles
- Sea Devils (1953), por Jacques Lourcelles
- The Revolt of Mamie Stover (1956), por Jacques Lourcelles
- The King and Four Queens (1956), por Jacques Lourcelles
- Band of Angels (1957), por Jacques Lourcelles
- The Naked and the Dead (1958), por Jacques Lourcelles
- Esther and the King (1960), por Jean Douchet
- A Distant Trumpet (1964), por Miguel Marías

OS ACTORES

Carta a Gloria Swanson, por Raoul Walsh
- Errol Flynn: Galanteria a Toda a Sela, por João Bénard da Costa

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

ESTHER AND THE KING (1960)


por Jean Douchet

A distribuição constante de Ester e o Rei volta a pôr em destaque um dos maiores realizadores de Hollywood, e certamente o menos conhecido. Efectivamente, Raoul Walsh foi considerado muito tempo um desses admiráveis fazedores de filmes de que Hollywood parece ter a exclusividade. Os seus filmes, todos filmes de aventuras, narram acções apaixonantes, e os críticos só viam neles o protótipo de obras bem feitas e perfeitamente distractivas.

Ora de uma dezena de anos a esta parte, graças à visualização dos seus novos filmes e à reposição dos antigos, os jovens cinéfilos e os críticos competentes voltaram a pô-lo no seu lugar verdadeiro: como um dos maiores.

Raoul Walsh revela ser de facto o cineasta da aventura mas no seu sentido mais profundo, pela graça de uma mise en scène cada vez mais refinada. É por isso que em Ester e o Rei lhe interessa visivelmente, não a magnificência do espectacular que a grande mise en scène bíblica permite, mas antes a aventura dos homens e das mulheres naquilo que têm de maior em si mesmos quando a sua paixão se confronta. Ester e o Rei é a tragédia intimista de duas almas nobres separadas por tudo e que no entanto vão vencer as resistências para fazer triunfar o seu amor.

Raoul Walsh é realmente um dos nossos grandes poetas do cinema. Ninguém soube pintar o mar melhor que ele. É incontestavelmente o poeta do oceano e «o grande sonhador da água», como diria Bachelard. Em cada uma das suas obras, o mar prolonga os estados de alma das personagens. Walsh é também um cineasta da eficácia e da simplicidade. «Não há trinta e seis formas de filmar alguém a abrir uma porta», diz ele, «há só uma.» O milagre requer que a câmara esteja sempre no sítio onde tem de estar, mas esse sítio nunca é o mesmo nos diferentes filmes. Porque o segredo que Raoul Walsh possui ao mais alto grau é o de saber que realmente há apenas uma forma de rodar um plano, mas que esta depende da ideia original que preside à mise en scène e portanto à própria concepção do tema.

in «Arts» nº 825, 7 a 13 de Junho de 1961.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

WALSH Raoul



por Jean Douchet

Nascido a 11 de Março de 1887* em Nova Iorque. Estudos na escola pública de Nova Iorque e na Universidade de Seton Hall. Visita a Europa durante 2 anos. Regressa aos Estados Unidos para acompanhar os cursos de arte dramática do seu amigo Paul Armstrong. O seu primeiro papel nos palcos data de 1910. Escreve peças de teatro e estreia-se no ecrã em 1912, no Old Biograph Studio. É assistente de Griffith, que o envia para o México (1912) para fazer um filme sobre Pancho Villa. Em 1915, Griffith confia-lhe o papel de John Wilkes Booth em O Nascimento de uma Nação. Walsh é frequentemente argumentista (e em todo o caso responsável pelo argumento) dos seus filmes. Até 1929, reservava um papel para si próprio em alguns dos seus filmes, mas um acidente de automóvel vai privá-lo do olho direito, e Warner Baxter tem de o substituir no papel de Cisco Kid para In Old Arizona. Raoul Walsh pinta e compõe. Produtor de alguns dos seus filmes, fundou The Raoul Walsh Enterprises, que produziu Come September em 1960.

*1892, no original.

PRINCIPAIS FILMES:

1912: Life of Villa. – 1915: Carmen. – 1916: Blue Blood and Red. – 1917: Betrayed, The Conqueror. – 1918: On the Jump. – 1919: Evangeline. – 1920: The Deep Purple. – 1921: Serenade. – 1922: Kindred of the Dust. – 1923: Lost and Found On a South Sea Island. – 1924: The Thief of Bagdad ("O Ladrão de Bagdad"). – 1925: East of Suez. – 1926: The Wanderer ("Babilónia"), The Lady of the Harem ("A Virgem do Harém"), What Price Glory ("O Preço da Glória") – 1927: The Loves of Carmen ("Amores Bravios"). – 1928: Sadie Thompson ("A Sedução do Pecado"), The Red Dance ("A Dança Vermelha"). – 1929: In Old Arizona, The Cock-Eyed World ("O Mundo às Avessas"). – 1930: The Big Trail ("A Pista dos Gigantes"). – 1931: The Man Who Came Back ("Do Inferno ao Céu"), Women of All Nations ("Mulheres de todas as Nações"), Yellow Ticket ("O Passaporte Maldito"). – 1932: Wild Girl, Me and My Gal. – 1933: Sailor's Luck ("Viva a Marinha!"), The Bowery ("O Terror dos Cabarets"), Going Hollywood ("Vamos para Hollywood"). – 1935: Under Pressure, Baby Face Harrington, Every Night at Eight. – 1936: Klondike Annie, Big Brown Eyes ("Aqueles Olhos Negros"), Spendthrift. – 1937: O.H.M.S. ("Glória que Redime"), Jump for Flory ("O Grande Salto"), Artists and Models ("Artistas e Modelos"), Hitting a New High ("O Rouxinol da Selva"). – 1938: College Swing. – 1939: St. Louis Blues, The Roaring Twenties ("Heróis Esquecidos"). – 1940: Dark Command ("Comando Negro"), They Drive by Night ("Vidas Nocturnas"). – 1941: High Sierra ("O Último Refúgio"), The Strawberry Blonde ("Uma Loira com Açúcar"), Manpower ("Discórdia"), They Died With Their Boots On ("Todos Morreram Calçados"). – 1942: Desperate Journey ("Jornada Trágica"), Gentleman Jim ("O Ídolo do Público"). – 1943: Background to Danger ("O Expresso Bagdad-Istambul"), Northern Pursuit ("Perseguidos"). – 1944: Uncertain Glory ("Três Dias de Vida"). – 1945: Objective, Burma! ("Objectivo Burma"), Salty O'Rourke ("Quase uma Traição"), The Horn Blows at Midnight. – 1946: The Man I Love. – 1947: Pursued ("Núpcias Trágicas"), Cheyenne ("Feras Sangrentas"). 1948: Silver River ("Rio da Prata"), Fighter Squadron ("Todos Foram Valentes"), One Sunday Afternoon ("Recordações de Ontem"). – 1949: Colorado Territory ("Golpe de Misericórdia"), White Heat ("Fúria Sanguinária"). – 1951: Along the Great Divide ("A Caminho da Forca"), Captain Horatio Hornblower R.N. ("Epopeia nos Mares"), Distant Drums ("As Aventuras do Capitão Wyatt"). – 1952: Glory Alley, The World in His Arms ("O Mundo nos Seus Braços"), Blackbeard, the Pirate ("Barba Negra, o Pirata"). – 1953: The Lawless Breed ("Sob o Signo do Mal"), Sea Devils ("Gigantes em Fúria"), A Lion Is in the Streets ("A Fera"), Gun Fury ("A Fúria das Armas"). – 1954: Saskatchewan ("A Grande Ofensiva"). – 1955: Battle Cry ("Antes do Furacão"), The Tall Men ("Duelo de Ambições"). – 1956: The Revolt of Mamie Stover ("Mulher Rebelde"), The King and Four Queens ("Um Rei e Quatro Rainhas"). – 1957: Band of Angels ("A Escrava"). – 1958: The Naked and the Dead ("Os Nus e os Mortos"). – 1959: The Sheriff of Fractured Jaw ("O Sheriff e a Loira"), A Private's Affair ("Casamento por Engano"). – 1960: Esther and the King ("Ester e o Rei"). – 1961: Marines Let's Go – 1963: A Distant Trumpet ("A Carga da Brigada Azul").

Uma força da natureza põe em cena as forças da natureza e, de repente, o mundo vive, turbilhão e paixões. Está na altura de considerar Walsh como um pouco mais do que um brigão viril, um indecente que adora a diversão, um básico com sentimentos grosseiros. Este shakespeariano apaixonado é um realizador intensamente fisico porque descreve acima de tudo o tumultuoso mundo mental. As personagens são projectadas no universo da sua «energia», e entregues a um espaço que existe apenas para servir a sua raiva, o seu furor, o seu ímpeto, os seus artifícios, a sua ambição e os seus sonhos desmedidos. Aqui, tudo é confronto e combate singular. Tudo se tinge, se muda e se move de acordo com o movimento de almas habitadas pela grandeza. A meditação é portanto a companheira necessária para uma acção decisiva e racional, e implica rigor, despojamento e austeridade na arte da narrativa: a dos grandes mestres. Walsh, o mestre da aventura, certamente, mas da aventura verdadeira: o fantástico interior.

Extrato de «Directed By», 60 + 60 (+1) Cineastas
(Cahiers du cinéma nº 150/51, Dezembro de 1963/Janeiro de 1964, especial Cinema Americano)

sexta-feira, 7 de junho de 2013

UGETSU MONOGATARI (1953)


por João Bénard da Costa

Este celebérrimo filme pode ser ou não ser o melhor de Mizoguchi (questão sempre subjectiva e que ainda o é mais no caso dele, em que as sentenças variam conforme as cabeças) mas é certamente o mais conhecido e o mais famoso.

Muito mais do que em A Vida de O'Haru se fundou nele a glória ocidental do cineasta, se não imediatamente após as exibições de Veneza, onde, como O'Haru, ganhou o Leão de Prata, em 1958, quando se estreou nas capitais ocidentais. Logo nesse ano, os Cahiers du Cinéma o incluíram na polémica lista dos "12 melhores filmes de todos os tempos" e, em 1959, a crítica francesa (e não só os Cahiers) ajoelhou em êxtase. Até a Portugal, foi o primeiro filme de Mizoguchi a chegar (em 1967, catorze anos depois da estreia mundial) e, nesse mesmo ano, dezoito de vinte críticos, de tendências e gostos muito diversos, deram-lhe, na revista O Tempo e o Modo, o primeiro lugar entre os filmes estreados nesse ano. E, se só dois outros filmes de Mizoguchi tiveram aqui estreia comercial (O Herói Sacrílego, nos anos 70 e A Rua da Vergonha já nos anos 90), Os Contos da Lua Vaga foram repostos em 1995.

Em grande parte, esta ímpar reputação de Os Contos, que não pretendo, nem ao de leve, beliscar, provém da sua estatura, única na obra de Mizoguchi. Com efeito, se no posterior A Imperatriz Yang-Kwei-Fei há uma sequência, sequência final, passada no outro mundo, e em que o imperador e a imperatriz riem em assentos etéreos, este filme vai muito mais longe na dimensão sobrenatural ou surreal, dedicando uma longa parte dele a um fantasma e a uma relação fantomática entre um homem bem vivo e uma mulher há muito morta. O aviso inicial do filme (que não se deve a Mizoguchi) prepara-nos logo para os reinos da ilusão e do fantástico, reinos que se fazem esperar, mas de que advém a fama mítica de Os Contos da Lua Vaga, que os franceses chamaram Contos da Lua Vaga Depois da Chuva, neste caso com alguma razão e sem excessos poéticos? Já lá irei (até porque nunca se vê a lua no filme, nem nunca chove no filme), mas antes detenho-me nessa longa secção, de uma beleza inultrapassável.

Até à primeira aparição de Wakasa, o fantasma, também primeira aparição da fabulosa Machiko Kyo na obra de Mizoguchi, o filme, ambientado no Século XVI, segue o escrupuloso e lendário "realismo histórico" de Mizoguchi, com uma evocação tão fiel quanto a seguida em A Vida de O'Haru.

Não se pode dizer que tudo muda com essa aparição. No mercado, onde o sonhador Genjuro vende as suas belas cerâmicas, a aparição de Wakasa é uma nota insólita, mas ainda não sobrenatural. Num mercado de gente sem algo, ela destoa, sobretudo, pelo seu porte aristocrático e pela sua paramentação como grande senhora, acompanhada por uma velha criada. Traz a cara tapada por um véu, e sobre a cabeça um enorme chapéu branco. Move-se lentissimamente. Não é ela quem aborda Genjuro (nunca fala nessa sequência) mas a criada. Só pressentimos que há "algo", quando, num dos raros grandes planos totalmente subjectivos da obra do cineasta, lhe vemos a cara, muito branca e muito bela, do ponto de vista do extasiado Genjuro. Aquela mulher é de uma beleza irreal, mas (pode-se admitir) é só essa beleza que provoca o êxtase do oleiro. E, como aparece, desaparece. Muitas coisas se vão passar até à segunda aparição. Genjuro, radiante com os lucros que obteve, comprou um quimono para a mulher. Quando volta à feira, tem a primeira "visão", que nada tem que ver com o fantasma. Quem ele vê é a mulher, há muito tempo abandonada na margem do rio e que muito longe estava, oniricamente vestida com o quimono que, ele também, se volve em presença onírica. Tão deslumbrado com a visão, de nada mais se dá conta. E somos nós, antes dele que está de costas, quem, quando a visão desaparece, vemos, na profundidade de campo, do lado oposto, surgir Wakasa com a criada. Depois, um grande plano dela. E só depois Genjuro a vê, projectada em sombra.

Sabe então que ela é filha de Katsuri e que ela quer comprar todas as suas peças de ceramista, primeiro ser a reconhecer nos seus vasos e potes o valor artístico que Genjuro sempre acreditou que eles tinham. E convida o oleiro para a sua mansão.

Akimori Ueda (1734-1809), o autor dos Contos em que Mizoguchi se inspirou (publicados em 1776), descreve esse percurso como segue: "Percorreram ao redor de cem metros, posto que se embrunharam em atalho estreitíssimo, caminhando pelo tempo de um quarto. Transpuseram uma mísera ponte de bambu. A lua brilhava, depois de ser dia sétimo, e à luz dela se alumbrava um jardinzinho em grande abandono. Através do papel das janelas, enxergava-se uma luz ténue. De todo este sítio se exalava uma indizível tristeza".

Seja como for, é um dos mais belos e misteriosos momentos do filme, quando os três atravessam um campo deserto, em que as ervas muito altas só deixam entrever uma espécie de écran, como se fisicamente entrássemos num filme dentro do filme. E logo deixam de se ver as três personagens para vermos apenas as sombras delas. Depois, há uma porta semi-caída que se abre e se fecha com o vento. Um jardim abandonado. Janelas e portas partidas. Até que, subitamente, tudo se transforma num palácio digno de tal senhora. Na profundidade de campo, nos corredores, criadas silenciosas acendem candelabros. Uma árvore sombria, muda-se numa cerejeira em flor. Não há luar, antes a luz vem de dentro e é ainda a luz que dá a Wakasa presença mais carnal. Vemos biombos com cisnes, que se iluminam também. Tudo tão gradual, tão vagaroso, tão belo, que, quem vir o filme pela primeira vez e nada souber da história, cai na ilusão como Genjuro caiu. Na casa, azuis como cristais, todas as louças são dele. A criada preside ao ritual do saké, com Wakasa e Genjuro um em cada lado. Pouco depois, o abraço e caiem os dois. As criadas levam-no para o banho e só fica a vela. E, a seguir, o canto e a dança de Wakasa, tudo absolutamente genial. "A melhor das sedas, a seda das mais puras cores, pode mudar-se e desvanecer-se. Como se desvaneceria a vida minha, oh meu amado, se me deixasses".

Então a criada conta a história do pai de Wakasa e ouve-se a voz dele com as ameaças a quem enganar a filha. E a infinita beleza continua, como a infinita magia, no plano em que ele dorme e ela se penteia ao espelho, no banho na piscina natural, com os fumos, quando Wakasa se despe e a ele se une, ou, finalmente, no grande terreiro junto ao lago, quando Genjuro diz que não sonhava que tanto prazer existisse. Ela deita-se em cima dele e a imagem funde com a guerra e os gritos e a sequência da morte de Miyagi.

Quando voltamos a Genjuro, os sinais do encanto começam-se a dissipar. Primeiro, o homem que não lhe aceita o dinheiro, quando ele diz de que casa vem. Depois, o encontro com o monge que vê a sombra da morte na cara dele e explicita finalmente a natureza fantomática de Wakasa. Contra o encanto, a tatuagem. Num livro de António Santos (espanhol, não português) encontrei a tradução desses sinais. Dizem: "A forma é o vazio e o vazio a forma. O vazio não difere da forma. O que é forma é vazio. A percepção, os nomes, os conceitos e o conhecimento também são o vazio. Quando se aniquila o invólucro da consciência, quem pretende libertar-se liberta-se de todo o medo e de todas as mutações e goza o fim do Nirvana". São essas tatuagens que quebram o encanto, nos planos de sombras em que Genjuro sabe que Wakasa é uma morta, que ele dormiu com uma morta, uma morta que em vida nunca conheceu o amor. E, se no plano da chegada à casa, tudo se transformara em luz, quando Genjuro foge tudo se volve em sombras e o sono sucede-se ao sonho. Acorda com os homens que o tomam por ladrão. E quando invoca, para se defender, Wakasa e a casa dela, só vê a imensa ruína que a casa há séculos era. Mas o maior prodígio é que nós seguimos o enfeitiçamento dele, é que, nesses vinte minutos de filme, todo o real é irreal e todo o irreal é real. Wakasa é Circe e o "mágico veneno" que pôde transformar os pensamentos nossos e de Genjuro, a ponto da personagem dizer, como Ulisses, que de tudo se esqueceu.

Só que. Só que o "irreal" não termina quando a sombra de Wakasa retorna ao Hades, ou onde for que ela retorne. Ao regressar a casa, o encanto repete-se, desta vez com Miyagi. Nós sabemos, mas Genjuro não sabe, que a mulher morreu, precisamente entre o máximo de encantamento e o máximo de desencantamento. Ao chegar a casa, não encontra ninguém e a casa parece abandonada, tão abandonada como o estava a mansão de Wakasa quando ele lá chegou. Entra e não vê ninguém. Há uma série de sublimes panorâmicas e, subitamente, ele vê a mulher a dobar, como na imagem pávida que dela sempre fizera. Tudo se passa como num regresso e ele nem sequer omite que acordou de um sonho mau. Do corpo de Wakasa se esquece no corpo quente da mulher. E só quando acorda, no dia seguinte, é informado que Miyagi morrera há muito e que a visão que em casa teve foi idêntica à visão que teve com Wakasa. Daí que se possa perguntar, com alguma legitimidade, se Wakasa e Miyagi não são uma só, ou se não foi Miyagi, depois de morta, quem o conduziu (o quimono) ao reino dos mortos. Pelo menos para mim, a vertigem é mais absoluta nesse regresso (até porque não vimos Miyagi morrer) do que no "palácio das ilusões" de Wakasa. E tudo - relembro - começou com uma visão de Miyagi.

Mas será que começou aí? Ou começou antes, na inenarrável travessia do lago ("Quando atravessaram o lago, os fantasmas vieram ao encontro delas") entre os nevoeiros e o "barco-fantasma", sequência tão inadjectivável quanto?

Deixem-me fantasiar mais. Quem emerge dessa travessia? Outra mulher, normalmente secundarizada nas análises do filme, Ohama, a mulher de Tobei. É ela quem conduz a barca, é ela a única figura que plana acima das névoas. Será por acaso que, interrompendo as sequências em casa de Wakasa, é ela quem vem ao primeiro plano, no episódio da cobarde vitória de Tobei e do reencontro dela com ele, no bordel? "Por ti, suportei o insuportável", diz-lhe ela. E Tobei, o irmão de Genjuro, ou, como pretendem tantas análises, o Sancho Pança do D. Quixote que o irmão é, percebe tudo nessa sequência sublime, e aceita o esquecimento total ("como se nunca nada tivesse acontecido") para o regresso às origens e à feminilidade original. Por comparação com Genjuro e com Miyagi, Tobei e Ohama parecem o seu retrato caricatural. Mas não o são. E a sequência do bordel é tão avassaladora como a sequência de Wakasa e, em certo sentido, tão irreal como ela.

Os Contos da Lua Vaga são, no fundo, mais uma variação sobre o tema da viagem e de Odisseus. "Heureux qui, comme Ulysses, a fait un beau voyage". E vem viver com os seus o resto da sia idade. O final do filme, com os grande planos gerais, e os trabalhos no campo, é isso. Mas, só com a viagem, os dois irmãos puderam ir ao fundo e ao fim dos próprios fantasmas. Talvez, por isso, Mizoguchi, tenha fundido e confundido três contos de Ueda e tenha obrigado o pobre Yoda a juntar-lhes ainda Maupassant, na história do homem tão obcecado em ganhar a Legião de Honra que nem repara que, para a ganhar, perdera a mulher. E se Maupassant é a origem mais passível da história de Tobei, o único que perdeu mesmo as mulheres, nos braços de dois fantasmas, foi Genjuro, aquele que não perseguiu a vã glória de ser um samurai, mas a glória imortal de viver para sempre através das suas obras de arte, de alcançar a beleza voluptuosa da arte pela arte, como bem observou Jean Douchet.

Tobei e Ohama regressam como se não tivessem viajado. Genjuro só tem como futuro refazer a viagem, ou seja, reprocurar na sua arte as noites absolutas que viveu com duas mortas e em que, como Orfeu, se voltou para as contemplar e definitivamente as perdeu. Parece que "ugetsu", a expressão traduzida por "lua vaga", se refere ao luar de Agosto (no Japão, primeiro luar depois da época das chuvas), que já fora, em Mizoguchi, luar de Yuki e luar de Oyu. Se assim for, este é um filme sobre o luar do desejo, forma do vazio, forma do cheio. Mas será o Nirvana a praia de Wakasa ou a aldeia tumular em que, entre fumos e ventos, a voz "off" (tão "off") de Miyagi repete a Genjuro o socrático conselho que nos manda fugirmos da ilusão e conhecermo-nos a nós próprios?

Os monges, às vezes, enganam-nos muito.

in AS FOLHAS DA CINEMATECA - Kenji Mizoguchi